quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Doppelgänger - #46 - Behind blue eyes.

“Começa agora, Operação Rendezvous”, disse Rockefeller, via rádio.

Um grupo de marceneiros desceu do pequeno caminhão leve e abriu o compartimento, tirando duas caixas com material para montagem. Nenhum deles falava inglês, todos eram muçulmanos recém chegados na Inglaterra, fugindo da miséria e fundamentalismo dos seus países do oriente médio. Tinham um emprego comum como qualquer outro imigrante pobre na terra da rainha. Mesmo que fosse um trabalho braçal, ainda era melhor que viver onde eles tinham morado.

“Sire, encomenda. Cozinha”, disse o responsável, num inglês carregado de sotaque.

Todo item ao entrar no Number 10 passa por um rigoroso critério. Primeiro é visto a documentação. A empresa não pode estar envolvida com nada ilegal. Por mais que vivamos na Inglaterra, os atentados no metrô londrino ainda está muito vivo na sua população. Por mais que haviam feito uma solicitação de móveis para a cozinha do Number 10 pelo gabinete do Primeiro Ministro, ao verem muçulmanos fazendo a entrega todos os guardas suspeitaram. E, protegidos pelo conceito de que era “averiguação rotineira”, usaram todos os argumentos racistas contra os árabes que faziam a entrega.

“Vamos abrir para conferir. Isso é rotina”, o entregador consentiu.

Mentira. Se fossem loiros entregando, eles nem abririam.

E, com um pé-de-cabra, usando toda a força e ignorância possíveis, o responsável da segurança do MI5 abriu a caixa e revirou as madeiras dentro. Não satisfeito, abriu a outra. Mas ainda assim, nada encontrou de suspeito. E ordenou que eles continuassem, levando a caixa aberta mesmo, para dentro da casa.

Truques de mágica são simples truques de atenção. Você pede para a pessoa olhar o baralho na sua mão direita, faz a pessoa suspeitar que as coisas estão de fato acontecendo na sua frente. Mas na verdade todo o truque estava na mão direita, que estava fora do foco.

E foi exatamente o que aconteceu. Entraram cinco funcionários da entrega. Levaram caixas grandes, com material pequeno dentro, e criaram suspeita dentro dali. Mas ninguém percebeu que entraram cinco pessoas, e saíram apenas quatro.

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“Estou dentro, capitão”, disse Nataku, tirando a roupa de funcionário da entrega, ajustando sua nova sneaking suit.

“Ótimo, Nataku. Siga minhas instruções. O local está escondido na mesa de jantar. Existe um grande espelho. Ele parece indivisível, mas tem uma divisória sutil. É um sensor magnético. Encoste esse cartão na divisória que você sentir com o dedo. Como você está usando luvas não se preocupe com impressões digitais. O problema é que a porta demora trinta segundos para abrir. Veja se não tem ninguém antes, entre, e feche”, ordenou Rockefeller.

E foi o que Nataku fez. Entrou e fechou o local. Havia uma porta, parecia uma porta de um bunker antigo. Ao abrir, vira que o local estava iluminado e extremamente limpo. Parecia uma instalação militar de primeiro mundo.

“Bem vindo, Nataku. Bem vindo ao lendário Bunker de Churchill. O local mais seguro do Reino Unido”, disse Rockefeller.

Nataku desceu as escadas e se deparou com um corredor. Haviam muitas câmeras, o local era viajado com sensores. Não havia como seguir em frente, e aquele local era um labirinto. É verdade que uma parte desse imenso bunker é parte do Imperial War Museum. Mas aquilo só corresponde a 10% do bunker total. Aquilo era uma fortaleza.

O local não contava com muitos guardas. Exceto nas suas saídas. A saída menos guardada diretamente é justamente a dentro do Number 10. Já as outras são guardadas pela elite da Guarda Real Inglesa. Não havia como passar sem um conflito direto.

Sem poder avançar em frente, Nataku virou no corredor à esquerda. Olhou pro teto e viu rachaduras no teto, todas porém cimentadas.

Nossa. O Blitz causou isso?, pensou Nataku.

Foi aí que Nataku ouviu ao longe gritos. E passos de alguém que corria para aquela direção. Era hora de se esconder.

“POR DEUS!! MEUS OLHOS!!”, gritava o homem enquanto corria, batendo seu corpo na parede, desesperado.

Nataku viu pelo pequeno vidro na porta um homem jovem, com o rosto todo ensanguentado, tomado pelo desespero de perder os dois olhos. Haviam dois buracos, com um vermelho de sangue batido, praticamente preto. Nataku tinha estômago forte, ainda assim, aquela cena dava um desespero imenso pra ele.

O corredor era grande. O soldado vinha correndo á toda velocidade, mas naquele momento ele estava praticamente se arrastando no chão. Nataku abriu a porta sem fazer barulho, e viu que aquele homem parecia perder as forças. Até que seus lábios ficaram roxos. Por mais que ele fizesse força pra respirar, nenhum ar entrava. Parecia que algo invisível o estava sufocando.

“Sempre fui curioso pra saber o que tem dentro de um olho”, disse a voz, grave, atrás de Nataku.

Nataku se virou. E viu Schwartzman. Imenso. Com seu jaleco branco manchado, e sua cara psicopata.

“É um sangue, sabe. Só que ele é branquinho”, disse o judeu, mostrando um dos olhos do soldado morto, “Um belo olho azul caucasiano. Olha só que bonito”.

E Schwartzman apertou o olho, esmagando na sua mão. O líquido branco escorria da sua mão, não havia nenhum sangue, nada de vermelho. A retina azul caiu, amassada, junto com todo aquele líquido leitoso resultante do olho esmagado.

“Já brinquei com uns nove guardas. Mas eu gosto de números redondos. Você é o próximo pra fechar dez”, disse Schwartzman.

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