domingo, 4 de julho de 2010

letargus

"...Bom dia".

Acordei meio assustado com um beijo na bochecha dela. Sequer tinha ouvido o despertador. Minhas costas estavam quebradas, minha cara amassada e meus pés gelados.

Eu odeio ficar com o pé gelado, é uma mania de infância. Sempre cubro os pés com coberta, mas aquela coberta era pequena, afinal ela era uma japonesa, e embora não fosse tão baixinha, era bem menor que eu. Na verdade, 90% das pessoas do mundo são menores que eu. Tenho que sempre me acostumar com as coisas do tamanho para esses 10% estranhos.

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"Você tem um sorriso lindo".

"Ah, obrigado. Sabe como é né? Dentição italiana, puxei do meu pai, que puxou da mãe dele. Os do meu irmão são bem menores, haha".

"Você é muito bonitinho!!", ela disse sorrindo.

"Hahaha... Eu não acho! Mas tudo bem!", eu disse com um sorriso amarelado.

"Como assim? Você é tão fofinho...", após falar, ela me abraçou mais forte e colocou o ouvido no meu peito.

"Ah, eu sou sorridente! Sou sincero também. Mas minha mãe diz que tem medo do que eu me torno quando fico com raiva de alguém, haha".

"...?", me olhou com uma cara interrogativa.

"Ah não, mas relaxa! Sou uma pessoa muito tolerante, tolerante até demais. Só estou brigado com umas quatro pessoas - isso de todos que conheço. E pelas coisas que fiz com essas pessoas quando estava com raiva, não acho que necessariamente seja uma pessoa tão 'fofa'".

"Então você é bem racional", ela concluiu.

"Não", disse recuando e balançando a cabeça, "Todos meus atos, tanto de felicidade, como raiva e tristeza, foram puramente movidos por emoção. Não acho que ser emotivo seja algo ruim, a emoção me faz ir além de qualquer limite que uma pessoa racional tem".



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"Você ficou falando sozinho a noite inteira", levantei da cama com ela afirmando isso pra mim.

"Ah... Desculpe. Tenho um pouco de insônia. E quando durmo, sou sonâmbulo".

"Fala dormindo?"

"Yup. E abro os olhos, e fico andando por aí, uma vez já acendi um cigarro até, hahaha..."

"Você fuma?"

"Não. Ou melhor, é muito raro, muito mesmo, nicotina é um poderoso calmante".

"..."

Ela fez uma cara de quem comprou gato por lebre.

"É uma mania que um amor antigo - e falecida - que me fez ter". Mostrei uma foto dela que tenho na carteira.

"Nossa, muito bonita ela. Italiana?"

"Italiana e espanhola, sim. É meu anjinho da guarda agora".

"O que aconteceu com ela?"

"Acidente. De carro".

"Desculpe..."

"Ah, tem nada não. Antes eu era pior, mas todo ano eu encontro com ela, precisamente em todo 25 de maio".

"E o cigarro?"

"Ela dizia que eu ficava lindo com um cigarro aceso na boca. Mas até hoje não me acostumo, não gosto da fumaça, de como isso 'esquenta' o pulmão, e ás vezes quando solto a fumaça arde um pouco a narina. Por isso nunca me viciei, talvez. Ela também não fumava muito".

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