sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

OBE

"É sir. Você é sir".

Não tinha entendido, pensei ser uma brincadeira. Isso é um título da cavalaria, dado para as pessoas que lutaram bravamente pelo país (menos se forem irlandeses, óbvio) e patriota é uma coisa que nunca fui. Sou um cidadão do mundo, aberto a todas as culturas, crenças, gestos e costumes.

Mas porque logo "sir"? Pertencer à Ordem do Império Britânico nunca me agradou - ainda mais porque era uma brincadeira ingênua, como um apelido que se dá. Pensei de primeira que fosse por eu ser educado, polido na medida do possível na época, e cavalheiro.

Não gostei. Mas pela insistência dela, entrei na brincadeira.
O tempo passou, e ela se foi naquele fatídico mês de maio.

Numa das raras visitas pós-morte dela que fiz à velha, estava na sala tomando um chá e observando o tempo feio que fazia lá fora. A senhora parecia ter ido lá dentro pegar algo, mas estava demorando demais. O tempo frio, mas uma musiquinha irritante similar de elevador no fundo e um chá preto cuidadosamente morno me fez capotar num cochilo delicioso.

Quando acordei, ela estava lá, lendo - como sempre faz. Na sua mão, a famosa Newsweek. Não eram bons tempos da revista, foi bem antes do Fareed Zakaria dar seus pitacos sempre bem direcionados.

O ventinho gelado da noite me lembrou e muito o que sinto nesse momento.

E lá do meu lado uma listinha, parecia meio manuscrito, mas numa caligrafia belíssima, vitoriana. Como a sala estava tomado por aquele silêncio inquebrável, peguei esse papel e comecei a ver. Até que vi o meu nome, e na frente, uma data: maio vigésimo quarto. Exatamente um dia antes dela morrer. Na hora virei pra velha e perguntei:

"Ei, o que significa isso? Não me diga que... Ela fez e se esforçou pra fazer isso exatamente um dia antes de morrer? Porquê?"

E a senhora apenas me fitou com os olhos abaixados, com certa indiferença, é verdade.

"Deixe-a descansar em paz. Ela se esforçou demais pra te dar esse presente. Só queria te mostrar que ela sentia exatamente o que você sentia por ela até mesmo antes de sua partida. Será que você pode carregar isso com você como uma eterna lembrança do que essa coitada fez por você?"

Okay. Acho que posso responder a sua expectativa. Ao menos essa vez.

0 comentários:

Postar um comentário

Arquivos do blog