terça-feira, 27 de maio de 2008

Deep blue, giant rose.


"Deixe-me. Não quero mais nada com você. Esqueça-me".

As palavras dela ecoaram na minha mente que se negava a entender aquilo. Cheguei a ouvir, mas não queria ter escutado. Ela simplesmente virou-se e saiu pela porta, e eu permaneci lá, sem entender nada. Não sei como, mas não derrubei uma única lágrima, e não foi pelo choque. Foi porque aquelas palavras dela vieram numa situação que eu imaginava que nunca ocorreria. Desde o primeiro momento sabia que existia alguma coisa por detrás daquilo.

Estávamos juntos já havia três anos, eu com meus vinte e dois anos e ela com vinte e um. O tempo de convivência, como disse, melhorou a nossa convivência, e devo dizer que foi graças a ela que consegui amadurecer e conseguir controlar melhor a mim mesmo. Mesmo levando uma vida de casados, não deixávamos o nosso trabalho de lado, e muito provavelmente depois de tudo acabar, teria que voltar às nossas vidas normais, separados.

Por mim, não gostaria de me separar dela. Mas não sabia o que ela sentia por mim. Se formos apenas parceiros de trabalho, se de fato havia algo entre nós ou ainda se ela sentia absolutamente nada por mim, como ela sempre demonstrou com sua frieza.

Resolvi ir então atrás dela. Talvez pela sua habilidade em nossa profissão, ela conseguiu se esconder muito bem. As provas para incriminarmos a pessoa que investigávamos estavam quase que certas, faltava pouco, e em poucas semanas aquilo tudo estaria acabado.

Formávamos uma dupla bastante curiosa: ela conseguia raciocinar friamente. Porém em investigações isso apenas não é o mais útil. Claro, que com sua ausência de sentimentos, conseguem interrogar melhor as pessoas e pensar em hipóteses na questão mais fria e exata. Porém, não é apenas com a estabilidade que algo pode dar certo, muito pelo contrário.

Juntos era o cérebro perfeito. Quando se é mais expressivo e emotivo, isso é muito melhor pra desconstruir o pensamento exato e conseguir outro viés de pensamento. Não somos bons para interrogar pessoas, mas somos bons para pressioná-las. E querendo ou não, independente de ser emotivo ou não, é uma cabeça pensante, logo consegue com tanta exatidão quanto procurar suspeitos.

Encontrei depois de uma semana onde ela estava. Esperei ainda alguns dias, até adentrar no local. Porém, ela não estava lá. Estava um rosto que eu jamais esquecerei. Um dos homens que na época havia sido um dos responsáveis pela morte do meu irmão, lá, na minha frente.

"Ora, ora. Então eu tenho mais um rival." Ouvi nesse momento alguns sons vindo de baixo, como se alguns sacos pesados de areia estivessem sendo arrastados. "Você é idêntico ao tolo do seu irmão, que mesmo sendo um gênio, não se compara a mim. Morreria por uma mulher, e iria atrás dela até o fim do mundo. Estou errado?"
Meus olhos se enfureceram. Com uma .45 na mão apontei pra ele e na mesma hora vi que alguns de seus comparsas apontaram armas tão potentes quanto em minha direção. ?Homens, acalmem-se. Se quiser, pode atirar em mim. Não sabia que você teria tamanha habilidade, e reconheço quando perco. E ainda por cima, deve ter algum rancor por mim por ter matado seu querido irmão.? Sentia que a qualquer momento puxaria o gatilho, e sei que se não fosse minha convivência com a garota mais fria, jamais me controlaria dessa forma. Ela tinha me mudado, e apenas a idéia de não ter que viver com ela já era algo difícil de conceber.

"Diga-me onde ela está", perguntei e abaixei a arma. Ele sorriu e pegou um envelope em cima da mesa. "Siga o caminho subterrâneo. Talvez ainda dê tempo. Você perdeu", mostrou o envelope e tirou alguns papéis. Observei de longe, eram as provas que necessitávamos, ele as havia conseguido antes de nós. "Enfim recuperarei o que me é de direito. Você poderia muito bem viver da herança de seu irmão, mas não quis. Jamais conseguirá limpar a reputação do defunto do seu irmão. Jamais."

Empurraram-me pro subterrâneo, e vi um imenso túnel. Comecei a correr. Naquele momento nenhum papel, por mais importante que fosse, seria comparado a ela. Corri desesperadamente, e vi que o túnel terminava em uma famosa ponte. Quando saí do túnel ouvi três disparos. E um corpo, lá em cima na ponte, aparentemente caindo ainda em cima da mesma.

Ao subir, vi a imagem que jamais sairá da minha mente. Lá estava ela, olhando para mim, sorrindo como jamais havia visto. Meus olhos encheram-se de lágrimas, minha visão ficou embaçada, mas mesmo assim me aproximei e me abaixei perto dela. Tentava limpar os olhos para ao menos naquele momento vê-la de uma forma nítida, mas já era tarde. Mas eu negava a entender isso.

"Meu amor. Eu... Nunca te vi chorar assim antes. Você sempre cobria seus olhos, mas agora eu vejo..." ela parou um momento pra respirar, sem ao menos parar de sorrir, "...As lágrimas que caem são cristalinas como os flocos de neve de nossa terra natal. Espero que a Rainha nos perdoe!".

Abracei e a apertei. No desespero eu chorei, chorei como uma criança. Chorei como nunca mais havia feito na minha vida. Não tive vergonha, não escondi. Senti uma garoa fina nos banhando lentamente. Não havia ninguém mais lá. Apenas nós dois.

"Querida, eu vou te levar, você vai sobreviver, vai ficar tudo bem!", gritei. Porém, a noção de que já era tarde demais já estava mais que estampada. Ela me empurrou docemente, e acariciou a minha face. "Você não era apenas emotivo. Agora eu entendo, eu sempre escolhia pela opção mais correta, a mais segura, a mais lógica. Por sua vez, lá estava sempre você apostando no duvidoso."

As palavras seguintes dela memorizaram uma por uma, como se gravadas no fundo do meu coração: ?Você nisso sempre se deu bem, pois apostando no duvidoso, você o transformava. O que era impossível em possível. Querido, eu te amo. Arrependo-me por nunca ter te falado isso antes, mas você mesmo sendo meu oposto, me trouxe o equilíbrio.?, senti que suas energias estavam se esvaindo. Seria digno de filme, se não fosse real. Meu coração parecia parar, meus olhos cessaram as lágrimas, sequer piscava meus olhos. Foi então que ela disse a última coisa antes de morrer. "Querido... Eu te..."

Ela parou. Sua cabeça tombou no meu braço. Eu a balancei gritando seu nome. Nada.
De súbito, senti seus lábios tocando os meus. Um calor tão forte que parecia queimá-los. Foi rápido, duraram poucos segundos, porém foi uma eternidade. Fitou uma última vez em meus olhos e completou: "...amo!".
Seus olhos se fecharam.

A respiração cessou.

Porém, o sorriso... O sorriso ainda estava lá!

Dizem que as pessoas só encontram a felicidade na hora da morte. Fomos felizes antes dela, porém ela atingiu seu ápice foi exatamente àquela hora. Ela morreu, eu também. Mais uma vez. Perdi o meu mentor, quem me fez um homem, meu irmão. Perdi minha donzela, minha dama, o meu amor. Não foi apenas ela que encontrou a felicidade naquele momento. Fui eu também. Porém o fato de tentar viver e continuar essa dura jornada já é uma condição perpétua tão ruim quanto à morte.

Pois eu sei que de forma alguma ela estará novamente do meu lado.
Nunca mais...

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