domingo, 14 de outubro de 2007

Medo do escuro.

Parece que o tempo está melhorando. Ontem já choveu. Choveu e a força acabou na noite. E sempre que a energia acaba e tudo fica no escuro eu acabo sempre me lembrando de mais um dos meus grandes medos que até hoje não enfrentei, o do escuro.

Sim... É óbvio que eu sei que o escuro é tudo normal, com as luzes apagadas, mas não consigo dormir sabendo que quando abrirei os olhos eu terei a mesma imagem que quando eu os fecho. É humilhante eu com meus tantos anos de vida ainda dizer uma coisa dessas.

Minha avó sempre me disse que o medo serve pra nos proteger também. E acredito nisso, ainda mais numa era em que todos te incitam a enfrentar seus maiores medos para ter uma vida melhor. Não digo isso pelo fato de eu ser covarde com algumas coisas, mas pelo fato de que foi exatamente esse medo que já me salvou a pele várias vezes.

Pelo fato por exemplo de eu ser extremamente acrofóbico. Acrofobia é o medo de altura, que muitas pessoas sofrem. Porém ao mesmo tempo esse medo me salva pelo simples motivo de eu ter problemas cardíacos (no caso tenho um sopro no coração e um pouco de pressão baixa ás vezes), logo eu sou daqueles que fica bem longe de parques de diversões onde a molecada se diverte nas montanhas russas.

Também afirmo que nunca me fez falta ir ou não nesse tipo de brinquedo. o_o~~

Nesse sentido o medo sempre acaba me protegendo, e devo dizer que num mundo onde todos são encorajados a enfrentar seus medos, temos que verificar quais os medos que nos protegem e quais podemos enfrentar. Sobre o medo do escuro, bom... Creio que é mais por trauma também. Traumas infelizmente por mais que eu tente lutar contra eu sei que jamais conseguirei, afinal eles surgiram lá na infância.

Minha memória mais longíqua de presenciar o escuro vem da infância. Não consigo dormir sem uma única luz, nem que seja a da Lua cheia pela janela, mas não consigo. Lembro-me de uma vez, lá atrás, de quando acabou a luz uma vez e eu não conseguia dormir. Uma vez então cheguei a cochilar e havia uma vela no quarto. Na época era um mero infante, e dormia no quarto de meus pais. Porém eu acordei no exato momento que a vela estava por se extinguir.

A luz dela já estava fraca, e iluminava um feixe de luz em direção à parede e ao teto. Ficava olhando para aquilo e então começou a piscar, como toda vela faz ao se extinguir. Momentos depois ela apagou e tudo ficou escuro. Presenciei o escuro pela primeira vez. Não era tão ruim quanto eu pensava, afinal ainda ouvia bastante. Meu pai do lado já estava roncando como de costume, logo o pânico tomou conta de mim. Precisava de uma luz pra onde pudesse olhar. Virava de um lado pra outro da cama e não conseguia dormir.

O fato de ficar com os olhos abertos ou fechados e as mesmas imagens ver me lembro como uma sensação horrível de não saber se estava com olhos abertos ou fechados. Senti-me cego, que por mais que desenhasse meus olhos pelos cantos não via nenhuma fonte de luz, nem mesmo um único feixe perdido por entre algum canto. As lágrimas começaram a descer no meu rosto, logo os soluços característicos começaram.

Meu pai como sempre o ignorante que sempre foi ao ver meu choro virou pra mim e disse "Você tá acordado ainda? Vai logo, fecha os olhos e vai dormir, olha a hora!". Virei pro lado, engoli o choro mas mesmo assim, devo ter ficado mais uma meia hora acordado, porém esta durou a noite inteira. Continuei chorando quietinho virado pro lado, e sei que fui vencido pelo cansaço. Acabei dormindo, depois da meia hora torturante depois das ameaças do pai e o medo do escuro.

Quando eu olho pra trás e vejo que todos os meus traumas da vida foram causados pela impaciência e ignorância de meu pai comigo em minha infância, mas eu me sinto não revoltado, mas como não apenas as crianças são delicadas, afinal um único trauma pode refletir como uma incapacidade pela vida inteira, mas também como é importante pessoas receberem amor, compreensão e acima de tudo amizade. Sim, é bem clichê, mas essa é a verdade meus caríssimos senhores, senhoras e signoritas.

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