quarta-feira, 1 de julho de 2009

Beijo para dormir.

"Toma. Leite com um pouco de mel e canela acho que vai te ajudar". E deixei com ela uma caneca de leite morno. Estava do mesmo jeito de antes, só que abatida, com uma terrível gripe e ardendo em febre. Óbvio, fica tomando chuva, a diferença é que eu tomo chuva e pego nada, ela dificilmente também, mas naquela época ela tinha abusado um pouco da sorte mesmo.

Começava a tomar cada gole de leite lentamente, com as duas mãos na xícara, como se fosse uma criancinha. Ver aquela mulher, sempre tão segura de si, séria, fria, naquele momento mostrando tanta fragilidade me fez refletir. Não. Coloquei a mão na sua testa pra ver se estava quente. E estava com quase trinta e oito graus de febre.

Terminou o leite e dei um anti-térmico. Deixei a xícara no criado-mudo pra levar depois, peguei uma cadeira e me ajeitei o lado dela, e fiquei olhando. Tentava passar uma certa indiferença, mas disfarçar nunca foi lá meu forte. Peguei uma revista e comecei a folhear, quando o silêncio do quarto foi quebrado.

"Você... Você é sempre tão bonzinho comigo. Acredito que você espera muito mais de mim como mulher, não? Mesmo assim você fica aqui do meu lado...". Na minha cabeça ela estava delirando. Talvez até estivesse. A febre naquela hora havia caído como uma luva: tudo o que ela não falava, aparentemente estava fazendo ela ali agora abrir a boca pra dizer. Tentei responder brevemente.

Porém, não consegui. Via uma das únicas vezes naquele nosso relacionamento forçado que ela me olhara no fundo dos olhos. Éramos opostos, mas opostos com algo a ver. Não éramos como água e fogo, mas sim como água e gelo, que embora fôssemos diferentes, tínhamos a mesma essência. A aquariana pensativa e o leonino afobado. "Eu sei que você não sente nada por mim. Pra mim você é a pessoa que mais critica, que mais fala mal de mim e isso eu não suporto. Mas ao mesmo tempo que não te suporto, acho difícil.", eu disse;

"Difícil o quê?", ela perguntou ali, na hora.
Fiquei mudo por um momento. Voltei a folhear a revista. Mas não conseguia prestar atenção em nada escrito ali. Naquele momento meu coração disparara, o suor frio começava a descer e meu estômago ficar gelado. Ela virou olhando pro lustre no teto, refletindo as luzes que vinham de nossa tímida janela, em nossa pequenina casa, naquela terra que só chovia.

"Não gosto de você também. Você é emotivo, não tem vergonha de ser feliz e age por impulso. Se vê alguém querido seu em apuros você não mede esforços, para tudo que tá fazendo e vai ajudar, não importa se o mundo estiver vindo na direção oposta". Na hora fiquei com raiva, pensei ser um xingamento e revidei: "Você tá me achando um idiota miolo-mole, é?!"

E ela virou pra mim e olhou de novo. Disse um sonoro e cálido "Não.", e depois completou: "Apenas não faz meu estilo. Meu estilo é pensar mais antes de agir, mas admiro isso em você. O que não suporto é que cada dia que passa você me ensina a me soltar mais, e eu te ensino você a se controlar melhor. De alguma forma que não entendo, nos completamos".

Meu olho lacrimejou na hora, mas não derrubei nada. Virei de costas pra ela e joguei a revista no chão logo na minha frente. Completei o que havia dito antes: "Não te suporto mesmo também. Mas o difícil que eu falava era que mesmo eu não te suportando, mesmo nós sendo tão diferentes e estarmos presos nesse relacionamento forçado... O que eu acho difícil é exatamente isso: viver longe de você."

Ela deu um risinho. Quando virei, já recomposto, ela estava de olhos fechados. Provável que ouviu o que disse e dormiu. Me ergui, coloquei os lábios sobre sua testa e dei um beijo com ternura, para ajudá-la a dormir melhor. Saí do quarto, peguei meu jaleco e fui dar uma volta e fumar um cigarro. Porém dessa vez calmo, sabendo que ela estava bem em seu lugar, de onde jamais deveria ter saído.

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