quinta-feira, 28 de outubro de 2010

a Última fotografia.

Normalmente apenas trocando algumas palavras, é possível descobrir características fortes nas pessoas. Mas com ela, era mais difícil. Vivemos muitos anos juntos, mas acho que durante nossa convivência - talvez pelo fato de não conversarmos tanto como os casais comuns - muitas coisas sobre nós se davam nas entrelinhas. Uma aquariana e um leonino, o que você quer?

No começo, lembro que não via nenhuma foto dela. Fotografia, uma coisa tão simples, ela tinha uma grande aversão. Dizia que se sentia feia, odiava seus olhos, seu cabelo, sua pele branca, nariz, dentes. Na verdade ela não dizia, mas como tudo era nas entrelinhas, dava a se entender isso. Não estou falando das críticas que as mulheres sempre adoram fazer ao seu corpo, estou falando mesmo de algo que a faça se sentir realmente ridicularizada, pois, acredite - nós homens não ligamos e não temos um senso crítico tão grande quanto o de vocês.

Um dia insisti pra ela bater uma foto.

No começo houve uma resistência.

Mas saiu.

Eu achei que ela estava linda. Mesmo num relacionamento puramente arranjado como o nosso, achei estranho que embora tivéssemos aversão contra o outro, aquela coisa estava me fazendo derreter. E a ela também. Ela, que nunca tinha tirado uma fotografia na vida como uma pessoa normal, começava ali a tirar várias fotos. Sempre bem séria no começo, até que começou a abrir sorrisos, mesmo que no jeitão monalisa, mas começava.

Quando ela faleceu, queimei absolutamente tudo.
Somente fiquei com uma única foto. Que escondi de tudo e de todos.

Volta e meia vejo essa foto. E sinto saudades daquele cabelo cor de berinjela.

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