quarta-feira, 21 de março de 2012

Chá. Sem açúcar, por favor.

Lá estava eu, sentado naquela varanda, um fresco dia de primavera.

"Me desculpe a demora, Al. Estava resolvendo algumas coisas", disse a senhora Elizabeth, se acomodando na cadeira.

Eu fiquei calado. Fiquei apenas fitando o horizonte. Eu sequer piscava.

"Quer chá? Trouxe o que você mais gosta. Com leite ou puro?", ela disse, segurando a jarra.

Eu não queria saber de chá. Nem sei porque eu estava lá. Tinha perdido meu irmão mais velho anos antes, e agora tinha acabado de perder minha esposa nos meus braços. Eu estava muito triste, e não queria conversar nem me encontrar com ninguém. Mas de alguma forma eu confiava naquela velha. Porém, naquele momento, eu não estava muito propenso a conversas.

"Al... Até quando vai ficar assim? A vida continua, você não pode ficar se culpando sempre que você perder alguém. Essas coisas acontecem, infelizmente. Tudo o que está vivo morre um dia. O importante é que você escolheu a vida!", ela disse.

Meu braço esquerdo estava enfaixado. Imagino que vocês saibam o porquê.

"Escute, velha... Eu estou cansado, sabe? E daí que o importante é que eu escolhi a vida?", eu disse, desafiando-a.

"O importante é que você escolheu a vida... Então, viva!", ela disse, servindo o chá, "Eu acho muito bonito como aqueles priminhos mais novos te olham. Você terá uma grande responsabilidade de agora em diante, sabia?".

Eu continuava quieto. Mas eu percebi que ela se aproximava cada vez mais de mim. Meio sem jeito, com a cadeira mesmo, se arrastando.

"Você será o espelho desses pequeninos. Eles te amam assim como você amou seu irmão mais velho. Do que adianta você andar num caminho errado e influenciar essas crianças pro lado ruim? Seja forte, agora você é o mais velho, e você tem toda essa responsabilidade!", disse Elizabeth, com um ligeiro sorriso.

"É um peso bem grande", eu disse.

"Mas é um peso que você pode carregar. Me diga qual foi o último conselho que o admirável Schultz lhe deu antes de falecer?", ela disse, sorrindo.

"Err...", pensei um pouco, mas respondi algo diferente: "Pra eu encontrar uma espanhola peituda pra me casar".

"Não isso. A outra coisa", ela questionou.

"Que eu ainda tenho minha juventude. E não deveria disperdiçá-la", respondi, firme.

"Exato! Não a disperdice, meu jovem. Se errar, tente de novo, ou tente diferente. Nossa vida passa muito rápido por nós. Faça o que deve ser feito sempre, siga em frente e... Seja feliz!".

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