sexta-feira, 30 de novembro de 2012

X - A Roda da Fortuna



2 de julho de 2000
11h45

"Al, preciso conversar com você, mas não tenho muito tempo. Essa linha é clandestina, se me pegarem falando com você vão me matar", era a voz da Victoire.

"Vicky? Onde você se meteu? Porque diabos você está presa? Que história é essa que você criou a arma de morte perfeita?"

"Calma. O que você ouviu é verdade, mas nem tudo o que eu disse era mentira. Essa identidade que eu tenho é mentira. Tudo o que eu fiz foi movida por uma grande vingança, porque eu achei a pessoa que matou a minha irmã. Foi por isso que eu entrei no ramo da biologia, para poder vingar essa pessoa".

"Por Deus, Victoire. Vingança não vai trazer sua irmã de volta. Por isso que você usou os recursos da fundação pra fazer isso? Quem diabos matou sua irmã? Eu posso ir atrás dele, se você quiser!", eu disse, empolgado e esbanjando justiça.

Foi aí que Victoire falou uma coisa. E eu fiquei sem palavras.

"Al, o meu sobrenome real é Blain. Meu nome é Victoire Blain, e sou a irmã mais nova de Émilie Blain".

"O quê?!".

"E não adianta ficar abismado. Eu sei que foi você quem matou a minha irmã! Você foi tudo o que eu pensei durante três anos. Três longos anos. E quando eu te encontrei eu vi que a minha vingança ia ser real. Sim, a Émilie. A pessoa que você mais odeia no mundo era minha irmã mais velha, e a única família que eu tive. E você a matou".

"Victoire, eu não ligo para o que você quer fazer comigo, mas eu NÃO matei sua irmã! Você deve ter injetado essa coisa em mim pra me matar, mas eu não posso morrer agora, eu ainda tenho um trabalho pra fazer!".

"Al, não foi apenas eu que tomou a decisão de te injetar as drogas para causar a Síndrome de Werner. Quem estava por detrás de tudo era a Francesc...".

A ligação foi cortada de súbito.


5 de julho de 2000
16h27

"Consegui. Está aqui dentro dessa mala. Agora vamos embora", a garota do cabelo lilás disse, indo na frente.

Na sala de vigilância tinha naquele momento todas as imagens ao vivo de todas as câmeras do prédio. Quando estava saindo vi uns clarões vindo de um dos monitores do topo. Num televisor ao lado vi Yuri, correndo e atirando, sendo alvejado por balas.

"Merda! Pegaram o Yuri! Temos que ajudá-lo!", eu gritei, "Ele está sendo alvejado!".

"Ele ficará bem, vamos logo... Ele é militar, teve treinamento pra isso. Se nós não sairmos daqui logo, nós é que vamos acabar sendo mortos", disse ela, com sua frieza aquariana sempre inabalável.

Na hora, vou ser sincero, não pensei. Enquanto ela ia me puxando pelo corredor, vi uma pistola parada no chão. Provavelmente de algum segurança nocauteado. Me soltei dela e peguei a pistola, e fui descendo as escadas rapidamente. Não olhei pra trás, Yuri estava em apuros, ele era meu amigo. Eu devia salvá-lo, não importasse como.

Estava com aquele instrumento gelado nas mãos. Nunca havia usado sequer. Somos da inteligência, não somos militares. Um cérebro não saberia como usar uma arma, isso é função dos braços. E quem trabalha pro governo sabe que sua função é quase como um corpo: todas as partes são vitais. Nem recarregar aquele treco eu sabia. Deve ser mais ou menos como nos filmes, não deve ter muito segredo, pensei eu.

Quando desci as escadas, estava a uns dez metros do Yuri. Ele estava se rastejando no chão, mas não tinha sinal de ninguém no momento. Droga, onde estava ela agora? Ouvi alguns passos se aproximando de Yuri. Um deles parecia um salto feminino. Eu estava com medo de olhar, mas percebi que o som do salto foi caminhando pra mais longe. Só ficou um outro barulho. Parecia um sapato comum.

"Yuri. Você foi ótimo até aqui. Sua missão está completa", disse a voz, rouca.

"Ah... Droga... Eu vou... Eu não quero... Morrer", disse Yuri, depois de alguns gemidos.

Nessa hora não resisti e olhei. O homem pisava na perna ferida de Yuri.

"Yuri, Yuri, Yuri...", a voz rouca novamente começou, "Então aqui está o seu presente. A pessoa que você procura é ninguém menos que o próprio Al. Ele é o irmão mais novo de Arch, Yuri. Ou devo te chamar... Mikael?".

Yuri era Mikael. Foi Mikael que há dez anos havia trabalhado ao lado do meu irmão mais velho. Foi o próprio Mikail que uma vez o chamou de "irmão". E foi o próprio Mikail que capturou Arch. A senhora Vittorio havia me enganado, mas na época eu nem me toquei disso. Era Yuri o traidor. E ele havia enganado não apenas Arch, mas havia me enganado também.

E agora, estava para ser morto. O homem da voz rouca retirou uma arma do seu sobretudo, e aponta para a cabeça de Yuri.

Nessas horas o tempo parece passar em câmera lenta. O homem estava pronto para matar Yuri. Encostei na parede, segurando aquela arma e meus olhos lacrimejaram. Eu não conseguia ver nada na minha frente. Como eu pude ser tão ingênuo?

Eu estive ao lado da pessoa que matou meu irmão sempre.

Eu o chamei de "amigo" e confiei nele.

Eu acreditei que ele era Yuri. Mas pelo visto tudo isso foi um jogo.

Meu Deus, ele vai matar um cara na minha frente! Que merda! Isso é insano!

"EI! PODE PARAR COM ISSO!", eu berrei, "Esse cara matou o meu irmão! Não vem querendo matar ele no meu lugar não!!"

O homem ficou parado na minha frente. Começou a recuar uns passos. Yuri caiu no chão, exausto. Fui me aproximando, apontando a arma pra ele, meus olhos marejados e tremia, tremia muito. Quando um filete de luz iluminou seu rosto eu vi quem era. Dietrich.

"Você...? Você tinha morrido!", eu disse, "Eu vi o seu corpo! Não é possível!".

Segundos depois vi vários homens vestindo preto adentrando o local aos gritos, lançando granadas de efeito moral, e toda aquela calmaria deu lugar a um verdadeiro clima de guerra. Uma equipe especial da SAS havia adentrado o recinto, prendendo Dietrich, levando Yuri para a ambulância e eu e Agatha para fora com segurança.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Skyfall e o orgulho britânico.

Comer sushi no Japão e ver os moinhos na Holanda pode ser muito clichê. Mas ver James Bond na terra da rainha da Commonwealth pode ser mais clichê que tudo isso junto.

Fui assistir Skyfall aqui num cinema. Aqui as pessoas não vão "to the movies", eles vão "to the cinema". Não é preciso ser muito antenado nas coisas para saber o quão a Inglaterra está sofrendo com essa crise mundial que ainda está por aí causando problemas.

O próprio James Bond foi uma criação britânica pra recuperar um pouco o orgulho bretão, pois de um lado tinha a União Soviética e do outro os Estados Unidos. Aí acharam um simpático motorista de caminho chamado Sean Connery e lhe ofereçam emprego. E já se foram cinquenta anos de James Bond.

Já assisti todos os filmes. E nosso amigo 007 sempre foi um cara que viaja mais que o Zeca Camargo. E, ao contrário do Zeca, come muita mulher. Mesmo que Bond seja britânico dificilmente em algum filme mostra direito como palco o seu país de origem. No máximo umas coisas aqui e ali, isso até a chegada de Skyfall.

Tá, ele tem umas cenas na China e na Turquia e a belezinha da Bérénice Marlohe com suas peitcholas caídas (só eu reparei nisso? Aquele peito tá muito no umbigo pra quem tem pouco mais de trinta anos!). Mas grande parte da boa ação rola em Londres! Seja no Tube londrino, na National Gallery, na sede da MI6 ou então numa paisagem bucólica no meio da Escócia.

Acima de tudo tem uma razão política, claro. Assumir a responsabilidade de ser sede dos jogos olímpicos em tempos de crise num país que cada vez mais tem mais e mais revoltas e violência por conta do desemprego em massa que anda rolando por aí é uma coisa e tanto. Skyfall mostra Bond no seu próprio meio, pelo menos o que ele foi criado de um jeito que até então nunca foi mostrado. Vale muito a pena ver, embora que o vilão seja um psicopata clichê, tipo o Coringa do Heath Ledger.

Tá virando modinha. Não fazem vilões como o Ernest Stravo Blofeld.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Diário de Fotógrafo #19 - Autumn leaves

Outono na Inglaterra é uma das coisas mais bonitas que já vi. =)













terça-feira, 27 de novembro de 2012

IX - O Eremita.



"Bom, agora temos que nos mexer antes do Dietrich. Parece que mudou tudo agora, e provavelmente eles irão atrás de uma pessoa em especial".

"Você acha?", eu questionei.

"Entenda que estamos apenas um passo na frente do Dietrich. Qualquer passo ou pessoa que perdermos será um grande retrocesso. Dietrich poderá usar pessoas queridas contra nós pra conseguir esse testamento do seu irmão mais velho. E acho que o primeiro alvo será...".

20 de abril de 2000Rosario, Santa Fe, Argentina

Eu sempre gostei da Argentina. Povo bonito, cidades bonitas, e Rosario não era diferente. Naquelas ruazinhas perdidas perto da maior área verde da cidade vivia um garoto de apenas doze anos com sua governanta.

"Meu Deus! Por favor, não faça nada!", o garoto implorava.

Ele estava caído no chão, deitado, se arrastando de medo da pessoa que estava na sua frente, se aproximando, portando uma Desert Eagle. Porém, se o objetivo fosse matar o garoto, com certeza o homem já o teria feito.

Era um garoto de cabelos e olhos pretos, pele branca, com um pouco de sobrepeso e completamente amedrontado. Do outro lado estava um homem sem um olho, uma grande cicatriz no rosto, barbas e cabelos desgrenhados, uma roupa completamente rasgada e suja de sangue e terra escondida por um sobretudo. Parecia um grande mendigo, mas em estado ainda mais deplorável. A única diferença é que ele portava uma Desert Eagle.

A governanta estava gemendo no chão. Levara um tiro no joelho e gritava.

A SAS inglesa dificilmente age em países fora da Inglaterra. E ainda se existisse uma ação coordenada na Argentina, país com o qual eles mesmo trucidaram, viraria um grande escândalo diplomático. Mas eles estavam lá, em menor número, acompanhados por mim e pela garota de cabelo lilás.

Com um grande baque na porta eles abriram e adentraram no local. No comando estava cel. Defoe, hoje aposentado da SAS.

"Onde está o meu amigo?", o maltrapilho homem questionou ao garoto, logo depois dos soldados da SAS entrarem e ordenarem que ele parasse.

Foi aí que eu entrei.

O mendigo se virou.

"Al!!".

"Quem diabos é você? Como sabe meu nome?", eu questionei, abismado.

Nessa hora o mendigo se virou.

"Eu estava esperando por você, Al! Eu não sou seu amigo, nem seu inimigo. Vim aqui para parar você antes que seja tarde demais".

"Mas o que você quer? Vingança?"

"Não, não é algo tão comum como vingança. Quero apenas falar com você, e somente assim minha alma pode descansar em paz".

"Ora... Chega disso. Eu preciso desse rapaz. Tire as mãos dele!", eu concluí.

"Al! Me faça sentir! Me faça sentir vivo novamente!".

"O que diabos você...?".

- - - - - - - - - - -

"Tome garoto, coma isso".

Estávamos num contâiner, com apenas uma abertura no teto. Era o melhor caminho, e o mais seguro para andar desapercebido. Aquele garoto era o último dos laços. Um jovem chamado Arthur, nascido em 1988, que tinha uma aparência muito similar a de Arch, mas tinha alguns traços da Émilie também.

"Querida, será que conseguimos falar via rádio? Preciso falar com a Victoire. Esse garoto precisa de cuidados médicos".

"Al, eu não sei como dizer isso, mas parece que a Victoire foi presa".

"Ela foi... O QUÊ?".

A garota de cabelo ruivo ficou em silêncio. E prosseguimos nossa viagem.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Parece que a foto deu certo.


Ai, ai... Sempre tem umas japonesas gostosas.

domingo, 25 de novembro de 2012

Quando eu conheci Jeanne Samary.


Tive a oportunidade de ir para Amsterdam e ver esse quadro ao vivo no Hermitage. Lágrimas brotaram aos litros.

É, Renoir meu velho. Você ainda me emociona como ninguém. Não sei porque mas quando vi esse quadro uma emoção sem palavras me dominou e tudo o que fiz foi chorar. É de uma beleza incrível, difícil de se colocar na forma de apenas uma imagem achada no Google.

Obrigado por essa oportunidade, Pierre-Auguste.

sábado, 24 de novembro de 2012

VIII - A Justiça.



"Hunf... Eu me fodo todo pra ajudar o cara e ele deixou esse recadinho ainda?", eu brinquei.

Estávamos tomando café uma lanchonete. Estava junto com da mesma garota de cabelo lilás, e ela, como sempre, ficou calada ao ouvir meu comentário. Vi que aquele silêncio se instaurou, e eu ainda tava todo machucado ainda. Os médicos disseram que algumas cicatrizes nas costas iam demorar a sair, por isso eu tenho até hoje o hábito de dificilmente tirar a camisa. Fiquei com algumas cicatrizes nas costas.

"Bom, mas pelo menos ele foi um cara digno. Fiquei feliz em tê-lo ajudado", eu concluí, lembrando dos eventos dos dias anteriores.

Nessa hora Yuri entrou correndo pela porta. Ele era uma pessoa um bocado engraçado ás vezes, embora tentasse fazer o tipo sério. Já chegou no restaurante brincando comigo.

"Hey! Eu só não gostei de eu ter que pagar pato nessa estória! Me mandaram aqui pra te proteger, porque diabos você não mandou o Rockefeller esperar um pouco para que aí eu pudesse ajudar vocês dois?".

"Desculpe, Yuri! Eu achei que eu conseguia...", eu disse, ainda dolorido.

Mas eu entendi que esse cuidado que Yuri tinha por mim era por conta da nossa amizade. Indo pra cima e pra baixo com o cara pelos mais diversos lugares é praticamente impossível não criar um laço de amizade com o rapaz. Éramos uma dupla. Quase que dois irmãos naquele tempo.

Ele trouxe uma fita cassete, um bocado suja, com um aparelho pra reproduzir. Aquele treco devia custar um olho da cara naquele tempo. O dono da lanchonete consentiu então fomos ver aquela fita naquela - até então - revolucionária tela de LCD.

Era uma gravação. Eu reconheci na hora quem era. Era Lucca. Embaixo tinha uma data, parecia mesmo um vídeo feito de uma câmera amadora. Ele gravou aquilo em meados de 1995. Mas Lucca não tinha morrido em 1987?


"Al, espero que essa fita chegue em você a tempo. E espero que eu esteja ainda vivo. Acredito que você saiba de tudo sobre seu irmão mais velho e o Coronel, a competição que havia entre os dois. Eu tenho mais detalhes pra te passar, por favor, escute atentamente.

Muitos dos que trabalhavam com nós no Sector 9 hoje são renegados. Se não se mantiveram dentro da corporação, se voltaram contra o sistema querendo arruiná-lo. Mas o meu caso é diferente. Al, eu tive que simular minha morte pois a chave da Dawn of Souls não estava apenas nas mãos do Coronel e do Arch.

A chave do Coronel foi passada pra mim, e ele está em um microchip inserido na minha pele. Todos estão atrás de mim, e não tenho dúvida que logo vão me encontrar. Eu não ligo de morrer, todos nós nascemos pra isso. As pessoas da inteligência não têm vida, somos apenas pessoas que lutam por interesses de segurança por parte da sociedade e dos grandes empresários. Somos apenas ferramentas do governo!

A Dawn of Souls é a nossa única proteção. Ou melhor, era.

A segunda chave, a chave do Arch foi passada pra você. E talvez você se pergunte como, mas preciso que você vá atrás da Émilie, ela está com um crucifixo antigo do Arch, e nele está a chave, por meio de um chip magnético inserido nele. Cabe a você decidir o que fazer com ela.

Eles virão atrás de mim porque sabem. Mas isso do crucifixo eu só soube agora. Essa farsa da minha morte provavelmente vai cair, por mais que eu tente ser discreto. Mas eu acho que esse recado deveria chegar em você de qualquer forma. Nós desafiamos a vida, todo dia é uma luta interminável pela nossa sobrevivência. Ali fora é uma selva, cuidado Al. 

Manter você vivo é o que seu irmão sempre quis, ele te amou até o último momento.

Por isso tenho um último recado. Você já ouviu falar em uma substância que é capaz de envelhecer as pessoas de maneira extremamente rápida, causando uma morte natural onde é impossível que se prove o contrário? É uma pesquisa que começou na época do seu irmão e foi terminada por uma pessoa.

Ficou nas mãos de uma novata promissora, chamada... Victoire Delacroix"


A fita ficou com aquele chuvisco, indicando que a gravação tinha terminado. Na hora, ela olhou pra mim com surpresa, e fitou meu crucifixo. Foi uma das únicas vezes que eu a vi com uma expressão diferente: seu rosto mostrava um pavor e surpresa indescritíveis.

"Meu Deus... A chave está comigo...", eu pausei, suava frio e coloquei na minha mão o crucifixo, "Ela está bem aqui...!".

"Al, esse crucifixo... Você me disse que quem te deu foi a Émilie, naquele dia no helicóptero, não?", a garota perguntou.

"Sim", eu terminei.

Na hora caiu uma pequena lágrima do meu olho. O crucifixo era o testamento final do meu irmão mais velho. Mas porque Lucca disse isso tudo sobre Victoire? Será que ele sabia de algo? Algo que eu deveria temer?

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Livros 2012 - #17 - Many lives, many masters.

Quando estive no Japão conheci no Saito Homa um chinês muito simpático que fiz amizade, chamado Boris Ho. Ele me indicou um livro e disse que nele eu iria tirar muitas das dúvidas que tenho sobre reencarnação e coisa e tal. Chama-se Many lives, many masters.

Comprei quando estava andando perto da Saint Paul Cathedral em Londres. E comecei a devora-lo nas longas viagens no Tube londrino.

Indico bastante. Mesmo não sendo budista dá pra perceber que toda nossa vida não passa mesmo de um ciclo. Que estamos hoje aqui dividindo o mesmo momento não é apenas uma coincidência, que provavelmente já nos conhecemos em vidas passadas e tivemos algum enlace. Seja com seu esposo, com seu grande amigo ou sua família.

E que devemos continuar assim, indo e voltando pois tudo isso aqui é muito passageiro. Por isso mesmo o importante é acumular e fazer o bem ao máximo quanto puder para ir limpando todas as coisas ruins que ficaram pra trás. Livro incrível!

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

VII - O Carro



"Al? Você por aqui?", disse uma voz inquisitora próximo de mim.

Estava uma garoa fina e um vento gelado. Fort Meade, sede da temida NSA. A agência de segurança que ninguém tinha vontade de mexer. O jovem Rockefeller foi enviado para uma missão naquele local. O mesmo Rockefeller que há mais de dez anos havia participado do expurgo e assassinato do meu irmão mais velho.

O único empecilho era que quem iria escoltá-lo, seria eu.

"Eles estão me achando com cara de office-boy", eu iniciei, coberto por uma capa para me proteger da chuva, sentado no chão, "Dos confins do Chile, me mandam para o meio da Sibéria ocidental, e agora aqui, Washington. E para proteger um cara na mesma situação que a minha".

"Al, justo você?", o jovem Rockefeller iniciou, mas logo depois sua voz parecia ter adquirido um tom de aceitação, "Minha missão será adentrar aquele corredor, vamos invadir a NSA pela porta da frente, o local mais seguro. Porém, uma vez que eu estiver dentro daquele prédio eu serei um alvo fácil. Inclusive pra voc...".

"...É. Talvez sim", eu disse, encarando um dos algozes do meu irmão.

O problema não era proteger ele. A garota do cabelo lilás não estava lá, estava na Grécia, mas logo iria me encontrar em Washington. Eu estava prestes a ajudar um dos caras que mataram meu irmão mais velho há mais de dez anos. Isso me incomodava muito. Mas somente eu poderia fazer isso, uma vez que fui designado exatamente pra isso.

Rockefeller adentrou o local, junto de mais três homens. Eu fiquei estacionado na porta, observando o movimento. De acordo com nossos planos ninguém entraria naquele momento. Foi aí que um homem, de roupas pretas se aproximou da porta.

Eu o parei na hora.

"Deixe-me advinhar. Você deve ser o Al, filho mais novo do Arch", ele disse de primeira. Eu fiquei um pouco assustado mas não demonstrei surpresa, "Justo você protegendo um dos caras que mataram seu irmão? Vamos lá, deixe-me passar. Tenho um acerto de contas com aquele jovem Rockefeller".

Eu não percebi, mas na hora levei um forte golpe no estômago. A dor é indescritível, eu apenas caí e segurei a barriga. A dificuldade de respirar é o que mais incomoda, pela dor, e pela contração do diafragma. Tudo a minha volta rodava, e via o homem chegar cada vez mais perto da porta.

Num impulso, ainda sentindo fortes dores me ergui. Era apenas eu e o homem de preto. Segurei-o pelo ombro. Ele parou.

"Aceite seu destino. Você não pode fazer nada contra ele. Não acredita em destino, jovem?"

"Não", eu respondi.

"Então me dê licença e me aguarde. Não levarei mais do que cinco minutos, e trarei o cadáver desse Rockefeller", o homem disse. Na hora pude ver seu punho vindo de novo. Eu desviei e o prensei na parede.

As palavras que eu disse eu jamais me esqueci.

"Eu não acredito em destino. O destino a gente não pode mudar. Se eu acreditasse em destino seria o mesmo que acreditar que o meu irmão mais velho teve que morrer mesmo sendo inocente", eu iniciei, "Por isso, se você diz que o seu destino é matar o Rockefeller, eu farei de tudo para impedir que isso aconteça!".



O homem de preto havia deixado o recinto. E lá estava eu, caído no chão. Minhas costas estavam todas feridas (as cicatrizes guardo até hoje), e acho que em algum momento ele havia injetado algo em mim. Alguns soldados vieram ao meu auxílio e do homem misterioso também, mas mesmo assim acabamos levando uma surra.

Foi quando uma sirene soou em todo o prédio que eles fugiram, feridos. Eu não tinha forças, e estava mais apagado do que lúcido. Estava perdendo sangue e tinha muitos hematomas. Foi aí que Rockefeller saiu do prédio, vitorioso da sua missão.

Ele me carregou até o Hospital St Elizabeth, onde a garota do cabelo lilás estava me aguardando.

"Aqui está ele. Gostaria que por favor, desse um recado pra ele quando ele acordar", disse o jovem Rockefeller.

"Ele está bem ferido mesmo, precisa ser hospitalizado imediatamente. Mas diga-me sim, eu passarei o recado a ele".

"Diga que, quando eu estava dentro daquele prédio pude sentir e ouvir a dedicação que ele teve, e a força inabalável. Isso me fez lembrar do falecido irmão, e seu senso de justiça sempre presentes. Ele usou quase que sua própria vida pra proteger eu, do qual ele poderia ter qualquer sentimento de mágoa. Diga que sou muito grato, e quando ele precisar de mim, estarei pronto para ajudá-lo como ele me ajudou".

Fui hospitalizado ainda naquele dia. Acho que foi mais ou menos aí que comecei a olhar a garota com outros olhos. Ela ficou dia e noite ao meu lado no leito. De alguma forma os meus sentimentos estavam transformando ela.

domingo, 18 de novembro de 2012

VI - Os Enamorados



Extraído do diário de Noriko Yamamoto.

Eu não consigo explicar o que eu sinto pelo Lucca. Quando estamos juntos é tão bom. Ele fica tentando diversas comigo mas nós nunca daríamos certo. Não entendo como uma pessoa segura e confiante como ele se dá tão bem com alguém tão diferente como o Arch. (...)

Estava conversando com ele [Lucca] sobre o desaparecimento do Coronel. É claro que isso foi uma armação. Nós que estamos nessa vida somos proibidos de termos uma vida comum. Não temos o direito de viver, nossa vida é uma constante luta pela sobrevivência. Uma vez que você é um instrumento do sistema não existe mais você. O que existe é a vontade da sociedade e das leis que operam em você, e caso você não as obedeça, é severamente punido.

Acredito que o Coronel foi uma armação das pessoas do topo. Arch está numa ascensão meteórica, e acho que ele guarda alguma coisa junto do Lucca que ainda não descobri. 

[Noriko não descobriu sobre o "segundo emprego" que Arch tinha, no submundo da investigação]

[Durante o tempo em que seu filho foi sequestrado Noriko não escreveu mais no seu diário. Vários dias foram deixados em branco sem nenhum único texto. Apenas escreveu algo no dia 22 de julho, um dia depois do assassinato do meu irmão mais velho]

Arch foi executado ontem. Nesse momento estou na Checoslováquia. Não sei onde meu filho foi parar, mas ontem recebi uma carta do Arch enviada por um dos que o mantiveram no cárcere.

Ele foi capturado pelo Mikail. E uma das pessoas que cuidaram de sua execução foi justamente o Rockefeller. Vi o seu irmão mais novo chorando no caixão que estava vazio. O pobre coitado nem vai ter direito de enterrar seu irmão.

Onde diabos colocaram o corpo do Arch? Porque esconder? O corpo do Coronel também não foi mostrado até hoje... Será que ele estaria vivo e isso foi tudo armado?

Hoje de manhã me encontrei com o Lucca. Ele estava apenas com uma mochila nas costas, e percebeu que tinha gente no seu encalço. Porque estariam atrás dele? Eles teriam capacidade mais que suficiente de nos achar em um piscar de olhos, mas por algum motivo que desconheço estão apenas no encalço do Lucca. O que será que aconteceu?

- - - - - - - - - - -

Eu estava sentado na mesa. A minha esposa já tinha ido dormir. Minha cabeça estava pulsando de tanta dor. Vivíamos num grande andar separado, mas na teoria qualquer um poderia entrar em qualquer quarto. Só que eu nem percebi a porta se abrindo, muito menos quem entrou.

Era uma mão feminina e ficou no meu ombro.

"Pobre, Al... Está bem?", era Victoire.

Eu mal conseguia olhar pra ela. Minha cabeça estava um turbilhão de caos, não conseguia raciocinar nem sequer tirar as mãos da cabeça.

"Victoire... Por favor, fale comigo. Me fale alguma coisa pra eu parar de pensar nessa dor!".

Ela puxou uma cadeira sem jeito e sentou. Ficou olhando meio sem jeito pra mim e o silêncio tomou conta da sala.

"Al, desculpe... Eu não sou uma pessoa que fala muito".

"Me fala sobre você então. Tem alguma família?"

Ela virou pro lado e esboçou uma cara séria.

"Não tenho boas lembranças disso. Eu só tive uma irmã mais velha que cuidou de mim quando eu era criança, me levava na escola, preparava minha comida e cuidou de mim como uma mãe".

"Hum... E onde ela está agora?".

"Ela morreu."

"Eu... Sinto muito".

"E você? Família? Amigos?".

"Eu tive um irmão também. Ele cuidou de mim, era mais velho. Mas faleceu".

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

V - O Hierofante.



5 de julho de 2000
16h41

"Lembro-me até hoje do dia em que tive que decidir quem seria meu sucessor. Era entre você e Dietrich".
"Sim, senhor. É por isso mesmo que eu vim aqui. Eu gostaria de sair".

"O quê? Arch! É a nossa chance de escrevermos um capítulo na história! Olhe pra mim, eu estou morrendo! Esse câncer está me consumindo, e sinto que não tenho muito mais tempo de vida, por isso eu e Schultz confiamos em você!".

Esse foi um pedaço da conversa que houve entre o Coronel e Arch, ouvido por Lucca. Alguns dias depois o velho foi sequestrado e não resistiu ao cativeiro, sucumbindo em poucos dias. Arch assumiu o posto de líder ainda muito jovem.

Existem duas chaves para a Dawn of Souls. Uma das chaves é uma senha, uma única palavra, que deve ser dita pelo próprio Coronel. A outra chave pertence ao Arch, cujo paradeiro é desconhecido.

"Rápido, Al! Ele está fugindo!", ela disse pra mim, apontando para que eu corresse. O local estava uma bagunça, parecia que um exército inteiro havia baixado no local, embora fosse apenas alguns homens da SAS.

Eu estava segurando Yuri. A Dawn of Souls estava lá. A Scotland Yard usou Dietrich pra encontra-la, e ideia era me usar para tomar dele e depois destruirmos de uma vez. Dietrich corria desesperadamente pelos corredores.

"Vá, Al. Deixe-me aqui.", sussurrou Yuri.

"Ei, Yuri! Cala essa boca! Tá me menosprezando, é? Eu não vou te deixar aqui...", nessa ela ela puxou Yuri, que estava apoiando em mim, totalmente ferido. Ela olhou nos meus olhos e disse firmemente:

"Vá, moleque. Deixe o Yuri comigo", disse a garota de cabelo lilás.

Mas não daria tempo.

Agora a Dawn of Souls estava perdida. Dietrich colocaria as mãos e daria um jeito de abri-la. Mas e com o velho e Arch mortos? Eu fui correndo, com alguns homens da SAS atrás de mim. Lembro que o nome do primeiro era Simmons, algo assim. Mas o meu medo era o que Dietrich teria deixado no caminho.



Duas enfermeiras estavam cuidando daquele homem na cadeira de rodas. Ele parecia alguém muito próximo da morte. Permanecia com os olhos abertos, piscando uma vez ou outra. Não tinha cabelos. Sua cadeira de rodas era uma verdadeira nave: soro, medicamentos, monitores cardíacos.

De alguma forma aquele velho tinha que permanecer vivo. E aquele aparato todo era para mantê-lo em algum regime bizarro de subsistência. Sua respiração se dava por máquinas. Seus dois braços estavam com coisas ingeridas. Um estado vegetativo ao extremo.

De súbito Dietrich abre a porta. Ele se aproxima do cofre que existia naquela sala escura e úmida. Estava ofegante.

Nada poderia para-lo naquele momento. No lugar mais protegido da Scotland Yard seu maior inimigo adentrara. E agora ele iria colocar suas mãos em tudo o que ele buscara em tanto tempo.

É o fim. Ele venceu. Não... Ainda não, Dietrich. Eu posso estar aqui nesse estado, mas... Eu ainda estou aqui. E não vou deixar que nada de ruim aconteça, pois eu ainda sou um guardião da commonwealth!

Aquele corpo que antes estava em estado vegetativo começa a se mexer. Seus músculos estavam atrofiados, e seu cérebro parecia estar dando o último suspiro. As enfermeiras ficaram assustadas com a súbita ação - fazia meses que seu único movimento era abrir e fechar os olhos.

O coração dele começou a bater cada vez mais forte.

Dizem que o corpo humano quando deseja a morte, apenas o desejo é capaz de fazer um coração morrer. Nesse momento não existe instintos, não

O dreno da sua boca fazia um barulho estranho. E da sua garganta saía um grito agonizante. De alguma forma aquele som me guiou até sala.

As enfermeiras tentavam segurá-lo mas era tarde. Esse foi o último suspiro do velho Coronel.

Ele havia se suicidado.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Micão em Londres.


Em Londres é verdade que muita gente fica tocando música nas ruas! É uma cidade que tem que fazer isso pra dar uma animada nas pessoas, porque francamente, deve ser um bocado depressivo morar numa cidade cinzenta e escura. Pra quem manja de fotografia pra ter uma noção da "luz" daqui: mesmo ao MEIO DIA eu estava usando ISO 800.

Em São Paulo eu uso ISO 800 só a partir das 17h e olhe lá!

Por isso que aqui as coisas são muito coloridas. Especialmente os trens. Se você acha São Paulo depressiva, é que você não conheceu Londres. Especialmente agora que tá mais friozinho.

Um dia desses estava andando em South Kensington e lá tinha um cantor na estação. Ele tava cantando uma música muito bacana e fiquei ouvindo e depois fui perguntar pra ele qual o nome da música. Porém, pra quem só lida com sotaque americano a vida inteira é difícil entender de primeira o que um britânico quer falar.

Eu entendi de primeira ele falando "Back to God". Mas na verdade se tratava da música Back to good, do Take That. Nem preciso dizer que o carinha tinha talento pra música. Assim como a grande maioria dos malucos que ficam cantarolando no "Tube".

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

IV - O Imperador.



Era uma noite com trovoadas e muita chuva.

Mikael adentrou no local na sala de Dietrich. Fazia alguns meses que Arch havia sido executado.

"Senhor Dietrich, sou eu, Mikael. Já faz alguns meses que o Arch foi executado naquela emboscada", iniciou Mikael.

"Sim, Mike. Arch foi um traidor, junto do Capitão. Ambos sofreram as consequências de sua escola. Dois grandes traidores!".

"Eu não duvido. Mas, naquele dia em que fomos atrás de Arch, ele não esboçou nenhuma reação. Ele foi em paz com nossos homens. Sequer levantou um dedo contra eles. Acima de tudo, quando olhei pros olhos dele, vi uma paz de espírito imensa", Mikael disse.

O velho olhou fixamente pra Mikael. Seus olhos verdes e cabelos louros grisalhos fitaram ele no fundo de sua alma. Era o jeito de controlar as pessoas que só Dietrich tinha. Ele queria ir até o fim daquela conversa.

"Arch foi um traidor. Onde você quer chegar com essa conversa?", Dietrich questionou.

"Senhor, o que quero dizer é que aqueles olhos não eram olhos de um traidor. Muito menos de um assassino. Arch sempre demonstrou uma justiça e um bom senso inabaláveis, então porque ele, que confiávamos nele, faria uma coisa dessas? Eu não compreendo!".

"Mikael, Mikael, Mikael...", Dietrich disse, ficando em pé, "Quero que veja uma coisa. Logo depois daquela porta existe algo que você vai se espantar em ver".

"E sem contar que a morte do Coronel foi muito misteriosa! Não consigo conceber a ideia de que Arch seria o culpado do sequestro do velho e depois seu expurgo! Ele era meu amigo, eu confiaria nele de olhos fechados?".

"Pois então veja o que tem logo atrás daquela porta. Eu prometo que isso vai mudar tudo o que você pensa".

Mikael se aproximou da porta e abriu. Dietrich sentou-se logo num estofado próximo e ficou de frente para ele. O jovem russo deu uma pequena olhava pra trás, um último relance pra Dietrich antes de abrir a porta. O velho lhe deu confiança, parecia dizer com seu olhar "vai, siga em frente"!

O que Mikael viu atrás da porta o deixou horrorizado. Ele deu um grande grito e levou suas mãos na cabeça, caindo pra trás depois do grande susto. Dietrich levantou-se e fechou a porta. Pegou Mikael, que embora seja forte, não conseguia compreender o que tinha visto. Estava em estado de choque com o que via logo atrás.

"Você entendeu agora, Mikael, meu caro? Eu sou a justiça. Eu sou o sucessor. Você questiona Arch, mas o que você viu atrás dessa porta mudou tudo, não? Me obedeça a partir de agora, Mikael. Sou seu líder, quero ganhar seu respeito e admiração. Consegue me compreender agora?", disse Dietrich, segurando Mikael pelo colarinho, com os olhos esbugalhados e em choque.

Tudo o que Mikael conseguiu dizer naquele momento foi repetir em choque uma palavra:

"Jus... ti... ça...?".

Uma enfermeira aplicou um sedativo e o levou pra fora. A ideia de Dietrich era fazer aquilo tudo parecer um sonho.

"Bom, essa é a prova final. Somente o sacerdote conseguiria usar essa técnica contra um rebelde. É a prova final que eu mereço, definitivamente, estar onde estou", disse Dietrich, depois que Mikael inerte foi levado pra fora.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

III - A Imperatriz



Izhevsk, Russia
17 de fevereiro de 1998
11:12 pm


"Abaixe-se! Abaixe-se!", disse o major adentrando ao recinto com uma arma em punhos.

Logo incontáveis homens invadiram também pelas janelas, todos envolvidos por cordas. A ação toda durou apenas alguns segundos: haviam sentinelas em um raio de dois quilômetros em cada esquina, a rua estava cálida e calma. Ninguém poderia entrar naquele prédio, muito menos sair.

Uma mulher estava algemada e com os olhos vendados. Estava ainda trajando suas roupas de dormir. Dentro do seu guarda-roupas foi encontrado dois fuzis russos. Mesmo assim, ela aparentava estar calma, mesmo sabendo que sua vida com regalias de traficante internacional de armas acabaria ali.

Era o princípio do que hoje chamam de "economia de guerra" pós-guerra fria.

Eu entrei no lugar passando pela escolta. Pedi para apenas um guarda ficar no local na sala de estar que estava totalmente remexida: todos os móveis haviam sido tirados, e ela estava sentada numa cadeira, de pijamas, com as mãos presas e os olhos vendados.

Quando a venda foi retirada a traficante viu meu rosto. E se assustou.

"Não... Não é possível!", ela falou alto, abismada. Mas depois ela parou e ficou me encarando. "Essa... Essa cicatriz na sua sobrancelha. Isso você não tem. Você não é o Arch!".

"O que mais me impressiona é uma pessoa como você, que foi do grupo justiceiro do meu irmão, hoje estar aqui, envolvida no tráfico de armas. Eu sou o irmão mais novo dele, pode me chamar de Al. Eu mandei nos deixar sozinhos porque tenho umas perguntas a fazer pra você".

Na sala também estava ela, também conhecida como minha futura esposa, que já estava trabalhando comigo. A garota de cabelo lilás.

Eu soltei as algemas dela e deixei ela livre. Ela me olhou com um olhar incrédulo. Ela sabia que de qualquer forma ela seria presa, mas de alguma forma inconsciente ela ficara feliz em me ver. Ela pediu pra eu sentar e me contou tudo, pois sabia que o tempo era curto.

Meu irmão mais velho quando entrou pro ramo da investigação teve uma ascenção meteórica, especialmente por conta do seu padrinho e tutor, o sr Schultz. Porém quando ele subiu e olhou lá de cima viu o quão o ser humano era mesquinho, e resolveu em algum momento fazer justiça com as próprias mãos.

Nesse momento Schultz sai de cena pra entrar o Coronel Briegel.

O Coronel, como era chamado, era o líder do Sector 9, um dos setores-baixos de uma renomada agência. Ser "baixo" não significa ser inferior, mas estar na base de tudo, ter acesso a tudo. Foi nesse setor que Arch entrou e rapidamente ganhou a confiança do velho Briegel. Os dois sabiam das coisas que aconteciam por debaixo dos panos naquele local e graças as conversas que tinham rapidamente colocaram o seu plano em execução.

Porém ninguém contava com um terceiro elemento. Que era Émilie, que mantinha um contato secreto com o Coronel e Arch ao mesmo tempo. Nenhum dos dois sabiam.

Em algum momento a visão do Coronel não estava mais alinhada com os valores de vida que Arch tinha. Arch era um idealizador, o Coronel já era mais realista. Porém, o Coronel sofria de uma saúde frágil devido à sua idade avançada. Na época ele já passava dos oitenta anos, e lutava contra diversas doenças (desconhecidas).

Em 1987 sua saúde foi piorando. Em 1988 ainda em recuperação foi sequestrado e posteriormente executado em cárcere.

Sem o Coronel, Arch sentiu-se na honra de continuar o trabalho. Porém Émilie já tinha agido antes, entregando um dossiê delatando tudo o que Arch e o Coronel haviam feito, colocando em cheque a própria credibilidade da intocável agência mundial.

O Sector 9 foi classificado como DISAVOWED. A maior punição seria exatamente essa, que qualquer operação ou ação sua seria ilegal a partir daquele momento. Foi aí que Arch se desvinculou da Interpol e começou a trabalhar sozinho visando não apenas recuperar sua credibilidade como também fazer o Sector 9 voltar aos seus dias de glória, e recuperar sua própria honra.



"Pegue ali na minha agenda. Existe um endereço, quero que você veja lá pra mim o que tem", disse Agatha van der Rohe, a traficante de armas.

Guardei o papel. A última coisa que ela disse antes dos policiais a levarem detida foi:

"Procure a verdade, Al. Vá até o fim".

terça-feira, 6 de novembro de 2012

II - A Papisa



1988

Émilie enquanto Arch estava na França saiu várias vezes me deixando sozinho em nossa casa, na Inglaterra.

Saía antes do meio dia e voltava sempre perto das nove da noite. Quase todos os dias. Um dia trouxe uma pasta, lacrada de metal, daquelas prateadas onde se guardam valores.

Um outro dia dois senhores entraram em casa junto dela, e ficaram na sala de jantar conversando durante horas em francês (não entendia nada, pois não sei o idioma).

Sem dúvida estava tramando algo. Mas até hoje permanece um mistério.

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1996

"Eu acho que conheço esse aqui, mas não sei da onde", eu disse, apontando pras fotos que Noriko deixara.

A garota do cabelo lilás, minha parceira, ficou analisando aqueles documentos.

"Não tenho ideia de quem seja", ela disse, "Conhecemos apenas seu irmão mais velho, Noriko e Lucca. E esse velho que você disse que lhe é familiar".

Sentei de volta no sofá e fiquei olhando pra ela. Sentia nojo de ter que trabalhar com uma pessoa fria como ela. Parece que o nosso chefe estava em algum lugar dando muita risada em ver nós dois sendo obrigados a trabalhar juntos.

Fomos ao encontro da senhora Vittorio.

"Quero que leve esse homem com vocês. Seu nome é Yuri. Ex-militar, decidiu deixar o exército para entrar na inteligência. Yuri, seu objetivo é escoltar esses dois jovens sãos e salvos", disse Francesca.

"Sim, madame", disse Yuri, que nos conduziu até o Heathrow.

Pegamos o voo do final da tarde. Foi aí que tudo se encaixou.

"É ele!", eu disse apontando pra foto do velho que me era familiar, "Foi ele que estava comigo na Espanha e me deu aquela fita dizendo que meu irmão estava vivo! Eu não tenho dúvidas! Está aqui o nome dele, Otto Dietrich. Narcotraficante internacional. Parece que temos que acabar com a festinha dele lá na Espanha".

Alguns meses depois conseguimos prendê-lo. Me designaram para interrogá-lo.

"Ora, ora... O pequeno irmão de Arch. Lembra-se de mim? Eu te ajudei a acender aquele seu cigarro. Mas pelo visto você não parou de fumar...", Dietrich começou.

De fato, eu estava com um cigarro na boca. Nicotina era a única coisa que me acalmava, e foi se tornando um vício pra mim por volta da adolescência. Todos ficavam falando coisas ruins de mim por trás, por eu ser o irmão do traidor. O cigarro era meu consolo. A nicotina, meu abraço materno.

"Você me enganou, velho. Meu irmão não estava vivo. E ainda me deu aquela fita que me levou a nada. Porquê?", eu perguntei.

"Ei, ei, ei... Pera lá!", disse Dietrich, "Você encontrou a Émilie! Acabei de ajudando. Mas pelo que ouvi, uns passarinhos me contaram que ela te deu apenas um crucifixo e depois virou de costas pra você", ele prosseguiu.

"Seu idiota. Então foi tudo planejado por você?!", eu disse, encarando-o.

"É apenas o começo, pequeno Al. Não existe diferença entre bandidos e a Inteligência. Todos nós usamos meios anti-éticos e imorais para conseguir o que queremos. A diferença é que vocês estão aí pra tornar o sistema regular, obedecer a vontade de uma maioria, enquanto nós estamos aqui para oferecer um 'segundo caminho' longe do que vocês impõe. Não existe diferença entre bandidos e mocinhos no mundo. Vocês fixam isso porque têm o apoio da ética e da sociedade".

Dietrich acabou se suicidando na prisão, uma semana depois, com uma capsula de cianureto que acabou chegando ao seu alcance de maneira até hoje não solucionada.

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"Essa é Victoire Delacroix. Vai se juntar a nossa área médica. Ela é uma entusiasta de biologia e corpo humano, vai ser de grande valia", disse dona Francesca.

Ela era de fato bonitinha. Mas tinha um ar triste. Pelo nome e sobrenome devia ser francesa. Mas na Europa a gente dificilmente deve apontar o dedo e dizer, ainda mais hoje em dia. Foi só ela abrir a boca que reconheci seu sotaque puxado.

"Prazer, Al. É uma honra trabalhar com você. Estou assumindo a parte médica da nossa organização. Posso pedir alguns exames e algumas vacinas pra fazermos um check-up?".

Recebi as guias. Me senti mais confiante, ela era séria, e parecia saber o que estava fazendo.

sábado, 3 de novembro de 2012

I - O Mago



março de 1988

"Meu Deus... Não acredito!".

Arch não sabia o que dizer. Seu diretor havia sido sequestrado. Curiosamente, veio depois de sua demissão um dia antes, até então inexplicável. Quando chegou no escritório junto de Lucca não acreditou no que viu. Tinha uma grande pasta e um carimbo vermelho que se destacava.

Sector 9 - DISAVOWED

Por um momento Arch ficou calado, vendo aquele grande carimbo vermelho que desautorizava qualquer ação por parte dele. Provavelmente naquele mesmo dia tudo estaria acabado, todos seriam obrigados a voltar para suas casas, ficar no aguardo de uma nova chamada, ou serem simplesmente jogados no olho da rua. Mas Arch, de alguma forma, não queria isso. E naqueles segundos que ele pensou tomou uma decisão enquanto somente havia ele e Lucca dentro do recinto.

"Pegue todos os documentos que precisamos. Vamos terminar isso, só que em outro lugar", disse Arch, enquanto ia apressado abrindo todas as gavetas e recolhendo todas as evidências criminais.

"Mas... Arch! Você tá doido? Está escrito aqui, nós não existimos mais, provavelmente dentro de alguns minutos eles virão aqui e trancarão tudo isso", disse Lucca, apreensivo.

Arch ignorava e continuava revirando as gavetas, procurando tudo o que poderia levar.

"Esse é o momento de mudança", Arch falou, enquanto Lucca ficava na sua frente, sem reação, "A partir de agora, eu sou o líder. Acho que já estávamos divididos o suficiente, as coisas não vão ser muito diferentes. Acho que isso é um sinal, meu amigo!".

"Sinal? Como assim?".

"Um sinal para que nós finalmente consigamos o que queríamos. Você não acredita em milagres?", disse Arch, dando um sorrisinho.

Deus escreve certo em linhas tortas. Parecia difícil. Não existiria mais o apoio dos veteranos. Eram um bando de jovens adultos liderados pelo mais novo deles. Mas ele não achava que isso seria um impecilho. Poderia ser realmente um momento de mudança.

Quando Lucca juntou o primeiro monte de documentos ele já sabia: Daquele momento em diante, não haveria mais volta. Era tudo ou nada.

Arch no mesmo dia foi em sua casa, pegou algumas roupas, duas grandes malas (uma cheia de papéis e evidências) e ele não teve tempo para se despedir adequadamente. Disse para Émilie que iria para algum lugar na Oceania, possivelmente ao Fiji. Disse que ficaria algumas semanas por lá, pois o quanto mais se isolasse mais chance teria de ficar vivo.

Para mim, uma criança na época ele apenas disse que ia viajar, mas voltaria em algumas semanas.

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"Senhor George Younger?".

"Estou ouvindo, senhor".

"Uns dias atrás o edifício contendo o Dawn of Souls foi destruído em um incêndio. O Setor 155 me informou que foi um incêndio criminoso e poucas pistas foram encontradas. Existe o boato que uma cópia do Dawn of Souls foi levada".

"O senhor está falando sério?", o senhor Younger estremeceu, "Isso é muito grave!".

"Se nenhuma providência for tomada eu não vou ter escolha a não ser ir atrás de quem iniciou esse incêndio criminoso e descobrir se ele fez algo no prédio antes de incendiá-lo. Se a Dawn of Souls cair nas mãos de alguém tudo estará acabado".

"Sim... A síndrome da China será realidade. Estaremos perdidos!"

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Tipo de estória que também é estranha demais pra ser verdade.


Que todos lembram disso, acho que sim.

Agora é a hora de contar o que aconteceu doze anos antes.
Pegasus Tale [ reminiscences ]

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

De agora em diante é vetado.

"Meu irmão tem um par de asas. São as asas mais lindas que já vi na vida! Ele pode voar, ele é livre, e sua pureza de espírito é imbatível. Eu gostaria de ter, mas não tenho asas como ele...", eu pausei.

"...Mas eu tenho duas pernas que se fincam no chão. E todas as vezes que eu cair, elas me farão levantar uma, duas, três ou quantas vezes fossem necessárias! E é nas minhas pernas que estão minha força, e elas que me ajudarão a me erguer e a seguir em frente sempre!", concluí.


Noriko pegou sua bolsa. Parecia que ela sabia o quão determinado eu estava naquele momento. De lá tirou um case de floppys e me entregou.

"Al, esse será o meu presente de despedida. Aí estão a localização e alguns dados - incluindo o nome real - de todos os agentes que trabalharam com seu irmão mais velho. E nesse último...", ela retirou um disquete vermelho, "...Deixei separado e codificado os dados sobre todos os que eram da equipe do seu irmão, até a sua morte".

Olhei aquela caixa por um momento. Era tudo o que eu mais precisava, pistas para descobrir e poder provar enfim que meu irmão nunca foi um traidor. Com aquilo nas mãos eu poderia ir atrás das pessoas e descobrir testemunhas-chave para enfim limpar a sua reputação.

"Por que você tá me dando isso?", eu questionei.

"Porque eu confio em você, oras. Al, busque a verdade. Eu estou te dando a chave que são esses disquetes. O resto, vai de você ir atrás ou não".

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Alguns dias depois estava na frente da tumba do meu irmão, orando. Foi aí que uma garota da minha idade se aproximou e depositou uma flor na tumba ao lado e começou a rezar também.

"Então aí que está enterrado seu irmão, aquele que foi julgado como um traidor?", ela iniciou.

Não aguentei de fúria e virei pra ela com a intenção de lhe dar um empurrão.

"Não fale do meu irmão na minha frente! Quem você acha que é?", eu disse. Mas ela sequer esboçou uma mínima reação. Nem susto. Eu me senti congelado pela sua frieza e total racionalidade. Ela olhou pra mim, erguendo a mão em gesto de desculpas.

"Me desculpe a minha falta de jeito. Não sabia que você era tão sentimental. Não é muito meu estilo, mas é interessante de se ver".

"O quê?! Tá me chamando de miolo mole, é?", eu disse, um bocado esquentado.

Algumas horas depois, naquele mesmo dia, nosso chefe disse que iríamos trabalhar juntos. Justo eu e ela, que somos tão diferentes um do outro, trabalhando juntos. Obviamente eu não concordava, mas ela sequer esboçava uma reação. Parecia concordar, não via nenhum empecilho.

"Não! Não é possível!! Eu me recuso! Ela é totalmente diferente de mim, e porque diabos eu tenho que dividir glória com uma mulher tão fria e calculista como ela?!", disse eu aos berros.

"Não vejo motivos para me opor. Acho que podemos trabalhar bem juntos", ela disse.

Nesse momento as engrenagens das nossas vidas se uniram. Eu não vou falar o nome dela, nem inventar um pseudônimo. Chamarei ela como sempre chamei: ela, garota do cabelo lilás, minha falecida esposa. Mal eu sabia que a partir daquele momento nossas vidas se encaixariam e as engrenagens começariam a girar, até o momento em que adquirissem uma velocidade insana.

Pessoas usam o termo "chuva de sangue" para falar de uma catástrofe, mas o senhor realmente faz chover, né? Uma chuva de sangue.

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