segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Happy ending


"Então isso deve ser morrer então. Que bosta."
"Pensei que fosse algo mais emocionante. Só está meio frio e escuro."
"Será que vai ser assim? Está mesmo muito frio. Mas escuro, tenho medo de escuro".

"Tem algo estranho onde estou deitado em cima. Parece... gelo."

Nesse momento a paisagem clareou. Vi flocos de neve caindo e uma pessoa vindo ao longe.

"...Você? Que merda. Agora você tá aí em pé e eu aqui no chão."


Seu olhar estava triste, a franja penteada de lado, o cabelo "cor de de beringela", camisa branca amassada, calças pretas bem justas e o clássico lenço vermelho amarrado no braço. E a mesma cara de triste.

"Porque não se levanta? Até quando vai ficar aí no chão? Desistiu de tudo tão cedo?", ela disse, com uma certa melancolia nas palavras.

"Hahahah... Estou só descansando um pouco. Tava difícil as coisas lá embaixo sem você. Acho que no fundo eu só precisava disso", disse.

O local não interessava. Sinceramente não via muito o meu entorno, só achava que era muito bom vê-la. Mas de alguma forma precisava encontra-la por uma última vez para fazer algo, e aquela era minha chance. Virei minha cabeça pra ela, olhei nos olhos, e disse.

"Me desculpe. Precisava de ver de novo para pedir isso. Fui um grande idiota. Acho que agora que eu morri, podemos ficar juntos pra sempre, não?", disse, abrindo um pequeno sorriso.

"Me perdoe também. Mas não é sua hora de ficar aqui. Você tem que voltar e continuar. Pessoas que te amam estão te esperando lá embaixo e quanto a mim...", ela interrompeu.

Arregalei os olhos, que lacrimejaram. Ela colocou a mão no joelho, abaixou-se, o cabelo caiu um pouco no rosto e ela abriu um sorriso. Como esperei por aquele sorriso por detrás daqueles seus olhos negros, mais que os meus!

"...Viva sua vida lá embaixo, querido. Se você tiver que vir pra cá será quando for bem velhinho. Ame outras mulheres, tenha novos amigos e entenda que se você estiver feliz, não importa onde e como, eu estarei aqui feliz também.", ela completou.

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Um rapaz estava fumando um cigarro compenetrado enquanto observava o trânsito na sua frente. Um amigo chegou e ficou ao lado dele tentando ver o que ele tanto observava. Ele não aguentou o silêncio e puxou conversa.

"O Lucky Strike ao menos você nunca deixa né?", o amigo perguntou, ainda olhando para o horizonte.

"Esse será o último de todos. Preciso aproveitá-lo ao máximo."


"Ú-último? Porquê?"


"Acho que essa era a última coisa que me ligava a 'ela'. Decidi que vou recomeçar, e todas essas memórias ficarão apenas aqui guardadas como 'memórias'."


"Ela que te ensinou a fumar?


"Yep!"


"Teve que ir até o fundo do poço pra conseguir entender isso, né?"


"O que, exatamente?"


"Que você teve que demolir tudo que construiu até hoje, e decidir deixá-la de lado de uma vez, caso contrário você nunca teria um futuro, né? Ficaria sempre atrelado a um passado, que faleceu".


"É. Mas foi divertido."


"Divertido?"


"Sim!"


"Porquê?"


"Porque lá no fundo do poço tem uma puta duma mola. E ela joga a gente pra cima de novo."


Querendo ou não, aquele rapaz sempre lembra dessa estranha paisagem de neve quando sente-se pra baixo. As palavras que ouviu naquele dia estranho é que faz com que ele continue seguindo em frente.

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