sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Um grande estrondo vibrava em seus ouvidos. Aquele líquido vermelho voava em uma linha reta, enquanto o corpo caia no chão com um som abafado. Um pouco de terra havia voado, e o filete de sangue enfim atingia o chão, fazendo um desenho abstrato no solo, misturando-se com a terra surrada do nordeste.

Sentia-se como um verdadeiro mensageiro da morte. Sempre na hora de puxar o gatilho, via sua arma como uma chave, e a vida do indivíduo como uma eterna tranca. Tal tranca limitava sempre os seres, pois eram obrigados a viver, consumir, multiplicar-se e por fim morrer. Querendo ou não, Thanatos mandaria algum mensageiro para que sua morte ocorresse, portanto nada importava. Ou ele morreria ali naquele momento, ou morreria mais pra frente de velhice, provavelmente ao lado da mulher com cheiro de alho e suor do lado, um ou dois filhos ainda fazendo contato (entre eles um como se fosse um verdadeiro coelho encarnado, fazendo rebentos e mais rebentos na mulher, que cada vez mais tinha aqueles peitos caídos e aquela barriga flácida) e ele, o morto, sentindo-se horrível por ter visto o tempo passar, e os cabelos brancos acumulando-se - isso é, se ainda tinha cabelos.

A morte de um jovem. Morreria bonito, não como aqueles velhos enrrugados. Não assoprava a fumaça que saía do revolver, pois isso já não importava mais, já era corriqueiro. Ou talvez até importava. Pessoas têm o costume de acender velas aos mortos, embora poucos saibam disso, é a luz que guia os espíritos ao além, e ele sentia que era aquela fumaça e o último brilho do tiro que guiaria a alma do desencarnado para algum lugar, seja este bom ou ruim. Guarda o revolver e simplesmente vira as costas. Dá apenas dois passos seguindo para sua próxima vítima e sempre virava-se para trás, para ter certeza de que lá estava caído e morto.

Fitava com os olhos bem apertados e dava um singelo sorriso. Sentia-se que estava com o dever cumprido. A chave era o revolver. A vítima estava presa num cadeado, que era sua própria vida, aonde este era obrigado a viver, consumir, multiplicar e morrer como já dito. Não por acaso, isso era uma exigência de uma sociedade hipócrita que precisa não apenas de força humana sadia para desempenhar suas funções, mas por uma corrente ideológica que sempre acreditou que viver era o correto. O rapaz de olhos negros - o assassino - sentia-se bem em negar essa corrente dos tempos.

O dever de viver está escrito até em nossos genes. E ele sabia disso. Lembrava-se de quando via animais no abatedouro, e o quanto eles sofriam. Seus rugidos, logo depois silenciados pela perfuração do facão surtia quase sempre efeito imediato. Se não surtia, ouvia um rugido extremamente alto, que se propagava pelo ar e podia sentir a tristeza da morte vinda pelo pobre animal. Aquele último grito, como se fosse um último suspiro, fosse o mais alto que aquele animal teria dado em vida, e é exatamente quando está com as portas da morte que ele conseguia dar tal expressão. O rapaz achava isso um tanto irônico, e lembrara do que algum velho bêbado havia dito, que muitas pessoas somente encontram o que procuram a vida inteira na hora da morte.

Estava libertando as pessoas, que não conseguiam se matar também por um fator de suas psiqués, e enfim dando um descanso a elas. Simplesmente não via um motivo de porque não matar. Seres humanos são educados desde cedo a procurar um parceiro para então desempenhar suas funções e multiplicar a espécie. Mas o ser humano virou um vírus do planeta. Ideologias, crenças, relações pessoais, tudo isso o corrompeu a tal ponto de serem educados desde infantes a casarem e terem mais de sua espécie.

O ser humano acha-se melhor até que os animais, pois ele é o único que os mata sem necessidade, e isso causa mais devastação nesse planeta. Querendo ou não, o fato de um homem ter um pênis e produzir espermatozóides e a mulher ter uma vagina e produzir óvulos são exatamente para essa finalidade, pois o ser humano é um animal perdido que vê conforto no que chama de "família", pois já acostumou a ser social e isso já vem desde os tempos nômades onde todos viviam em grandes grupos dividindo experiências.

O rapaz chegou no que muitos talvez chamariam de lar. Lá tinha uma mulher, a qual ele talvez um dia havia chamado de esposa. "Você de novo. Por que mata as pessoas e fica assim? Por acaso está triste?". Até aquele dia ele sequer respondia, mas naquela ocasião, era a primeira vez que o sangue de uma vítima havia tocado ele mesmo. Uma mancha vermelha, discreta, estava em seus surrados sapatos. A mulher tentava botar algo na cabeça do homem, mas sabia que aquilo era apenas a tarefa dele, e já estava cansada de ficar discutindo em vão. Tirou o chapéu e o colocou na mesa. A radiação ainda estava forte, logo o chapéu fervia. Seus cabelos já naturalmente lisos e negros estavam bem escorridos, e algumas pontas secas devido á exposição deles no solo nordestino. Havia uma maçã na mesa. Tocou-a primeiro e então a agarrou, levando a boca e dando uma mordida. O líquido correu pela sua língua, mas mesmo assim não havia o engolido. Pegara a partição e começara a mastigar. Nunca havia se acostumado com a bendita casca da maçã, algo que pra ele era bem difícil de mastigar, depois de der destroçado ela bastante nos dentes enfim engoliu tudo de uma vez. Deixou a maçã de lado, como se já tivesse sugado demais ela, e foi até a mulher andando em passos largos.

"Não pense, que estou triste", disse o homem. "Sou feliz em por um fim neles, sei que o que estou fazendo é um favor para todos," sentia o cheiro da carne-seca na panela sendo refogava com muita pimenta "Seres humanos são educados a sempre viver, e é exatamente esse viver que pra mim eles se comparam a um lixo sem fim definidido. Muitos sequer querem viver, mas mesmo assim perpetuam suas miseraveis existências e continuam cada vez mais sonhando em terem filhos. Filhos é uma tristeza. Botar uma criança no mundo apenas pela felicidade de um casal não é, e nunca será o bastante".

Saiu de perto da panela e olhou com os olhos negros penetrantes na mulher. Não transmitiam nada, exceto talvez uma espécie de transe como se estivessem sido focados pela mais furiosa águia, mostrando não apenas sua majestade, mas também que havia ali um conflito entre caça e caçador. Fixou-se bastante e então continuou em um português errôneo:
"Diga-me se não sofreu alguma vez em vida. Diga-me se não desejou a morte uma única vez. Diga-me se tudo o que está a sua volta é um estímulo para que mesmo durante uma crise você tente se mostrar feliz. São paradigmas eternos". Foi caminhando para a mesa, enquanto a mulher permanecia estática, imóvel, e tremendo não por frio - fazia mais de 30 graus. "Todos vocês são forçados a viver, mas não vêem que é exatamente esse viver que os fazem sofrer. Seres humanos dão apenas valor aos que o fizeram sofrer, sequer dão atenção ás coisas boas que fizeram. Se forem pesar algo ruim e algo bom, não apenas darão mais ênfase ao que é maligno, como sequer ligarão para o benéfico, isso é, se ligarão. Me sinto na responsabilidade de por um final na vida deles, afinal todos julgam que é errado tirar vidas porque a sociedade diz e isso foi colocado como uma lei".

Pegou a maçã e deu outra mordida voraz. "Mas quem garante que leis são feitas para o 'bem'? Não querem que matem pessoas simplesmente porque isso está no instinto de vocês. 'Matar pessoas é errado', assim como roubar e sua erroneidade é a primeira coisa que nos é ensinado, assim como 'matar é ruim'. Acha que libertando pessoas de suas vidinhas miseráveis e poupando outros de nascerem, e piorarem, e continuarem pelo mesmo caminho errado cometendo mais e mais deslizes é algo errado? O que eu faço é um favor para eles, os libertando." Encontrou um verme na maçã ao dar a terceira mordida. jogou pela janela com fúria e levantou-se dirigindo a porta. A mulher olhava no canto dos olhos pra ele, ainda trêmula "Haverá sempre um motivo para não matar. Mas nenhum deles será satisfatório. Se você encontrar algum que seja, venha até mim e me fale".

A noite chegou fria como sempre no sertão. Estava em uma espécie de reunião com seus 'compatriotas', pessoas que carregavam o mesmo fardo que ele, mas sequer tinham metade de sua inteligência. Formavam uma espécie de grupo de extermínio, uma versão distorcida de um Robin Hood. Não havia floresta, mas sim a caatinga. Não havia um garoto, mas sim homens adultos. Porém acreditavam no "tirar dos ricos para dar aos pobres". Mas ao mesmo tempo desejavam ser temidos e respeitados pelos outros, para tanto faziam crimes bárbaros para outros, incluindo até a morte. Ele estava no grupo deles, era o mais jovem, embora não revelasse sua idade por julgarem-no inferior. Mas era um exímio estrategista e um exímio assassino. Poucas balas é o necessário. Porém não se sentia bem com aqueles homens fedendo a cachaça. Preferia permanecer com seu cigarro aceso, encostado em algum canto por aí, enquanto alguns tolos com seus pintos eretos iam pela vila procurar alguma donzela para estuprar e despejar sua porra em alguma mulher de família apenas pelo gozo do prazer momentâneo. Eles eram os cangaceiros.

"Vou sair." No momento que ele falava, todos ficavam calados com a voz grossa, herança de italianos. Ao fechar a porta, o último resquício de fumaça permanecia dentro do local, e um cheiro de sangue vindo dele que já era forte, parecia ser potencializado. O líder deles olhava feio para a porta, pois sabia que algo de ruim ele iria fazer. Sabia que ele era o mais frio de todos ali. Não queria vadias. Não queria dinheiro. Não queria reconhecimento, embora sempre tenha sido o melhor ali. Somente queria matar pessoas, sejam homens, mulheres, idosos e até crianças. Queria livrar a terra daqueles vermes imundos. Queria livrar o planeta de nascerem mais pessoas como ele. Queria dar a felicidade pras pessoas e sabia que apenas se desgrudarem dessa vida é que acharão algo. Pois acharão absolutamente nada após a morte.

Ainda faltaria muito, mas ele um dia descobriria o motivo daquela pergunta. Enfim conheceria a resposta do "Por que não se deve matar pessoas"...



Hahah.. Gostaram? xD~~
É um trecho-rascunho do meu livro. *o*~~ Pra ser sincero já tava com o texto todo na cabeça mas só fui digitar agora. Eu ia botar como ele achou a resposta da pergunta, mas vou adiar. =P Como não tive muita paciência pra abrir o Word, aqui vai. Tem erros de gramática e ortografia, mas é apenas um rascunho preliminar. Como eu digitei muito vou parar por aqui!

Só vou dizer que hoje enquanto eu acordava minha mãe ligou a TV aqui do quarto. Tava na Record e depois que eu voltei da minha ida no banheiro pra fazer xixi e lavar o rosto tava passando um vídeo antigasso da Record da época do saudoso Ronald Golias quando fez a primeira versão em comédia de Romeu e Julieta!

Provalmente eu iria morrer de dar risada. E até dei algumas risadas, breves.
Mas depois bateu uma tristeza, heheh... Não ligo se Bussundas morrerem. Por mim podem morrer mil que não farão diferença alguma. Mas esse humor do Ronald Golias eu sentirei falta pelo resto da vida. Não adianta, mesmo que hoje humor esteja ligado á piadinhas de sexo e coisas afins, o humor nasceu no circo! E o Golias era um dos únicos da nossa era que ainda usava esse humor infantil, bobo (embora quando ele ficou mais velho falava muitas sacanagens, mas.. Bah. Dercy Gonçalvez que o diga!) e o melhor, ainda divertia. Ronald Golias, não importa onde esteja, aqui vai um grande abraço pra você e digo ainda que fará muita falta ainda meu caro. ^^

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