quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Chorando e andando.

Esses dias fiz um caminho diferente pra voltar pra casa. A vantagem de morar mais ou menos perto do trabalho é isso, e se tem uma coisa que me enjoa muito é fazer o mesmo caminho, pegar o mesmo ônibus, ver as mesmas caras. Gosto de volta e meia fazer algo diferente.

Peguei um ônibus que ia por dentro da Chácara Santo Antônio, e desembocava ali próximo da Avenida João Dias. Desci do ônibus e fui caminhando até a avenida, passando por uma empresa desativada que hoje é um terreno baldio, perto da Biblioteca Kennedy e o McDonald's ali.

Vi uma moradora de rua, com um cãozinho e morando numa barraca. E na frente dela, duas mulheres com suas filhas. Mas elas não estavam repreendendo ou gritando com a senhora, ambas estavam sorrindo e inclusive a moradora de rua olhou pra ela e começou a chorar sorrindo.

Não vou esconder que naquele dia eu estava meio p* da vida. Tinha acontecido algumas coisas no trabalho que me deixaram nervoso. Lembro que tinha descido do ônibus pensando em como seria as coisas agora que estava demitido e justamente vi aquela mulher naquela hora.

Meu primeiro sentimento foi de sentir uma imensa gratidão. Mesmo que eu não tenha muito, tenho um teto, tenho comida, tenho como tomar um banho todos os dias. Fiquei pensando que provavelmente era pra eu estar numa situação muito, muito pior, mas não estava.

E meu segundo pensamento foi uma espécie de epifania.

Questionei a mim mesmo: O que é "nirvana"? Vi que toda a elevação espiritual era uma coisa meio complicada de se entender os reais conceitos. Naquele momento na rua fechei os olhos, e vi como se fosse há dois mil e quinhentos um camarada meu, o Buda Shakyamuni, olhando pro sol se pondo. Vi ele chorando, como se estivesse tomado por uma grande angústia, pois sabia que muitas pessoas iam sofrer em todos os cantos do mundo, por provavelmente centenas de anos a fio, e que não teria muito o que se fazer.

Afinal o que faz uma pessoa ser considerada "divina"? Não é a pessoa ser dotada de uma sabedoria, mas sim de uma incrível bondade. Se as pessoas recorrem a Deus para que os guarde em suas mazelas, porque nós não podemos ser como Ele e, por exemplo, estender uma mão de ajuda?

Aquela imagem dela chorando e sorrindo me fez me curvar para aquela moradora de rua. Ela sim é uma pessoa iluminada, nem que fosse apenas naquele momento, viu a bondade num gesto inocente de crianças juntas das suas mães que te davam atenção. Fiquei profundamente tocado com aquilo e comecei a chorar.

Andei o caminho inteiro chorando até o ônibus, e vou dar um pulo lá um dia desses e entregar algo de comer para aquela senhora, com o desejo de profunda gratidão por ela, com um pequeno sorriso, ter me ensinado tanto sem abrir a boca uma única vez.

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