quinta-feira, 1 de novembro de 2012

De agora em diante é vetado.

"Meu irmão tem um par de asas. São as asas mais lindas que já vi na vida! Ele pode voar, ele é livre, e sua pureza de espírito é imbatível. Eu gostaria de ter, mas não tenho asas como ele...", eu pausei.

"...Mas eu tenho duas pernas que se fincam no chão. E todas as vezes que eu cair, elas me farão levantar uma, duas, três ou quantas vezes fossem necessárias! E é nas minhas pernas que estão minha força, e elas que me ajudarão a me erguer e a seguir em frente sempre!", concluí.


Noriko pegou sua bolsa. Parecia que ela sabia o quão determinado eu estava naquele momento. De lá tirou um case de floppys e me entregou.

"Al, esse será o meu presente de despedida. Aí estão a localização e alguns dados - incluindo o nome real - de todos os agentes que trabalharam com seu irmão mais velho. E nesse último...", ela retirou um disquete vermelho, "...Deixei separado e codificado os dados sobre todos os que eram da equipe do seu irmão, até a sua morte".

Olhei aquela caixa por um momento. Era tudo o que eu mais precisava, pistas para descobrir e poder provar enfim que meu irmão nunca foi um traidor. Com aquilo nas mãos eu poderia ir atrás das pessoas e descobrir testemunhas-chave para enfim limpar a sua reputação.

"Por que você tá me dando isso?", eu questionei.

"Porque eu confio em você, oras. Al, busque a verdade. Eu estou te dando a chave que são esses disquetes. O resto, vai de você ir atrás ou não".

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Alguns dias depois estava na frente da tumba do meu irmão, orando. Foi aí que uma garota da minha idade se aproximou e depositou uma flor na tumba ao lado e começou a rezar também.

"Então aí que está enterrado seu irmão, aquele que foi julgado como um traidor?", ela iniciou.

Não aguentei de fúria e virei pra ela com a intenção de lhe dar um empurrão.

"Não fale do meu irmão na minha frente! Quem você acha que é?", eu disse. Mas ela sequer esboçou uma mínima reação. Nem susto. Eu me senti congelado pela sua frieza e total racionalidade. Ela olhou pra mim, erguendo a mão em gesto de desculpas.

"Me desculpe a minha falta de jeito. Não sabia que você era tão sentimental. Não é muito meu estilo, mas é interessante de se ver".

"O quê?! Tá me chamando de miolo mole, é?", eu disse, um bocado esquentado.

Algumas horas depois, naquele mesmo dia, nosso chefe disse que iríamos trabalhar juntos. Justo eu e ela, que somos tão diferentes um do outro, trabalhando juntos. Obviamente eu não concordava, mas ela sequer esboçava uma reação. Parecia concordar, não via nenhum empecilho.

"Não! Não é possível!! Eu me recuso! Ela é totalmente diferente de mim, e porque diabos eu tenho que dividir glória com uma mulher tão fria e calculista como ela?!", disse eu aos berros.

"Não vejo motivos para me opor. Acho que podemos trabalhar bem juntos", ela disse.

Nesse momento as engrenagens das nossas vidas se uniram. Eu não vou falar o nome dela, nem inventar um pseudônimo. Chamarei ela como sempre chamei: ela, garota do cabelo lilás, minha falecida esposa. Mal eu sabia que a partir daquele momento nossas vidas se encaixariam e as engrenagens começariam a girar, até o momento em que adquirissem uma velocidade insana.

Pessoas usam o termo "chuva de sangue" para falar de uma catástrofe, mas o senhor realmente faz chover, né? Uma chuva de sangue.

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