segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Eu e Siddartha. - #1

No fundo, eu sempre lutei pela vida.

Meus pais dizem que tentaram várias vezes engravidar. Sim, porque o homem acaba engravidando junto com a mulher também. Eram um casal jovem, vivendo ainda na casa da minha avó. Mas estava demorando, e eles já estavam casados há dois anos.

Parece que eles receberam uma visita de uma pessoa, que vou chamar aqui de "oráculo", porque não posso dar muitos detalhes assim publicamente. Mas existiu. E essa mulher parecia não ter nada, sequer documentos. Diziam ser uma mulher negra, que a minha tia, irmã mais velha da minha mãe, tinha achado na rua. Ela viveu alguns meses na casa da minha avó.

Dizem que essa mulher ensinou a família da minha mãe o caminho de Deus. Isso em uma família de retirantes que tinham uma crença firme católica. Eu estava na barriga da minha mãe, que fumava muito. Ela vivia alertando minha mãe para que parasse de fumar, e de fato, ainda na barriga da minha mãe tive que lutar pela vida, pois acredito que depois de tanto tabaco, a bolsa acabou estourando com todo o líquido amniótico, me deixando lá no útero, seco, e mais morto do que vivo.

Minha mãe tinha um enxoval imenso pra mim. Ela prometeu que, se eu nascesse vivo, ela doaria todo aquele enxoval pra alguém necessitado. Dizem que era um enxoval bem bonito. Fui pro hospital, com 24 horas praticamente seco e depois de uma cesariana eu nasci. Minha mãe sofria, chorava, se sentia sozinha naquele hospital com tanta gente desconhecida. Temeu sua morte mas acima de tudo a minha. Mas ainda assim nasci, um bebêzão grande e saudável.

Minha avó diz que quando eu nasci aconteceram vários milagres. Ela parou de fumar e se batizou dias depois, levando toda minha família materna junto. Penso que isso foi necessário para ter raízes espirituais mais fortes, mesmo que eu tenha virado budista.

Pouco depois que nasci, essa mulher oráculo disse que precisava ir pra rodoviária para ir embora. E deixou com minha avó muitas previsões do que aconteceria nos anos seguintes. Parece que havia uma previsão de algo, pelas palavras da minha avó, "grandes" para mim. Que eu não seria apenas o primeiro neto, mas que havia uma grande missão pra mim que até hoje eu não sei - minha avó diz que esses segredos que Deus provém, não se pode contar, senão Satanás distorce.

Só sei que minha avó ainda hoje quando me olha dá uma risadinha, como se soubesse de algo que eu não sei. =)

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Uma vez meditando esse ano fiquei pensando. A rainha Maya, mãe do Buda Shakyamuni, sofreu muito para fazer seu filho nascer. E dias depois, ela não aguentou e faleceu, deixando pra sua tia, Pajapati, criá-lo. Mas eu acho que o pequeno Siddartha deve em muitos momentos ter sentido a falta da sua mãe. Sinceramente, acho que ele pensou isso quando sentou embaixo da árvore Bodhi para meditar para alcançar a iluminação, algo como "E minha pobre mãe, que mal a conheci, que me trouxe ao mundo com todo o carinho e me deixou aqui? Tenho saudades, sinto falta do carinho dela".

Dizem que os budas passam por sofrimentos para que nós não passemos por eles. Eles fazem isso pela mais pura e simples compaixão. Perder a mãe ou perder o filho é algo muito triste, só quem passou isso sabe. Por isso hoje em dia, volta e meia penso no quanto o pobre Siddartha deve ter sofrido.

Nessas horas olho pra minha mãe e agradeço do fundo do coração por ela estar comigo viva e boa até hoje.

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