sábado, 29 de novembro de 2014

Ser bom vale muito a pena.

O templo budista que frequento fica perto do metrô Ana Rosa. E, como sempre tenho que passar pela estação, volta e meia vejo deficientes visuais com dificuldades de andar na estação.

Existe uma associação para cegos perto da estação. Não é raro quando desembarco na estação eu encontrar e ajudar um.

Um dia desses quando saí da estação vi um grupo de cegos em fila andando no meio da rua Vergueiro, de frente a estação. Tinha muita gente na rua, mas ninguém movia um músculo, mesmo vendo o perigo que eles estavam expostos. Fui correndo e os ajudei, dei o braço e descemos até a catraca. No meio do caminho um homem passou e perguntou se poderia tirar uma foto minha levando os deficientes físicos, e eu disse que não teria problema. Ele depois confessou que era difícil ver alguém agindo assim hoje em dia, ajudando o próximo.

Ontem quando fui pegar meu ônibus pra voltar pra casa tinha uma grávida passando mal no terminal. Só tinha uma senhora transeunte que parou para ajuda-la, mas parecia que tinha comprado briga com os funcionários da empresa de ônibus. Parei, ofereci água e um doce que tinha na bolsa pra senhora grávida, e logo ela estava ficando mais corada, até leque eu improvisei pra abanar a grávida.

Perguntei se estava melhor, ela disse que sim, já sentada no ônibus. Eu disse que ia passar a catraca e ela pegou forte na minha mão chorando e disse: "Obrigado de coração. Que Deus acompanhe sua viagem".

Isso que eu fiz é muito, muito pouco. Mas a questão aqui não é a quantidade de pessoas que você ajuda, mas a sinceridade dos seus atos. Eu poderia ajudar mais pessoas? É óbvio que sim! Mas se todas as pessoas ajudassem uma pessoa que fosse, sem duvida teríamos um mundo melhor. Ajudar sem esperar nada em troca mesmo, sabe?

Deixamos de ajudar pedindo algo em troca. O obrigado em lágrimas da senhora grávida valeu pra mim mais que uma bolada na mega sena. ;)

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Cusco 2014 - Prólogo

No início de julho fiquei sabendo que Sua Santidade Shinso Ito viria ao Peru realizar a primeira cerimônia da Shinnyo-en na América do Sul. Realmente, grande felicidade! Fiquei meio triste no início por não ser no Brasil, mas ela estava cumprindo sua promessa de vir para a América do Sul! E dois anos de meditação depois, enfim o recado que havia trago do Saito Homa 2012 estava se realizando.

Mas não foi fácil.

No dia 15 de julho estava com meu irmão arrumando um antigo ferrorama que temos. Subi para comprar pilhas para testar e na ida pro bazar senti uma tontura incrível. Lembro que tinha visto no relógio a hora: 14h e pouco.



Minha pressão caiu - e eu tinha almoçado normal. Senti como se algo me empurrasse pra baixo, grudasse nos meus pés. Eu sabia que era espiritual, mas não tinha ideia. Até mesmo enquanto ainda consertávamos o trenzinho eu disse que tinha ficado cansado do nada e precisava repousar um pouco. Foi aí que umas 16h eu abri meu e-mail. E lá estava a confirmação que de que eu tinha sido convidado pra ir ao Peru.

Naquele mesmo quinze de julho o dia inteiro fiquei passando mal. Por mais que eu comesse, a tontura nunca passava. Jantei e disse pros meus pais que ia pra cama mais cedo porque tava cansado, e ao deitar na cama eu simplesmente desmaiei. Senti minhas forças se esvaindo, minha respiração ficando cada vez mais difícil, até que tudo era apenas escuridão.

Acho que morrer deve ser algo parecido.

Mas é justo nessas experiências que a gente vê a imensa compaixão e ajuda dos Budas.



Vi a minha antepassada índia chorando de preocupação, enquanto isso via Seiryo Dai-Gongen afastando com o focinho vários espíritos parasitas que pareciam sugar meu corpo. E depois que ele tirou vários daqueles sanguessugas vi Keishu-sama meditando. Meditando por mim, agradecendo por eu estar ajudando ela a consolar todos os espíritos.

Acordei já era quase madrugada. E não estava mais sentindo aquela tontura. Mas aquilo era apenas o começo.

Tive uma briga feia com Denichan, minha madrinha, daquele dia até o dia do meu aniversário. Um presente horrível. Depois vi cada um dos meus afilhados acontecendo algo mais terrível com eles. Desde dificuldades relativas a herança, familiares, parentes falecendo, crises depressivas, dificuldades de trabalho, tudo. Muitos dias depois de ouvir firmemente todas as reclamações deles, eu ia orar em lágrimas, implorando aos Budas que deixassem nada acontecer com eles, que eu preferiria que tudo aquilo acontecesse comigo, e jamais com eles. Os Budas foram meu confessionário, onde eu despejava minhas lágrimas de frustração por desejar que tudo aquilo acontecesse comigo e não com eles.



Muitas pessoas ficaram felizes com o fato de termos sido convidados. E os dias se transformaram em semanas, que se transformaram em meses. Enquanto arrumava a mala eu havia tomado uma resolução: não queria ver nossa líder, Keishu-sama, passando mal pela influência espiritual. Havia muita carga, e mesmo que eu não aguentasse nem um milésimo da carga que caía sobre ela, queria que todos os méritos e energia fossem para ela. Não me sentiria bem em vê-la triste ou mal.

Eu deveria protegê-la com o meu máximo. Por isso darei meu melhor e irei além dos meus limites no Peru.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Compaixão não é passividade.

Budismo lida muito com compaixão. Mesmo eu há anos praticando tenho uma dificuldade das minhas heranças cristãs de sempre ver muita penitência e punição. Mas estamos em desenvolvimento pra melhorar isso!

Esses dias li uma reflexão muito boa do Dalai Lama num livro: compaixão, um dos fundamentos do budismo, não é um sentimento passivo. Normalmente vemos a compaixão como algo totalmente passivo, isso é, algo muito mais interno do que externo, algo para se receber e não para se oferecer.

Mas compaixão na verdade é um sentimento bem ativo. Compaixão é a mistura de empatia e sabedoria.

Empatia, pois devemos nos colocar no lugar da outra pessoa. Não confundir com simpatia. Simpatia é você pensar que sente o que o outro sente, mantendo uma distância, sem se envolver. Mas empatia é você ir no buraco com a pessoa, e realmente fazer um esforço sincero em entender o que o outro sente, por mais que isso te faça também passar mal como ele.

E sabedoria, pois somente com sabedoria conseguiremos oferecer o melhor conselho para a pessoa. Precisamos de repertório, de conhecimento.

Compaixão é a vontade de ver os outros livres do sofrimento. Por isso não é algo passivo: precisamos da empatia para nos colocarmos no lugar da pessoa, e sabedoria para oferecer a palavra ou atitude mais sábia para guiar essa pessoa. Com esses dois elementos poderemos oferecer um caminho para ajudar os outros a se libertarem.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Pegasus Faith.



Todo mês de dezembro eu faço um layout chamado "Pegasus-alguma-coisa". O blog começou lá atrás com o Pegasus Dreams, depois em 2006 veio o Pegasus' Legacy (era o mais diferente que tinha feito), depois em 2007 foi uma homenagem ao Alpha & Omega Unniverse, uma história que tinha criado, veio o Pegasus Unniverse.

Tivemos o Pegasus Gearing, e aí veio o Pegasus Faces, com caricaturas bem zuadas de pessoas naquele momento da minha vida. Depois aquele bonitão com o vitral, Pegasus Tale, e seguido dele tivemos o Pegasus Heritage.

O tempo passou e queria desenhar mais vitrais, e fiz o Pegasus Tale [reminiscenses]. Ano passado nessa época foi o primeiro ano que quebrei a tradição. Quem estava online era o Viva Netherlands!. Sim, na verdade os layouts do Viva! estavam prontos há um tempinho. Não queria cortar no meio de um deles (e como eu visitei Cusco esse ano, o próximo em fevereiro do ano que vem será Viva Cusco!).

E agora o layout número 44, Pegasus Faith! Com o Achala, símbolo da minha fé.

Despedindo de 2014 e entrando em 2015. O ano em que esse blog fará dez anos.
Cacete... Demorou pra caraio. =P

Enfim, porra!

sábado, 22 de novembro de 2014

Achalanatha.


Meu terceiro Achala!

Eu já tava com a idéia há muito tempo. Queria fazer um Achala com alto contraste. Queria fazer de uma maneira que o corpo fosse representado com alto contraste, como se fosse o próprio Achala coberto de chamas, e as chamas iluminando o corpo.

Como de praxe, transformar pro digital ferra todas as cores. A pele dele ao vivo está muito mais natural, dá pra ver todos os tons e a mistura de pigmentos que usei. Ficou muito... Marrom. Mas, paciência, sempre quando a gente converte pro digital perde-se alguma coisa.

Acho que vou fazer o próximo layout do blog usando essa pintura! Acho que vai ficar legal. ;) Tô tendo que dar nomes pros meus Achalas... Esse vou apelidar de Achala Rubicante. Eu sei que é um personagem da série Final Fantasy, mas eu queria que esse fosse relacionado ao fogo, ao contraste da luz, e o nome soa legal... Ru-bi-can-te. xD

Sei lá, viagem da minha cabeça, hahaha!

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Doppelgänger - #49 - Vanitas.

Merda, merda, merda! Porque ele não negou? Teria sido muito mais fácil se ele dissesse que tudo aquilo era uma mentira criada pelo Ar!

Porquê? Porquê? Porquê? E quem fui eu? Quem eu amei? Eu tive filhos? Onde estudei? Quem eram meus amigos? Eu sou apenas uma ferramenta do governo, não existe nada de honra quando se trabalha na Inteligência. Somos ninguém. Não temos passado, não temos futuro! 

Nosso destino é trabalhar nas sombras, espiando, tudo em troca de quê? Dos interesses da Rainha? Dos interesses do meu país? Por Deus... E se eu matei pessoas? E se eu destruí países? E se eu arruinei famílias, amizades e negócios, eu fiz porquê?

Posso ter espiado muitas pessoas, mas quando será que conseguirei expiar meus próprios pecados?

Por favor, alguém... ALGUÉM ME ACORDE E DIGA QUE ISSO É UM PESADELO!!

“Nataku...”, disse Al, colocando a mão no seu ombro, “Vamos, levante-se. Você está bem?”.

“SAIA DA MINHA FRENTE! EU TENHO UMA MISSÃO A CUMPRIR!”, gritou Nataku, empurrando Al com violência contra a parede.

Nataku se aproximou da porta e disparou contra o teclado numérico. Uma pequena brecha abriu na porta, ele puxou e não conseguiu abrir. Lembrou que tinha alguns explosivos para derrubar portas, colocou um deles, contou até três, e explodiu, entrando numa imensa sala circular, muito iluminada, e com um aquário de vidro no centro, onde estava uma mulher, sentada numa cadeira, num local muito bem iluminado.

“Você é Sheryl Saunders?”, perguntou Nezha.

A senhora olhou pra Nataku com surpresa. Reparou que Nataku não parecia ser “um deles”. Ela estava sentada numa simples cadeira de madeira. Aquele aquário não tinha entrada, nem saída. E nem era possível ouví-la também. Nataku tentou dar um tiro no vidro, mas o vidro era a prova de balas, e ficou apenas trincado com o impacto.

O tempo estava passando. Se ele não arranjasse um jeito de tirá-la de lá, seria tarde.

“Obrigado, Lucca”, disse Ar, enquanto entrava na sala, “Sua missão está completa. E graças a isso, com essa mulher, ninguém conseguirá nos parar agora”.

Ar estava acompanhado de quinze soldados particulares, com uniformes diferentes, e ao lado dele estavam Sara e Schwartzman.

“Ar? O que você está fazendo aqui? E o que quer dizer isso?”, disse Nataku.

“Eu sabia que você receberia ajuda do Al. E, embora fosse fácil colocar você nesse imenso complexo de bunkers, eu precisava que você fosse na frente e abrisse o caminho para nós. Mas eu não conseguiria fazer isso sozinho... Por isso tive que usar você, pois eu sabia que haveriam umas mentes boas que te ajudariam”, disse Ar.

“Você... Você me usou?”, disse Nataku, sem acreditar.

“Isso soa muito pesado, não use essa palavra. Precisava sim era da sua ajuda, mesmo que envolvesse outras pessoas. Agora Sheryl Saunders é minha. Me desculpe se eu usei você, mas você se mostrou melhor que a encomenda”, disse Ar.

Ar se aproximou do aquário e puxou um laser, cortando o vidro como papel. Abriu um buraco e Schwartzman puxou a senhora Saunders pelo braço com muita violência.

“Arthur, seu maldito! O que você vai fazer? Vai me matar?”, dizia a senhora Saunders, enquanto dois soldados de Ar a tiravam de lá.

“Matar? Mas é claro que não! Preciso sim que você fique viva e me conte tudo o que você sabe”, disse Ar.

Quando Ar se virou viu havia uma luz de um pointer vermelho em seu peito. Na sua frente, perto da entrada, reparou que três pessoas haviam entrado na sala. Eram Al, Victoire e Agatha.

Todos os soldados dele se viraram pra eles, apontando suas armas. Ar vez um sinal para que não atirassem.

“Hahaha!!”, disse Ar, forçando um riso irônico, “Há quanto tempo não nos vemos, meu irmão! Eu sabia que vocês iam ajudar o Lucca a chegar aqui. Primeiro desarmando os sensores de segurança. Depois a bonitinha da Victoire com essas pernas lindas na legging salvando o Nataku. E os explosivos, bem... Devem ter sido coisa da Agatha que consegue essas coisas no mercado negro”, disse Ar.

“Ar, você não tem saída. Os soldados já estão chegando. Se forem nos prender, terão que levar você também”, disse Al.

“Não seja ingênuo. Eles não viram atrás de mim. Os criminosos de estado são vocês três. E mesmo que nos peguem, não vão fazer nada”, debochou Ar.

“Acha que o seu dinheiro vai salvar agora?”, disse Al.

“Dinheiro? Não, não vou usar uma tática de suborno, isso é muito clichê. E não funciona com cem porcento de eficácia. Foi de propósito que fiz meu sinal ser rastreado por vocês. Precisava que ajudassem Lucca a chegar até aqui. E agora que chegamos, posso levar quem vim buscar embora”, disse Ar.

Os três ficaram abismados com o pensamento de Ar. Ele parecia a Émilie, sempre estava um passo à frente. Isso parecia um talento genético, pois mais que pensassem, ele sempre estava um degrau acima deles.

“Acho que dos três, a única pessoa que sabe quem é essa mulher é você, não é, meu irmão? E você seria a última pessoa que atiraria nela também. E eu só vim resgatá-la, ao contrário desse país que mantém sob cárcere uma pessoa da importância que ela tem!”, disse Ar.

Algemaram a senhora Saunders como uma criminosa, e deixaram ela aos cuidados de Nataku, que saiu com ela pela mesma porta que havia entrado. Agatha e Victoire se olhavam, mas Al não deu nenhum sinal para atirar, menos ainda parar Nataku. Ele só ficava fitando Ar.

“Eu sei que você não faz isso apenas com o Legatus. Aliás, você não tem nenhuma influência no Legatus, ele é apenas um bode expiatório. E pelo visto, está rendendo tanto que até mesmo um exército mercenário você tem”, afirmou Al.

“Bem observado, meu irmão. Nós somos a justiça, e faremos a justiça nesse mundo. Nós lutaremos pelo que todos nós acreditamos. De fato, o Legatus é apenas mais um dos meus fantoches, porque somos mais, somos muito mais. Antes de construir um novo mundo cheio de justiça e igualdade, teremos que destruir o que já existe. Países, governos, economias, empresas, todos estão em nossas mãos. Nós somos... Vanitas!”.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Smash Bros!

Eu sou super fã da série. Lembro dos rachas de Smash que eu tirava com meus amigos no meu jurássico Nintendo 64 lá nos idos anos 1999/2000. Depois veio o Gamecube, e depois o Wii, e continuo tirando uns raxas com meu irmão caçula até hoje. Nossos duelos épicos Mario versus Luigi, comandados por respectivamente ele e eu.

Acontece que a série virou uma super vitrine pra homenagens. Até mesmo personagens fora da Nintendo são loucos pra aparecerem lá, como foi o caso do Snake (Metal Gear Solid) e Sonic. Fiquei muito feliz com quem vai ser um personagem novo no jogo:


Sim, o lendário Pac-man! Muito foda esse trailer, né?

O que eu mais gosto é o final, hahaha! Ele e o Mr Game & Watch comparando quem é o mais velho (1980? Holy fuck!)

Eu compraria um Nintendo 3DS só pra botar as mãos nesse jogo!

Eu jogo muito com o Luigi. Desde a época do N64. Eu gostava do Mario, mas o Luigi é ligeiramente mais rápido, e tem uns golpes matadores. Depois do Luigi eu gosto muito do Mr Game & Watch, por mais que ele pareça meio duro/travado. Meu irmão nas nossas partidas quando me vê pegando o Mr Game & Watch já sabe que eu vou jogar sério, hehe.

Gosto muito dos Ice Climbers! A Nana e o Popo estão na minha listinha dos dez mais desde o Gamecube. Pena que vão estar de fora desses atuais...

Falando em atuais, eu gosto muito do Pit, do Kid Icarus. Fiquei feliz quando ele, depois de 27 anos, enfim vai ganhar um jogo novo, que tem um trailer bem bonitinho.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Doppelgänger - #48 - O espírito estraçalhado.

Victoire estava no chão, desmaiada. Nataku, segurando a arma firme na mão se aproximou e apontou para a cabeça da francesa. Seu dedo não conseguia ficar no gatilho, apesar da ordem do seu comandante, Rockefeller.

Uma explosão ressoou no imenso bunker. Parecia vir de baixo. Tudo tremeu, e os ouvidos de todos ficaram tampados e seus corações começaram a palpitar freneticamente por causa do susto.

Nataku suou frio. Haviam mais pessoas ali.

A sirene tocou, e quatro soldados adentraram o local, rendendo Sara e Nataku. Um dos soldados pegou Victoire e a levou pra fora, inconsciente.

Embora Nataku estivesse com as mãos erguidas, Sara continuava olhando com um sorriso para todos aqueles guardas:

“Faz tempo que não faço isso. Mas vamos ver se eu me lembro”.

E a carnificina estava prestes a começar. Sara apontou as duas mãos para eles, que rapidamente deram um passo pra trás, mas se acalmaram quando viram que ela não tinha nenhuma arma escondida. Eles ainda gritavam para ela se render, e então Sara fechou os olhos e começou a se concentrar.

Seu cabelo fazia um movimento de como se estivesse na água, dançando no ar de maneira aleatória e fluida. Seu corpo se ergueu alguns centímetros do chão e então os soldados começaram a se coçar.

Parecia que algo ardia dentro deles. Eles tiravam seus uniformes, seus corpos estavam cheio de marcas vermelhas. E eles continuavam a coçar. A pele ia ficando esbranquiçada, se soltando, até que eles começaram a gritar de dor. Suas unhas começavam a quebrar, e logo estavam também rasgando a própria pele. Seus dedos estavam tingidos de vermelho com seu próprio sangue.

Uma leve fumaça branca saía dos seus corpos. E segundos depois, todos eles viraram tochas humanas agonizando no chão.

“Mas que merda é essa...!”, disse Nataku, sem acreditar no que via, “Como eles pegaram fogo?”.

Sara caiu no chão de joelhos. Parecia exausta.

“SHC...”, disse Sara, recuperando o fôlego, “Combustão humana espontânea. Elevei a temperatura do corpo deles, enganando o sistema nervoso, causando uma grande febre. O corpo é feito de gordura e tem bastante fósforo. Aí é só esperar que a chama se faz sozinha... Combustão espontânea é algo mais comum do que se imagina, não é coisa de cinema. Mas eu preciso de muita, muita concentração pra fazer isso. Preciso... Descansar um pouco. Vá em frente, garoto”, ordenou Sara.

E foi o que Nataku fez. Ao sair, foi em direção da porta, tomando cuidado com os guardas em alerta passando pelos corredores. Demorou alguns minutos até alcançar, usou o cartão de identificação e desceu as escadas rumo ao piso mais baixo do bunker de Churchill.

Chegou em um imenso corredor, de cor metalizada, parecia um local bem futurista. Não havia nenhum guarda, parecia que todos haviam subido no andar superior para averiguar a tal explosão. Havia apenas uma dupla de soldados que Nataku cuidou deles sem problemas.

O corredor parecia não ter fim.

“Ei, garoto. Espera aí”, disse uma voz familiar.

“Al!”, gritou Nataku, assustado.

“Nataku agora, né? Onde você estava?”, perguntou Al.

“Merda... Onde termina essa droga desse corredor?”, perguntou Nataku.

“Como assim? A porta está exatamente aqui. Mas o que você quer fazer aqui?”, disse Al, apontando. De fato, tinha uma porta, e estava bem escondida.

“Isso tudo é muito fantasioso! Primeiro me mandam salvar uma holandesa numa prisão de segurança máxima, depois um homem com uma armadura me golpeia, aí achamos um sueco e ele é morto na minha frente, depois uma psíquica queima três pessoas na minha frente e eu não consigo fazer nada! Sem contar que eu sei a verdade agora... Meu nome é Giancarlo Lucca, e eu fui o braço direito do seu irmão! O que você vai falar agora, Al? Vai dizer que isso tudo é uma mentira?”, disse Nataku, furioso.

Al ficou em silêncio por um momento. Depois deu alguns passos e se aproximou de Nataku.

“Então você descobriu. Sim, Nataku. Não tenho como te esconder isso. Por mais que isso pareça mentira, é a mais pura verdade”, disse Al.

“Porque, Al, porquê? Ao tirar minhas memórias você me tornou um nada, eu não sou ninguém. Sou apenas uma fantoche do Estado. Se eu morrer, tenho uma morro como um animal!”, desabafou Nataku.

“Nataku... Eu aceito pagar pela consequência do que eu te fiz. Na época eu era apenas uma ferramenta do governo, assim como você. Achei que isso era o correto a se fazer, mas pensando hoje, eu jamais faria isso agora. Mas eu já o fiz. Se não for muito tarde agora, será que você poderia me dar a chance para que eu possa ajuda-lo?”, disse Al.

Nataku parecia estar com a cabeça doendo. Colocou as duas mãos na cabeça, apertando-a. Começou a soltar uns gritos de dor e caiu no chão, de joelhos.

Não, não, não! Alguém por favor me acorde!!!

Isso só pode ser um pesadelo!! Essas coisas não existem. Não existem psíquicos, não fui Giancarlo Lucca, não conheci o Arch, eu sou apenas uma pessoa pacata que foi escolhida pra fazer uma coisa que eu jamais conseguiria fazer!

E agora tô trancado nesse imenso pesadelo, vivendo com uma arma apontada pra cabeça, e sempre escapando por um triz de causar uma catástrofe mundial sem precedentes!! Eu não consigo aguentar tanta pressão em cima de mim!

Eu só queria sair daqui. Eu tô cansado disso, ninguém vem me dizer que isso tudo é um sonho ou coisa da minha cabeça. Al... Por que você não me disse que isso tudo era mentira? Teria sido muito, mas muito mais fácil!

Isso tudo é a realidade. Mas eu não estou pronto pra ela!!


“Ahhhhhhhhhh!!”, gritou Nataku. Ele parecia estar com o espírito estraçalhado.

domingo, 16 de novembro de 2014

O que dizer dessa tal Lola Benvenutti, que nem conheço, mas considero tanto?



Agora há pouco tava passando os canais e vi uma entrevista da famosa Lola Benvenutti.

A Lola é uma quebra de paradigma social imenso, não por ela ser garota de programa e mostrar a cara, mas por ela admitir publicamente que curte sexo.

Acho engraçado como ela, sendo atualmente a prostituta mais famosa do Brasil, é diferente da que até então era a mais famosa, a Bruna Surfistinha. Eu li o "Doce veneno do escorpião" há uns oito anos, eu era adolescente cheio de hormônios, e óbvio que achei aquilo o máximo. Mas a Bruna Surfistinha tinha aquele ar de "Pretty Woman", que tinha sido "salva" por um Richard Gere. Ela mesmo admitia que tinha sido sortuda em arranjar um cara que tirou ela dessa vida.

Aí aparece Lola Benvenutti. Um golpe no machismo.

Lola gosta é da Audrey Hepburn em "Bonequinha de Luxo", não da Julia Roberts em "Uma linda mulher". E isso muda completamente a coisa! Não é a prostituta que sofreu, nunca conseguiu estudar, tinha problemas na família, até que chega um ricaço e vai se declarar na escada de incêndio com um buquê (mas eu ainda choro nessa cena toda hora).

Ela é a Holly Golightly, independente, que tem bom gosto, frequenta a alta sociedade e não tem vergonha dos seus gostos. Eu gosto muito do filme "Bonequinha de luxo" pois é um erotismo subjetivo (no sentido original, eros = desejo). Não por ser a Audrey Hepburn, que é linda e todo homem gostaria de casar com uma dessas, mas porque é um erotismo que mexe com a imaginação de nós homens sem mostrar nada explicitamente. Não tem seio, nem bunda à mostra, mas é incrivelmente sensual (aqui, no sentido original de aguçar os sentidos, ver o que não está à mostra).

Lola curte sexo! Eu lembro que, por ter tido uma criação super machista (só tem homens na minha família, não me culpem, ou não tive outra referência, mas tô me tratando) eu não conseguia entender que mulheres tinham, por exemplo, prazer. E o mais estranho, não conseguia entender o prazer feminino. Em palavras diretas, minha concepção machista não conseguia entender que tem muita mulher que gosta de dar. Ponto. E desculpe a franqueza, mas era assim.

Até um belo dia, quando eu há uns cinco anos numa conversa com uma amiga ela me contou que sentia prazer no sexo. E aí, conversando com outras pessoas vi que o prazer feminino era totalmente diferente do masculino, mas que ele existia! E que não era feio, é natural, e bonito. E teve um momento que eu coloquei na cabeça que eu jamais gostaria de namorar uma virgem santinha, e sim, aquela que era mais promíscua. Porquê? Porque com certeza ela só de conhecer o seu corpo, não ter preconceito contra seu prazer, saberia sentir prazer, agradar e ser agradada. E seria o melhor sexo da vida pra mim, e pra ela.

Aí o mundo virou de ponta cabeça: Como assim? Sério? (sim, isso parece idiotice, mas aconteceu comigo, uai. Eu me sinto um extraterrestre descobrindo as coisas do planeta Terra. Quase todo dia)

Afinal, por mais que o homem tenha como ápice a ejaculação, se a mulher não gostasse de sexo e não sentisse prazer, sem dúvida a raça humana teria passado por grandes apuros para crescer e multiplicai-vos. Biologicamente o sexo deveria ser prazeroso pra mulher pra também para que o mundo evoluísse. Eu sei que pode soar "nossa, mas isso é óbvio Alain, seu anta!", mas pra mim isso foi uma surpresa sem precedentes.

A própria Lola conta que goza com muitos clientes nessa entrevista. Que ótimo! Não tem como negar que o fator prazer também caminha junto com a profissão de prostituta, o que torna isso mágico. Quem sabe um dia viveremos num mundo sem machismo onde os que tem pipi verão que as que tem perereca sentem tanto prazer como nós. Esse pensamento da Lola é bem a frente do tempo. E mostrar isso pode colocar a sementinha da reflexão nos cérebros machistas.

Óbvio que estou em construção. E acho isso ótimo pra mim! Tenho grandes pessoas que vão me ensinando como o mundo lá fora é.

E Lola quer ter família. Quer uma coisa mais linda que isso?

Sei que tem prostitutas que tem família. Aqui mesmo na minha rua tem uma garota de programa, do nível da Lola, super de luxo, e acho lindo quando vejo ela buscando a filha dela na escola! Quase uma Fantine protegendo a Cosette. Ela, por ser garota de programa, e com todo o respeito, uma mulher lindíssima, sei que muitos caras na minha rua já pagaram pelos seus serviços. Mas acho isso incrível a maternidade!

Mas acima de tudo a Lola sempre cita: "Porque não, no futuro?", sobre questionada sobre ter família, ou ter um namorado. Afinal as coisas mudam, as pessoas mudam. Atrasado é quem fica trancado nos seus sonhos sem realizar, ou fica idealizando um príncipe encantando húngaro.

Se eu sairia com a Lola? Com certeza! Mas uma pessoa com tamanha bagagem e experiências eu acho que seria mais legal chamar pra tomar uma cerveja e jogar conversa fora, do que propriamente pra um programa (com certeza se fosse programa do jeito que acho ela foda, a última coisa que ia conseguir fazer era justamente foder, por mais que ela seja gatíssima).

Realmente, homens e mulheres tem muito a aprender com esse pensamento da Lola Benvenutti. Quem sabe, né? ;)

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Doppelgänger - #47 - De perder o fôlego.

Nataku estava com medo. Conhecia Schwartzman de outros momentos, mas agora era apenas Nataku, com 1,79m contra Schwartzman, um judeu de 2,25m, forte e com um olhar impiedoso.

Merda... Não tenho pra onde correr, esse cara vai me matar!, o medo de morrer tomou conta de Nataku. Schwartzman o agarrou pelo colarinho e o ergueu.

“Calma aí, grandão”, disse uma voz feminina descendo a escada, “Precisamos dele pra nos levar até a refém”.

Era Sara. A psíquica.

Sara era uma mulher bem atraente. Embora fosse gay, sua aparência não era masculina. Pelo contrário. Era feminina, e gostava de ser mulher. Seu cabelo era um loiro cinzento, sua pele branca e bem maquiada, olhos expressivos e azuis e um batom claro. Sua roupa era uma roupa simples de civil. Parecia que ela estava lá era pra domar Schwartzman com sua telecinese.

“Você... Paralisou ele? Ele parece querer se mexer, mas não consegue”, disse Nataku.

“Sim. É a coleira da fera. Ele sozinho dopou todos os guardas lá em cima, talvez dure uns cinco minutos pra gente entrar e fazer as coisas. Viemos dar uma assessoria caso precise”, disse Sara.

Mas o corredor que dava na porta pro nível inferior ainda estava cheia de sensores. Lazer, câmeras, isso era o que dava pra se ver. Talvez tivesse ainda outras coisas. Foi aí que o rádio interfone de Nataku tocou.

“Você não pode passar por aí. Os sensores vão disparar e todo o trabalho irá pelos ares”, disse a voz, parecia estar distorcida.

“E quem é você?”, perguntou Nataku.

“Confie em mim. Me dê apenas alguns segundos”, disse a voz, que depois de dizer isso voltou a falar depois de 15 segundos, “Pronto, seu acesso está garantido. O cartão de acesso está no bolso do guarda que teve os olhos arrancados. Vá em frente!”.

E foi o que Nataku fez. Pegou o cartão de identificação e abriu a porta. Caminhou alguns passos e ouviu um grito:

“Parado aí! Identifique-se!”, gritou o guarda que o flagrou.

Nataku ficou calado e ergueu as mãos.

“Eu perguntei quem é você...!”, disse o guarda, se aproximando.

As luzes do local se apagaram, e um barulho de tiro silencioso pareceu acertar alguém. Nataku não conseguia ver absolutamente nada, mas sentiu que o homem o soltou e caiu no chão, provavelmente acertado pela bala.

Ele não conseguia ver nada e foi se arrastando pela sala. Tocando nas paredes viu uma porta próxima, e abriu-a. Ao passar pela porta viu que o recinto estava bem iluminado.

Era um cubículo com três estantes, todas cheias de caixas, e documentos top secret. Havia uma mesa, e sentada em cima havia uma mulher, com um traje muito colado ao corpo. Ela tinha um sniper imenso com um silenciador. Nataku de longe pareceu ver que era familiar.

“O quê?”, disse a mulher ao ver Nataku, “Nezha... É você?”.

“Victoire? O que diabos você tá fazendo aqui?”, perguntou Nataku.

“Como você escapou da Yard? Estamos todos atrás de você. Não me diga que você está do lado do Ar agora!”, perguntou Victoire.

“Escuta aqui, Victoire... O Al me enganou! O Ar me contou tudo sobre mim. E isso tudo... Isso tudo é uma farsa! E se eu fosse você, eu também deixaria de ficar do lado dele. O Al que é o vilão dessa história! Ele te enganou e só sabe usar você. Eu o ajudei, e tudo o que ele fez foi acabar com meu passado, e implantar em mim uma pessoa que eu não sou!”, disse Nataku, sacando a arma e apontando pra Victoire.

“Espera, Nezha, não faça bobagem com essa arma...”, disse Victoire, tentando acalmá-lo.

“Não sou mais Nezha. Agora meu codinome é Nataku”.

“Eu vim no encalço do Ar. O que diabos ele veio fazer aqui no Number 10?”, perguntou Victoire.

“Existem alguém mantido como refém aqui. Eu vim fazer justiça, e não caminhar ao lado de terroristas como vocês”, disse Victoire.

“Nós... Terroristas? Nezh... Quer dizer, Nataku, o Ar te enganou! Somos nós quatro desde o começo, e vamos terminar nós quatro! Somos um time! Nós temos uma... Missão... A... Cumprir...”, disse Victoire, que de súbito parecia perder o fôlego.

“Victoire? O que está acontecendo?”, perguntou Nataku.

“Eu... Não... Consigo... Respirar...”, disse Victoire, quase perdendo os sentidos.

“Uma francesa a menos para um mundo melhor”, disse Sara, atrás de Nataku, entrando na sala.

Victoire caiu desmaiada. E o rádio de Nataku tocou.

“Vamos, Nataku. Dê um tiro na cabeça de Victoire. É uma ordem!”, ordenou Rockefeller.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Família vende tudo.

Eu gosto do cinema nacional. Mas existe algo que me incomoda profundamente - e não são os temas, nem os atores, nem o roteiro. O que me incomoda é que parece que eles usam algum filtro, ou uma velocidade diferente de quadros, que dá pra ver de longe que foi filmado por aqui. É um detalhe, mas quando assisti hoje ao Família vende tudo (2006) já na primeira cena eu vi pela velocidade da projeção como sendo brasileiro.

É como chocolate, sabe? Nunca os chocolates feitos aqui terão aquela textura que desmancha na boca do Kit Kat, e sim serão aquelas pedras duras que machuca o céu da boca tipo Diamante Negro.

Enfim, voltando ao filme. A Sony anda sendo o canal que eu mais assisto. E não é apenas por conta do The X-Factor (tô torcendo pra Fleur East e a Lola Saunders esse ano!), ou How I met your mother, The Voice, Top Chef ou outros programas. E sim porque no horário das 10h da matina normalmente sempre passa um filme legal. Foi nesse horário que há um tempo vi o Clube de Leitura de Jane Austen.

E hoje quando liguei eu vi o Lima Duarte no papel do meu vô Chico! Incrível, hahaha! Muito parecido mesmo, até o jeito de falar. Dizem lá que o filme é comédia, mas eu não consegui rir em nenhum momento. Não por não ser engraçado, tem algumas piadinhas, mas o filme conta a estória de uma família bem pobre que resolve ter a idéia genial de fazer a filha engravidar de um cantor sertanejo brega pra conseguir uma gorda pensão forever.

Tem piadas, mas eu achei o filme incrivelmente triste. O diretor, meu xará, Alain Fresnot, mostrou mais esse registro das famílias pobres do nosso Brasil varonil. Filme tem desfechos indefinidos (a gente quer saber o que aconteceu com cada personagem!) e um final que meio deu uma broxada, puxando pro romance.

Mas em suma, os personagens são muito carismáticos. Todos eles, cada um tem um background único. O Lima Duarte é o Arisclene, a.k.a. meu vô Chico. Marisol Ribeiro como Lindinha, a menina que resolve engravidar do cantor, e o cantor Ivan Lima é vivido por Caco Ciocler. Eu não gosto do Caco, acho ele um péssimo ator, acho que a única atuação que curti dele foi em Olga. Assim como Camila Morgado nasceu pra ser Olga Benário, acho que Caco Ciocler nasceu pra ser Luiz Carlos Prestes. Mas no filme, não é que ele me surpreendeu?

Enfim, apesar dos pesares gostei do filme. E quando eu gosto, pede música no Fantástico ganha um post aqui!

Doppelgänger - #46 - Behind blue eyes.

“Começa agora, Operação Rendezvous”, disse Rockefeller, via rádio.

Um grupo de marceneiros desceu do pequeno caminhão leve e abriu o compartimento, tirando duas caixas com material para montagem. Nenhum deles falava inglês, todos eram muçulmanos recém chegados na Inglaterra, fugindo da miséria e fundamentalismo dos seus países do oriente médio. Tinham um emprego comum como qualquer outro imigrante pobre na terra da rainha. Mesmo que fosse um trabalho braçal, ainda era melhor que viver onde eles tinham morado.

“Sire, encomenda. Cozinha”, disse o responsável, num inglês carregado de sotaque.

Todo item ao entrar no Number 10 passa por um rigoroso critério. Primeiro é visto a documentação. A empresa não pode estar envolvida com nada ilegal. Por mais que vivamos na Inglaterra, os atentados no metrô londrino ainda está muito vivo na sua população. Por mais que haviam feito uma solicitação de móveis para a cozinha do Number 10 pelo gabinete do Primeiro Ministro, ao verem muçulmanos fazendo a entrega todos os guardas suspeitaram. E, protegidos pelo conceito de que era “averiguação rotineira”, usaram todos os argumentos racistas contra os árabes que faziam a entrega.

“Vamos abrir para conferir. Isso é rotina”, o entregador consentiu.

Mentira. Se fossem loiros entregando, eles nem abririam.

E, com um pé-de-cabra, usando toda a força e ignorância possíveis, o responsável da segurança do MI5 abriu a caixa e revirou as madeiras dentro. Não satisfeito, abriu a outra. Mas ainda assim, nada encontrou de suspeito. E ordenou que eles continuassem, levando a caixa aberta mesmo, para dentro da casa.

Truques de mágica são simples truques de atenção. Você pede para a pessoa olhar o baralho na sua mão direita, faz a pessoa suspeitar que as coisas estão de fato acontecendo na sua frente. Mas na verdade todo o truque estava na mão direita, que estava fora do foco.

E foi exatamente o que aconteceu. Entraram cinco funcionários da entrega. Levaram caixas grandes, com material pequeno dentro, e criaram suspeita dentro dali. Mas ninguém percebeu que entraram cinco pessoas, e saíram apenas quatro.

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“Estou dentro, capitão”, disse Nataku, tirando a roupa de funcionário da entrega, ajustando sua nova sneaking suit.

“Ótimo, Nataku. Siga minhas instruções. O local está escondido na mesa de jantar. Existe um grande espelho. Ele parece indivisível, mas tem uma divisória sutil. É um sensor magnético. Encoste esse cartão na divisória que você sentir com o dedo. Como você está usando luvas não se preocupe com impressões digitais. O problema é que a porta demora trinta segundos para abrir. Veja se não tem ninguém antes, entre, e feche”, ordenou Rockefeller.

E foi o que Nataku fez. Entrou e fechou o local. Havia uma porta, parecia uma porta de um bunker antigo. Ao abrir, vira que o local estava iluminado e extremamente limpo. Parecia uma instalação militar de primeiro mundo.

“Bem vindo, Nataku. Bem vindo ao lendário Bunker de Churchill. O local mais seguro do Reino Unido”, disse Rockefeller.

Nataku desceu as escadas e se deparou com um corredor. Haviam muitas câmeras, o local era viajado com sensores. Não havia como seguir em frente, e aquele local era um labirinto. É verdade que uma parte desse imenso bunker é parte do Imperial War Museum. Mas aquilo só corresponde a 10% do bunker total. Aquilo era uma fortaleza.

O local não contava com muitos guardas. Exceto nas suas saídas. A saída menos guardada diretamente é justamente a dentro do Number 10. Já as outras são guardadas pela elite da Guarda Real Inglesa. Não havia como passar sem um conflito direto.

Sem poder avançar em frente, Nataku virou no corredor à esquerda. Olhou pro teto e viu rachaduras no teto, todas porém cimentadas.

Nossa. O Blitz causou isso?, pensou Nataku.

Foi aí que Nataku ouviu ao longe gritos. E passos de alguém que corria para aquela direção. Era hora de se esconder.

“POR DEUS!! MEUS OLHOS!!”, gritava o homem enquanto corria, batendo seu corpo na parede, desesperado.

Nataku viu pelo pequeno vidro na porta um homem jovem, com o rosto todo ensanguentado, tomado pelo desespero de perder os dois olhos. Haviam dois buracos, com um vermelho de sangue batido, praticamente preto. Nataku tinha estômago forte, ainda assim, aquela cena dava um desespero imenso pra ele.

O corredor era grande. O soldado vinha correndo á toda velocidade, mas naquele momento ele estava praticamente se arrastando no chão. Nataku abriu a porta sem fazer barulho, e viu que aquele homem parecia perder as forças. Até que seus lábios ficaram roxos. Por mais que ele fizesse força pra respirar, nenhum ar entrava. Parecia que algo invisível o estava sufocando.

“Sempre fui curioso pra saber o que tem dentro de um olho”, disse a voz, grave, atrás de Nataku.

Nataku se virou. E viu Schwartzman. Imenso. Com seu jaleco branco manchado, e sua cara psicopata.

“É um sangue, sabe. Só que ele é branquinho”, disse o judeu, mostrando um dos olhos do soldado morto, “Um belo olho azul caucasiano. Olha só que bonito”.

E Schwartzman apertou o olho, esmagando na sua mão. O líquido branco escorria da sua mão, não havia nenhum sangue, nada de vermelho. A retina azul caiu, amassada, junto com todo aquele líquido leitoso resultante do olho esmagado.

“Já brinquei com uns nove guardas. Mas eu gosto de números redondos. Você é o próximo pra fechar dez”, disse Schwartzman.

sábado, 8 de novembro de 2014

Doppelgänger - #45 - Number 10.

“Olá, Vicky”, disse Al ao chegar no local.

Victoire com uma cara abatida balançou a cabeça. Agatha entrou rapidamente no local e foi tirando a jaqueta e o sutiã.

“Pelo amor de deus, tem algum antisséptico aí? Essa merda no meu peito tá ardendo!”, pediu Agatha, que prontamente foi levada por Victoire para o banheiro daquela quitinete, onde lá tinha um spray que ardeu ao ser aplicado na ferida.

“Desculpe a demora!”, disse Neige, entrando no aposento.

“É aí? É bom revê-lo, conseguiu descobrir algo?”, disse Al.

“Não. Nada. Os arquivos que acessei na Yard apenas contém o registro deles terem levado Nezha para lá. Depois não há nenhum registro, nada foi atualizado. Isso é muito estranho, porque oras, até nisso são ingleses. Eles organizam tudo, e tem dos os passos registrados com hora e tudo”, disse Neige.

“Merda... Onde diabos ele se meteu? Pelo menos estamos com a Agatha e a Victoire aqui. Victoire está cem porcento, mas a Agatha logo vai ter pronta pra ação também”, disse Al.

Neige tirou o disfarce de bombeiro e colocou seu óculos. Abriu o laptop e mostrou pra Al toda a informação que havia conseguido juntar.

“Al, não temos pista nenhuma de como chegar ao X-Legatus. Parece que o Ar tem o respeito de Schwartzman e Dietrich. Sara parece que age separado deles... Embora também obedeça ao Ar, que a deixa num estado de uma espécie de liberdade pra fazer o que quiser por aí”, disse Neige.

“Pft... Eu odeio essa Sara aí”, disse Agatha, com o peitoral enfaixado.

“Você a conhece?”, perguntou Al.

“Al, meu querido, aconteceu muita coisa enquanto você tava lá com seu mestre. A gente foi no encalço de uma pessoa que parecia ser uma boa pista, um tal de Löfgren. Ficamos presos na casa desse sueco e conseguimos escapar graças a um truque psíquico que essa tal de Sara usou. E depois quando eu a encontrei, comecei a esmurrar ela até dizer chega. Só que ela usou um truque mental e fugiu, e me deixou batendo na Victoire”, disse Agatha.

“Esqueceu de dizer que ela ficou caidinha por você...”, disse Victoire, dando uma risadinha no final.

Agatha detestava mulheres. Se tinha uma coisa que ela tinha nojo era mulheres. Achava nojento um ser sangrar todo mês e deixar a calcinha fedendo quando ficava excitada. Agatha achava o corpo feminino feio, sem os músculos que o corpo masculino tinha, que ela achava o cúmulo da perfeição. Nunca teve nenhum interesse em mulheres, seja pra amizade, e muito menos para um relacionamento. E agora tem Sara, uma lésbica psíquica que estava louca atrás dela.

“Isso é verdade?”, perguntou Al, se aproximando de Agatha.

“É... Porquê? O que você tá pensando?”, questinou Agatha.

“Você pode servir de isca. Sara é ligada ao X-Legatus. Se conseguirmos pegá-la poderemos arrancar algumas informações”, disse Al.

“Nem fudendo! Eu odeio mulheres!”, disse Agatha, se descontrolando, “Se fosse um rapaz bonitinho, até que iria. Queria ver o que você faria se tivesse um viadinho querendo comer teu cu, Al. Falar pros outros é fácil!”.

“Agatha, acalme-se... Eu disse apenas servir de isca. Mas Sara é capaz de ler mentes. E sem dúvidas ela vai saber que você foi resgatada. Só precisamos acha-la...”, concluiu Al.

Neige interrompeu na hora, chamando a atenção pra si.

“Al, eu interceptei algo estranho. Parece que um grupo de pessoas vai tentar invadir o Number 10. Parece que o Ar está envolvido, mas não tenho certeza, pois o IP parece que veio daqueles servidores que ele usou em Canary Wharf que eu consegui hackear. Mas tá realmente muito estranho isso...”, disse Neige.

“Estranho? Como assim?” perguntou Al.

“Essa criptografia é muito fácil de burlar. Parece que foi de propósito que mandaram desse jeito”, disse Neige.

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“Recebi a notícia que sequestraram uma importante CEO de uma empresa. E está sendo mantido em um cativeiro seguro. Talvez o local mais seguro de toda a Grã Bretanha”, disse a voz, clara, ordenando.

“Entendido, senhor. Devo resgatá-lo?”.

“Na verdade trata-se de uma mulher. Mas antes de começarmos a missão, quero mudar seu codinome. A partir de agora vou chama-lo de Nataku. O deus da mitologia sino-japonesa que descreve bem o que você é: um ser sem alma”.

“Sem problemas. Preciso das coordenadas desse local. Quando o senhor me fala no local mais seguro da Grã Bretanha muitos locais me vêm à cabeça”.

“O endereço dele é o número 10 Downing Street”.

“O QUÊ?”, disse Nataku, assustado.

“Sim. A residência do Primeiro Ministro do Reino Unido. É um dos locais mais protegidos e vigiados do mundo. A senhora Thatcher ergueu os portões quando recebeu ameaças de terrorismo, e depois John Major tornou aquele local uma verdadeira fortaleza depois do morteiro que os caras do IRA jogaram lá. Sua missão é entrar no local e resgatar Sheryl Saunders, que está sendo mantida em cativeiro lá, no local mais protegido do Reino Unido. Você sabe quem são os que fazem a segurança, né?”.

“Sim. Eu sei”, respondeu Nataku.

“Ninguém menos que o MI5”, respondeu a voz, desligando o áudio.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Luto.

Hoje eu fiquei sabendo da terceira perda.

Não foram membros da minha família. Mas eram pessoas que eu compartilhava o sofrimento daqueles que eram da família. Primeiro foi a Celeste, tia de uma estimada amiga, uma senhora que acabou contraindo uma bacteria forte e não resistiu.

Depois foi Marcos, padrinho de uma amiga, uma pessoa que eu não conhecia também, mas acessava o Facebook e via como era uma pessoa com saúde, feliz. Numa das últimas fotos estava careca, e sua cabeça muito inchada. Sucumbiu ao câncer.

E, hoje, fiquei sabendo do senhor Roberto, pai de uma ex-colega de classe no Senac, também não resistiu ao câncer e faleceu.

Eu sei que sou budista, somos pessoas que entendemos que tudo o que nasce um dia morre. Mas o sofrimento que essas três pessoas passaram foi algo indescritível. Todas as três eu oferecia preces diárias para a melhora dos entes queridos, mas parece que o destino deles era nos guiar lá do mundo espiritual.

Ás vezes me sinto fraco. Quando mais eu peço e oro pros Budas para ajudarem as pessoas, e quando isso não contece, mais eu fico muito triste. Não pelas preces terem sido "desperdiçadas", jamais, mas me questiono se minha deve fé deve ser mais sincera, que devo praticar mais para poder ajudar uma pessoa a mais.

Hoje vou dormir triste. Gostaria que as pessoas não passassem por isso. Perder um ente querido é muito sofrido...

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Doppelgänger - #44 - Sinal de fumaça.

“Você fica bem de olhos azuis”, disse Agatha, sendo levada por Al para fora da sala de tortura.

“Vindo de você, vou considerar isso uma cantada”, brincou Al.

Os dois entraram num depósito de arquivos da Scotland Yard. Al tirou da sua bolsa um traje social feminino completo e um pouco de maquiagem para Agatha, que rapidamente se aprontou e, com um pouco de base, maquiou seu rosto. Prendeu o seu cabelo com um coque. Ficou com uma aparência muito melhor, exceto por uma marca no braço direito, um hematoma, fruto da tortura feita por Dawson.

Ambos saíram e caminhavam tranquilamente pelos corredores da Yard. Al subiu as escadas calmamente com o crachá falso, e a dois andares do térreo, viu que o sinal do seu celular havia voltado.

“Neige, preciso que ligue agora”, disse Al, no celular.

A holandesa se esforçava para não mancar. No seio, sentia uma dor imensa do tecido do bojo encostado na ferida no seu mamilo. Mas seu rosto permanecia sério, como se ela fosse uma própria funcionaria da Yard em seu turno. Mas por dentro, cada segundo daquilo era uma luta para andar naquele salto e mostrar-se elegante, para não levantar nenhuma suspeita.

“Al, qual o seu plano?”, perguntou Agatha.

“Eu vi isso num filme. Acho que vai dar certo. Vai ser pelo lugar mais seguro: a porta da frente”, respondeu Al.

Logo o sinal de incêndio foi acionado, e uma fumaça forte dominou aqueles andares do prédio. Aquela fumaça ao entrar no nariz ardia os olhos, e em poucos segundos o local inteiro estava tomado por uma fumaça cinzenta. Eles haviam incendiado o prédio?

O carro de bombeiros chegou, e Al ofereceu um pano pra Agatha cobrir seu nariz. Ele continuou puxando ela até a saída no meio daquela fumaça toda. Foi aí que eles entraram em um dos carros dos bombeiros.

“É bom revê-lo, meu amigo”, disse Neige.

“Pode nos deixar ali perto da Trafalgar Square? A gente pega um táxi de lá”, pediu Al.

E foi isso que Neige fez. Uma fuga nem um pouco original – similar a de Ethan Hunt em Missão: Impossível. Mas uma tática que funcionava bem. A tática da fumaça sempre pegava os caras da inteligência. Uma fuga tão clichê que seria óbvio pros caras da Yard que o resgate de Agatha havia sido arquitetado por alguém interno. Era um recado de Al para eles também.

No táxi Al tirou uma pasta cheio de documentos daquela pequena mala que tinha também as roupas de Agatha.

“O que é isso? Um dossiê?”, perguntou Agatha.

“Sim. Coisa do ‘n’. Mas muita coisa aqui eu já sabia ou suspeitava...”, disse Al, que ia passando os papéis pra Agatha.

Enquanto a holandesa lia os papéis, via o quanto Al e “n” estavam na frente. Muitas coisas ali ela nem mesmo havia imaginado. Ela viu que era hora de falar pro Al o que ela sabia daquela conversa que teve com o Ar no dia anterior em Canary Wharf.

“Ar tem o mercado financeiro mundial nas mãos. Empresas, ações, países inteiros. Ele ataca os elos fracos das correntes, e desencadeou essa última crise com as quebras dos bancos americanos, e quebrando bancos em diversos países, um após o outro. A tática parece que é usar persuasão com empresários, e parece que ele tem uma rede imensa dos capangas dele, todos infiltrados em diversos bancos pelo mundo, transferindo e investindo contra eles mesmos. E com todo esse poder ele consegue manipular a mídia. E como tudo faz parte do jogo financeiro, ninguém jamais vai prendê-lo por seus atos de terrorismo econômico”, disse Agatha.

“Sim. Eu já sabia disso, Agatha”, revelou Al, deixando Agatha abismada, “Mas olhando esse dossiê do ‘n’, dá pra termos mais pistas sobre as atividades de Ar. Pense comigo, Agatha... Legatus é uma instituição financeira como qualquer outra. Eles podem ser os agentes pra mexer na economia, mas o ponto é exatamente esse, veja esse papel”.

Agatha viu diversos nomes. Parecia o quadro de funcionários da Legatus. Várias e várias páginas. Alguns nomes destacados, mas na frente escrito: INVÁLIDO.

“Ar não tem absolutamente nenhuma ligação direta com Legatus. Ele disse que o Legatus manipula os bancos mundiais com seus agentes espalhados em todos os bancos do globo, certo? Não... Existe algo por trás do Legatus. Existe um grupo que serve como sombra do Legatus, pois ele próprio é apenas mais um fantoche dentro dos anseios do Ar”, disse Al.

“Impossível!”, disse Agatha, “O Ar não tem nenhuma ligação direta com o Legatus? E esses nomes que você marcou? São de pessoas que foram investigadas, mas que nada conclusivo foi encontrado?”.

“Isso. Digamos que estamos usando uma rede fantasma da NSA pra roubar alguns dados deles. Neige tem o acesso. O Legatus não tem nenhuma culpa, não conseguimos nenhuma prova contra eles, pois desde o começo eles são apenas um bode expiatório. Existe uma entidade que está na sombra da Legatus. Eu não sei o nome – muito menos se tem um nome, mas parto do fato de que Ar, a psíquica, o judeu maluco, Dietrich e Ravena fazem parte. E com certeza, muito mais gente. Vou chama-la de X-Legatus”.

Agatha viu os rascunhos de Al. Pensou bastante, e via que aquilo fazia sentido.

“Faz sentido. Ar nos colocou pra investigar um beco sem saída, quando na verdade deveríamos voltar na esquina e observar de longe que havia algo que não tínhamos visto”, disse Agatha.

“Existe algo por detrás da Legatus. Pense bem... As operações ilegais seriam facilmente detectadas pelos governos pelo fato de que a Legatus existe oficialmente. Seria capa de revistas e jornais, seria muito fácil de denunciar. Todo o dinheiro é lavado pela X-Legatus, e mais tarde usado pelos mesmos agentes que usam a Legatus para terem acesso fácil a diversos bancos do mundo. E assim, ter economias e empresas como reféns. E causar atos de terrorismo econômico”, disse Al.

“Mas nenhum deles é agente da Legatus. Ou melhor, são agentes duplos, da X-Legatus e da Legatus”, disse Agatha.

“Isso mesmo”, disse Al, “Eu já suspeitava disso, mas os papéis que ‘n’ levantou confirmam isso”.

“Mas por onde começaremos a investigar?”, perguntou Agatha.

“Neige vai nos ajudar. Parece que ele descobriu algumas coisas”, disse Al.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Nerds!

Sou do tempo que era difícil ser nerd. A gente era humilhado na escola, pessoas só tinham amizade conosco pra colar na prova, e as meninas tinham nojo da gente, nunca queriam nada.

Esses dias tava assistindo ao Kick Ass 2, e, obviamente, o filme é entupido de referências nerds. O que eu achei legal é ver como os nerds mudaram de babões estudiosos, para uma sub-cultura que está crescendo mais e mais.

Eles não deixaram de ser babões. Continuam pessoas bitoladas em alguma coisa: sejam games, mangás, gadgets, quadrinhos, etc. Mas a indústria tá sabendo explorar bem.

Acho Kick-Ass um dos símbolos dessa era. Talvez daqui uns 20 ou 30 anos olharão pra Kick-Ass como retrato dessa época assim como Embalos de Sábado à noite foi o retrato daquele período das nossas mamães e papais.

O principal ponto é: nerds gostam como ninguém do Mito do Herói. Afinal, 90% do conteúdo que consumimos tem referências grandes a isso. Crescemos gostando do Homem Aranha, Cavaleiros do Zodíaco e afins. E os roteiristas exploram bastante isso, pois é relativamente fácil.

Nerds gostam de referências. Vide The Big Bang Theory. Lá tem referências a todo raio de tipo de nerd. Até o mais nerd dos nerds pode eventualmente encontrar referências a coisas que ele não conhecia. E não gostamos de referências na cara, gostamos de coisas sutis, porque nerds são pessoas que são ligadas nos detalhes.

E nerds gostam de corpos sarados. Sejam de homens ou mulheres. No Kick Ass 1, todos os marmanjos queriam pegar nos peitões da namoradinha do Dave, a Katie (Lyndsy Fonseca, com um nome tão brega com y como Kayky Brito). E no Kick Ass 2, várias garotas suspiraram junto da Mindy quando o Dave tirou a camisa e mostrou o seu peitoral bombado.

Bom, dizem que a gente gosta do que a gente não tem. Nerds não são nem bombados, nem heróicos. Mas isso não quer dizer que não possamos usar um pouco da magia do cinema e mudar isso, né? ;)

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Doppelgänger - #43 - As lágrimas puras de Victoire.

“Toma esse cobertor”, disse Neige, oferecendo pra Victoire.

Victoire estava sentada abraçada com suas pernas, tremendo de frio. Já havia passado por maus bocados como detetive, mas isso era muito além do que ela poderia suportar. Não conseguia relaxar para dormir, todos seus companheiros estavam presos, e não havia nenhuma previsão da volta de Al do seu treinamento. Ela olhava pra janela e via o céu londrino, e nada conseguia fazer a não ser pensar em Al.

“Quer um chá? Eu só tenho Earl Grey...”, disse Neige, oferecendo uma xícara.

“Merci”, disse Victoire, em francês.

Enquanto tomava alguns goles, lágrimas caíam do seu rosto, pingando dentro do chá. Neige não entendia, e tampouco sabia o que fazer com uma mulher chorando na sua frente. Preocupado, tirou um lenço e se agachou ao lado de Victoire, enxugando suas lágrimas.

“Acalme-se, Victoire”, disse Neige, “Quer desabafar?”.

“Eu... Eu só...”, tentava falar Victoire, soluçando de tanto chorar, “Eu só queria que ele me amasse!”.

“Quem? O Al?”, perguntou Neige.

Victoire, com a caneca na boca, balançava a cabeça positivamente, com os olhos vermelhos de tanto chorar.

“Não sei muito sobre o passado do Al como você deve saber, mas ele tem uma ferida muito grande no coração. O Al nunca vai conseguir amar nenhuma mulher, exceto a falecida esposa. Por mais que ele te beije, por mais que ele passe a noite com você, ele nunca vai conseguir te amar. Não nutra esperanças, Victoire. A vida real é muito mais dura. Não seja uma prisioneira dos seus sonhos”, disse Neige.

“Então... O que eu faço? Eu não consegui atirar no Ar, pois ele parecia o Al! Meu coração palpitou, era como se eu tivesse que atirar no homem que eu amo! Eu odeio o Al, odeio esse sentimento. Ele é um cafajeste, só quer saber de me comer e não pensa nos meus sentimentos!”, desabafou Victoire.

“Victoire, eu não sei os detalhes do que está acontecendo entre vocês. Mas hoje mulheres são livres, inclusive pra amar quem quiserem. Antes de dizer que o Al é um cafajeste, eu tenho que te afirmar uma coisa: você é livre pra amar quem quiser. E você deixa isso acontecer com você porque você quer. Ele nunca vai conseguir te amar, e você se submete a ele, porque você quer. Você tem que amar primeiro a pessoa que você vê no espelho, e não o Al. Se você tivesse um pouco de amor próprio, não tenho dúvidas que seria mais confiante na hora de encontrar uma pessoa para amar”, disse Neige.

Neige ainda ficou um tempo do lado de Victoire. A TV estava ligada na BBC, e já era tarde da noite quando Neige olhou pro lado e viu Victoire sentada no chão ainda, abraçada com os joelhos, encostada no sofá.

“Você deve ser uma mulher fantástica, e muito homem ficaria muito feliz em ter uma mulher como você ao lado. Você parece que escolheu o Al como seu príncipe encantado, e só aceita ele, quando no fundo, ele é quem não te aceita. Você ficou aguardando ele todos esses anos, e não tenho dúvidas que muitos caras legais passaram pelo retrovisor, e você perdeu muito tempo e muitas possibilidades”, disse Neige, enquanto puxava uma manta para cobri-la, “A única responsável pela sua felicidade é você. Saiba dar chances para novos caras também. Você pode se surpreender”.

Neige pegou o cobertor e a cobriu. E a deixou ali, enquanto ia pro seu quarto dormir. Victoire depois de muito chorar cansou, e agarrou num sono.


[Todos os acontecimentos desde a viagem de Victoire, Agatha e Nezha de volta pra Inglaterra, até eles serem pegos por Ar e pela polícia inglesa em Canary Wharf ocorreram no dia 24 de novembro de 2012]

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25 de novembro de 2012

Agatha estava exausta, suada, e sangrando. Por mais que tivesse treinamento contra tortura, uma tortura era tortura. Estava recebendo choques em áreas sensíveis no corpo, seus mamilos estavam ardendo e queimando. Ela mal sentia seus dedos também, formigando. Dawson não havia dito nada sobre como estava Nezha, mas ela imaginava que ele também estaria passando por algo similar.

Porque as autoridades, em pleno século XXI, com tantas leis contra a tortura usavam tais meios ainda? Agatha, Nezha, Victoire e Al naquele momento não eram criminosos comuns. Eram verdadeiros inimigos do estado. Pessoas que deveriam ser silenciadas custe o que custar.

Dizem que algo similar aconteceu com outros célebres terroristas, por isso que muitos dos seus corpos nunca foram encontrados – provavelmente desfigurados ao extremo por causa da tortura que sofreram.

E Agatha estava no mesmo nível deles, mesmo que não fosse uma terrorista desse gênero. Estava cansada. E Dawson também estava cansado. Ele deixou Agatha praticamente nua no chão, com sangue e muitos hematomas no corpo. Uma pessoa entrou na sala, e se aproximou de Agatha, estendida no chão, e a levantou. Parece que mais um round de tortura estava pra começar.

“Já é a segunda vez que eu te salvo”, disse o homem que levantara Agatha, “Da próxima vez me dá um toque, sim?”.

Agatha reconheceu a voz, e não acreditava no que ouvia. Quando olhou pro lado viu um homem com uma peruca, uma barba grossa, mas os olhos eram inconfundíveis.

Era Al. De volta ao Reino Unido, salvando Agatha. Enfim.

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