segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Plantar a semente.

No último domingo o Mancha, um amigo meu, me chamou para participar do II Fatec Games Day, em São Caetano. Foi difícil chegar lá, não conheço nada do ABC e muito menos sabia que meu caminho até a Fatec consistia também em passar no meio de nada menos que Heliópolis.

Cheguei bem tarde, muito por conta do horário de verão, perdi a hora de dormir, acordei ás 10h (acho que fazia uns dois ou três anos que eu não acordava tão tarde!), mas já passavam das 11h no horário novo. Queria ter ido mais cedo já que tinha o dia livre, mas valeu cada minuto lá.

Participei de uma palestra com Edgard Damiani. Ele manja muito de filosofia e psicologia, e vou ser sincero que admiro muito palestras como a dele que abrem um bocado a mente. Quem me conhece sabe que sou fã de carteirinha de caras como o Cortella e o Boff. Tem um link de uma dele na Campus Party sobre psicologia e games. Não assisti essa, mas se é dele, deve ser interessantíssimo.

Queria fazer um paralelo com budismo.

Bom, na palestra dele, ele se virou pra sala, que devia ter aproximadamente umas vinte pessoas, e disse: "Vocês conseguem entender que pra 99% das pessoas no mundo a vida se resume a acordar, comer alguma coisa, ir pro trabalho, comer, jantar, tomar o remedinho e dormir. Ok, talvez eu esteja exagerando nessa do remedinho, mas vocês fazem parte dos 1% que em algum momento questionaram: 'porque eu faço isso tudo? Porque as coisas são assim?'. Talvez eu esteja exagerando, mas 98% das pessoas seguem a rotina e nem se perguntam: 'o que existe além disso?'".

Isso era algo que eu sempre pensei. E, sinceramente ainda estou pensando. E espero continuar pensando. Minha pergunta que eu fiz pro Edgard na palestra foi: Essa sementinha do questionar, você sabe como ela é criada e de onde ela nasce?

Eu usei esse termo 'sementinha' sem querer. O pobre Edgard não sabia responder, mas como eu mesmo disse pra ele, na filosofia é muito mais válido perguntas do que respostas. Mas na volta pra casa que parei pra pensar.

No budismo, especialmente os de tradição Mahayana (grande caminho) como a Shinnyo-en que pratico, diz-se muito que a iluminação deve ser compartilhada. E que somente nós nos iluminamos quando iluminamos os outros. Mesmo se, sei lá, nos colocarmos no lugar do Buda Shakyamuni, o príncipe Siddartha Gautama, ele sozinho procurou a resposta para o sofrimento humano, meditou e peregrinou durante anos e... a achou a resposta meditando embaixo de uma árvore bodhi há dois mil e quinhentos anos.

Diz a lenda que ele, ao adquirir a iluminação, os deuses vieram implorar pra ele para que ele compartilhasse da sua iluminação com o mundo. O que vem depois varia de acordo com teólogos budistas. Uma versão diz que ele foi se encontrar com os outros monges (bikkhus) que estavam em práticas ascetas extremas igual a ele, e ele compartilhou as respostas que ele encontrara.

Uma outra versão, que eu acho bem interessante também, é que o Buda tentou compartilhar o que ele sabia com uma pessoa ali próximo do bosque onde ele conseguiu a iluminação, e a pessoa o ignorou. Mas ainda assim ele não desistiu, e encontrou os monges que faziam as práticas ascetas extremas que haviam expulsado o pobre Sidartha do clube deles, e foi dado assim o primeiro giro da roda do dharma.

Budismo muitas vezes é quase que uma psicologia que vai bem além da própria psicologia. Incrível como a alma do ser humano não mudou nada desde as primeiras palavras que o Buda falou, há dois mil e quinhentos anos atrás. Assim como no budismo acreditamos que somos velas, que ao compartilharmos da nossa chama para iluminar outra vela, a nossa chama não se apaga e nem diminui, acredito que isso é válido para todas as coisas da vida também.

De fato, muitas pessoas vivem num mundo limitado. Mas ainda assim, nos dá felicidade quando fazemos os outros pensar por si próprios - uma premissa que o budismo também prega. O ato de se tornar um iluminado não tem nada a ver com subordinação total a um deus, ou algo do gênero. É um processo de autoconhecimento e muito treinamento árduo para conhecermos a nós mesmos, nossos complexos (como Jung falava) e sermos os mestres das nossas próprias mentes.

Edgard, o palestrante, não soube responder a minha pergunta se essa sementinha que brota nas pessoas que questionam tem uma origem. Mas depois de meditar um pouco, encontrei no budismo a resposta. O Buda foi a única pessoa lá atrás que conseguiu acender sua vela sozinho. Desde então, essa chama (compaixão) foi passada de mestre budista em mestre budista até hoje. E acredito que todos nós que buscamos isso somos um pouquinho mestres também, e temos a possibilidade de iluminar os outros, já que nós estamos com essa vela nas mãos agora.

Acho que achei uma resposta, ao menos um pouquinho satisfatória. Esse despertar só pode ser oferecido por uma pessoa já desperta. Somente uma pessoa que pensa é capaz de fazer com que a outra questione. Um mestre não ensina sua filosofia para seu aluno, e sim dá instrumentos para que ele desenvolva a sua própria. Já dizia Bruce Lee! (não estou brincando! Ele falava isso mesmo!)

Se aceitar ou não, vai da pessoa. É como a pílula vermelha do Matrix. A diferença é que ao entender o sofrimento, você vira o mestre da sua mente conhecendo suas fraquezas e pontos fortes, e as coisas que te abalavam antes não te abalarão mais, pois você conhece a origem e sabe cessá-la. E assim... Vive melhor! =)

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