quarta-feira, 18 de junho de 2014

Doppelgänger - #24 - Treinamento.

O treinamento com o mestre foi duro. Era uma preparação psicológica. Ter emoções, mesmo trabalhando na inteligência, era ter o que os outros investigadores racionais não tinham. Isso seria uma forma de ter sempre um passo a frente, uma empatia e uma capacidade de intuição sem fim, mas para isso deveria ser treinado para ser controlado, e liberado no momento certo. Basicamente Al teve que enfrentar seus medos, e aqui temos trechos de todos esses fantasmas da mente que tiveram que ser encarados.

- - - - - - - - - - -

"Você continua com essa mania. Não mudou nada", disse o mestre.

"O que você quer dizer?", perguntou Al.

"Essa sua mania idiota, discípulo tolo. Sempre dando risada. Eu já te disse o que significava, há anos atrás".

"Sim... Eu me lembro, mestre".

"Você sorri porque você lacrou todos os seus sentimentos no fundo da sua alma. Não estranharia isso, já que você teve criação que caso você não desse risada enquanto te batiam, a dor seria bem pior. Mas inconscientemente você lacrou a tristeza, a raiva e até mesmo a verdadeira felicidade no fundo do seu coração, veste uma máscara da felicidade para não causar preocupação às pessoas".

Al ficou mudo nesse momento.

"Você não conhece outros sentimentos que não seja sorrir, discípulo tolo. E agora, adulto, vai ser mais difícil ainda te ensinar isso. Mas você deve deixar fluir seus sentimentos, se você os deixar lacrados sempre, quando eles vierem a tona, como você vai reconhecê-los corretamente?".

- - - - - - - - - - -

"Vamos. Faça logo sexo com ela", ordenou o mestre.

"O quê? Aqui?".

"Vamos logo, ela é apenas uma prostituta. Não estou mandando você fazer isso porque eu quero ver sua performance, mas sim pra ver se você enfim supera esse medo besta".

"Mestre... O que uma coisa tem a ver com a outra?".

"Por conta do trauma dos seus pais, e por nunca ter tido uma família, isso afetou sua área de desejo. Em outras palavras, você não é completamente um homem, embora até mantenha relações sexuais com mulheres de sua estrita confiança. Por nunca ter tido uma família, você tem medo de constituir uma, porém ao invés de isso ter te tornado um canalha com as mulheres, te fez se tornar um frouxo. Quero que transe com ela, e tenha um orgasmo com uma desconhecida".

Al começou a tirar sua roupa. Sem dúvida ele estava muito tímido.

"Você criou total aversão a figura masculina, dominadora, bruta e viril. Quero que você desperte seus instintos masculinos mais primitivos e coma-a sem dó. Esse seu lado você desenvolveu em nada, você tem relações com mulheres como se sua psique fosse feminina. E isso não tem nada a ver com homossexualismo, óbvio. Você é hétero e sente total atração por mulheres, mas você não consegue vê-las como objeto sexual. Isso é algo necessário para que você saiba dosar suas emoções, por isso o sexo deve ser feito aqui, e repetido com várias mulheres para que você desenvolva esse lado. Você não deve ter medo de fazer sexo pra não engravidar nenhuma. É um tratamento de choque, mas não tenho tempo pra dar uma de terapeuta aqui. Dado a criação espartana que você teve, não me espantaria essa sua dificuldade".

"Libertar minha fera interior? Meu eu primitivo e sexual? Vejamos...".

Al foi então pra cima da garota. Colocou uma camisinha e fez sexo como nunca antes tinha feito.

- - - - - - - - - - - -

Al estava colocando a sua roupa, e a garota estava sendo paga com um extra. Estava ofegante, e nem mesmo ele estava acreditando que enfim conseguira manter uma relação fora das mulheres que estavam no seu restrito círculo de confiança.

"Você tem um medo terrível da paternidade, né? Nenhum pesadelo seria pior que isso. Nem doenças, nem morte, nem nada. Isso é prazer. Isso é fora daquela relação papai-e-mamãe que você deve manter com aquela francesa. Você pegou esse trauma de viver, logo até mesmo sexo você evita com medo de gerar vida em outra pessoa. Pelo menos você tirou esse sorriso bobo do seu rosto".

Al ainda estava arfando. Seu corpo suava muito, e ele estava chegando perto do seu esgotamento. Uma viagem que ele mal teve tempo para descansar, e o treinamento havia adentrado a madrugada. Mais uma sessão de sexo inusitado, um orgasmo que ele nunca havia experimentado, e havia dado mais segurança pra ele manter relações com outras mulheres.

Mas ainda havia um último treinamento.

O mestre apontou uma Colt Single Action Army para sua testa.

"Te dou apenas duas opções agora, Al. Ou você atira em você, ou eu que atiro".

Sua espinha estava gelada. Aquele cansaço havia dado lugar a uma imensa adrenalina. Na sua mão o mestre pousava uma TT-30, pistola soviética semi automática, sem pente, apenas uma bala engatilhada.

"Vamos Al. Você é realmente uma pessoa com um espírito destroçado. Revolta, ira, injustiça. Você tem todos os sentimentos necessários na sua alma para te tornar uma pessoa sem esperanças. Você não tem ninguém na sua vida. Não tem esposa, não tem filhos, não tem uma família".

O suor havia parado. Al via o mestre se distanciando dele, caminhando na sua frente, mas ainda apontando a arma para ele, enquanto ele estava no chão, de joelhos, fitando a TT-30 que seria a arma que ele teria que explodir seus miolos e acabar com a sua vida.

"Em que você acredita, Al? Você tinha uma esposa, e ela morreu. Tinha um irmão mais velho, seu maior exemplo, que morreu. Hoje você é uma pessoa isolada, que não consegue ter laços fortes com ninguém, pois tem medo de entrarem na sua vida".

"Merda... O que você quer, mestre?"

"Pra que eu te deixaria viver? Está agora encarando o maior desafio da vida, enfrentando nada menos que seu sobrinho maldito, aquele você salvou a vida e criou como um irmão mais novo. O filho com o mesmo sangue da Émilie, a mulher que sempre quis a sua morte!".

Al batia no chão a cabeça. Seu espírito estava sendo destroçado.

"Você é um grande derrotado, Al. Pra que continuar a sua vida? Pegue esse arma e tenha um mínimo de honra. Puxe o gatilho!! PUXE O GATILHO E ACABE COM A SUA VIDA!!"

"Não, mestre!! Eu não posso fazer isso!".

Al dizia uma coisa, mas a arma nesse momento já estava no pé do seu ouvido. Por mais que ele dissesse que não queria morrer, naquele momento era tudo o que seu corpo também parecia querer. Aquilo que o mestre fazia lógica, ele era um lixo de pessoa. Não havia conquistado nada. Não era ninguém.

Era apenas exteriormente aquilo, por dentro todas as duras palavras do mestre somente o fazia constatar aquilo que ele já sabia. Que ele não era ninguém. Que ninguém choraria por ele. Que ninguém faria nada por ele. Que ninguém correria por ele.

"Isso mesmo. Puxe esse gatilho e estoure seu crânio. Esse é você. Você vive sorrindo pras pessoas, divertindo-as, quando no fundo você é a pessoa mais melancólica e triste do mundo. Você não gosta de depender dos outros, acha que problemas seus devem ser resolvidos apenas por você e pronto. As responsabilidades, você as obedece, até o ponto em que elas te sufocam. Nesse momento você volta a ser aquela criancinha mimada que chora no colo do irmão mais velho. Seu irmão mais velho, o ideal que você sempre buscou e que sabe que nunca vai chegar a ser nem mesmo dez porcento dele. É a pessoa que tem medo dos seus próprios sentimentos, que se censura, que não sabe manter uma relação sexual comum com uma mulher com um medo doentil de engravidá-la e de ser pai! Você sente que você já é desgraçado o suficiente por viver, que a vida é um mar de amarguras e desilusões, então porque não tira sua vida agora nesse momento, Al? Vamos, puxe essa merda desse gatilho!!".

Nesse momento Al, olhando a lua, pensou em várias coisas.

A arma estava na altura do seu ouvido, pronta pra estourar seu crânio.

As palavras do mestre foram ficando mais e mais distantes.

Ecoando dentro dos seus poros. Naquele momento Al estava de frente com todos seus fantasmas.

Tudo aquilo que havia acontecido da sua vida estava aparecendo de novo. Cena por cena.

E ele então apenas disse uma coisa:

"Já chega. Estou cansado".

Tudo passou como um filme na cabeça dele.

Nous ne donnons pas l'aumône pour les enfants!
- Émilie, ao ver Al pela primeira vez, quando se mudou para a casa de seu irmão Arch.

Eu não dou a mínima para as asneiras que vocês falam sobre mim. Mas eu não perdôo essa perna que acabou de chutar meu irmãozinho. Vamos, seu idiota! Bote sua perna aí para que eu possa torcê-la!
- Arch, segurando Al pelos braços, na vez que ele sem querer entrou numa reunião dos Blain.

Al...! Saia daqui, garoto! Isso não é lugar para uma criança ficar!
- Arch, na prisão, próximo do dia da sua execução enquanto estava sendo torturado, com seu olho arrancado.

Você... Foi culpa SUA! Foi você que matou o meu irmão!! Eu te odeio!! EU TE ODEIO, SUA PUTA!!
- Al, a todos os pulmões, no dia do funeral de Arch, quando Émilie apareceu na porta.

Enquanto alguém lutar pelo bem, essa pessoa jamais será abandonada. Tenha certeza disso, pequeno Al.
- Senhora Elisabeth, enquanto Al ainda era uma criança.

Você... Você ainda tem sua juventude! Não jogue-a no lixo! Você provavelmente irá passar anos atrás dela e nunca conseguirá nada!
- As últimas palavras do senhor Schultz para Al, antes de falecer. A mulher que ele fala é Émilie.

Não, ela está muito perto. A senhorita Yamamoto não está na Virgínia. Está na Bélgica. A Noriko está atrás da cabeça da Émilie.
- Lucca, enquanto Al buscava pistas sobre as pessoas que haviam trabalhado com seu irmão.

A verdade é que cada vez mais estou a cara dele... Pra não ficarem me enchendo o saco eu tingi o cabelo de vermelho.
- Disse Al, quando se encontrou com Noriko Yamamoto pela primeira vez.

Seu irmão mais velho era uma pessoa tão bondosa que acho que ele conseguiria salvar o coração até mesmo do pior ser humano.
- Noriko Yamamoto, sobre Arch.

Não! Não é possível!! Eu me recuso! Ela é totalmente diferente de mim, e porque diabos eu tenho que dividir glória com uma mulher tão fria e calculista como ela?!
- Al, quando foi obrigado a trabalhar com Val, na caça aos renegados que haviam trabalhado ao lado do seu irmão Arch.

Prazer, Al. É uma honra trabalhar com você. Estou assumindo a parte médica da nossa organização. Posso pedir alguns exames e algumas vacinas pra fazermos um check-up?
- Victoire, ao se apresentar para Al. Dentro de umas dessas vacinas estava o vírus, que causa o envelhecimento precoce das suas células.

Procure a verdade, Al. Vá até o fim.
- Agatha, antes de ser presa por Al.

Você entendeu agora, Mikael, meu caro? Eu sou a justiça.
- Dietrich, enquanto fazia a lavagem cerebral em Mikael, que mais tarde se tornaria Yuri.

Eu só tive uma irmã mais velha que cuidou de mim quando eu era criança, me levava na escola, preparava minha comida e cuidou de mim como uma mãe.
E onde ela está agora?
Ela morreu.
- Conversa entre Victoire e Al, onde Victoire cita sobre Émilie, sua meio-irmã mais velha, e única família.

Porém, uma vez que eu estiver dentro daquele prédio eu serei um alvo fácil. Inclusive pra voc...
- Rockefeller, prevendo uma ação que poderia resultar em sua morte quando Al a tinha em suas mãos.

Não, não é algo tão comum como vingança. Quero apenas falar com você, e somente assim minha alma pode descansar em paz.
- disse o homem misterioso, que mantinha Ar em cárcere privado.

EI! PODE PARAR COM ISSO! Esse cara matou o meu irmão! Não vem querendo matar ele no meu lugar não!!
- Al, quando descobriu que Yuri havia sido um dos algozes do seu irmão Arch.

Viva, Al. É tudo que posso dizer pra você.
- Victoire, pouco depois de anunciar que havia implantando o vírus em Al.

Era praticamente impossível alguém sobreviver naquelas condições, porém, na verdade, seu atual estado é desaparecido.
- Yuri, hospitalizado, falando sobre o paradeiro de Arch, e que havia a possibilidade de que ele estivesse vivo, porém desaparecido.

Você foi um idiota, você quebrou meu coração! Eu também te achava uma pessoa especial, eu que sempre me preocupei com você, eu que mesmo na época em que sentia nada por você continuei do seu lado e agora você faz desmoronar todo o castelo que construímos juntos com aquela conversa que tivemos?
- Disse Val, a garota do cabelo cor de beringela, logo depois da nossa última briga que resultou em seu suicídio.

Meu irmão tem um par de asas. São as asas mais lindas que já vi na vida! Ele pode voar, ele é livre, e sua pureza de espírito é imbatível. Eu gostaria de ter, mas não tenho asas como ele... Mas eu tenho duas pernas que se fincam no chão. E todas as vezes que eu cair, elas me farão levantar uma, duas, três ou quantas vezes fossem necessárias! E é nas minhas pernas que estão minha força, e elas que me ajudarão a me erguer e a seguir em frente sempre!
- Al, no último encontro com Noriko Yamamoto, na frente do túmulo do seu irmão Arch.

- - - - - - - - - - -

Nesse momento a arma caiu da mão de Al. Nenhum tiro havia sido disparado. O barulho da pistola no chão foi amaciado pela grama no quintal do mestre. Olhava pra cima, de joelhos, a lua brilhante no céu. Via as nuvens brilhando ao seu redor e viu o quão a vida era bela.

Via que todas aquelas coisas que havia passado haviam o tornado o que ele era naquele momento. Ele não era seu irmão mais velho, e jamais seria. Mas deveria ser diferente, criar seu estilo, seus valores, e lutar pelo que acreditava.

Naquela hora os olhos de Al lacrimejavam. Ele havia tido enfim a chance de tirar sua própria vida, aquilo que ele mais queria, na distância de um dedo, mas não havia escolhido isso, que era sua própria morte, o suicídio que ele tanto desejou. 

Se ele fosse morrer, não seria tirando sua própria vida. A vida era um dom a ser agradecido, e só o fato de ter nascido naquela época, ser ainda tão jovem para viver, era algo que lhe dava esperanças de um amanhã melhor. E mesmo que o amanhã fosse pior, ele usaria tudo isso como mais um impulso para que ele fosse mais longe. Pois tudo o que era ruim o havia feito crescer. No fundo, tudo o que era de ruim eram oportunidades disfarçadas que ele nunca reparara.

Poderia vir quem fosse. Francesca Vittorio, Dietrich, Ar... Tudo ele daria o máximo para superar, logo a sua escolha não era morrer.

Baixou sua cabeça e viu seu mestre, com a Colt Single Action Army apontada pra ele. Sem dúvida um tiro daqueles o mataria na hora. Seu mestre estava em pé, apontando a arma a uma distância de mais ou menos cinco metros. Al estava de joelhos no chão, seus olhos embaçados por conta das lágrimas, mas conseguia ver ainda claramente seu mestre e o reflexo metálico da arma.

"Então essa é sua escolha. Você pelo visto não vai se matar, é isso?", perguntou o mestre.

"Não, mestre", disse Al, se erguendo lentamente, "Não posso desistir agora. As pessoas que estão me esperando torcem por mim. Eu sou a única esperança delas, não posso desistir agora!".

As palavras de Al ecoavam por todo o bosque. O mestre então soltou um: "Pft...". E puxou o gatilho contra Al.

Nesse momento Al avançou em direção ao mestre e um disparo foi feito, que acertou Al, causando uma imensa dor. Porém, Al conseguiu se aproximar do mestre a ponto de puxar sua arma e jogar no chão. Um abraço foi dado pelos dois, como um pai e filho, mestre e discípulo. A trilha do sangue era grande.

Porém, foi um tiro de raspão, que deixou uma cicatriz na sua cintura, do lado direito de Al.

"É isso. É essa vontade de viver, discípulo tolo. Nada é mais forte que isso. Você deve ter a esperança de sempre se erguer e tentar de novo. De sempre se reinventar, e nunca desistir. Nunca desistir, e manter a esperança. O psicológico influi muito nas pessoas da Inteligência nessa hora, por isso que enquanto todos desistirem, você continuará em frente, não importando quanto tempo, esforço e tudo o que acontecer. Seu treinamento... Está... Completo...", disse o mestre, caindo em cima de Al, com a mão no peito.

O mestre havia aplicado uma dose grande de estresse em Al, e para causar mais impacto usou muita da sua energia, que o deixou exausto depois de tantos gritos e energia gastos para apavorar seu aprendiz. 

Dar duas opções, tirar sua vida ou ter sua vida tirada por alguém.

Ao negar tirar sua vida, Al havia adquirido uma força suficiente pra viver, e assim peitar o seu mestre de frente, tirando dele o instrumento que tiraria a sua própria vida. A vontade de viver superou tudo no final das contas.

A conclusão do treinamento era dar a Al a única chave que nenhum investigador do mundo tinha: a persistência da esperança, reservada apenas aos investigadores emotivos. A partir daquele momento seu treinamento estava concluído, ele havia se tornado uma lenda viva, como seu irmão mais velho havia sido.

Só restava encarar Ar. E colocar tudo o que aprendera em prática.

"Mestre... Mestre... Mestre!", disse Al, enquanto balançava o mestre, que estava desacordado, "Está me ouvindo mestre, por favor! Não morra, mestre!!! Não morra mestre!!!", gritava Al, desesperado, vendo seu mestre morrer na sua frente.

Porém, o mestre estava debilitado. Seu coração estava dando claros sinais de início de ataque cardíaco. Al o carregou com todas suas forças para dentro da cabana, onde buscava por algo que pudesse usar naquela pilha de medicamentos.





Estava tão distraído que não viu que uma mulher estava ali próximo, e estava vendo tudo o que estava acontecendo...

0 comentários:

Postar um comentário

Arquivos do blog