quinta-feira, 19 de junho de 2014

Doppelgänger - A história dentro da história (4)

Julho de 1999

Victoire entrou na equipe médica enquanto Al buscava pela Dawn of Souls, entre 1998 e 2000. Al se lembrava dela no começo como uma garota tímida, e muitas vezes em países diferentes eles jantavam juntos. Naquela época não havia nada entre ele e a garota de cabelo cor de beringela, eles eram apenas co-workers.

Estavam em um restaurante barato em Bruxelas. Restavam poucas batatas no prato na frente deles, e Al foi colocar aquele resto no seu prato.

"Sinto muito pela sua irmã", disse Al, "Como ela era?".

Victoire olhou para Al surpresa. Aquilo realmente não era esperado. Ela levou a taça de vinho branco à boca, e tomou um gole demorado. Al estava mastigando calmamente a batata, esperando a resposta de Victoire. Porém, ela não sabia o que dizer.

Acontece que Victoire havia entrado na equipe médica da Interpol apenas para tornar real sua maior vingança: matar aquele que ela achava que havia matado sua irmã e única família, Émilie. Al era seu alvo. Para tanto ela havia desenvolvido uma espécie de retrovírus capaz de enganar o sistema do corpo, criando uma quantidade excessiva de sirtuin, aumentando muito a quantidade de radicais livres no sangue, causando células envelhecerem mais rapidamente até o ponto de cometerem apoptose - suicídio das células.

E já havia sido há muito injetado em Al.

Logo, ela não poderia naquele momento dizer quem era a sua irmã. Isso sem dúvida deixaria Al desconcertado, e tudo naquele momento que ela queria era apenas sua confiança. Por isso mesmo, ela mentiu:

"Minha irmã era veterinária. Uma mulher loira e alta, tinha uma pureza enorme pelos animais, e cuidava deles como se eles fossem seus próprios filhos. Por isso eu entrei no ramo biológico. Tudo o que queria era cuidar dos animais como ela", disse Victoire, mentindo.

Não. Eu entrei no ramo biológico apenas para acabar com você, seu idiota.

Logo depois da janta os dois pegaram um táxi de volta para seu hotel. Havia ainda muito trabalho, e Dietrich parecia cada vez mais longe. Mas algo estava cativando Victoire sem ela perceber toda vez que ela olhava para Al e via seus atos puros. Em alguns momentos ela mesma chegava a se perguntar como uma pessoa como ele teria matado sua irmã, pois ele parecia uma pessoa bondosa - um bocado introspectivo, fechado, mas incrivelmente bondoso.

Sem ela perceber, ela estava nutrindo um amor pelo Al que ela via, e alimentando um ódio pelo Al que ela achava que existia. Tinha ouvido falar que ele era uma pessoa muito fria e ignorante, mas tudo o que via era um garoto sozinho no mundo. Sem amigos. Sem família. Sem ninguém. Queria no fundo era dar um abraço forte nele. E o momento para isso estava chegando.

Al e Victoire estavam no saguão do hotel. Ambos foram em direção do elevador e apertaram o botão para chamá-lo. Quando o elevador chegou ambos entraram e apertaram os botões dos seus andares. A primeira a desembarcar seria Victoire. Quando a porta se abriu Al, sério, lhe disse:

"Boa noite, Victoire".

"B-b-boa noite, Al", disse Victoire, gaguejando.

Ela mal havia saído quando voltou em um passo longo para o elevador e abraçou Al com muita ternura, lascando-lhe um beijo na boca. Al não sabia o que fazer, era algo totalmente inesperado e retribuiu. Quando ele viu, estava entrando no quarto de Victoire, e o quarto de Al passou a noite da mesma maneira que ele havia deixado.

Al e Victoire transaram naquela noite. Depois que Al atingiu o êxtase, saiu de cima de Victoire. E enquanto retirava o preservativo, viu Victoire em lágrimas, porém sorrindo.

"Você está bem?", disse Al.

"Sim", disse Victoire, "Estou bem sim, não se preocupe".

Seu coração naquele momento estava confuso. Amava o homem que conhecia, e detestava o homem que achava que era. Victoire durante anos estudou com afinco o ramo biológico, e desde o desaparecimento de Émilie depois da morte de Arch, ela nunca havia tido tempo para ser uma mulher. E naquela noite parece que havia enfim experimentado como era ser mulher e irradiava uma felicidade inegável. Mas porque justo com ele? Porque nutrir um sentimento por uma pessoa que achava que era a própria encarnação no mal? E se um dia ele descobrir sobre o vírus que havia sido inserido nele, tudo parte de uma vingança sobre algo que ela na frente descobriu que era uma mentira?

E justo nessa noite, Victoire havia perdido também sua virgindade. Porém seu hímen havia se rompido sem derrubar uma única gota de sangue. O que isso significava?

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Novembro de 2012

"Hey, Vic", disse Agatha, enquanto elas estavam pegando um avião de volta a Londres.

Victoire não havia ouvido. Estava distraída olhando seu celular. Nele ela via fotos de Al. Fotos pessoais, que ela havia colecionado depois de fuçar alguns arquivos pessoais dele. Agatha se levantou e puxou o celular da mão dela, retirando-a daquele quase transe.

"O que diabos...? Francamente, Victoire! Você praticamente decreta a morte do cara, arquiteta uma vingança pessoal e depois se A-PA-I-XO-NA por ele. Alguém te leve para o México, porque isso tá parecendo novelinha brega dos anos noventa!", disse Agatha.

"Me devolva, Agatha!", disse Victoire, levantando.

A aeromoça veio na direção delas, vendo o início da confusão.

"Senhoritas, por favor, sentem-se e apertem os cintos! Vamos pousar logo, os celulares devem ser desligados!", disse a aeromoça.

As duas se sentaram, uma do lado da outra. E apertaram os cintos.

"Você é uma biscate, Agatha", disse Victoire.

"Eu sou o quê? Biscate? Ai, ai...", disse Agatha, tomando um ar, "Quem vê essa pseudo-relação de vocês de longe acha que o canalha aqui é o Al, por ficar te comendo direto e não querer compromisso com você. Victoire, a única responsável pela sua felicidade é você mesma".

"O que você disse?", disse Victoire.

"Vocês mulheres mais românticas adoram me chamar de biscate porque eu durmo com dois, três caras ao mesmo tempo. Mas eu sou isso, sou uma mulher livre, feliz e desimpedida, e faço nada de ilegal. Pelo contrário, depois dessa missão vou voltar pra cadeia, vou aproveitar porque na prisão não tem nenhum pinto pra me divertir. Já você dá o seu rabo pro Al porque você quer. Você é iludida porque você quer. Vive nesse mundo de sonhos achando que um dia ele vai te amar, mas ele não vai. Isso é cômodo pra você e ele só está fazendo o papel dele de homem. Tudo isso é culpa sua, e ele tem nada a ver", disse Agatha.

"Agatha, chega disso!", disse Victoire, começando a elevar sua voz.

"Vocês mulheres deviam saber que vocês são as responsáveis pelas suas vidas amorosas. Eu namoraria e casaria se quisesse. Só dar mole aí e esperar morderem a isca, homens são todos iguais. O que não suporto é ver mulheres de baixa auto-estima como você que ficam vivendo nesse mundinho de Carrie Bradshaw achando que vai ter um final feliz com Al. Acorda, garota! Quem faz o seu final é você mesma. Não tô falando pra dormir com um cara por noite, mas investir num cara que nunca vai te ver como companheira e depois achar que ele é canalha porque tá te comendo? Você está aí porque você quer, isso tudo é escolha sua. Porque simplesmente você deve é gostar de sofrer, e não tem um mínimo de amor próprio, isso sim".

"CALA A BOCA, AGATHA!!!", disse Victoire a todos os pulmões.

O piloto havia anunciado que o avião iria pousar. Ao serem liberados, Victoire se apressou a sair na frente, sem nem olhar pra trás.

Ao chegar na sala de desembarque ela não aguentou e se trancou no banheiro, onde chorou como nunca havia chorado em sua vida.

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