quarta-feira, 23 de abril de 2008

Felizes são os ignorantes, meu caro rapá!

Lembro-me de quando eu no colegial vi que não era inteligente coisa nenhuma. Na verdade eu sempre me achei bastante, dizia que eu sempre fora o mais inteligente e continuaria sendo, talvez pelo fato de eu me dar bem nos estudos. O colegial também foi importante pois eu vivi uma época de grande iluminação espiritual, onde eu tentava unir a religião ocidental com a oriental e fazer uma mistura dentro de minhas próprias crendices. Foi uma espécie de anos sessenta que eu vivi em apenas um ano. Acontece.

Hoje, enquanto eu voltava da faculdade pra casa, vi alguns casais de jovens entrando no ônibus. Normalmente a linha do Terminal Jardim Angela (santo nome, Batman! Ás vezes parece que os deuses brincam com a gente...) é relativamente cheia, mesmo nesse horário. Entrou um rapaz, com talvez seus vinte anos e falando de algumas coisas sobre o casamento que teria com uma senhorita que entrara no ônibus. Esse casal, estava junto de uma outra mulher, também aparentemente na mesma idade, que estava grávida. Claro, abriu as pernas do jeito e na hora errada e acaba acontecendo isso, e digo que é meio frustrante ver muitos que estudaram e cresceram comigo já como pessoas casadas, amigadas e com pirralhos atrás. Acho que eu to é ficando velho, isso sim!

Mas aí eu via algumas coisinhas estranhas. Claro, o rapaz era ignorante, dizia que dipirona era antibiótico, o que na realidade é um anti-inflamatório (engraçado que eu sempre sei bem sobre os remédios que eu sou praticamente viciado...), e via como eles organizavam o tal casamento: o rapaz, parecia um garoto de quinze anos com costeleta. Tinha até boné e usava as roupas que 90% das pessoas que moram na periferia usam: Boné do 1DASUL e roupas da SunRocha.

Menos eu talvez.

Convivo constantemente com a "raça" que a sociedade sempre mete mais o pau: funkeiros, maloqueiros e pobres. Uma vez vi um casalzinho que mal tinha começado a namorar e o cara já dizia que estava "comendo" ela até dizer chega, queria perguntar se alguma vez ele levou flores pra garota, afinal eu devo ser o único idiota que ainda é cavalheiro, leva flores e gosta de abraçar, embora eu não abrace ninguém.

Porém, uma coisa de bom acho que consigo até tirar deles. Como eu disse no começo da postagem, o colegial, em especial o último ano foram anos de além de tudo experiências excelentes. Tirando as coisas corriqueiras, como perda de virgindade, picaretagens, estudos aprendi uma coisa que até hoje eu levo bastante comigo: A ignorância, é um dom. É uma porta estranha que fecha as pessoas em um casulo chamado felicidade, uma sala de quatro paredes e sem janela, onde há uma lâmpada, e por mais que você rodeie-a, sempre a sombra baterá na parede de trás, e você nunca conseguirá pisar nela, pois a sombra é sempre projetada nessa parede.

As pessoas ficam diante da luz e viram-se pra trás. Vêem suas silhuetas como as sombras de Platão. Tentam alcança-las, mas por mais que cheguem perto, menor a sombra se torna. Mas não tem como passar por cima dela, pois a sala está entre quatro grandes paredes. A única forma de você pisar nela é se você abrir a porta: a luz fará a silhueta recuar, e você conseguirá ser superior à sombra. Acontece que nesse pequeno jogo até entender que a solução é apenas abrir a porta, as pessoas se acostumam. Acham-se felizes, correm atrás de suas sombras como se um dia conseguissem pisar nela. Não pensam de outra maneira, pois acham que tudo que precisa está lá. O duro questionamento de como pisar na sua sombra, que significa sua ignorancia, coisa que jamais conseguiriam.

Eu vi que eu fazia parte dessa grande ignorância. Acho que durante uns nove dias fiquei meio triste, pensava que se eu estudasse muito conseguiria saber de tudo, mas algumas poucas pessoas mais inteligentes que eu provaram o contrário. Lembro até que eu, soviético convicto e grande fã até hoje de Stalin, procurei saber absolutamente tudo sobre a URSS, Comunismo e a Guerra Fria. Mas vi que por mais que eu procurasse, sempre havia algo que não sabia.

Depois que eu vi que, por mais que eu abrisse a porta e pisasse na minha ignorância e conseguisse superá-la, eu caía numa sala maior. Sem janelas, outra porta, apenas uma luz e o mesmo dilema: ser superior e conseguir superar a mim mesmo e a ignorância. E fui indo. É uma metáfora horrível, mas sempre funcionou bem comigo. Sempre era uma missão diferente, tinha que sobrepujar minha própria ignorância, mas para isso era necessário além de tudo um bocado de humildade.

Claro, que pode ser descartada quando eu ficar mais velho. Como diz o Clodovil, "passei a vida inteira humilde, porque devo continuar agora?". Mas eu ainda não tenho a idade e a clareza de mundo que ele tem. Não ainda. ;D

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