sábado, 24 de novembro de 2012

VIII - A Justiça.



"Hunf... Eu me fodo todo pra ajudar o cara e ele deixou esse recadinho ainda?", eu brinquei.

Estávamos tomando café uma lanchonete. Estava junto com da mesma garota de cabelo lilás, e ela, como sempre, ficou calada ao ouvir meu comentário. Vi que aquele silêncio se instaurou, e eu ainda tava todo machucado ainda. Os médicos disseram que algumas cicatrizes nas costas iam demorar a sair, por isso eu tenho até hoje o hábito de dificilmente tirar a camisa. Fiquei com algumas cicatrizes nas costas.

"Bom, mas pelo menos ele foi um cara digno. Fiquei feliz em tê-lo ajudado", eu concluí, lembrando dos eventos dos dias anteriores.

Nessa hora Yuri entrou correndo pela porta. Ele era uma pessoa um bocado engraçado ás vezes, embora tentasse fazer o tipo sério. Já chegou no restaurante brincando comigo.

"Hey! Eu só não gostei de eu ter que pagar pato nessa estória! Me mandaram aqui pra te proteger, porque diabos você não mandou o Rockefeller esperar um pouco para que aí eu pudesse ajudar vocês dois?".

"Desculpe, Yuri! Eu achei que eu conseguia...", eu disse, ainda dolorido.

Mas eu entendi que esse cuidado que Yuri tinha por mim era por conta da nossa amizade. Indo pra cima e pra baixo com o cara pelos mais diversos lugares é praticamente impossível não criar um laço de amizade com o rapaz. Éramos uma dupla. Quase que dois irmãos naquele tempo.

Ele trouxe uma fita cassete, um bocado suja, com um aparelho pra reproduzir. Aquele treco devia custar um olho da cara naquele tempo. O dono da lanchonete consentiu então fomos ver aquela fita naquela - até então - revolucionária tela de LCD.

Era uma gravação. Eu reconheci na hora quem era. Era Lucca. Embaixo tinha uma data, parecia mesmo um vídeo feito de uma câmera amadora. Ele gravou aquilo em meados de 1995. Mas Lucca não tinha morrido em 1987?


"Al, espero que essa fita chegue em você a tempo. E espero que eu esteja ainda vivo. Acredito que você saiba de tudo sobre seu irmão mais velho e o Coronel, a competição que havia entre os dois. Eu tenho mais detalhes pra te passar, por favor, escute atentamente.

Muitos dos que trabalhavam com nós no Sector 9 hoje são renegados. Se não se mantiveram dentro da corporação, se voltaram contra o sistema querendo arruiná-lo. Mas o meu caso é diferente. Al, eu tive que simular minha morte pois a chave da Dawn of Souls não estava apenas nas mãos do Coronel e do Arch.

A chave do Coronel foi passada pra mim, e ele está em um microchip inserido na minha pele. Todos estão atrás de mim, e não tenho dúvida que logo vão me encontrar. Eu não ligo de morrer, todos nós nascemos pra isso. As pessoas da inteligência não têm vida, somos apenas pessoas que lutam por interesses de segurança por parte da sociedade e dos grandes empresários. Somos apenas ferramentas do governo!

A Dawn of Souls é a nossa única proteção. Ou melhor, era.

A segunda chave, a chave do Arch foi passada pra você. E talvez você se pergunte como, mas preciso que você vá atrás da Émilie, ela está com um crucifixo antigo do Arch, e nele está a chave, por meio de um chip magnético inserido nele. Cabe a você decidir o que fazer com ela.

Eles virão atrás de mim porque sabem. Mas isso do crucifixo eu só soube agora. Essa farsa da minha morte provavelmente vai cair, por mais que eu tente ser discreto. Mas eu acho que esse recado deveria chegar em você de qualquer forma. Nós desafiamos a vida, todo dia é uma luta interminável pela nossa sobrevivência. Ali fora é uma selva, cuidado Al. 

Manter você vivo é o que seu irmão sempre quis, ele te amou até o último momento.

Por isso tenho um último recado. Você já ouviu falar em uma substância que é capaz de envelhecer as pessoas de maneira extremamente rápida, causando uma morte natural onde é impossível que se prove o contrário? É uma pesquisa que começou na época do seu irmão e foi terminada por uma pessoa.

Ficou nas mãos de uma novata promissora, chamada... Victoire Delacroix"


A fita ficou com aquele chuvisco, indicando que a gravação tinha terminado. Na hora, ela olhou pra mim com surpresa, e fitou meu crucifixo. Foi uma das únicas vezes que eu a vi com uma expressão diferente: seu rosto mostrava um pavor e surpresa indescritíveis.

"Meu Deus... A chave está comigo...", eu pausei, suava frio e coloquei na minha mão o crucifixo, "Ela está bem aqui...!".

"Al, esse crucifixo... Você me disse que quem te deu foi a Émilie, naquele dia no helicóptero, não?", a garota perguntou.

"Sim", eu terminei.

Na hora caiu uma pequena lágrima do meu olho. O crucifixo era o testamento final do meu irmão mais velho. Mas porque Lucca disse isso tudo sobre Victoire? Será que ele sabia de algo? Algo que eu deveria temer?

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