quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Livros 2014 #3 - Cem anos de águas passadas

Um senhor que frequenta o mesmo templo budista que eu fez a gentileza de me emprestar esse livro magnífico sobre a história da imigração japonesa aqui na terra tupiniquim.

Escrito pela jornalista nipo-brasileiro Osamu Toyama, esse livro é excelente. É bem grandinho (a edição que peguei tinha quase 600 páginas), mas explica muita coisa graças ao trabalho minucioso do pesquisador. Enquanto o outro livro sobre Ryo Mizuno praticamente o coloca num pedestal, Toyama destroça totalmente, chamando-o de frio e sem sentimentos. É um outro ponto de vista, e provavelmente nunca saberemos qual era a desse tal de Ryo Mizuno, o japonês que trouxe os japoneses ao Brasil.

Na parte histórica vai além, mas mantém os personagens da época de Mizuno, como o Nanju Suzuki, o japonês que emigrou pro Brasil depois de uma decepção amorosa, e que negou a condecoração do imperador japonês anos depois.

Entra e explica muito o período pré-guerra, o grande crescimento econômico da colônia entre 1924 e 1934, a entrada do Japão na Segunda Guerra, incluindo os japoneses que eram presos sem muita satisfação e torturados por serem de países do Eixo, como a situação de isolamento que eles viviam, que levou mais tarde à criação do grupo terrorista Shindo Renmei, que parece que tinha oito alvos, fizeram atentado contra quatro e mataram apenas dois (parece brincadeira, mas é mais ou menos isso que mostra no livro).

Mostra a expansão no pós-guerra, vinda de mais imigrantes, empresas japonesas, e depois as crises do petróleo que aconteceram no final da década de setenta, a imensa inflação e falência dos "baluartes" da imigração japonesa: O Banco América do Sul, a CAC (sim, as batatas! Ainda existem?) e Sul Brasil, todas fundadas por isseis ou nisseis.

Tem hora que foca muito na CAC e fica meio chato. Tem uns sete capítulos só sobre a CAC e o Kenkiti Shimomoto. Enquanto o outro livro idolatra o Ryo Mizuno, nesse aqui idolatra o Kenkiti Shimomoto.

É normal e saudável fazer questionamentos ao autor depois que se lê um livro. ;)

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Vovô.


Nesse último dia dos pais passei com uma pessoa bem especial, meu avô.

Vô Chico sempre foi uma pessoa que eu só conhecia pelo telefone. Só tinha ido visitá-lo quando era moleque uma vez. Depois quando tinha uns dez anos no casamento da minha tia. E hoje, adulto, eu vou sozinho mesmo.

Meu avô de princípio pode parecer uma pessoa bem ranzinza. Mas ele, do jeito dele, se mostra uma pessoa muito mais bondosa do que aparenta. Meu avô me ensinou a ser uma pessoa boa no mais essencial: a base, sem que as pessoas percebam.

Acho que isso é meio genético. Um dia meu avô disse que quando eu era criancinha, eu mal devia ter uns 4 ou 5 anos, ele estava conversando com meus pais e disse: "Nossa, me deu uma sede agora". E disse que eu saí do colo da minha mãe e voltei com um copo d'água, óbvio, pingando tudo no meio do caminho pois era criança e não tinha muita coordenação. Meu avô ficou abismado comigo que, mesmo tendo apenas quatro anos, tinha percebido ele falar que tava com sede e eu ter ido buscar água espontaneamente.

Ele tem muitas estórias. E sabe que eu gosto de ouvir cada uma. Por mais que eu ouça eu vejo que careta mesmo é essa minha geração, a geração dele fez muito mais coisa, ousada ainda mais, tinha mais coragem. Hoje todo mundo é bundão. Inclusive eu.

Quero ser um avô pros meus netos assim como você é um grande avô pra mim!

Avô é pai duas vezes. E passar o dia dos pais com meu avô foi duplamente legal. =)

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Aventuras de Sir Alain no Japão #10 - Akihabara (3)



Jogatina desenfreada em Akihabara!

Mas eu só joguei esse jogo do taikô mesmo, prometo! Mas que eu queria jogar muito mais, ah, eu queria!

Doppelgänger - #35 - HURRICANE VENUS.

Agatha embora pudesse se mexer, não conseguia.

Já Victoire queria se mexer, mas não conseguia.

“Sabe, Agatha”, disse Sara, “A mente humana é um negócio muito legal. E acho que pra se maravilhar com o comportamento dos nossos pensamentos nem é preciso saber ler mentes. Você pode sim se mexer e me parar, pode levar um tiro, e não ser tocada por mim. Mas ainda assim você resiste. Sabe, não faz muito sentido!”.

Sara deu um risinho. E começou a desabotoar a roupa de Agatha. Jogou o cachecol dela fora, desabotoou a camisa e viu o sutiã dela – um modelo um tanto sensual, com feixe na frente – exatamente do tipo que deixa qualquer homem louco.

“Que seios lindos, Agatha. Realmente você se cuidou bem na prisão. Eu sabia de longe que eles eram firmes.”, disse Sara, aproximando a boca dos mamilos, e sugando-os com bastante carinho.

Victoire ainda não conseguia se mexer. E pior, parecia que a concentração de Sara ao controlar seu corpo parecia mais forte ainda. Seu corpo não mexia um milímetro, e continuava apontando a arma pra cabeça de Agatha. Sara passou pro outro seio, afastando calmamente o sutiã. Começou com carícias com a mão, e depois de instantes lá estava ela com a língua de novo.

“Você é tão cheirosa, Agatha. Tenho inveja dos homens que comem você. Queria ser um homem e comer você agora, mas acho que daqui a pouco o idiota do Ar vai me mandar cair fora, e como eu tenho vocês aqui comigo, vou mostrar um pouco de serviço”, disse Sara.

Nessa hora ela deu um empurrão em Agatha, que bateu na parede com força e caiu. Parece que Sara não conseguia controlar seus movimentos como conseguia com Victoire. Ainda tentava recobrar a respiração depois do impacto quando viu Sara olhando fixamente para Victoire, que continua com o corpo paralisado segurando a arma.

Victoire parecia estar entrando num transe pela força psíquica de Sara. Agatha via que Sara não mexia um músculo, mal parecia piscar. Foi aí que algo inesperado aconteceu.

“Vamos começar com essa francesinha de bosta”, disse Sara.

E Victoire, sem o controle dos seus movimentos, levou a arma à sua própria cabeça. Sara tinha feito isso para que ela mesma tirasse sua própria vida.

“Merda!!”, gritou Agatha, “Victoire, não faça isso, resista!!”.

Mas era tarde. O dedo estava no gatilho e com uma pequena força foi puxado. A arma estava engatilhada e fez um barulho, um clique mais alto e sonoro. Mas foi apenas um clique. Não foi o som de um disparo.

A arma não estava com munição.

Sara conhecia pouco de armas, e não entendera porque aquilo acontecera. Será que tinha dado algum problema da arma? Ou será que havia emperrado? Armas emperram? Ela realmente não sabia de nada.

Mas antes que ela tentasse entender o que estava acontecendo viu Agatha correndo em sua direção e não deu tempo pra nenhuma reação. Agatha havia lhe acertado com a mão fechada no seu rosto, um belo soco cruzado.

Victoire conseguiu o controle do seu corpo de volta, e viu que Agatha se jogou com ela em um monte de roupas e lençóis lavados, logo Agatha estava desferindo fortes golpes em Sara e Victoire conseguia ver nada.

Porém, Victoire viu depois de alguns segundos Sara saindo daquele monte de roupas, um pouco ferida, mas distraída. Foi aí que Victoire foi pra cima dela com uma rasteira, jogando-a no chão. Começou a então a luta entre Sara e Victoire.

Ao cair no chão Victoire foi com o cotovelo dar um golpe no rosto de Sara, porém ela desviou no último momento.

Nossa, ela luta bem pra uma telepata!, pensou Victoire.

Sara rapidamente se recompôs, e estava de joelhos. Victoire deu um impulso e foi com o punho fechado em direção do rosto de Sara, dando-lhe três golpes certeiros. Direita, esquerda, direita, jogando Sara em uma estante, quebrando todos os vidros dela.

Venha ler minha mente agora, sua vadia!, pensou Victoire.

Sara se apoiou na parede e deixou os pulsos em defensiva, na altura do rosto, para protege-la. Victoire fingiu um golpe por baixo e quando Sara abriu a defesa ela enfiou um golpe frontal na direção do rosto de Sara.

O que ela não contava era que a própria Sara pararia o golpe com a mão, torceria o braço de Victoire fazendo ela se virar, e aplicaria uma chave no pescoço da mesma. O braço estava firmemente imobilizando Victoire por trás no pescoço, que tentava de alguma forma de desvencilhar do forte golpe de Agatha dera nela.

Peraí... Agatha?

“Victoire!”, gritou Agatha, enquanto imobilizava Victoire, “Sou eu, sua tonta! Você ainda não tá me ouvindo?”.

Victoire não entendia nada. Ela estava batendo na Sara, como que agora era Agatha que estava aplicando a chave no pescoço dela?

“Agatha...? O que aconteceu?”, questionou Victoire.

“Sua idiota!”, respondeu Agatha, soltando Victoire, “Quando eu golpeei a Sara e caímos naquele monte de roupas, fui eu que consegui sair primeiro. Mas ela deve ter confundido sua mente, e feito você pensar que estava com a Sara na frente, quando na verdade era eu! A gente que ficou lutando aqui, mas você pensava que eu era a Sara!”.

Victoire olhou pro rosto de Agatha. Sentiu muita vergonha de si mesmo. Por mais que Agatha fosse ainda uma insensível e uma biscate na opinião dela, ela ainda a considerava uma amiga, uma pessoa que a entendia.

“Ai, ai...”, disse Agatha, relaxando um pouco, “E no meio dessa confusão, a Sara escapuliu. Saiu toda ensanguentada, mas quem no final que levou a surra fui eu. Realmente... Esse rostinho angelical esconde uma força do demônio. Você é muito mais forte do que eu...”.

Lágrimas caíam do rosto de Victoire.

Naquele momento ela parecia uma menininha que não sabia como pedir desculpas pela merda que fizera.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Livros 2014 #2 - Ryo Mizuno

Um amigo meu do templo me indicou esse livro. É a história de Ryo Mizuno, o precursor da imigração japonesa no Brasil. O nome do livro é Ryo Mizuno - O precursor da imigração japonesa no Brasil.

Livro muito bom! Como toda boa biografia, bem factual, muito bem fundado nas datas. A estória de Ryo Mizuno é muito interessante. Acho que muita gente que é descendente de imigrante japonês aqui jamais imaginaria que foi um senhor de mais de sessenta anos que começou o movimento migratório do Japão pra cá. Começou nessa idade e continuou fazendo isso por trinta anos, falecendo com 91 anos de idade.

Ele foi veio do Kasato Maru e nos outros navios que vieram trazendo japoneses pra cá. Vale a leitura, livro pequeno e bem condensado, sem muito lero lero ou suposições. E inclusive mostrando a dura vida dos imigrantes que se mudavam pro Brasil no princípio. Realmente, não era fácil.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Livros 2014 #1 - Super Sad True Love Story

Sim! Faz tempo que não posto livros. O motivo não é que eu não estou lendo, estou lendo! Mas esqueço de postar. O segundo motivo é que muitos livros que ando lendo são livros budistas, os quais eu não posso falar muito aqui abertamente.

Fui na Livraria Cultura e comprei um livro na seção dos que andam vendendo bem. É o livro de Gary Shteyngart chamado Super Sad True Love Story. Esse livro com essa capa retrô aí.

Eu tava meio da deprê por ter levado um fora de uma menina que eu amava de coração, e achei que devia afogar as lágrimas, e o título pareceu bem sugestivo pra me afundar ainda mais (nossa, que clima chato! Mas passou!).

O livro não tem um resumo muito eficiente, então comprei mesmo sem nem saber direito sobre o que era estória. Antes de dar os spoilers, vou falar sobre como o livro é escrito. Não é à toa que ele foi considerado um bocado a frente do tempo. O autor, um russo americano escreveu uma narrativa em forma dos diários do Lenny Abramov, um personagem que também é russo-americano, e escreve diários, é uma pessoa muito solitária e é um quarentão que trabalha numa empresa onde o objetivo é fazer as pessoas não envelhecerem com tratamento genético.

Com essa descrição de um loser rapaz com dificuldades sociais, a imagem que tinha dele era essa:


Por outro lado, como outra protagonista, temos a Eunice Park. Uma koreana gatinha, que não sabe o que é um livro (sim, é verdade, o livro se passa num futuro super tecnológico onde não existe papel), muito ativa sexualmente (ainda bem, seria um desperdício!), e com sérios problemas com a sua família.

O legal do livro é que tem os diários do Lenny e alterna com os e-mails que a Eunice trocava com sua família e os chats também com sua irmã caçula revoltada e crente. E como se isso não definisse Eunice como uma biscate, até o final do livro só confirma a personalidade de uma completa biscate.

Eu imaginava a Eunice Park assim:



(talvez não com esse vestido. E nada contra a koreana gatíssima Oh In Hye! Ela é atriz, e o papel de Eunice Park se encaixaria muito nela pela aparência)

Posso começar os spoilers? =D

SPOILERS ABAIXO!
Depois não venha dizer que contei o final do livro!

O livro começa nas Europa. Lenny conhece Eunice, que não dá bola pra ele, e a koreana havia acabado de terminar um rolo com um carinha lá. Lenny, um quase-virgem de quarenta anos acaba levando a Eunice pro apê dele, mas ele tava chapado de bêbado, e ela ao invés de aproveitar realizando um entra-e-sai dentro dela (laranja mecânica! Alguém?), ela acaba tendo que ser babá do cara, que ACHA que a comeu ainda (esse cara consegue ser pior que eu!).

Lenny volta pra Nova Iorque, e Eunice fica lá em Roma. Porém, trocando e-mails com a mãe dela que mora nas América, a mãe começa a falar que o problemático pai da Eunice, um koreano alcoólatra, e sua irmã, crente mas pertencente a grupos de manifestantes, precisam dela de volta. A Eunice, mesmo sendo outra revoltada, decide voltar, e usa o Lenny pra lhe dar casa, comida e roupa lavada, o que deixa o Lenny de pau duro excitado em ver a koreana dos seus sonhos enfim na sua cama casa.

Bom, esse é o primeiro motivo para chamá-la de biscate.

O livro conta muito o dia-a-dia deles, e a Eunice era muito chata. E pra piorar, o Lenny tinha uma auto-estima lixo, sempre baixava a cabeça pras coisas que a koreana fazia. Qualquer ameaça dela era motivo dele se crucificar e implorar desculpas. O Lenny fica enchendo o saco pra apresentar ela pros pais dele como a namorada dele, e ele além de russo, é judeu, e os pais ficam meio assim: =/

Mas a desgraça mesmo é quando ele, depois de muito insistir (pro Lenny era uma forma dele ficar seguro no relacionamento se ele fosse apresentado aos pais da namorada e vice-versa), vai conhecer os koreanos pais da Eunice.

Ele vai até na igreja deles e tal, depois vão jantar juntos, mas parece aqueles filmes de comédia, sabe? Comida voando, caroço de azeitona sendo lançado, manchando o vestido das pessoas, realmente uma desgraça. A Eunice, songa-monga, faz nada, porque ela precisa do teto do Lenny pois ela não quer voltar a morar com o pai alcoolátra. Continua usando o Lenny, mesmo ele sendo louquinho por ela, e depois de um jantar desse os koreanos gostando nem um pouco dele.

Esse é o segundo motivo para chamá-la de biscate.

Porém com o andar da carruagem, a Eunice até começa a olhar o Lenny com outros olhos (sim, ela começa a despertar um ligeiro amor pelo cara). Mas o nome do livro é Super Sad True Love Story.

O chefe do Lenny na empresa que faz a renovação das células das pessoas, o Joshua, conhece a Eunice. E, julgando que a aparência da Eunhee é da Oh Ih Hye (acima, se você não viu ainda, o que eu duvido), Joshua quer copular com ela, e por meio de uma ejaculação, ele quer misturar seus gametas americanos com os gametas asiáticos dela. No livro mesmo descreve que esse Joshua tem sessenta anos, mas parecia mais novo que o Lenny, que tinha quarenta.

Não consigo imaginar o Joshua Goldman de outra maneira exceto o David Hasselhoff:


(minha imaginação é bem fértil enquanto leio livros, né?)

E aí estoura uma revolução lá nas América, pois tinham dois partidos lá que viviam na treta. Começam a tacar bombas, sitiar cidades, enfim, eles eram do balacobaco. E nisso Lenny fica desempregado. E Eunice, mesmo de início não querendo ficar com o Joshua, vê que ele tem um pênis de ouro que vale mais do que dinheiro, e resolve unir a tara ocidental por asiáticas kawaii, com o dinheiro do empresário que ainda pra piorar a situação resolve ajudar a família da Eunhee a recuperar a casa deles em troca da bundinha asiática amarela da Eunice Park.

Resumindo: Eunice dá um chute no Lenny, e fica com o Joshua. Fim.

Tem biscate maior que essa? Depois homens que são canalhas. Tsc, tsc, tsc.

E o Lenny? Bem, ele não tinha um Carl igual nos Simpsons pra consolar ele. O livro dá idéia de que ele continuou sozinho e triste. Provavelmente morreu assim. Talvez por algumas doze páginas a Eunice tenha gostado dele, mas no final, manteve a regularidade dos atos de biscate dela desde que foi apresentada no livro.

Mas é legal o livro! Eu indicaria ainda, hehe.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

No fundo, os gregos que estavam certos.

A mitologia grega mesmo hoje deixa as pessoas maravilhadas. Como ela é uma das referências mais antigas do ocidente, tudo aquilo serviu de base para o que viria mais tarde, mesmo que a gente não perceba. Mas com certeza todos os conceitos eram inerentes dentro do ser humano desde muito antes deles!

Esses dias estava meditando e refletindo. Muitas pessoas entendem erroneamente que deuses gregos eram daquela maneira, que existia um tiozinho barbudo que tinha raios na mão chamado Zeus, por exemplo. Na realidade os deuses gregos eram arquétipos - as essências que todos os seres humanos têm.

O melhor exemplo foi quando Julio César (o imperador romano, não o goleiro da Seleção), após derrotar o Vercingetorix caminhou sobre Roma, onde todos diziam que ele encarnava o próprio Júpiter (Zeus). Grande homem, viril, rei dos reis, líder, e por aí vai.

E, se você parar pra ver as religiões, todas elas possuem padrões similares. E isso mostra mais ainda como todos nós somos um só. Pegue por exemplo Maria, a mãe de Jesus. Sua imagem é a mais pura compaixão, aquela que ouve todos os gritos e pedidos das pessoas, que roga por nós aqui e na hora da nossa morte.

É um arquétipo da compaixão, assim como a bodhisattva Guanyin no budismo (sânscrito: Avalokiteshvara; japonês: Kannon). Peguei a Guanyin pois na China ela é mostrada como uma mulher, mas na Índia e no Japão as personificações são masculinas. Também tem o mesmo papel de mãe acolhedora, que guia com compaixão, que dá a vida pelo filho. E com certeza diversas outras crenças também tem similares.

A idéia não é mostrar que uma é correta, ou que todas as religiões são vazias, ou muito menos atacar um ou outro. Minha intenção é mudar essa visão, mostrar que acima de tudo as religiões tem um caráter muito mais humano, um divino dentro de nós, que foi se perdendo durante todo esse tempo. Vejo diversas pessoas cristãs que tem um comportamento louvável como a da Maria, pessoas bondosas e repletas de compaixão e amor ao próximo. Ao mesmo tempo que vejo no budismo pessoas também repletas desse amor benevolente da Guanyin.

Em outras palavras, o divino está dentro da gente.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Doppelgänger - #34 - Sentir-se vivo novamente.

“Vamos, Lucca”, disse Ar, dando uns tapinhas leves no rosto de Nezha, “Consegue olhar pra mim?”.

Nezha não entendia nada. Tinha sido levado pra dentro de uma van pouco iluminada por uma janela no canto. Ainda estava com o estômago todo embrulhado com o estranho nojo que havia sentido. Porque diabos estava metido naquela coisa toda? Porque tinha aceitado entrar nessa furada? Como sempre, sua mente estava envolta de questionamentos.

“Lucca, eu te devo muito. Você me salvou e cuidou de mim, como acha que eu não iria retribuir isso tudo?”, disse Ar.

“Ar... Porque diabos você me chama de ‘Lucca’? Quem é essa pessoa?”, perguntou Nezha.

“Você não lembra mesmo”, disse Ar, com um semblante frustrado, “Fizeram uma lavagem cerebral em você, Lucca. Não entendi o porquê disso. Não entendendo nem o motivo de terem chamado você pra embarcar nessa missão. Você nunca achou nada estranho, Lucca?”.

“Estranho? O que eu acharia estranho, porra?”.

“Você consegue se lembrar de algo concreto da sua adolescência, por exemplo?”.

Nezha pensava, mas apenas imagens esparsas apareciam. Não sabia se aquilo eram sonhos ou era real. Uma pessoa com esse tipo de lavagem cerebral tem muitos sonhos, muitos sonhos estranhos que ficam fixados nas lacunas da sua memória. Chega um momento que ele não sabe se viveu aquilo, ou se era uma memória real.

“Os sonhos são aterrorizantes, não é mesmo, Lucca? Mas seu nome é Lucca. Você trabalhou com meu pai, você era o braço direito dele por muitos anos. Você confiava nele como um irmão, e quando ele morreu, te caçaram como um animal, pois acreditavam que você tinha sido o que havia sabotado todo o sistema junto com ele”, disse Ar.

“Não... Meu nome não é Lucca. Meu nome é Javier Pallermo. Sou espanhol. Não sei do que você está falando”.

“Lucca, todas as pessoas te chamam desse nome nos seus sonhos. Acha que é uma coincidência? Eu posso te dar sua identidade antiga, assim como posso também reverter essa lavagem cerebral que fizeram em você”.

Na hora Nezha ficou abismado. Não sabia se podia confiar em Ar. Mas ele parecia saber algo que ele saber algo que parecia bater com a realidade que ele achava que era real. Tudo aquilo que ele falava parecia muito com as imagens estranhas que estavam na cabeça dele.

“Veja essa foto, Lucca. Me diga o que sabe sobre esse garoto”, disse Ar, mostrando uma foto.

Nezha viu a foto e começou a tentar buscar alguma semelhança. Era um menino com cara séria, magro e baixo, cabelo penteado pro lado e preto, e um ferimento no queixo.

O ferimento estava coberto com um curativo.

“Esse garoto... Eu... Eu já o vi antes. Ele era filho do meu amigo... Meu amigo...”

“O nome desse amigo é Arch”, completou Ar.

“Sim, ‘Arch’. E eu cuidava dele, só não lembro o motivo de cuidar dele... Até que uma pessoa um dia apareceu, disse que queria esse garoto. Ele invadiu minha casa e foi na minha direção”.

“Sim. O nome desse invasor é Al”, completou Ar.

“Meu deus... Meu deus, meu deus!!”, disse Nezha, enquanto parecia ser acometido por uma imensa dor de cabeça, “Sim, sim. E o garoto tentou separar a briga, e nessa hora... Eu acertei ele no queixo, cortei ele com uma faca que tinha comigo de raspão”.

E Ar apenas apontou pro seu queixo. Havia uma cicatriz lá, embora fosse discreta.

“Eu lembro como se fosse ontem o que você disse antes de brigar com o Al. Você consegue se lembrar?”, disse Ar.

Nezha olhava pro chão. Tentava entender o que estava acontecendo. Olhava pra um lado, olhava pro outro, logo aquele movimento de vai e vem se intensificou, e sua cabeça foi se erguendo e fazendo o mesmo movimento da direita pra esquerda.

Quando ele olhou pra Ar, sua cabeça parecia fazer um movimento intenso de negação, como se tudo aquilo que ele achava que fossem meros sonhos que aconteciam à noite se encaixassem e se mostrassem na sua frente como realidade.

“Me faça sentir. Me faça sentir vivo novamente!”, gritou Nezha. Ar assentiu. Era exatamente essa frase.

“Muito bem.”, disse Ar, “Posso te dar sua memória e sua identidade de volta, mas para isso preciso que faça um pequeno favor pra mim. Acha que consegue?”.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Aventuras de Sir Alain no Japão #9 - Akihabara (2)



Bom, no Brasil também as pessoas tem lá seus fetiches! Como aqui as mulheres em geral tem mais corpo, normalmente lingeries provocativas e trajes sociais (tanto pra homens como mulheres) atiçam - e muito - a libido das pessoas.

Mas no Japão, além dos fetiches por saias rodadas de colegiais, maiôs escolares, ainda tem as... Meidô! As empregadinhas que, embora não sejam prostitutas, como o emprego usa muito do corpo e do fetiche da japonesada, é muito mal visto.

E o Alain aqui turista anta não sabia disso, haha!

Sem dúvida um dos dias mais divertidos!

sábado, 16 de agosto de 2014

Doppelgänger - #33 - Trigger.

Essa casa à sua direita com a porta aberta. Eu estou aqui.

As duas passaram pelo jardim e viram que a casa estava com a porta aberta. A casa era um sobrado com pé direito muito alto, mesmo sem precisar subir muito era possível ver ao longe o monte de policiais na frente da casa de Löfgren, pois estava no topo de uma ladeira.

“E ainda tem esse andar no topo... Tem uma janela aberta ali. Será que era de lá que ela observou tudo?”, questionou Victoire.

Mas Agatha estava um pouco apreensiva. Nunca tinha tido interesses por mulheres antes, exceto uma vez quando tinha uns treze anos e brincou de beijar na boca as meninas que estudavam com ela. Não gostava de mulheres, nem mesmo pra amizade. Sempre fora a menina que surrava os meninos na escola. E mesmo depois de adulta, sempre fora muito ativa sexualmente – mas nunca se interessou por mulheres.

Por outro lado, estava tendo que lidar com uma psíquica. O uso de pessoas com telepatia é um tabu em diversos países da Europa sobre seu uso dentro da Inteligência. No regulamento interno de países como a Espanha, a Inteligência do país vetara o uso de pessoas com telecinese inclusive dentro da própria polícia. Ler mentes de criminosos, basicamente, e assim auxiliar os promotores de justiça a conseguirem incriminar as pessoas com maior eficiência, afinal a justiça deveria ser feita – de uma maneira ou de outra.

Assim como o uso de médiuns, os governos sempre tentaram mostrar que isso era ficção. Que não existem pessoas mediúnicas, nem com poderes psíquicos, e que todos os méritos de um serviço de Inteligência se dava pela capacidade dos seus próprios agentes. E por mais óbvio que isso pareça, admitir o uso deles continua sendo um imenso tabu.

As duas subiram os degraus da casa, foram até o andar mais alto. E lá encontraram... Sara.

Sara era uma mulher bonita. Cabelo curtíssimo e feminino, loira, um tom loiro quase branco. Seus olhos eram azuis, e tinha uma maquiagem carregada e preta nos olhos. Sua pele era branca, e vestia uma roupa um tanto casual, um sobretudo marrom escuro, uma calça preta bem justa e uma botina sem salto. Estava sentada junto da janela, segurando um binóculo – provavelmente o mesmo que ela usara pra observar toda a ação na mansão de Löfgren, algumas quadras dali.

Hã? Cadê o Nezha? Merda... Será que ele se perdeu?, pensou Victoire.

“Vamos acabar logo com isso, Sara”, disse Agatha, determinada, apontando a arma para Sara.

“Eu consigo ler sua mente como um livro aberto, Agatha. Você nunca vai conseguir me acertar”, disse Sara.
“Não se eu atirar antes!”, disse Agatha, puxando o gatilho.

O tiro passou rente ao lado esquerdo da cabeça de Sara. Como ele pôde errar um tiro nessa distância?

“Eu disse, você nunca vai conseguir me acertar, Agatha”, disse Sara, caminhando lentamente na direção de Agatha.

Novamente Agatha empunhou a arma, mirou bem na testa de Sara, mas na hora de disparar, o tiro acabou passando pelo lado direito de Sara misteriosamente.

“Não adianta, Agatha. Você é minha. Quero provar um pouco dessa sua... Maturidade”, disse Sara, avançando dois passos.

O que se passava na cabeça de Agatha naquele momento? Seu corpo inteiro estava arrepiado. Vira Sara antes como uma pessoa que estava distante, como se estivesse a quilômetros de distância. Agatha se sentia segura, se sentia capaz de encarar ela e com apenas uma bala acabar com aquilo tudo. Mas naquele momento, o olhar de Sara parecia como a de um animal pronto pro abate. Cada passo parecia eliminar quilômetros daquela distância que a deixava segura. Seu corpo tremia, como se tomado por um medo que ela por mais que pensasse friamente, não conseguia imaginar da onde vinha.

Foi aí que algo aconteceu e mudou completamente a rumo da história. Algo que nem mesmo Agatha imaginaria. Ela sentiu algo gelado ao lado da sua testa, na altura dos olhos, e antes que conseguisse entender o que estava acontecendo, ouvira um clique.

Era Victoire, com a arma engatilhada.

“A-Ag-Agatha...!”, disse Victoire, como se tivesse sendo tomada por uma força tremenda, “Eu não consigo me mexer...! Meu corpo está... Se mexendo... Sozinho!”.

Nesse momento Sara estava na frente de Agatha.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Romances Disney e minha infância


Minha mãe praticava um pouco de lavagem cerebral da Disney comigo quando eu era moleque.

Esses dias tava passando "A Bela e a Fera" no Disney Channel e fiquei assistindo. Engraçado que eu lembrava de resquícios de falas do filme, e minha mãe me viu assistindo e disse: "Ah, você assistia direto esse filme quando era criança!".

E aí eu retruquei: "Bela e a Fera? Pensava que era a Dama e o Vagabundo".

"Esse também!", ela completou.

Eu quando era moleque eu achava aquilo mágico. Pouca gente dá atenção pra filmes como "A Dama e o Vagabundo". Muita gente curte sim "A Bela e a Fera" com todo aquele simbolismo da renascença Disney, mas ambos são grandes análises comportamentais que, se for vista muitas vezes, pode causar uma ligeira lavagem cerebral, talvez até ditar comportamentos dessas crianças quando crescerem, deturpando valores e comportamentos (olha eu sendo o cara apocalíptico!).

Em suma a Dama e o Vagabundo é um romance entre uma menina rica (ou nem tanto) que se apaixona por um cara que é um pé-rapado (ou nem tanto), mas a questão não é a ascensão social de uns e queda de outro, mas aquela crença de que o amor pode acontecer.

Sendo o rapaz um cara pobre e a menina rica, logo podemos concluir que: ela também deseja um cara rico, afinal, quem em sã consciência trocaria o Cal super rico pelo Jack Dawson-calça-furada (que tira seu sustento desenhando mulher pelada!)? Só a Rose mesmo (por isso que a única coisa factível no Titanic é o navio ter afundando, e olhe lá!).

Mas a ficção acaba sendo tão enraizada que em algum momento na vida acreditei que aquilo poderia ser possível. "Hora, se o Vagabundo conseguiu conquistar a Dama, eu também posso!", e aí batemos de frente com o muro das lamentações chamado... Realidade!

Esses dias uma pessoa que sigo postou o seguinte: "Preciso casar com um homem rico". Você e 99,9% das mulheres. Trabalhar que é bom ninguém quer né?

E dias atrás, uma outra postou um link do BuzzFeed sobre homens que são BFF (Best Friend Forever, dafuq!) de mulheres. Lembro que eu comentei: "É ruim ser BFF, é?", e ela fez um comentário sensacional: "Não, é pecado, perda de tempo. Mulher é pra comer".

GE-NI-AL. Hahahaha!
(não estou sendo sarcástico, gostei mesmo!)

Aonde eu quero chegar?

Sabe, o mundo trouxe muitas vantagens. Hoje mulheres não estão presas a casamentos arranjados como era com nossos avós. Hoje mulheres enfim conquistaram o direito da escolha, o que é ótimo! Não tem mais aquela de ser escolhida, elas podem escolher.

Porém, como invenção nova demora pra ganhar maturidade, com a nova habilidade veio um novo dilema: perdeu-se a capacidade de ser conquistada. Não apenas a da conquista, mas de deixar se apaixonar.

Hoje em dia tá muito assim: a menina quer um cara, e elege o cara o amor da vida. E só ele é possível. Só com ele que ela tem tesão e amor. Só com ele que ela quer casar e ter filhos. Se o cara der bola, ótimo, afinal como essa amiga me disse: mulher é pra comer. Mas se não der, ela continua metralhando, e não abre caminho para um segundo (ou terceiro, quarto, quinto) lhe conquistar. E isso não vi em uma, duas ou três. Eu vi em praticamente toda mulher jovem.

Falo conquistar mesmo. Não falo "pegar". Afinal é muito complicado ir expor o sentimentos e mostrar seu amor pra alguém.

Muitas amigas falam que eu sou um dos únicos caras hoje em dia que dá a cara pra bater e vai a luta mesmo. Que eu falo dos sentimentos para as mulheres, me declaro, mostro que é possível se relacionarem comigo, agindo como o Vagabundo da "Dama e o Vagabundo". Como elas mesmas dizem, os homens andam muito moles (isso significa que eu sou "duro"? Hahaha!).

Mas não vamos esquecer que o filme, assim como o comportamento das mulheres mudou. A Dama foi conquistada pelo Vagabundo, mesmo ele não tendo onde cair morto, sendo um vira-lata e que come lixo.

Porém, o filme é de 1955.

E isso muda tudo.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Três crianças, uma câmera e uma criança grande.

...O resultado, dá nisso! hahaha.
São os meus priminhos do interior. Amo essa molecada!


quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Theés.


θεές.

Em grego acima tá escrito Theés, que significa Deusas.

Porque no fundo elas pra mim foram isso. Foram mulheres que, de acordo com o tempo e a maneira como participaram da minha vida, nada pude fazer a não ser cair nos pés de cada uma delas. Mulheres que me inspiraram, e inspiram até hoje, mesmo que muitas aí da listinha eu nem tenha mais tanto contato hoje em dia.

O que? Querem que eu revele quem é? Hahaha.

Acho que se alguma que foi retratada se ver aí vai saber que é ela.

E isso já basta, porque só eu sei quem cada uma é. E todas elas estão guardadas no fundo do meu coração. :)

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Aventuras de Sir Alain no Japão #8 - Akihabara (1)



Era pra postar ontem, mas como eu tava na roça, na roça não tem internet! =D

Conheçam Akihabara, o point mais nerd e otaku do Japão! Afinal, se ser nerd é sexy, meu nível de nerdice é Brad Pitt!

Doppelgänger - #32 - Vômito.

“Droga, ainda falta muito?”, disse Agatha, enquanto andavam meio sorrateiramente pelo subúrbio de Cockfosters.

As ruas eram todas cheias de casarões. Casas onde muitos dos ricos da região de Londres vivam suas vidas. Casas com Ferrari na garagem, e absolutamente nenhum imigrante. Quem vive em Londres sabe, os imigrantes vivem mais próximo do centro, especialmente os mais pobres. Os ingleses mesmo vivem mais afastados.

Os três tinham que tomar cuidado também para não serem vistos. Não sabiam se aquele jogo mental da psíquica Sara estava ainda em ação – ou até quando ia durar.

Nezha no meio delas não sabia o que fazer. Se sentia perdido, e cada vez mais parecia ser uma pessoa que era apenas levada pela maré. As duas ali eram as protagonistas, ele era apenas o coadjuvante. Não se incomodava, mas sua cabeça ainda tinha muitas dúvidas.

Victoire e Agatha agilizaram o passo ao atravessar a rua. Nezha sentiu que devia esperar pra atravessar, e quando se voltou pras duas, viu um homem correndo junto com elas, de cabelos pretos, uma jaqueta de veludo preta, sapatos de camurça marrom e uma grossa calça jeans azul escura.

Nezha basicamente viu ele mesmo correndo. Ou alguém muito parecido correndo.

“Acalme-se, Nezha. Ou eu deveria chama-lo de... Lucca?”, uma voz disse, saindo de dentro de uma van.

Nezha procurou a fonte da voz. Olhou para um furgão azul estacionado próximo à guia. De lá saiu uma pessoa vestindo um sobretudo, e a cabeça com um gorro cinza de moletom. Roupas muito simples, sem dúvida ele se passaria por um mero londrino. E esse mesmo homem tinha uma grande semelhança com alguém que ele conhecia.

Al...? Mas já acabou o treinamento?

Foi aí que o homem tirou o gorro. Seu cabelo estava diferente, parecia raspado, estava muito rente e baixo. E ele idêntico ao Al, exceto pelo cabelo, e por uma cicatriz no queixo, um bocado discreta. Até mesmo a pinta na bochecha era idêntica.

“Acho que não nos apresentamos formalmente, Lucca. E pela sua cara de surpresa, você não se lembra de mim, embora eu te conheça muito bem. Sou Artie Blain, o famoso ‘Ar’ que seu amigo Al está correndo atrás”.

Nezha ficou pasmo. Enquanto Ar se aproximava dele, ele dava passos pra trás, até tropeçar na caixa de correio de uma casa e cair no chão depois. Ar não apenas estava solto, mas estava ali, na sua frente! Era só acabar com ele que tudo isso enfim teria um fim! Lembrou-se que tinha um coldre embaixo do seu paletó, sacou de lá uma arma e apontou pra Ar.

“Parado aí!”, disse Nezha, baixo, mas com altivo, “Se você der um passo a mais eu atiro em você!”.

“Calma, Lucca. Eu apenas quero conversar. Fique tranquilo, aquilo é mais um golpe mental, elas não se ligaram que você ficou pra trás. Vão ter a surpresa apenas quando encontrarem a Sara”, disse Ar, enquanto avança a lentos passos em direção de Nezha.

“Ora seu... O que diabos você quer?”, disse Nezha.

“Você jamais vai atirar em mim, Nezha. É impossível. Essa arma está carregada, não? Vamos... Aperte o gatilho. Vamos acabar logo com isso. Todos estão atrás de mim, e minha vida está nas suas mãos”, desafiou Ar.

Nezha não entendia nada daquilo. Mas a presença de Ar era de alguma forma... Aterrorizante pra ele. Era apenas um moleque de vinte e poucos anos, mas ele sentia medo. Ar não estava armado, mas nem mesmo se Nezha estivesse com todo o armamento do mundo ele se sentiria seguro naquele momento. Em plena luz do dia. Onde diabos estavam as pessoas daquele lugar? Ninguém estava vendo o que estava acontecendo na rua ali naquele momento?

“Boss, você tem certeza disso?”, disse um dos seguranças de Ar.

“Sim. Fiquem calmos”, Ar os tranquilizou.

Ar ergueu as mãos como se mostrasse rendição. Nezha já estava de pé e com o rosto dele na mira da arma. Era apenas apertar o gatilho. Nada mais.

Nezha moveu o gatilho. Ele transpirava muito, um suor frio. Ao posicionar o dedo no gatilho, sentiu um imenso frio na barriga e sua espinha gelou. Tentava fazer força, apenas a força pra puxar um mísero gatilho e via que quanto mais pensava em atirar, mais seu estômago doía. Começou a sentir um enjoo indescritível, e suas pupilas dilataram. Começou a se desesperar, e caiu do joelhos no chão.

Nezha vomitou. Vomitou no gramado tudo o que havia comido naquela manhã. O vômito saía até pelo nariz, seus olhos estavam marejados, e a dor era indescritível. Ele conseguiria atirar em qualquer pessoa no mundo, menos em Ar.

Por mais que ele tentasse entender, ele não entendia.

E depois de vomitar, ele tombou, ainda consciente no gramado. Ar assentiu, e dois seguranças vieram pegá-lo e levar pra dentro da van. Olhava pro chão e via que estava sem forças, e por mais que tentasse entender o que estava acontecendo na sua mente só vinha uma coisa.

Porquê?

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Doppelgänger - #31 - Os que confiam em você, esperam seu retorno.

Uma gota havia caído na minha testa.

Era geladinha. Senti ela escorrendo pro meu lado esquerdo, até que encostou no meu cabelo. Fazia um pouco de cócegas nesse momento. Mas era bom. Me lembrava de quando eu tomava chuva no calor. Era tão refrescante.

Comecei a abrir o olho lentamente. No início tudo estava embaçado. Via o luar na minha frente entre as folhas das árvores, e refletindo o luar, eu via gotículas de água caindo. Aquilo era tão bonito. Aquilo parecia tão real.

Eu estava deitado no chão. Mas eu sentia a grama, sentia a terra, e por um momento me senti como se eu fosse um com a terra, com o céu, com o mar, o universo e tudo.

Aquilo era uma sensação excelente.

Aquilo era estar vivo.

- - - - - - - - - - - -

"Não é possível!!", gritou Ravena.

"Pelos deuses, ele acordou! Ora seu...", gritou o mestre.

Al se ergueu do chão. Estava sentado ainda, observando tudo à sua volta. Foi aí que ele viu o mestre correndo em sua direção e lhe dando um soco no rosto.

"Discípulo tolo! Como você conseguiu escapar da hipnose da Ravena?", gritou o mestre.

"Nossa... Então foi tudo uma ilusão mesmo? Aquele papo de eu estar com a pessoa que eu mais amo feliz, envelhecer, e o tiro na cabeça?", Al perguntou.

"Minha nossa... Você não conseguiria fazer isso sozinho. Por acaso foi aquela mulher de cabelo roxo?", gritou Ravena, incrédula.

"Não é roxo. É cor-de-beringela. E sim... Ela foi minha esposa, fomos casados, mas ela faleceu em 2006 nos meus braços. Eu nunca consegui superar direito a morte dela, mas ver que ela me ajudou tanto... Nossa. Engraçado que isso tudo é bem real, é inconfundível saber onde estou. Quanto tempo eu fiquei desacordado?".

"Vinte e nove minutos...", disse Ravena.

"Só isso? Parece que foi uma eternidade. Eu ainda consigo lembrar muitos dos dias que eu vivi enquanto estava nos sonhos. Mas pelo visto, você foi pega, certo?".

Ravena estava com as mãos atadas por uma corda firme de sisal, amarrada num tronco de uma árvore. Pelo visto o mestre havia acordado e detido ela, mas despertar da hipnose não era algo que Ravena poderia fazer. Al havia tido muita sorte de ter encontrado a Val.

"Bom, acho que você nos deve explicações, Ravena. Você mexe mesmo com coisas espirituais?", disse Al, erguendo-se.

"Sim...", disse Ravena, já que não tinha outra opção, "Meu nome é Amanda Figuerola. Sou da Costa Rica".

"Uma médium da Costa Rica?", disse o mestre.

"Eu fui criada numa família católica, mas as pessoas no meu vilarejo ao saberem desse meu poder espiritual me acusaram de fazer bruxaria, de que toda essa mediunidade era coisa de Satanás e tudo mais. Pessoas na rua me xingavam, até que um dia...", ela estava lacrimejando.

"Um dia...?", perguntou o mestre.

"Um dia dois primos meus me encurralaram nos fundos de casa, ninguém estava em casa, e diziam que eu era uma bruxa, e merecia pagar por isso. Mandaram eu ficar quieta e que se abrissem a boca ninguém acreditaria, pois eu era uma feiticeira, e aí... Eles me estupraram violentamente".

Al cerrou os olhos a ouvir isso. Era estranho ouvir um negócio desses de uma pessoa tão jovem.

"Uma semana depois 'ele' apareceu", dise Ravena.

"Ele?", Al perguntou.

"Arch", ela disse.

"O que?!", Al exclamou, surpreso.

"Ele estava em uma missão, tinha que acabar com a farra de alguns traficantes de armas que estavam levando armas da Nicarágua. Eu sei que mal pareço ter vinte anos, mas tenho trinta e nove anos já. Arch salvou minha vida, me deu um novo nome, e me trouxe para a terra da liberdade - a América. E lá usei toda essa capacidade espiritual para resolver casos policiais".

"Não fico abismado por você ser uma médium e usar seus poderes pra ajudar na Inteligência. Isso é bem comum, embora seja uma espécie de tabu entre muitos detetives", disse o mestre, "O que mais me intriga é que o Arch está nessa história. Ele que te ajudou e te deu uma nova vida?".

"Arch me salvou de todas as maneiras possíveis. E a morte dele me deixou sem chão. Continuei trabalhando em Langley, mas não era a mesma coisa. Eu vi que alguns novos chefões lá não acreditavam nas minhas visões, até que me chutaram de lá. Quando eu não tinha nada, Ar apareceu. Soa irônico, né? Sou salva pelo pai e pelo filho. E agora, meu destino está nas mãos do irmão".

"Você tem muito potencial, mas estar envolvida com as pessoas que você está envolvida não vai te trazer nenhum futuro", Al iniciou, "Meu irmão pode ter salvado você, e o Ar pode ter te dado uma nova vida, mas eu gostaria mesmo era de libertar você".

Al se aproximou e cortou as cordas que a amarravam.

"Viver na Inteligência é uma vida podre, onde não temos direito a nada, e somos apenas ferramentas de quem nos paga. Gostaria era de ver você livre. Viva uma nova vida, uma vida comum. Acho que isso é o melhor que posso oferecer a você", disse Al.

Nesse momento, Ravena jogou sua cabeça no chão em agradecimento e chorou. Chorou como se tivesse ganho o maior presente da vida.

- - - - - - - - - -

"Aqui está sua 'passagem'. Tem uma pista de pouso próximo aqui, acho que trouxeram um jato Real pra te buscarem. Enquanto estiver no vôo, leia o dossiê do 'n'", disse o mestre.

"O que? Estava com o senhor?", Al perguntou, abismado.

"Sim. Ele me pediu pra entregar apenas depois que o treinamento acabar. Vá agora, discípulo tolo. As pessoas que confiam em você estão esperando seu retorno".

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Set me free.

A textura gélida da arma encostando na minha testa tinha me feito arrepiar. Sem dúvida, ela parecia mais fria do que a aparência, e meus olhos estavam arregalados olhando para Val naquele momento, pronta para apertar o gatilho.

"Espera, eu não sei se isso é correto", eu disse.

"Como assim? Esse tempo todo e você ainda tem dúvidas?", ela disse.

"Mas pera lá, tem alguma outra maneira a não ser me matar?".

"Não", ela disse, e eu fiquei assustado, mas depois ela consertou, "Isso não é te matar. Preciso é que você sinta que você está morto. E sentindo que está morto, vai poder se desprender desse lugar".

"Mas tem que ter algo tão... Radical?".

"Tem. Você tem que ver que eu estou viva. Você sente o gelado do cano da arma mesmo assim na sua testa. Por mais que eu diga o contrário, você continua pensando que isso tudo é real, e que se eu puxar o gatilho você vai morrer mesmo".

"Mas é, oras! Isso pra mim por mais que você diga, parece real, mesmo que agora eu tenha lá as minhas dúvidas".

Nessa hora, Val tirou a arma da minha testa, e começou a falar:

"É o seu instinto humano. Mas será que é apenas ele? Depois que eu puxar esse gatilho na sua testa você estará livre. Seu instinto humano tenta proteger sua vida, te fazendo pensar que você vai morrer. Pessoas são assim, pessoas só morrem quando perdem essa vontade de viver".

Vontade de viver? Eu já tinha ouvido esse discurso antes.

"Al, eu posso puxar esse gatilho, e você cair no limbo. Aí sim vai ser pior do que se você estivesse morto, pois sua própria mente vai decretar seu falecimento. Ou, eu posso puxar esse gatilho e você voltar pra realidade", disse Val.

"E como que vou fazer pra voltar?", eu perguntei.

"Tudo vai depender da sua vontade de viver. Até esse momento você nunca se importou de existia ou se vivia. Você perdeu a mim, perdeu o seu irmão, não tem família e quase nenhum amigo. Sua vida era solitária, e cada vez mais você foi se afundando. Até que chegou o momento que você se enganava, e achava que isso era bom. Que isso te protegia. Nesse momento, sua vida se tornou uma mentira, e você nada mais fazia do que fugir".

"Nossa. Você realmente ficou de olho em mim lá no céu, né?"

"Sim. Você precisa superar isso. Foi lhe dado uma nova vida! Você pode voltar e ser feliz, ter uma vida comum, ter uma nova namorada, um emprego comum, uma vida comum e uma pessoa que te ame. Apesar dos foras que você levar da vida, você deve fazer um esforço para reconstruí-la! Seu destino nunca vai ser morrer sozinho num apartamento minúsculo em Pimlico. Seu destino é morrer junto de uma bela esposa, com muitos filhos e netos ao seu redor".

"Isso... Parece interessante até. Mas eu nunca tive uma vida comum. É difícil viver uma vida que você nunca viveu, e nem sabe por onde começar".

"Mas isso está no seu coração naturalmente, está no coração de todos! É essa vontade de viver que vai te salvar quando você pisar na tênue linha entre a vida e a morte. Quero que se lembre disso".

Nessa hora eu parei e pensei. Aquele sonho era muito bom. Eu estava com a pessoa que eu mais amava. O destino tinha me trago algo ruim, mas eu era jovem novamente, tive a chance de recomeçar. Provavelmente acertaria onde havia errado, enfim eu poderia ser uma pessoa feliz. Mas aquilo não era real. Eu estava me enganando, me iludindo.

Por mais dura que a realidade fosse, aquilo era real. Não importava se eu iria sorrir ou chorar, o importante era que eu estaria vivendo.

"Vamos, Val", peguei delicadamente na mão dela, e levei a arma dela na minha testa.

Os olhos dela lacrimejavam. Mas ainda assim, ela sorria.

Set me free.

- - - - - - - - - - - -

A realidade termina quando nós dormimos, mas o sonho acaba quando a gente acorda.

Qual deles é o mais belo pra você?

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Aventuras de Sir Alain no Japão #7 - Banheiro



Eu sou um grande fã dos Simpsons! Mas nunca pensei que ia passar pela mesma coisa que o Homer passou ao usar o trono em terras nipônicas. Coisa de louco, você nunca imaginou que passar um fax pudesse ter tantas opções para tornar essa necessidade básica humana mais... Interativa!

Pois é. E o bidê é quentinho! E limpa mesmo, hahaha.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Vai acordar pra realidade, ou vai fugir?

"Merda... Droga, droga, droga! Porque você está fazendo isso comigo, Val?", eu gritava, meus olhos lacrimejavam como nunca.

"Não, Al. Eu estou tentando te tirar daqui. Você se afogou nos seus próprios sonhos. Se afogou neles a ponto de não querer encarar a realidade pelos seus medos".

"Mas eu tenho medo! Eu já perdi meu irmão, perdi você, já perdi tanta coisa! É impossível não ter medo de recomeçar, ou de seguir em frente!"

"A realidade é dura, mas ela é um grande presente".

"Não é um presente! As coisas são difíceis e frustrantes. São tantas cobranças, responsabilidades, medo de dar errado, a solidão...!".

"Querido, a realidade tem tanto chance de dar certo, como de dar errado".

"Mas eu não posso errar, Val! Não tenho esse direito de errar! Eu tenho que ser perfeito em tudo, nada pode dar errado, não posso ter falhas, tem muita coisa em jogo!"

Nessa hora ela, que estava em pé na minha frente se agachou e me deu um abraço. Nem mesmo eu conseguia aguentar as lágrimas, e desandei a chorar no ombro dela. Eu soluçava, meus olhos estavam com tantas lágrimas que eu apenas via um imenso borrão na minha frente. Eu não conseguia falar nada, conseguia apenas chorar.

"Querido... Não tenha medo de errar. O importante é sempre tentar. Se você tentou, você é um vitorioso, não importa o que aconteça. Dizer 'não' a algo sem nunca tentar é fugir, é maquiar esse medo, é não se dar a chance nem de acertar, nem de errar. Tanto o acerto quanto o erro podem trazer coisas boas ou ruins. Ás vezes um erro seu pode trazer algo muito melhor lá na frente do que se tivesse acertado. Ás vezes um acerto pode te deixar preso a algo que você quis e desejou pelo resto da vida", disse Val.

"Então... Como vou viver, Val? Sonhar é muito bom, tudo se realiza aqui".

"Não, não se realiza nada. Isso tudo é apenas uma ilusão. O sonho acaba quando você acorda. A realidade começa quando você desperta. Qual deles lhe parece mais vantajoso? Você nunca vai estar sozinho. Dentro de você tem uma joia muito bonita, uma pessoa que eu sempre amei e sempre vou amar. Você só precisa mostrar essa joia que naturalmente as coisas acontecerão. Com certeza vai acontecer, querido. Só não tente se preocupar com o quando".

Ela me deu um lenço. Tinha o cheiro dela.

"Lavanda", eu disse.

"Hahaha!", ela deu um risinho, "A menina do cabelo cor de beringela e perfume de lavanda".

"Pois é".

"Está pronto pra voltar?", ela disse.

Nesse momento, ela tirou novamente a arma e apontou pra minha cabeça.

sábado, 2 de agosto de 2014

Realidade que pode ser real também.

Março 2013

Eu a amava muito. Mas naquele momento, enfim, eu amava.

Enfim eu estava com ela. Estávamos juntos! Quer um sonho melhor do que a realidade de estar namorando alguém? Por mais que exista o medo do futuro, ter alguém que nos faça carinho, que nos faça sentir especial. Ter alguém pra compartilhar um beijo de amor, alguém pra se compartilhar uma noite inesquecível.

Aquilo era um sonho do qual eu jamais queria acordar.

E eu via aquele meu futuro como um velho sozinho tendo a chance de mudar. Aquilo era apenas um mero pesadelo, ainda bem. Onde eu errei agora eu acertaria.

"Até quando vai ficar aqui?", disse uma voz.

Eu estava abraçado com meu amor. Estávamos sentados numa cafeteria em South Kensington. Eu via o rosto dela, apenas tinha olhos para aquele olhar dela.

"Não finja que não está me ouvindo", disse a mesma voz.

Eu acho que reconhecia essa voz. Virei um pouco o rosto. Porém enquanto eu virava, sentia a mão do meu amor virando meu rosto de volta pra ela. Mas a pessoa que falava não parecia desistir tão fácil, e falou novamente:

"Chega disso! Vamos, você tem que sair daqui!".

E eu virei o rosto. Estava furioso por ter uma pessoa me atrapalhando.

Era ninguém menos que a Val.

"O... O que? Mas o que diabos...?", eu disse, assustado.

"Chega disso, Al. Eu tenho que te tirar daqui. Não posso mais perder tempo, desculpe".

E a Val pegou e apontou uma arma pra minha cabeça. Senti o gelado da arma tocando na minha testa e fiquei sem reação.

"Você... Você era pra estar morta! Onde você estava todos esses anos?!".

"Eu não morri. Mas ao mesmo tempo eu não posso deixar você aqui, você está preso aqui e está se enganando!".

O meu amor levantou da mesa e a empurrou. Eu não sabia o que pensar daquilo, ela foi pra cima da Val com extrema violência, como se fosse pra me defender mesmo, dando socos e chutes na Val, que assustada mal conseguia se defender direito, mesmo que tivesse armada.

"Parem vocês duas!! Querida, essa louca está armada! Ela vai te matar!!"

Val empurrou com força a minha namorada, jogando-a pra bem longe. Ela se recompôs e apontou a arma pra mim novamente.

"Al, chega disso! Quero que apenas me ouça. Acha mesmo que isso tudo é real? Você está preso aqui, acha que isso é a realidade, mas não importa o que eu diga você nunca vai achar o contrário!"

"Realidade? Você tá louca? Isso é real! Enfim eu sou feliz! Enfim eu tenho um novo amor! Enfim eu superei sua perda e consegui buscar isso, buscar a minha felicidade! O que diabos você quer? Quer dar um tiro em mim? Você que é uma mentira! Você morreu nos meus braços!!"

"Al... Eu sou real. E preciso que você saia daqui, e a única maneira é desse jeito. Por favor, me entenda! Isso tudo foi muito fácil. A vida real não é assim. Olhe para aquele monte de pessoas ali, tem várias mulheres ali, não tem?"

Eu olhei. De fato, muitas mulheres caminhando.

"Onde você quer chegar, sua louca?"

"Se isso é tão real, você não teria problemas em me dizer qual delas é a sua esposa. Vamos, aponte! Qual delas é?"

Eu via rostos. Mas nenhum deles era familiar. Eram muitas mulheres, todas andando. Qual delas era a minha esposa? Naquele momento a semente da dúvida havia sido plantada em mim. E foi o primeiro questionamento que eu fiz. Será que eu estava enlouquecendo? Eu não sabia qual delas era a minha mulher!

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

E se eu tivesse feito outra escolha?

Eu me olhava no espelho, e via as rugas, cada vez mais deformando meu rosto.

Eu estava com cinquenta e poucos anos, mas parecia que eu já passava dos oitenta. O envelhecimento acelerado cada vez mais transformava os meses em anos. O cabelo estava praticamente todo branco, e as dores no corpo eram terríveis. O rosto desfigurado pelas rugas. Até a roupa perdera as cores.

Caminhava com dificuldade na casa, fui até a geladeira e tirei da porta uma garrafa de leite. Fui até o fogão e aqueci para tomar um pouco de leite com mel. Dizem que é bom pra garganta.

Eu olhava pela janela com a xícara e via a paisagem escura e cheia de neblina de Londres. Era uma vizinhança relativamente calma em Pimlico. Sim, Pimlico. Eu podia ver a casa onde morei com meu irmão Arch, há mais de quarenta anos, na minha frente, que havia sido transformada em um restaurante.

Toda aquela casa tinha um ar melancólico. Mas acima de tudo era um ar de solidão.

E esse era eu, depois de tudo, sozinho. Não tinha família, não tinha amigos, não tinha ninguém. Trabalhar na inteligência normalmente dá nisso, depois que não somos mais úteis, mesmo que depois que sobrevivamos, no fundo somos aquilo que sempre fomos. Não temos direito a uma identidade. Não temos direito a ser alguém.

Somos meros órfãos, pessoas que não nasceram com família, e ao mesmo tempo jamais conseguiriam constituir uma também. Apenas ferramentas do Estado. Não havia glamour, não haviam cassinos, não havia Vodka Martini (shaken, not stirred), não haviam perseguições implacáveis com explosões. No fundo somos pessoas tão sozinhas que embarcamos em nossas missões torcendo para que enfim sejamos livres. E liberdade, nesse caso, significa morte. E torcer pra numa próxima vida não ter esse destino infeliz.

Eu olhava pela janela e via as divisórias dela. Aquilo parecia era uma grade. Pois se você não é pego por espionagem e torturado até a morte por algum governo, você é obrigado a viver, depois de aposentado. O governo não deixa faltar nada, é verdade, mas será que uma pessoa é capaz de viver com uma pessoa comum mesmo depois de tanto tempo, mesmo depois das suas ações terem dissolvido governos, empresas e causado tanta coisa para tantas pessoas, acha que uma pessoa assim tem o direito de deitar numa cabeça a noite tranquilamente para dormir?

Não. Eu nunca tive o direito de ser feliz. Minha vida sempre foi uma mentira. E naquele momento, já com mais de cinquenta anos, era tudo o que eu podia ver. Tive uma chance de ser uma pessoa comum, mas será que era isso mesmo que eu queria? Ou pior: será que eu merecia tudo isso mesmo assim?

Não.

Nasci sozinho. Morrerei sozinho. Naquela casa eu sabia que depois de mim, mais um dos únicos sobreviventes dessa vida entre os milhares seria mandado pra ali. E ficaria naquela mesma casa modesta em Pimlico, assim como outros antes de mim também ficaram. Eu não tinha esposa. Não tinha um amor. Apenas tinha transado algumas vezes, mas será que eu realmente senti amor por alguém?

Minha última missão já tinha acontecido há quase quinze anos. O que será que havia acontecido com Ar?

A morte tem um gosto seco. Eu sentia minha boca secando, e muita dificuldade em respirar. Mas eu me sentia tão cansado... Que eu tinha que me lembrar de respirar. Deixei a xícara cair no chão, e o leite todo se esparramou pelo tapete. Me joguei no sofá e fiquei com a cabeça inclinada, olhando todo aquele leite esparramado pelo chão.

Droga... Que sujeira, derramei o leite. Que preguiça de limpar isso...

A morte tem gosto de preguiça. Eu sentia eu mesmo sem energia nenhuma. Sempre me disseram que a morte era um descanso, e naquele momento tudo o que eu queria era fechar os olhos por um momento. Sentia meu coração cada vez mais devagar, e com os olhos fechados eu já não via nada. O cheiro do leite havia passado também. Logo depois eu mal sentia o cheiro das coisas. Tudo o que eu conseguia fazer era ouvir.

E ouvia o tic-tac do relógio. Ouvia os turistas passeando, procurando o Tate Britain. Ouvia os estudantes de arte conversando sobre Degas e Renoir. Ouvia o barulho do vento batendo na fresta da janela (eu sabia que devia ter consertado aquilo). Porque eu não morria logo? Os sons iam ficando mais baixos, a respiração se tornava algo inaudível. Morrer é isso. A gente simplesmente cansa. Fica cansado até de se sentir cansado, e nada mais queremos do que mergulhar logo nisso e descansar. Descansar, sem pensar em acordar.

Merda. Quando me acharem morto aqui vão ver a bagunça eu eu fiz com o leite. Mas quer saber? Foda-se essa merda toda...

E se lá atrás eu tivesse feito outra escolha?

E se eu pudesse voltar?

Será que eu teria tido um futuro diferente?

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