domingo, 22 de abril de 2012

Compaixão.

Budismo no ocidente é entendido como uma religião de meditação, onde buscamos respostas às nossas perguntas para evoluirmos como indivíduos. Isso está, em partes, certo.

Temos o próprio Buda histórico Shakyamuni pregando isso. Especialmente para seus bhikkhus no primórdio desse Ensinamento. Como já expliquei, o momento de ascensão é exatamente na hora da morte do Buda, com seu parinirvana tão alvo de falta de conhecimento pelos próprios budistas.

No final da vida Buda diz que devemos agir com compaixão, servindo o outro, pois de nada adianta você absorver o pensamento de você não colocá-lo em prática e espalhar. Todos temos natureza de Buda, todos sem excessão podem chegar, seja um monge ou uma pessoa comum como eu ou você. Mas para isso, devemos servir o próximo. Isso que Buda nos deixou no seu último ensinamento. E pensando bem, faz sentido pra caramba.

Numa sociedade como a nossa dificilmente teríamos espaço pra isso. Como mesmo já me disseram: "O mundo lá fora não está nem aí pra você. Seja como eles pois é sua única defesa". Mas como eu bem disse, não se cura algo com o mesmo remédio. Para termos harmonia precisamos ter ela dentro de nós, para então conseguirmos levá-la para fora.

Porque então devemos servir o outro?

Eu sempre achei que temos um vocabulário escasso, onde somente damos um significado para alguma coisa. Isso é cultural, achamos que servir o outro significa apenas estar a mercê de alguém, quando na verdade não foi isso que o Buda em seu momento da morte nos deixou.

Vamos para exemplos práticos: uma pessoa na rua, uma senhora, precisa de ajuda para atravessar a rua. Moramos em São Paulo, não existe quase ninguém que nunca tenha sido atropelado ou assaltado. Você, como ser humano, não ajudaria a senhora a atravessar a rua?

Um exemplo pessoal: uma vez estava num onibus indo pro trabalho. Havia um lugar para me sentar, mas era aquele amarelinho, para idosos, gestantes, etc. Como não havia ninguém eu me sentei. Do nada em um ponto de onibus subiu muita gente, e uma senhora estava na minha frente. Me levantei pra dar o lugar pra ela, mas o onibus tava tão cheio que eu nem sabia onde eu ia ficar em pé (eu tenho quase dois metros de altura).

Levou um tempo até conseguir acomodar a senhora, que ainda resmungou. Mas eu fiquei quieto. Não se cura veneno com veneno. O engraçado que uns cinco pontos depois ela desceu, e ela me cedeu o lugar pacificamente. E como não tinha mais ninguém com o perfil, me acomodei.

Mas de alguma forma ter feito o bem fez passar o cansaço. Isso pode ser meio psicológico, mas como eu já disse, Buda sabia das coisas, e sabia que isso funcionava também. Me senti leve e tranquilo por estar fazendo o bem, servindo o outro, sem esse sentido pejorativo. E isso podemos aplicar em inúmeros exemplos no cotidiano, desde aconselhando um amigo, ajudando uma entidade filantrópica, ajudar alguém desesperado no trabalho ou qualquer coisa do gênero.

Steve Jobs falou algo que algumas pessoas entederam errado. "Não perca tempo vivendo a vida de outra pessoa". Será que ele quis dizer pra sermos egocêntricos e não pensarmos na pessoa que está do nosso lado? Não sei, tem que ver também o contexto em que ele disse isso, mas essa frase virou uma "febre" e muitos a replicaram. E meu medo maior era exatamente esse.

Já vivemos numa sociedade individualista em que ninguém quer ajudar ninguém. Minha criação foi assim, meus pais sempre falavam "Tá com um problema? Se vira! Você que fez, o problema é seu, você não é quadrado". Isso me deixou com tanto medo que, embora eu seja uma pessoa que tente ser muito independente, gosto de ser uma pessoa que extenda a mão pra ajudar o próximo. Pra que outros não passem pelo que passei, porque isso é muito, muito duro. E só estamos hoje aqui vivos porque alguém nos ajudou lá atrás. Então porque não servimos o próximo com sinceridade e alegria?

Essa é a chave pra felicidade.

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