terça-feira, 12 de abril de 2011

O discípulo tolo. Parte II

(eu não sei porque diabos me deu vontade de desenterrar isso, já faz tanto tempo, mas...)

Seu nome era Vincent. Não me conhecia há muito tempo, e a tutelagem não durou muito tempo. Seu estilo de luta era inimitável e impossível de se bater. Tinha uns dez discípulos. Acho que eu era o quinto deles. Tínhamos diversas conversas, e achava impressionante a capacidade daquele homem em traçar um perfil da pessoa com apenas algumas conversas. Aprendi muito com ele.

Numa das conversas mais interessantes ele citou algumas coisas interessantes. Sobre mim. Que nem eu tinha percebido.

"Você nem sempre sorri porque está feliz, não é?", ele começou.

"Como assim?", questionei.

"Você, fica aí com um sorrisão, enquanto enfrenta trocentos problemas. Eu não tenho tanto saco, e acho que se passasse por metade das coisas que você passa, eu não teria tanto saco".

"Ué... Mas não é nada demais. Conheço gente em situação muito pior".

"Sim, mas o que mais me incomoda é que você fica andando por aí, sorrindo para as pessoas, até mesmo quando você quer ser uma pessoa má, você pratica o mal sorrindo."

"Ainda acho que não tem nada a ver. E que papo é esse de eu 'praticar o mal'? Já me viu brigado com alguém?".

"Não."

"E então? Eu sou assim, cultivo minhas amizades. Você está inventando..."

"Discípulo tolo... Você não deve ter emoções.", o mestre encurtou o caminho que queria chegar.

"Não tenho emoções? Outra coisa sem sentido. Sou o homem mais chorão da face da terra".

Naquele momento fiquei sério. E vi que ele percebeu isso.

"Olha só, agora estou vendo o seu verdadeiro ego, da tradução literal mesmo, o seu 'eu interior e verdadeiro', porque você sorri pra disfarçar sua raiva, sorri pra não chorar, sorri pra evitar mesmo sorrir verdadeiramente. Eu sei o que aconteceu com você.", ele lançou com um ar de sabedoria bizarra.

"Definitivamente não sei onde você quer chegar com isso...", eu retruquei.

"Quero dizer que você pegou todos os seus sentimentos, a tristeza por ver seu irmão mais velho traído pelas pessoas em que mais confiava, a frustração de ver a garota que era o amor da sua vida falecer nos seus braços, a raiva de viver em uma família que vivem brigando e discutindo, a cólera em ver que o mundo não aceita você do jeito que você é... Tudo. Todos esses sentimentos você guardou no fundo da sua alma..."

Fiquei calado, apenas ouvindo. Ele prosseguiu.

"E por isso você apenas sorri. Demonstra a felicidade, não quer que ninguém toque em assuntos como infância, amores passados, família... Mas o problema não é as pessoas saberem o que aconteceu. É exatamente o contrário.", ele concluiu o pensamento.

"E qual é o problema?", eu perguntei.

"O problema vai ser quando alguém especial pra você vier lhe oferecer ajuda. Como você reagiria a isso?", ele fechou o assunto.

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