segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Frio

Não importasse onde virasse os olhos. Uma imensidão branca cobria por todos os lados. Os ventos eram fortes, pareciam empurrar. O tempo estava gelado, e estávamos longe de casa, em um lugar coberto de neve. Ao chegar em casa liguei o rádio, este informava que a tempestade tardaria a passar. Sentei e me aproximei da lareira, enquanto isso ia tirando as peças de roupa que estavam levemente úmidas por causa da neve.

Coloquei um suéter que estava encostado. Tinha cheiro de naftalina. Fui até a cozinha para preparar algo para comer, quem sabe uma boa sopa. Ouvi uns passos descendo pela escada: era ela.

“Ah... Oi? Eu estou aqui fazendo algo para comermos.”. Disse, porém como sempre não obtive resposta. Já estávamos morando juntos há mais de um ano e ela sequer me respondia ainda. Comecei a esquentar um filete de azeite pra refogar alguns legumes. Ela estava perto da lareira, colocando mais lenha. Nossa vida era a mais incomum possível: eu falava, mas nunca recebia uma resposta por meio de fala. Sabia quando ela queria dizer que estava mal, ou sentia-se bem ou respostas, todas dadas nas entrelinhas de um mudo extremamente sutil.

Coloquei a água e o macarrão por fim e tampei a panela. Fiz bastante, pois sabia que sopa não iria me sustentar e iria repetir o prato no mínimo umas três vezes. Quando olhei na sala, ela não estava mais lá. Quando olhei pela janela eu quase morri. Ela estava lá fora, seu corpo deitado na neve inerte. Abri a porta num salto e fui em sua direção. A trouxe de volta para casa e a coloquei perto da lareira para esquentar.

Mas o corpo dela não esquentava. Tentei colocar roupas nela, mas ainda nada. Lembrei então de alguns daqueles panfletos de primeiros socorros contra frio, e lá dizia que o calor humano é uma das coisas mais eficazes para combater o frio. Tirei o suéter e algumas peças dela e a abracei fortemente ainda próximo da lareira.

Na hora do desespero segundos parecem horas. Cada momento que passava eu a apertava mais pra junto de meu corpo. Fechei meus olhos naquele momento. Continuava a apertar firmemente junto de mim. Nada. Resolvi esperar, talvez não iria acontecer nada demais, mas o tempo demorava a passar. Até que a senti se movimentando, levando o braço pro meu peito e a empurrando. Foi nessa hora que me toquei e a soltei um pouco.

“Meu Deus...! O que você estava fazendo! Você quase morreu!”. Fiquei ainda a questionando durante um bom tempo. O problema foi quando eu comecei a me questionar. Afinal como ela que sequer parecia não ligar pra mim eu corri o risco de tentar salvar sua vida? Logo naquele momento, onde estávamos viajando em nossas raríssimas férias. Continuei junto dela, esquentando, até um momento que o silêncio permaneceu, tanto de minha parte como dela, e logo depois o mesmo foi quebrado. Dessa vez por parte dela.

“Viver é difícil. É a coisa mais difícil do mundo. Morrer é fácil. Mas nem isso você me deixou fazer. Será que você não gosta de mim?”. Não sabia o que responder. Pra ser sincero estávamos sozinhos no mundo, eu só tinha a ela, e ela só tinha a mim. Éramos pessoas que trabalhávamos mas nunca podíamos falar do que trabalhávamos. Vivíamos sobre o mesmo teto, tínhamos perspectivas totalmente diferentes de ver a vida, mas separados éramos dois, e juntos apenas um.

“Sua boba! Não faça mais isso. Se viver é difícil, é sim! Mas se morrer te fará feliz, a mim vai me fazer a pessoa mais triste desse mundo! Pois você é o que tenho de mais precioso na minha vida!”

Ela fez uma cara de criança que havia levado um sermão. Mas seus olhos brilharam, pareciam lacrimejar. Foi o mais próximo que ela chegou de chorar. Enquanto isso lá estava eu derrubando um rio de lágrimas.

1 comentários:

Anônimo disse...

vc não devia brincar com essas coisas... não sabe o que está acontecendo. te contaria um sonho de segunda, dia 8, mas me disseram que é melhor interromper os sonhos. se vc gosta da pessoa com quem tenta falar, não fala mais de coisas assim...

um abraço
S.

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