quinta-feira, 3 de maio de 2012

Essa coisa chamada "morte".

Sexta-feira treze pode ser péssimo dia para se morrer, não?

Estava indo fazer meu passaporte na Polícia Federal. Foi quando estava comendo alguma coisa, matando o tempo, que recebi uma ligação do meu pai. Um grande amigo dele, com o qual tinha uma amizade de quase quarenta anos, tinha falecido de causas naturais. Aos 87 anos.

Desci até o Terminal e peguei o ônibus. Vi que dava tempo de passar lá. Fui até o velório.

Quando cheguei na esquina, aquele lugar me veio na mente. Tinha tido um sonho com aquele lugar, e lembrava de exatamente tudo. Todas as paredes, o que havia no local, as ruas próximas. Por alguma razão que desconhecia eu conhecia aquele lugar.

Junto da minha mãe estava a viúva. Não consegui cumprimentá-la com um "Meus pêsames". Apenas consegui abraçá-la.

Ficamos conversando, fui até a padaria na frente comprar uma água. Sim, eu conhecia aquele lugar, provavelmente eu estive naquele velório quando era criança, mas não lembro exatamente quem estava sendo velado.

Meu pai me chamou pra tomarmos uma cerveja. Quando voltamos ao velório, o corpo já estava pronto para o último adeus, dentro do caixão.

Fomos lá. Haviam poucas pessoas da família, eram basicamente amigos. Alguns filhos, alguns netos, mas não era preciso muita lógica pra saber que a família era muito maior que aquela que estava lá. Seus amigos tinham se tornado sua família. Amigos fiéis, que ajudaram em seu tratamento, em sua vida, em tudo.

O momento da morte é estranho. Eu via aquele corpo inerte e acho que me sentia como aquele moleque que havia entrado no velório a primeira vez, há muitos anos. É uma pausa brusca, a gente nunca imagina ser acometido, até que é. Não dá pra fugir. Independente de conhecer ou não, de ser alguém especial ou não, a gente sente a falta da pessoa no junto das pessoas.

E sempre parece que no momento da morte tem uma ironia do destino:

A viúva viu que no peito do defunto tinha um volume estranho. Abriu a camisa e viu embaixo uma camiseta. Meu pai viu e deu um riso.

Ele tinha ido em Aparecida dias atrás e só tinha trago uma coisa: uma camiseta com Nossa Senhora Aparecida, a santa que o casal era devoto. E aquela camisa não tinha sido usada. Não até aquele momento, em seu próprio velório. E agora seria usada pelo resto da eternidade.

De qualquer forma, morrer de velhice aos oitenta e sete anos é uma honra. Tanta gente por aí doente, ou morrendo acometidos por doenças, ou pelas suas próprias mentes. Quanta coisa esse cara deve ter visto, e eu estaria aqui pra continuar isso tudo. E provavelmente outros ainda viriam depois de mim.

Se naquele momento eu tive medo da morte, acho que senti ainda mais vontade de viver. E quem sabe, morrer dessa forma deveras romântica como o senhor faleceu.

Vá em paz, seu Silvio.

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