quarta-feira, 18 de novembro de 2009

O menino revoltado.

Esses dias aconteceu algo que mexeu bastante comigo. Os atores da peça eram uma mãe depressiva, uma filha com um futuro promissor, eu e a minha menina.

Por um momento fiquei surpreso quando vi que não daria pra levar a garota para conhecer o seu futuro, seu estudo. Liguei então pra ela sem hesitar, precisava ao menos de uma boa justificativa, mas recebi uma lição de vida, de ver a coisa por um outro ângulo, e ver um problema que era muito similar ao que tinha.

Liguei e conversei com a mãe. Mulher depressiva, se destacava como alguém "negra, brasileira, trabalhadora". Não queria deixar a filha encontrar com seu futuro por aparentemente motivo nenhum. Dizia que a filha era indecisa, retruquei dizendo que se você não deixasse ela pelo menos ter uma chance de tirar as dúvidas, que não saberia jamais mesmo o que quer ser quando crescer. Dizia ter problemas com o pai, mas mesmo eu me ofereci para conversar com o próprio se fosse necessário. Dizia não ter condições de pagar o curso, respondi dizendo que não gastaria um tostão, seria apenas uma visita, e que além disso conheceria o sistema de bolsas e tudo mais.

Vi que pais reconhecem, e vão pra sempre reconhecer nosso potencial. Mas eles têm medo do futuro, tanto quanto nós temos.

E por um momento me vi. Lembrava de mim quando não retrucava meus pais, no início da adolescência. Vivia entre más companhias, mas vejo que existia um porquê deles estarem comigo. Talvez se não andasse com eles, provável que não teria nem um pouco dessa veia heróica - bastante romanceada, sem dúvida, um bocado revolucionária - que tenho em mim.

A gente tem que peitar, tem hora que você tem que virar contra tudo e contra todos e dizer que estão errados, encarar o diabo e bater na bunda dele, desmentir tudo o que as pessoas acreditam, mexer nos princípios. Ser como uma maré tão forte que não mexe apenas nas ondas da parte de cima, mas que ricocheteia até o fundo, incomodando até a terra no fundo do mar que nunca viu movimento.

E gritar. E mesmo que encontre alguém que não tenha voz, você ser a voz dessa pessoa e gritar por ela, e deixar que ela faça o resto. Sacudir o mundo, ajudar uma pessoa. Se você tem uma força, ajudar quem não tem essa força.

Via na mãe e filha muito de mim e meus pais, onde era eu contra uma família inteira mirando em mim, querendo me derrubar por meio da moral. Briguei durante anos com eles, e hoje colho os bons frutos de anos de luta. Hoje compreendemos a ambos, não brigamos, somos uma família porque exatamente nela teve uma ovelha negra que teve coragem de desafiar e dizer que eles também estavam errados, e ir até as últimas consequências.

E acho que talvez eu tenha essa força, e fiquei muito feliz depois que eu vi a minha amada menina e essa garota, filha da senhora depressiva indo embora, pois aquilo talvez não teria se concretizado se eu não tivesse posto em prática novamente toda aquela minha rebeldia adolescente e ajudado e mudar um pouquinho da cabeça, afinal quanto mais as pessoas vão ficando velhas, mais vão ficando rígidas, imutáveis.

E mudar alguém assim, não é pra qualquer um mesmo.

0 comentários:

Postar um comentário

Arquivos do blog