sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Saint Seiya e budismo. (3)

Mais uma da série! Saint Seiya visto por alguém budista. Se perdeu a primeira, ou a segunda, olha aí!


Essa é a Casa de Virgem nas doze casas. Só reparei agora que tinha dois Budas na porta. Mas aí você pode falar: "Pera lá, o Buda ele só fica sentado em posição de meditação, como ele tá de pé?". Imagens do Buda em pé significam muita coisa, mas em geral se refere ao período que o Buda peregrinou pela Índia naqueles tempos, divulgando os seus ensinamentos.

Alguns relatos afirmam que o Siddartha Gautama andava com uma baita duma turma pela Índia naquele tempo pregando as verdades que ele havia descoberto. Não consigo pensar em outra coisa a não ser Forrest Gump naquela parte do filme que ele corre pelos EUA com uma renca de gente atrás.


No anime quando chegam na Casa de Virgem é diferente do mangá. Achei uma liberdade poética aqui. Considerando que o Shaka é a reencarnação de Buda, e ele vive na Casa de Virgem, logo podemos dar uma viajada e dizer que a Casa de Virgem é um tipo de templo.

E é isso que Seiya e seus amigos vêem. Uma terra perfeita, pois templos budistas sempre são locais de extrema purificação espiritual. E essa purificação vem de muitas fontes, mas especialmente dos mantras que a galera entoa lá.


Só no anime, Shaka aparece meditando sobre uma flor de lótus. Eu acho que os produtores deram uma viajada legal nesse episódio no anime, mas muitas coisas eu achei forçado, mas tudo bem, não vou criticar pra não perder a amizade.

A flor do lótus é a flor do budismo. É a flor que nasce mesmo dentro de lamaçais, que significa que mesmo que você esteja envolto por tudo o que há de ruim, você é capaz de despertar e purificar-se.


Esse é o "kan" que o Shaka usa contra o Shun, quando este lança as correntes. Tá difícil de ler! Mas é muito mais sem-graça que na saga de Hades.

Pra mais explicações do kan, clica aqui, já falei sobre ele, rapá!

Entendendo o Tenma Kofuku
Bom, essa era a parte que eu mais temia. Mas vamos tentar desenhar uma linha de raciocínio, tentem me seguir. O Tenma Kofuku (天魔降伏) é um dos golpes poderosos do Shaka (como se ele tivesse algum golpe fraco!). A tradução é difícil, por isso que em cada lugar ele fala um nome diferente, e no final ninguém entende nada.

Em um sentido literal, Rendição Divina/Demoníaca. Agora você entendeu menos ainda, né? Bom, o "Kofuku" é rendição de qualquer maneira. Mas o que ferra são os caracteres chineses de Divino (天, ten) e o Demônio (魔, ma).

Se vocês repararem bem, antes do Shaka usar o golpe no anime, mostram várias imagens mostrando a dualidade entre bem e mal:



Tem outras também, mas peguei essas duas.

Mas aqui vou dar uma viajada pra ver se consigo passar algum sentido do treco. Talvez seja uma rendição dos demônios feito pelos seres divinos. Tem até um desenho do Mara ali, embora a versão do Persona faça mais sentido (tirem as crianças do computador quando abrir, porque esse Mara do jogo Persona é um pinto enorme!).

Mara é o rei dos demônios no budismo. Ele que tentou o Buda Shakyamuni quando ele estava sentado meditando pra alcançar o Nirvana, enviando a Valesca Popozuda mulheres gostosonas pra tirar ele da meditação e, sacumé né? Bom, o Buda ficou firme e seguiu em frente meditando, nem deu bola pras recalcadas, então por isso que eu digo que a versão de Mara do Persona foi bem sagaz, hehe.

Mas eu ainda acho que rendição demoníaca seja o melhor nome, olhando essa arte do Kurumada no mangá:


Nele, o Shaka faz o papel de purificador. E Seiya, Shiryu e Shun tomam na cara a explosão cósmica do Shaka.

E o que tem a ver com budismo? Muita coisa! Buda era uma pessoa que purificava muito as pessoas e os demônios por meio da força dele. Existem até mantras e mudras (gestos com a mão) de subjugação do mal, pois esses demônios são exatamente esses obstáculos, impedimentos que rola nas nossas vidas.

Mas ao contrário do cristianismo, que ficam condenando os demônios, fazendo-os sofrer, o budismo sempre ensinou a "acolher" esses demônios. Sabe, é como uma criança incompreendida - no fundo, ela só está sozinha causando muitas confusões, e a gente na nossa individualidade recrime a criança dizendo que ela é errada, sem tentar entendê-la antes. Se você aceitar ela do jeito que ela é, aceitando-a do jeito que é e trazendo o melhor dela pra fora, ela vai entender que existe algo maior.

Samsara
Depois, o pica das galáxias, Ikki de Fênix aparece atrasado para chutar o pau da barraca, fazer a cobra fumar, mostrar que quem manda é ele, segurar o boi pelo chifre, sentar o dedo nessa p****, e quaisquer outras frases populares que caibam nesse contexto. Afinal, estamos falando do Ikki!


Tem uma parte que o Kurumada exagerou. Vou transliterar esse diálogo do "mar de sangue".

Existe um jeito de você escapar daí.
Ajoelhe-se aos meus pés, esfregue sua testa contra o chão e me adore por toda a eternidade.

Isso não é budismo! Uma vez encontrei uma amiga das antigas, ela tinha virado crente, e quando comentei que virei budista a reação dela foi me criticar, dizendo que os budistas "adoravam uma estátua".

Foi um tempo pra explicar, disse pra ela que eu não adoro nenhuma estátua. A imagem do Buda lá existe por dois motivos. O primeiro é que isso é como transportar a gente de volta há dois mil e quinhentos anos atrás, para o tempo do Buda, quando ele pregava e tudo mais. As próprias imagens católicas eram feitas pra isso, por isso que a arte desenvolveu tanto. As artes serviam para ilustrar melhor o que rolava naquela época, a imagem é apenas simbólica.

O segundo é que as pessoas fazem reverência aos ensinamentos, não à estátua. É bem lógico que os monges budistas não vão adorar uma imagem, afinal ela não fala, mas a imagem representa um rapaz que viveu na Índia há muitos séculos e deixou um ensinamento lindo sobre como lidarmos com as dificuldades do dia-a-dia e alcançarmos esse estado de plenitude que ele alcançou.

A estátua do Buda é sempre rodeada de significado e ela explica, por exemplo, em que pé estavam os ensinamentos dele. Lembra que eu falei da estátua do Buda em pé, que significa uma fase da vida do Buda? Bem isso. A imagem é o simbólico dos ensinamentos que recebemos também, logo o que existe é gratidão, jamais reverência.




Tem uma hora que o Ikki se pergunta: "Quem é Shaka?" e ele tem uma visão do baby Buda!

Eu lembro que quando eu era moleque fiquei com medo dessa cena, haha! Se crianças vinham da cegonha, o Buda veio de uma flor, e isso me dava muita confusão! Isso fazia muita confusão na minha cabeça de moleque de cinco anos.

Mas isso é bem budista. Existem estátuas do baby Buda e mostram exatamente essa fase. O Buda tem uma alegoria do nascimento bem bonita. A mãe dele, a rainha Maya, sonhou com um elefante branco, e o elefante branco trazia um bebê pra barriga dela. Ela foi embaixo de uma árvore e deu a luz pro Siddartha Gautama, que deu passos nas quatro direções e disse "Eu vim para libertar todos do sofrimento". Mais ou menos isso.

Óbvio que um bebê recém nascido não fala, mas acho uma estória bem bonita.

Continuando:


Por fim, o Shaka usa um golpe poderoso (como se ele tivesse golpe fraco [2]) contra o Ikki, o Rikudô Rinne (六道輪廻). Rinne é o samsara, os mundos da existência cíclica budista. O Rikudô (六道) são "seis caminhos".

Budismo tem muito número. Não é difícil você confundir! Até hoje volta e meia me confundo. 4 nobres verdades, 6 paramitas, 108 pecados, 6 mundos da existência cíclica, nobre caminho óctuplo, etc.

Enfim, o Rikudô Rinne envia Ikki de Fênix para um dos seis mundos da existência cíclica. No budismo existem cinco infernos e um paraíso.


Primeiro, o inferno. Esse é O Inferno, o limbo (inception anyone?). É o ponto mais profundo que se pode chegar. Lá é o lugar frio e escuro, basicamente o fundo do poço. É o lugar pra onde vão os maiores transgressores.


Depois, o mundo dos seres famintos. Bocas pequenas, barrigas cheias de comida que não se saciam e um povo que só quer mais e mais, e exatamente por terem essa ganância sem fim, acabam cavando a própria cova, sendo lançados nesse inferno.


O mundo das feras, onde o que vale é a lei do mais forte! Só tem fera bicho, ô loco meu, como diria o Faustão. Aqui é leão comendo leão, seres achando que são fortes, mas sempre haverá alguém mais forte que o comerá.


Em quarto lugar, o mundo das guerras, ou mundo dos Ashuras. Ashuras são demônios no budismo, seres que só querem a discórdia e o derramamento de sangue. Pessoas que em geral têm convicções muito fortes, preconceito com os outros diferentes do seu povo, que causam guerras, vão arder por essas quebradas.


Onde vivemos é um inferno, ainda mais se for em São Paulo, já que Não existe amor em SP (SOOOO SAD!!). Brincadeirinha! Mas o mundo humano é um inferno, onde pessoas vivem rotinas, são tristes, não sabem o que fazer com suas vidas e vivem em dilemas. Mas é também o único mundo onde se pode chegar no mundo dos Budas (valeu, Shakyamuni! Deixou os esquemas prontos!).


Cumpadi Washington já dizia: "Cheguei, estou no paraíso! E a abundância, mermão?". É o único "bom", mas também tem seu lado ruim. Eu acho que colocar uma imagem do Buda não é a melhor, porque o Buda não reside no paraíso.

Paraíso é onde as coisas boas estão, mas elas são fugazes, acabam rapidinho. Esse paraíso simboliza aquele momento de felicidade momentânea que você teve - ela acaba assim que você sair de casa um busão passar por aquela poça lançando aquela água suja em você. Se apegar ao paraíso seria como nos apegarmos a algo que a validade está bem próximo, porque apodrece e você voltaria aos outros infernos.

Porém o Buda estar nesse paraíso é um baita erro do Kurumada, porque o estado de nirvana é um estado de felicidade que não tem fim. Por isso que ao virar um Buda você sai desse ciclo do Samsara.

Alcançar o estado de Buda não é viver eternamente no paraíso. Mas sair desse ciclo de ficar zanzando pelos seis mundos. Em suma, os mundos cíclicos são todos de sofrimento, incluindo o paraíso, pois são temporários e acabam. O único estado de real permanência é nirvana.

Entenderam mais ou menos?
Tem mais, aguardem, hehe.

2 comentários:

Rafs disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rafs disse...

No budismo, NÃO é ensinado que há uma dicotomia entre o bem e o mal. Muito pelo contrário. Bem e mal são relativos e dependentes do contexto. E, portanto, nada - nem pessoas nem ações - é inteiramente bom ou mau. O próprio Shaka diz isso a Ikki quando este lhe pergunta como alguém tão poderoso e santo quanto Shaka pode servir alguém tão ruim quanto o Grande Mestre: ele responde que bondade e maldade perfeita simplesmente não existem. Essas entidades assustadoras que aparecem em certas gravuras do budismo e também na ilustração do golpe de Shaka não são más - até porque, com poucas exceções, em religiões pagãs não é feita essa leitura maniqueísta da realidade em que as pessoas são postas em dois campos diferentes e em conflito, representando valores morais inteiramente distintos. O conflito existe, mas isso porque indivíduos, espíritos e deuses diferentes possuem interesses diferentes, não porque uns simbolizam o bem e outros o mal.

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