sábado, 22 de novembro de 2008

Para enfrentar até o desconhecido.

“Está... Escuro. Ligue a luz”. “Acorda vai... Levanta. Acende a luz”.

Olhei no relógio no pulso. Três e um da madrugada.

“Tô indo... Já ouvi...”

Apertei o interruptor. Nada. Aí sim que entrei em pânico.

“Não... Não está acendendo!”

Silêncio. Tentei me localizar e ia palpitando as paredes pra voltar ao sofá.

“Cadê você? Não consigo te ver!”

Ouvi então uns murmúrios ao fundo. Ao prestar atenção percebi ser um choro.

Fiquei mudo por um momento, fui chegando perto de onde saía o som e encostei-me a ela.

“Ai, meu Deus... Vem cá, vem.”

Ela estava encolhida num canto da parede com a cabeça abaixada chorando, e ao mesmo tempo tentando engolir o choro.

“Nossa... Nunca vi você expressar nada. E vejo você chorando. Chega a ser irônico.”

Eu morro de medo de escuro. Mas ao lado dela, abraçados, o medo de alguma forma era deixado.

“Calma, calma. Eu estou aqui. Não precisa chorar, não vai acontecer nada.”

Na hora eu lembrava que meu irmão mais velho dizia que o escuro era igual a luz. A única coisa que não podíamos enxergar.

“Agora vamos... Vamos sair dessa parede gelada e pegar um cobertor”

Todo o meu pânico também era deixado de lado. Como se de alguma forma eu tentasse criar coragem para confortá-la. Logo ela... Uma mulher tão forte, tão fria e calculista, chorando de medo do escuro.

“Vem. Espera aqui que eu vou acender uma vela.”

Deixei no sofá onde dormia. Levantei e comecei a andar, ou tentar andar, até a porta do quarto. Ouvi uns sons estranhos, como se alguém caísse no chão e virei. Ela havia agarrado com as duas mãos minha perna esquerda.

“Ai meu Deus... É rápido, é aqui do lado! Não precisa ficar com medo”.

Admito que eu fosse meio ignorante. Coisa dos vinte anos. Ela parecia me puxar. Não queria que eu fosse para a cozinha de jeito nenhum. Levei de volta pro sofá.

Ela então me agarrou num forte abraço, sussurrando um pedido.

“Fica aqui comigo. Por favor.”

Claro que eu não dormi nada. E nem sei se ela dormiu. O dia começou a raiar, e o Big Ben começou aquele som ensurdecedor logo na manhã que eu odeio. Olhei pro lado, ela estava dormindo igual a mim, de boca aberta e babando.

Peguei pelos braços e a levei pra sua cama. Cama nada, era um sofá improvisado mesmo. Mas mesmo assim a energia elétrica só foi voltar depois do meio-dia. Aí, já era meio tarde...

É mais do que óbvio que o escuro me fez praticamente entrar em pânico àquela hora. Sim, um marmanjo ter medo de escuro é bem estranho, admito. Mas ver que ela, mulher tão forte e determinada estava num canto chorando com bem mais medo que eu de alguma forma me deu forças pra enfrentar isso e acima de tudo confortá-la, já que não consegui pregar os olhos durante a madrugada. Sabe, amor também é isso. É uma pessoa que nos dá coragem pra encarar o desconhecido e proteger quem mais gostamos.

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