terça-feira, 12 de agosto de 2014

Doppelgänger - #32 - Vômito.

“Droga, ainda falta muito?”, disse Agatha, enquanto andavam meio sorrateiramente pelo subúrbio de Cockfosters.

As ruas eram todas cheias de casarões. Casas onde muitos dos ricos da região de Londres vivam suas vidas. Casas com Ferrari na garagem, e absolutamente nenhum imigrante. Quem vive em Londres sabe, os imigrantes vivem mais próximo do centro, especialmente os mais pobres. Os ingleses mesmo vivem mais afastados.

Os três tinham que tomar cuidado também para não serem vistos. Não sabiam se aquele jogo mental da psíquica Sara estava ainda em ação – ou até quando ia durar.

Nezha no meio delas não sabia o que fazer. Se sentia perdido, e cada vez mais parecia ser uma pessoa que era apenas levada pela maré. As duas ali eram as protagonistas, ele era apenas o coadjuvante. Não se incomodava, mas sua cabeça ainda tinha muitas dúvidas.

Victoire e Agatha agilizaram o passo ao atravessar a rua. Nezha sentiu que devia esperar pra atravessar, e quando se voltou pras duas, viu um homem correndo junto com elas, de cabelos pretos, uma jaqueta de veludo preta, sapatos de camurça marrom e uma grossa calça jeans azul escura.

Nezha basicamente viu ele mesmo correndo. Ou alguém muito parecido correndo.

“Acalme-se, Nezha. Ou eu deveria chama-lo de... Lucca?”, uma voz disse, saindo de dentro de uma van.

Nezha procurou a fonte da voz. Olhou para um furgão azul estacionado próximo à guia. De lá saiu uma pessoa vestindo um sobretudo, e a cabeça com um gorro cinza de moletom. Roupas muito simples, sem dúvida ele se passaria por um mero londrino. E esse mesmo homem tinha uma grande semelhança com alguém que ele conhecia.

Al...? Mas já acabou o treinamento?

Foi aí que o homem tirou o gorro. Seu cabelo estava diferente, parecia raspado, estava muito rente e baixo. E ele idêntico ao Al, exceto pelo cabelo, e por uma cicatriz no queixo, um bocado discreta. Até mesmo a pinta na bochecha era idêntica.

“Acho que não nos apresentamos formalmente, Lucca. E pela sua cara de surpresa, você não se lembra de mim, embora eu te conheça muito bem. Sou Artie Blain, o famoso ‘Ar’ que seu amigo Al está correndo atrás”.

Nezha ficou pasmo. Enquanto Ar se aproximava dele, ele dava passos pra trás, até tropeçar na caixa de correio de uma casa e cair no chão depois. Ar não apenas estava solto, mas estava ali, na sua frente! Era só acabar com ele que tudo isso enfim teria um fim! Lembrou-se que tinha um coldre embaixo do seu paletó, sacou de lá uma arma e apontou pra Ar.

“Parado aí!”, disse Nezha, baixo, mas com altivo, “Se você der um passo a mais eu atiro em você!”.

“Calma, Lucca. Eu apenas quero conversar. Fique tranquilo, aquilo é mais um golpe mental, elas não se ligaram que você ficou pra trás. Vão ter a surpresa apenas quando encontrarem a Sara”, disse Ar, enquanto avança a lentos passos em direção de Nezha.

“Ora seu... O que diabos você quer?”, disse Nezha.

“Você jamais vai atirar em mim, Nezha. É impossível. Essa arma está carregada, não? Vamos... Aperte o gatilho. Vamos acabar logo com isso. Todos estão atrás de mim, e minha vida está nas suas mãos”, desafiou Ar.

Nezha não entendia nada daquilo. Mas a presença de Ar era de alguma forma... Aterrorizante pra ele. Era apenas um moleque de vinte e poucos anos, mas ele sentia medo. Ar não estava armado, mas nem mesmo se Nezha estivesse com todo o armamento do mundo ele se sentiria seguro naquele momento. Em plena luz do dia. Onde diabos estavam as pessoas daquele lugar? Ninguém estava vendo o que estava acontecendo na rua ali naquele momento?

“Boss, você tem certeza disso?”, disse um dos seguranças de Ar.

“Sim. Fiquem calmos”, Ar os tranquilizou.

Ar ergueu as mãos como se mostrasse rendição. Nezha já estava de pé e com o rosto dele na mira da arma. Era apenas apertar o gatilho. Nada mais.

Nezha moveu o gatilho. Ele transpirava muito, um suor frio. Ao posicionar o dedo no gatilho, sentiu um imenso frio na barriga e sua espinha gelou. Tentava fazer força, apenas a força pra puxar um mísero gatilho e via que quanto mais pensava em atirar, mais seu estômago doía. Começou a sentir um enjoo indescritível, e suas pupilas dilataram. Começou a se desesperar, e caiu do joelhos no chão.

Nezha vomitou. Vomitou no gramado tudo o que havia comido naquela manhã. O vômito saía até pelo nariz, seus olhos estavam marejados, e a dor era indescritível. Ele conseguiria atirar em qualquer pessoa no mundo, menos em Ar.

Por mais que ele tentasse entender, ele não entendia.

E depois de vomitar, ele tombou, ainda consciente no gramado. Ar assentiu, e dois seguranças vieram pegá-lo e levar pra dentro da van. Olhava pro chão e via que estava sem forças, e por mais que tentasse entender o que estava acontecendo na sua mente só vinha uma coisa.

Porquê?

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