quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Disponha.

Acordei num salto. Odeio sonhar com quedas ou choques elétricos, pareço que estou de verdade caindo ou tomando choques reais, é uma sensação nada boa. Depois de ter expressado meu susto, olhei pro lado. Lá estava ela, com aquela cara amassada e aqueles olhos inexpressivos olhando pra mim questionando-se se algo havia acontecido. Sentei-me confortavelmente na poltrona do avião e fechei os olhos pra tomar fôlego depois do sonho.

Quando abri os olhos e olhei pro lado, ela continuava a me fitar. Totalmente sem jeito, prossegui:

"Desculpa. Eu apenas tive um sonho estranho. Acabei acordando com o susto". Depois de uma pausa, vendo que ela ainda não havia dito nada eu completei com um pedido de perdão. "Desculpa se eu te acordei. Não foi a minha intenção".

Muitas pessoas falam que aviões são coisas bem silenciosas, que não incomodam e tudo lá é muito bom. Mas eu odeio aquele barulhinho, quase inaudível que tem, e dá muita raiva pois incomoda de tal maneira que eu preferiria atravessar o Atlântico de ônibus pulando e quebrado, do que aquele silêncio fúnebre que tinha (e ainda tem) nesse veículo. A comissária ainda nem falava a minha língua, logo demorou um pouco até conseguir um desejado copo d'água, pra me ajudar a recompor. Quando apareceu, estava gelado.

Outra coisa que não gosto, embora eu até goste de ficar gripado, é a sensação que eu entitulei de pré-gripe. Quando começa a sentir o corpo mais fraco, a garganta começa a coçar e o nariz começa a arder. Vendo aquele copo lá, transpirando, fiquei com bastante raiva. Nem sabia que língua a comissária falava, e pelo visto ela nem inglês ela sabia. Até que ela, que estava do meu lado, como sempre haveria de estar, disse algo que não entendi. Momentos mais tarde lá estava a comissária levando minha água embora.

"Ei, ei! Pode deixar aqui, eu vou esperar esfriar!". Tarde demais, ela já estava longe. Senti um puxão na manga da minha jaqueta, quando virei pra trás ela estava me fitando ainda com aquele olhar de sono. Disse em palavras no meu ouvido bem baixinho "Não consigo. Não consigo viajar sozinha. Obrigada por vir comigo. Também não gosto de viajar sozinha". Olhei meio sem entender - sim, na época eu nem a conhecia direito, e sequer morávamos juntos ainda - e respondi com um sorriso sem graça "Tu-tudo bem..."

Minutos mais tarde a comissária trouxe mais uma água. Dessa vez, na temperatura natural. A aeromoça disse algo lá que não entendi e ela do lado respondeu algo que entendi menos ainda. Aí a ficha caiu. "Obrigado digo eu. Quebrou um galho agora pra mim. Se eu bebesse aquele copo eu iria chegar em Milão falando baixinho e com febre".

Pra variar, ela não sorriu, não disse nada e nem se expressou. Voltou a ficar encolhida na sua poltrona e virada pra janela fechou os olhos e adormeceu. Eu nem estava mais com sede, e sabia que não conseguiria dormir também com aquele som que, pra mim, é irritante. Fiquei olhando pro teto, divagando. De súbito ela disse num volume baixo que deu pra escutar: "Não foi nada. Disponha".

Virei pro lado e vi que ela já estava começando a dormir. Talvez fosse sonâmbula como eu, hehe... Falando sozinha.

0 comentários:

Postar um comentário

Arquivos do blog