domingo, 14 de março de 2010

Let's paint the town.

Era uma avenida bem movimentada, eu estava encostado numa parede com um Lucky Strike na boca. As luzes estavam lindas, mas eu naquele estado talvez só inspirasse estranhesa por quem passava: cabelos grandes desengranhados, cigarro na boca, roupas escuras e botas ensopadas. Odiava aquele lugar pois só parecia chover.

"Tabaco britânico, italiano?" - Um homem barbudo com o cabelo penteado pra trás comentou, debaixo de seu guarda-chuva. Na época eu era uma pessoa bem ignorante, e fingi que não o ouvi. Ele parecia ter percebido e fez um pedido: "Tem fogo?". Hesitei por um minuto, fiz uma cara de desprezo e lhe dei meu isqueiro.

"Tem uma donzela te esperando virando naquela esquina, garoto da Sicília. Está num carro vermelho, faróis acesos. Quando terminar de tragar esse, vá ao encontro dela.". Olhei dando a mínima pro que ele dizia, verdade que eu era uma pessoa nem um pouco tolerante naqueles anos após o falecimento dela. Observei-o indo embora, terminei o cigarro e fui a tal esquina.

Chegando lá observei dois homens próximo ao carro, um deles parado, o outro mais inquieto. Provável que seria alguma cilada, resolvi então dar a volta pelo quarteirão para observar o carro mais de perto do outro lado. Quando fiz isso, os dois homens já haviam sumido, e o carro da donzela estava indo embora. Dei uma agilizada no passo e percebi que ela parou, e me chamou com a mão até lá.

"Entre, sir, pensei que não viria. Será que podemos conversar um pouco?"

De primeira vista não a reconheci. Uma mulher vestida com uma calça preta de couro bem justa, uma roupa bem decotada e um jaleco com uma touca com aqueles pelinhos de esquimó. Cabelos brunette, lábios carnudos e seios fartos - fartos até demais que nunca fui acostumado a andar com mulheres com tal biotipo. Fiquei na janela em pé, ela com o vidro abaixado me olhando atentamente com seus olhos escuros.

"Até quando vai ficar assim? Será que uma tragédia já não foi o suficiente? Será que precisa de uma outra tragédia pra você mudar?".

Naquele momento uma garoa fria começou a cair. Já passavam das nove da noite, aos 18ºC.

"Cala a sua boca. Eu faço o que quiser da minha vida. Dá o fora daqui e me deixem em paz".

Dei meia volta e dei alguns passos adiante. Ouvi o carro buzinando e logo após da mesma gritando.

"Olha aqui, eu estou pouco me lixando para o que o pessoal lá de cima tá falando, mas se você não fosse importante eu não estaria aqui pedindo pra você esquecer e seguir com a sua vida!!"

Aquilo tudo de alguma forma massageou meu ego.
Virei a cabeça em direção a ela, dei um pequeno riso. Por um momento os olhos dela brilharam e ela sorriu - e reconheci exatamente pelo sorriso. Ela era alguém que havia esquecido o nome, e que "n" tinha me apresentado alguns anos atrás. Não me lembro de tê-la visto mais do que algumas poucas vezes - o suficiente para se contar nos dedos de uma mão.

Joguei a caixa cheia de cigarros na janela do carro dela.

"Fuma, e relaxa, moça.", eu disse. Ela então abriu, e viu que estavam todos lá, exceto um. "Mas não sabia que você fumava". Então respondi e depois me despedi.

"Mas eu não fumo. Acho que a nicotina acalma, sei lá, mas mesmo assim não consigo tragar mais de um. Fique sossegada quanto a isso. Sou uma pessoa perdida, perdi o que me era de mais importante na vida. Agora acho que terei que fazer exatamente o mais difícil - me achar novamente por aí."

0 comentários:

Postar um comentário

Arquivos do blog