segunda-feira, 2 de julho de 2007

Apenas uma foto aleatória de crianças sorrindo. Eu gostaria de na infância ter sorrido como elas...

Uma coisa que eu posso afirmar foi a minha falta de infância. Por isso mesmo, por ter sido uma criança constantemente que levava todo o tipo de castigo exatamente por ser criança, que me esforço para fazer com que toda criança que eu conheça seja feliz. Eu brinco, me esbaldo, mesmo eu não tendo mais meu corpinho da adolescência, acabo perdendo os limites e já quase cheguei a literalmente cair de cansaço. Quero dar a todas as crianças a chance de serem crianças, que por causa da educação rígida de meu pai, que brigava e nos humilhava quando brincávamos ou tentávamos ser crianças, quero que todas elas tenham o que não tive.

Cada dia que passa eu infelizmente afirmo que não tive um pai. Tive um sustentador. Um homem que pagava minhas contas, videogames, salgadinhos, televisão... Não posso dizer que não aproveitei, mas isso me custou uma infância obesa, onde eu era constantemente inferiorizado pelos "amiguinhos" da escola por ser o "gordinho sabe-tudo"... Mesmo ele apenas sustentando por um lado, sequer participava da minha vida, exceto na escola, onde seu papel era de carrasco. Afinal, ele não entendia como uma crianças ás vezes tirava notas ruins nas escolas, ameaçava, gritava, humilhava, todos os tipos do que a constituição chama de "violência branca", que de branca apenas tingiu com um cinzel triste por toda minha infância.

Toda a cobrança, a ordem de CRESÇA, fazendo com que hoje eu com dezoito anos me sinta um velho com quase trinta. Afinal ele sempre aumentava minha idade. Com sete, me xingava dizendo "você já tem dez anos!". Com 12, ele dizia "você já tem quinze!", com quinze ele já dizia que eu era um adulto. E isso criou-me complexo de idade, com a qual eu não a reconheço, pois sempre fui obrigado a crescer, e não crescer naturalmente como todos meus amiguinhos.

Mais talvez o mais triste, sejam ainda reminiscência que perpetuam em minha mente...

Hoje estava vendo a mulher do sequestrador do ônibus da Dutra que o perdôou. Lembrei de minha infância, mais tenra de todas, a minha infeliz lembrança mais velha da minha vida que eu tenho memória. Infelizmente não é a sensação do leite morno de minha mãe, tampouco aquele banho morno na minha pequenina pseudo-banheira... É algo muito mais triste.

Um garoto ao fundo chorava. Estava trancado no quarto. Sua cabeça estava enfiada no travesseiro. Este, estava levemente gelado. Ao mover seu rosto, sentia que água estava impregnada nele. Não era uma goteira. As gotas eram lágrimas que caiam de seus olhos e pousavam calmamente no travesseiro.

Ao fundo, vários gritos. Ele não conseguia entender muitas coisas, era apenas uma mera criança. Conseguia ouvir a voz de seu pai sobrepujando a da mãe, que tentava conversar com ele. Parecia impossível, mas o pai sempre aumentava o tom da voz, mais e mais. A mãe parecia tentar retrucar, mas já era tarde.

Ela, criada numa época e numa filosofia de vida onde as mulheres eram inferiores e não tinham nenhum direito sobre "aquele que põe comida em sua boca", havia presenciado a pobreza de vários aspectos. Escolhera o marido exatamente por isso, homem trabalhador, que sustentasse e lhe garantisse uma vida melhor do que a que tivera com seus três pobres irmãos que vieram da Bahia. Ele, um homem criado numa clássica família italiana á moda antiga. Era o bonitinho da escola, onde as garotas viviam dando em cima dele sem o menor escrúpulo. Havia sofrido sem precendentes da mão de seu pai, um velho que acreditava na violência como forma de amadurecimento. Ele carregou essa filosofia como sua marca.

A discussão começou a piorar, até que um som de um baque violento cessou as palavras da mulher. O homem resmungava em volume alto algo, e a mulher se derramava em prantos no chão. O olhar do homem era de puro sadismo, o sadismo de um homem violento que havia encontrado sua presa. A dela, a de uma fraca mulher, que não sabia o que fazer a não ser abaixar a cabeça pro marido. Ele a espancou.

Momentos mais tarde, a mulher entrou no quarto da criança mancando. A criança tentava enxergar, mas tudo estava embaçado. Seus olhos estavam desfocados graças a uma corrente de lágrimas que se hospedara ali, e teimava não cair. A mãe, deitou-se na cama, chorando tristemente e passando a mão no rosto de criança. Não chore... Não precisa chorar. Mas a criança não sabia como aquilo apertava seu coraçãozinho...

Seu coraçãozinho frio estava nascendo alí.

Alguns minutos mais tarde o homem entrou no quarto. Parecia que havia tomado um banho, e talvez sentia-se com o dever cumprido, pois havia mostrado a mulher ser superior. A criança então conheceu o cheiro que ela saberia que carregaria a vida inteira. Um cheiro que exalava morte... Álcool. O homem estava certamente um tanto bêbado, e juntando com o estresse, havia cometido isso contra sua mulher.

Quem pudera que isso fosse apenas uma vez. Dias após dias o homem bêbado chegava, brigava, espancava e ia dormir. Parecia algum tipo de esporte. A criança não sabe ao certo quantas vezes foram, mas foram as necessárias para marcar-lhe na memória de tal ato de brutalidade e desonra à mulher.

Eu bem que gostaria de dizer que essa estória foi algo inventado agora, apenas para trazer audiência ao blog. Mas num mundo onde ainda mulheres sofrem nas mãos de maridos ou namorados, é triste pensar que ainda exista isso. Minha mãe sofreu de violência doméstica nas mãos de meu pai, onde eu era o expectador. Gostaria de dizer que isso era mentira, mas não consigo.

Até hoje, meu pai já deixou a violência de lado, e usa uma abordagem muito mais torturosa e "branca" de acordo com a lei. Ainda consigo sentir aquele cheiro de bebida impregnado nele. Somos todos vítimas infelizes disso, e eu sendo um filho deles tive que crescer com mais um dos muitos traumas que meu pai me deu.

Isso é pras pessoas que insistem em dizer que sou uma pessoa feliz. Não sou. Sou um palhaço, o que eu quero é fazer os outros rirem, onde até minha maquiagem não mente: sou no fundo, triste.

Tenham um bom dia.

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