quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

No rain, can't get the rainbow!


Olha que coisa linda! Foi um imenso presente dos budas pra todos nós esse lindo halo ontem. Eu vi quando chegava em São Paulo, foi uma linda recepção e um belo espetáculo no céu.

Sempre no começo do ano começamos com o sentimento de que queremos fazer muita coisa. Eu lembro que quando eu fazia academia o mês de janeiro sempre tinha caras novas. Mas mal acabava o mês e nenhuma daquelas pessoas novas estavam lá.

Para se conseguir algo que quer, devemos persistir. As coisas não são resolvidas num passe de mágica, deve-se trabalhar muito, todos os dias, com muito amor. Por isso eu não sou adepto da lista de metas pro ano.

Porque a vida é inesperada, e embora muita gente queira que a vida seja tranquila e sem percalços, isso é uma utopia e nunca a vida será assim. Ao invés de apenas enxergar os problemas na frente, porque não enxergamos a esperança?

Não é apenas o primeiro de janeiro que é o dia para se reinventar. Temos 364 outros dias pra isso! E mesmo que não quisermos, é natural da vida se reinventar, nos adaptar. Se dedique em fazer algo que realmente ame. Tire um dia pra se dedicar pras outras pessoas. Se dê a chance de amar uma pessoa loucamente. Elogie e sorria pras pessoas sempre, como se sua vida não tivesse problemas, porque se você parar pra ver, de fato não tem, comparado com os outros! A vida é maravilhosa, e não escrever metas é estar aberto para tudo de novo que virá. E pode ser bem melhor do que a meta de emagrecer alguns quilos, arranjar um emprego que pague dezenas de milhares, ou conquistar a princesa (ou príncipe).

Provavelmente não consegui realizar todas minhas metas pessoais de 2014, mas sempre haverá o amanhã, por mais difícil que o hoje seja. E que o amanhã vem acima de tudo repleto de esperança, que será um novo dia, da mais louca alegria, que se possa imaginar. ;)

Usemos todas as oportunidades para crescer. Vamos viver cada dia do ano com a mesma intensidade e esperança da virada. Vamos dar as mãos, um dois três, e ajudar uns aos outros, e assim construir um mundo ao nosso redor melhor. Mas acima de tudo não encarar a vida com tanta seriedade! Lembre-se que o Vegeta sempre foi sério e sempre quis ser o melhor, mas o Goku no fundo só queria se divertir, e sempre foi insuperável. Esse é o segredo! =)

I get knocked down, but I get up again, you're never gonna keep me down!

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

2014 foi espetacular por quê...

Hoje é um novo dia, de um novo temp...
Não! Eu quero a música de ano novo da Dolly:


Feliz ano novo, vai começar de novo. 
Só com bons pensamentos, vem viver esse momento de felicidade, de fé e boa vontade! 
Para que seu dia-a-dia, seja sempre harmonia! 
DOOOOOLLY! Dolly Guaraná, DOOOOOOLLY!

Ahhh! 2014 acabando. E que ano! Em 2013 eu me entrevistei (porque eu sou louco mesmo! E eu falo sozinho em inglês, o que é pior ainda) e em 2012 o ano não acabou (chupa, povo maia!) e em 2011 foram 11 êxitos de 2011. E estamos de porta com o ano de 2015. O ano em que meu humilde blog completará em dezembro nada menos que... Dez fucking anos.

O que você fez na vida que durou dez anos? Eu lembro que o fallen Pegasus (na época que era Pegasus Wings na finada Weblogger do Terra) nasceu justo em dezembro de 2005. O ano que eu terminei o colegial e tudo o que eu via na minha frente era incerteza. O blog, naquele primeiro post, carregava esse anseio do que aconteceria na minha vida daquele momento em diante, em que eu tava saindo da adolescência e entrando na fase adulta. Aconteceu muita coisa? Coisa pra caralho. E o foda é que tenho registro, tenho provas, e o blog acabou servindo também pro segundo objetivo: não ficar com esse feeling de que o tempo está passando muito rápido. O tempo passou na sua medida, na sua velocidade.

E agora, dez anos. O blog que nasceu naquela febre de blogs de 2005, onde cada um fazia seu espaço, vendo hoje o mesmo perdeu espaço para Twitter, Tumblr e Facebook da vida. Mas o blog tá aqui firme ainda, e espero que a Blogger não venha a falir e que consiga chegar aos 20, 30, e por aí vai. Porque se em dez anos ele não foi abandonado, por falta de posts é que não vai (em janeiro ainda chego a 1500 posts. Vai falar merda assim na casa do caralho)!

Como hoje é retrospectiva, vou chutar o balde e falar no meu dialeto mesmo, hahaha! Palavrões são necessários, não me venha com seu puritanismo, porque não existe nada melhor pra enfatizar algo do que um palavrão na hora certa, hehe.

2014 foi um ano bom porque...
...Viajei três vezes pro interior!


A primeira foi no Carnaval! Eu lembro que o dia que peguei a estrada foi justamente no meu último dia na última firma. Fui lá eu com a minha mala até o Tietê e passei o Carnaval com o vovô e brincando com a pirralhada. Sim, sei que muita gente aproveita pra dar aquela afogada no ganso (a.k.a. sexo), mas eu comi ninguém. E foi muito mais divertido do que se eu tivesse comido!

Depois teve aniversário do meu priminho Tomaz em agosto e hoje, estou chegando da terceira ida pro interior, passando o Natal com meu avô. Se eu gosto de ir? Eu amo ir! Ficar no meio do mato, sem sinal de celular, comendo e dormindo o dia inteiro. Ar puro, cerveja e uma molecada pra eu voltar a ser criança. Precisa de mais alguma coisa?

2014 foi um ano bom porque...
...Laços de amizade foram estreitados!


Vou dar dois exemplos só. Mas obviamente que foram muitos! Tenho uma amiga que ficou entre a vida e a morte nesse ano, a Renata. Ela teve uma crise de bronquite que quase levou a sua vida, e a deixou em coma durante vários dias. Eu até aquele momento a tinha como uma amiga normal, mas quando fiquei sabendo fiquei muito triste. Pedi pra encontrar com ela e fui ao hospital com um imenso buquê para ela.

Hoje a Rê é uma baita amiga do peito. É uma pessoa que eu tenho como muito especial, e daquele momento pra cá ela renasceu, como o próprio nome dela significa. É uma outra pessoa, e tenho certeza que continuará firme como sempre demonstra ser.


E outro exemplo é o Peter! Meu amigo britânico, veio dar um passeio no Brasil com sua esposa, e eu fui lá ver ele em Santos. Foi um dia ótimo e lindo, muito som, ótimos passeios e muita conversa. Ele é funcionário da Shinnyo-en UK, e não tínhamos muito contato porque ele tava sempre na correria. Foi num dia em que tudo deu meio errado, e eu achei que não conseguiria chegar em Santos que foi um dos dias mais memoráveis desse ano de 2014 ao lado dessa figura que eu tenho uma simpatia sem limites.

São apenas dois exemplos, mas teve muitas outras inúmeras pessoas que ganharam mais espaço em meu coração. Se eu ficar citando aqui um ou outro vai ficar triste porque não citei, então sintam-se abraçados, porque amo cada um de vocês!


2014 foi um ano bom porque...
...Revivi o amor, mesmo que tenha resultado em nada.

Bom, estamos no final do ano, e eu aprontei muito com essa donzela esse ano. Não vou citar nomes, mas não gostaria de deixar isso off the records porque simplesmente não vale a pena. Foi algo que vivi, que me fez repensar a vida, que me fez pensar no que um sentimento de fato é, e que provavelmente me fará pensar muito ainda por um longo tempo.

Vou resumir.

Há quatro anos atrás, Alain gostava de uma menina. Que fique claro que meus sentimentos são coisas puras mesmo, jamais seria cafageste. Só que uma amiga dessa menina deu um banho de água fria há quatro anos atrás, me disse que essa menina nunca ficaria comigo, e que era pra eu esquecer isso e nunca mais nutrir um sentimento por ela.

Durante quatro longos anos eu fugi desse sentimento. Tentava buscar outras paixões, mas nunca nada dava certo. E sempre me vinha na cabeça: "Mas e se eu tivesse tentado algo com ela? E se essa menina me desse uma chance?". Foi aí que em meados do ano passado eu comecei a ver ela com outros olhos. Mas eu sempre parava e pensava: "Não, isso é errado! Não devo nutrir sentimentos por ela, pois ela nunca vai ficar comigo!". E começava a ver defeitos nela.

Dizem que o amor é cego. De fato, é. A gente só vê os defeitos da pessoa depois do divórcio. Mas eu via os defeitos dela, que são muitos, assim como os meus também. E por um momento eu pensei: "Mesmo com todos esses defeitos, você ainda aceitaria ela? Você ainda gostaria de andar junto dela, compartilhar a vida com ela, estar ao lado dela pro que der e vier?".

E a resposta do meu coração foi: "Sim, eu ficaria com ela mesmo apesar de tudo".

Mas aquele fantasma dessa amiga dela de quatro anos atrás ainda rondava minha mente. "Ela nunca vai ficar com você! Ela nunca vai nutrir nenhum sentimento por você!". Se fosse um filme, provavelmente a minha próxima frase seria: Eu me declarei pra ela, e ainda apesar de tudo, estamos juntos e felizes. The End.

Mas não! Estamos na realidade, e as coisas não são tão simples como em Hollywood, hahaha.

Eu de primeira não me declarei. Pelo contrário. Eu sabia que ela tinha suspeitas dos meus sentimentos por ela, mas eu fiz uma coisa muito feia. Muito mais feia do que o Bill fez com A Noiva em Kill Bill. Eu menti. Disse pra ela que não sentia nenhum sentimento por ela, e que sob hipótese nenhuma nesse mundo eu ficaria com ela. Eu errei, provavelmente essa mentira será algo que tenho certeza que até o Enma Dai-ô lá no mundo espiritual vai citar no meu julgamento quando eu morrer, e sei que vou pagar o preço dessa mentira infeliz pelo resto da minha vida. A verdade era que eu estava perdidamente apaixonado por ela, e quando eu disse isso menti pra mim mesmo pensando que uma mentira contada se tornaria verdade e os sentimentos iriam pro beleléu.

Mas eles não foram. Na verdade, só foram ficando mais intensos. Eu tinha vergonha de nutrir isso por essa menina. Isso na minha cabeça era errado, um sonho idiota que nunca se realizaria. Mas os Budas sabem o que fazem. Eu lembro que eu tinha prometido pra mim mesmo que, se eu elevasse pra daikangi eu iria contar pra ela. Mas eu não me elevei, e tive que contar do mesmo jeito. E a reação dela foi a esperada, um "não".

E isso desencadeou diversas coisas, que continuam ricocheteando até hoje. Ficamos sem nos falar, brigamos feio mesmo, trocando xingamentos um contra o outro, ironias, e eu sei que eu disse coisas horríveis pra ela, que afetaram não apenas o sentimento que existia, como nossa amizade. Isso eu errei, errei feio, e tenho muita vergonha disso e me arrependo profundamente. Ficamos um bom tempo sem nos falar, e hoje, por vergonha, não consigo nem falar com ela direito. Só consigo pedir desculpas pela forma idiota que eu agi nesse ano, causando tanta tristeza pra ela, seja pelos meus sentimentos, seja pelo meu jeito de agir.

Não vou entrar nos méritos do sentimento. A verdade é que eu ainda gosto dela, vou fazer o quê? E talvez esse sonho tenha sido simples premonição do que vai acontecer cedo ou tarde. O que vai acontecer? Eu não sei. Mas isso foi algo que aconteceu esse ano, e que definitivamente não deveria ficar fora do registro.

2014 foi um ano bom porque...
...Fiz as pazes com o André!


Bom, esse eu disse que foi um dos acontecimentos do ano!

O André e eu éramos como unha e carne. Éramos grandes amigos mesmo, mas por conta de uma burrada minha acabamos brigando... E ficamos todo aquele período final da faculdade até bem depois dela sem nem mesmo citando o nome um do outro.

Esse ano achei que deveríamos dar uma trégua nessa briga, fui pedir desculpas pela idiotice que havia feito, muito pela imaturidade e idiotice da minha parte mesmo, e naquele reencontro pacífico parecia que esses anos todos de distância nunca haviam existido, parece que éramos amigos assim como éramos há seis anos atrás. =)

E estamos aí! Obrigado André por ter me perdoado, pela nova chance e, acima de tudo, pela amizade renovada! Foi uma das melhores coisas desse ano!

2014 foi um ano bom porque...
...Teve o Saisho Homa em Cusco (e eu estive lá)!


Eu já falei muito sobre o que foi essa cerimônia linda aqui.

Eu não queria ir. Sabia que teria muita carga espiritual e eu sou um grãozinho de areia na palma da mão do Buda. Sou um zé ninguém que mesmo pra se levantar pede ajuda pros Budas, quiçá ajudar numa cerimônia dessa.

Mas vou falar algo que não está nesse link, que é gratidão. Eu nunca achei que eu fosse merecido de nada nessa vida. Sério mesmo. Meu pai sempre me criou pra eu me considerar um lixo do lixo como ser humano, e eu sempre me considerei isso. Mas desde que entrei na Shinnyo-en, e fui conectado a esse grande coração dos budas, muitas vezes eu me pergunto: porque eles botam tanta fé em mim, se eu sou a última pessoa que me daria uma chance?

Nunca fui um grande realizador de coisa. Tem gente por aí que me acha o máximo, mas eu sempre me achei um bosta. E ainda me acho. Mas quando a gente acaba envolto por essa compaixão imensa dos budas, é como se recebêssemos um empurrão pra frente e, mesmo que por um momento inicial não achemos que conseguimos fazer isso, a gente descobre forças da gente não sabe da onde e vai lá e faz.

Eu recebi muitos presentes incalculáveis desde que virei praticante Shinnyo. Ir pro Japão em 2012, no ano do centenário da fundadora, pro Saito Homa (que já é um em um milhão que são chamados) é algo que eu sei que mesmo que eu pratique por uma vida inteira jamais conseguirei retribuir. E, como se não bastasse o fórum do ano passado, e agora ajudar nessa cerimônia de Saisho Homa, a primeira na América do Sul, é mais uma pra listinha das coisas que vou conseguir retribuir nunca. Mas agradeço muito aos Budas por toda a força e proteção. E se quiserem ler mais, só ler no link!

2014 foi um ano bom porque...
...Foi o ano da Grande Felicidade!


Em 2012 foi o primeiro, pra daijo. Em 2013 foi kangi. Em 2014 daikangi. Será que 2015 será o do reinô?

Eu não canso de dizer o quão eu sou feliz em ser budista, e quanto mais ainda sou feliz em ser um praticante Shinnyo. Eu tô nem aí, vou falar da minha felicidade pros quatro cantos, hehehe! Porque é sincero, é verdadeiro, me completa. Budismo é algo que eu acho que eu procurei nas minhas incontáveis vidas passadas, e eu sinto que agora que eu encontrei é onde eu quero ficar pra sempre - pelo menos até que eu morra, no mínimo.

Acima de tudo eu agradeço muito à imensa compaixão dos Budas por me permitirem e me confiarem por ter chegado aqui. Mesmo apesar de todas as inúmeras e incontáveis falhas. Eu, por mim, jamais me viria merecido, ou jamais pensaria "eu mereço estar aqui porque superei isso, isso e aquilo", não!

Caminho budista é um caminho altruísta. E eu sempre quis ser altruísta, mas nunca achei uma maneira que eu também seria protegido. Pensava que ser bonzinho só fazia se dar mal, mas hoje eu vejo o quanto de coisa boa eu recebi por ter me jogado de cabeça, foi sempre muito a mais do que eu oferecia pros outros, por mais que eu tentasse me esforçar pra ajudar o próximo, o presente que vinha era sempre muito maior, mesmo que eu esperasse nada em troca.

Agora em janeiro farão apenas cinco anos que eu me tornei budista. E sei que tem muita gente que pratica há décadas e não está nesse "nível", mesmo que eu deteste usar essa palavra. Primeiro porque acho que isso é só ego besta. Uma coisa que detesto ouvir é pessoal se vangloriar, dizendo que chegou nesse nível por esforço próprio, quando eu sei que nada, absolutamente nada teria sido superado se os budas não apenas estendessem uma mão de ajuda, mas um pé, uma cabeça, um corpo, tudo. Tudo é graças aos budas, tudo, tudo, tudo. Eu não fiz nada. Se Shinnyo-en fosse um ensinamento fraco, nada disso teria acontecido. Mas é uma das poucas escolas budistas que nos ligam mesmo a esse tal de Shakyamuni, que mantém viva essa chama mesmo depois de milênios, de um Buda que não veio ensinar apenas meditação ou mantras, mas sim uma coisa riquíssima chamada bondade.

"Uma árvore pode balançar e ser levada pela rajada. Mas uma árvore firme aguenta todas as rajadas e se mantém firme. Isso é ser daikangi".

Não tenho dúvida que se não fosse por toda a ajuda, sem dúvida esse ano teria sido um dos piores. Por exemplo, ficar o ano inteiro sem emprego: isso nos deprime, nos faz questionar se escolhemos a profissão correta, dá raiva do governo, e tudo mais. Mas sempre existiu algo maior que me levava minhas dores, que me acalentava, que me dava forças pra seguir em frente apesar de tudo. E sempre me dava esperanças de um futuro melhor, e que isso tudo tinha um motivo, mesmo que no momento não consiga entender por eu ser egocêntrico.

Eu sozinho jamais teria chegado aqui. Tudo o que passei é gratidão eterna e imensa aos Budas, e sei que quaisquer dificuldades que eu enfrentar na vida, por piores que sejam, sei que eles estarão do meu lado, e que eles me darão forças para sempre seguir em frente. E em gratidão a essa bondade imensurável, prometo que continuarei ajudando mais e mais pessoas, me esforçando e tentando fazer os budas orgulhosos e confiantes em mim. Darei o meu melhor!

Namu shinnyo!

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Ser adulto.

Hoje estava na piscina brincando com meus priminhos.

O mais novo soltou: "Alain, você é criança também?".

E eu disse: "É claro que eu sou!".

Acho que o melhor presente de todos é crianças deixarem a gente entrar no mundo deles. Até assistir Peppa Pig e a Luna fica com um gostinho de "conquistei um pedacinho". No caso, pedacinho desse coração!

Minha tia, a mãe deles, sabe que eu não tive infância muito feliz. Vi em cima da bancada que ela comprou três pirulitos. Um pro mais novo, um pro mais velho e... Um pra mim!

Tem coisa melhor que isso? :)

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Natal de perdão.

Eu estava pensando no quê compartilhar como mensagem natalina aqui. Não tinha nenhuma ideia (e nossa, dezembro voou. Não gosto de dizer isso, mas tenho que admitir). Ontem teve uma ceia de natal aqui na casa do meu vô Chico.

Óbvio que sempre tem muita comida, uma cervejinha, mas a de ontem foi diferente da que teve no ano passado: tivemos convidados, que não era apenas eu. Ou melhor, completaria dizendo: as pessoas que vieram ontem, dificilmente viriam no ano passado.

Porquê? Pois estavam brigados.

Fiquei feliz em rever meu tio Edmundo, tia Mazé, tio Xande, tia Nádia e as crianças. Eles estavam meio brigados, enfim, o tipo de briga que nem quem brigou lembrava mais de como tinha começado. Mas eles fizeram as pazes, e ontem tivemos um belo jantar regado de harmonia e felicidade. Ótimo!

Acho que a mensagem não poderia ser melhor que essa: perdão.

Esse ano foi o ano que enfim me reconciliei com meu velho amigo André, depois de uns seis anos sem nos falarmos. Fui lá, pedi desculpas pelo que tinha feito, e ele pediu também, e ambos nós nos perdoamos. 2014 já tinha sido excelente já nesse ponto!

E eu sei que eu também tô longe de ser santo. Sei que fui um arruaceiro pra algumas pessoas em 2014, e muitas delas eu sei que eu realmente magoei. Magoei muito. Antes de vir pra cá, pra algumas eu mandei e-mail pedindo sinceras desculpas pelas brigas ou coisas que acabei causando nesse ano, que foi um ano pesado, acho que muitas pessoas aqui passaram por altos e baixo durante esse ano, mas independente dos erros que cometi eu pedi perdão sincero e uma nova chance humildemente. Se as pessoas que eu causei problemas vão me perdoar ou não isso vai delas. Apenas queria dizer que sinceramente sinto muito, e me arrependo profundamente pelas besteiras que disse.

E é isso! Como diria o Kevin McCallister, Natal é a melhor data para se pedir perdão pelas coisas que fez no ano.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Às beiras do caminho Sith.

Eu me sinto meio igual ao Anakin Skywalker acordando dos pesadelos em Tatooine.

Sempre achei "Anakin" parecido com "Alain" (assim como sempre achei que se falava "Anakãn", como é o caso de "Alãn"). Será que eu tenho um futuro como Darth Vader? Pelo menos vou ter um sabre de luz vermelho. Isso é o que mais me atrai num caminho Sith.

E novamente despertei. Esse está fresquinho na mente, foi realmente agora, só peguei o celular pra postar... Realmente acordei agora. Que sonhos, não? Dessa vez você e eu novamente. Eu te encontrei lá, e você havia me olhado com aquele olhar distante que você sempre teve. E eu sempre com aquela esperança estranha.

Nós não conseguimos conversar direito nunca. Acho que é um misto de timidez, com nossos próprios medos. Você apenas me olhava com aquele olhar distante e pedia pra ler o email que você enviara.

E nele você me falava muitas coisas.

E novamente me machucava. Me dizia coisas que eu sempre soube que era verdade, mas que novamente aquilo soava como ultimato. Pra parar com isso de vez. Parece um misto de premonição com "eu sabia que ela nunca aceitaria o convite". E de fato, no final vinha um "não vou aceitar seu convite, não me envie mais nada desde tipo nunca mais, pare de nutrir falsas esperanças. Nunca ficaremos juntos".

E como todas as vezes que você disse isso, novamente ficava arrasado.

Ontem não dormi muito. Parece que essa noite não vai ser o calor do interior que vai me tirar o sono, mesmo que aqui esteja fresco depois da chuva que deu. Esse sonho já me tirou completamente o sono...

Como você dormia depois de um sonho desses, Anakin?

sábado, 20 de dezembro de 2014

Eliminem esse sentimento do meu coração.

Budas, por favor, eliminem esse sentimento do meu coração.

Esse foi o "mantra" que eu mais recitei hoje. Na verdade, esse "mantra" vem sendo o meu maior pedido aos budas. Engraçado como o tempo passa, e quanto mais tento repreender isso, pior a coisa parece evoluir.

Budas, por favor, eliminem esse sentimento do meu coração.

Esse sentimento é errado. Eu tenho plena consciência que isso só faz mal pra mim. Tenho plena consciência que nunca você vai voltar atrás no que disse, e aceitar meus sentimentos. Não, isso está fora de cogitação. Eu nem deveria pensar nisso. Menos ainda me apegar numa esperança infundada.

Budas, por favor, eliminem esse sentimento do meu coração.

Eu digo que você sempre foge das coisas da vida, e você vivia dizendo que se eu criticava isso nos outros era porque eu fazia igual. E, de fato, quem sou eu pra falar algo? Fugi do sentimento que senti por você por todos esses cinco anos. Menti pra mim mesmo negando o sentimento. Menti pra você dizendo que jamais ficaria com você sob hipótese nenhuma.

Embora nunca tivéssemos tido nada - e eu, lacrando esse sentimento no fundo do meu coração - buscava em outros aromas o seu perfume. Mas nenhuma mulher nesses anos me faziam sentir o que eu sentia do seu lado.

Mas cara, isso é errado! Ninguém do meu lado me faria sentir como sinto quando você está do meu lado. Era uma busca que nunca ia me levar a lugar nenhum.

Budas, por favor, eliminem esse sentimento do meu coração.

E, por mais que eu pedisse para eliminarem, acho que não tive meditação o suficiente. Meu coração é fraco, e ele está nesse momento me mandando o treinamento mais forte - acabar com esse sentimento que tenho por você. Porque isso, coração? Não percebe que nutrir esse sentimento é errado, que apenas vai me levar para onde sei que vai terminar. Nada vai mudar, ela vai conseguir encontrar alguém, é bonita, jovem, uma ótima pessoa. E eu vou ficar aqui até quando? Porque insiste? Quando peço para que você a esqueça, que não pense nela, que não se preocupe com ela, que não peça desculpas pra ela, que não a perdoe, você vai lá e... Amolece.

Isso é uma fé inabalável? Onde está sua racionalidade? Eu sou um fraco, e novamente estou cavando minha própria cova pois simplesmente não consigo ter o controle dos meus sentimentos. Não consigo te esquecer, não consigo deixar de pensar em você, não consigo deixar de orar por você, não consigo.

E sua resposta já foi dada. Foi "não". Mas meu coração ficará nessa guerra do racional contra o emocional até quando? Isso dói.

Gostaria de pegar na sua mão. Gostaria de te dar um abraço apertado. Gostaria de te dar um beijo.

Por um momento queria que fosse como Brilho Eterno de uma Mente sem lembranças. Queria ter uma máquina daquelas, e apagar você da minha mente. Ó querida, ó querida, ó querida Clementina.

Apagar você da minha mente de uma vez, Clementina. Assim, seria tudo muito mais fácil.

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Eu tive um sonho com você, no dia em que sentei no assento de elevação agora, em novembro.

No sonho, a gente tava num lugar, com uma luz meio na penumbra, tudo meio alaranjado, várias caixas dispostas, e você aparecia. Tinha muita gente nessa sala, e você disse que queria fazer um anúncio.

"Gente, eu quero apresentar o Marco (ou Vagner, não lembro ao certo o nome), meu namorado!".

No sonho o coração começou a doer. Me deu uma agonia, e acordei assustado.

Na hora eu pensei: Minha nossa, isso foi um sonho?!

Mas depois eu coloquei a mão nos olhos e chorei. Chorava, chorava, chorava. E já passava das três da madrugada. Me senti tão mal, tão mal, que foi difícil pegar no sono depois.

No sonho eu lembro do rosto dele.

Era um cara alto, mas não tão alto como eu. Ele tinha uma barba meio rala, um rosto triangular e bonito, olhos azuis e um cabelo espetado, loiro escuro. Ele era rico também. Eu quando bati o olho nele eu sabia, ele seria o amor da sua vida. Que vocês nunca terminariam, seriam felizes para sempre. Foi de surpresa seu anúncio nesse sonho, o susto fez meu coração disparar pois eu sabia que aquela esperança era errada, o sentimento por você era um erro desde o começo. E aquilo era apenas a prova daquilo que eu teimo em não aprender.

Ó querida, ó querida, ó querida Clementina...

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Estava falando sobre essa situação com uma amiga muito querida.

Disse que estava fazendo de tudo, pedindo pros budas ajuda, tentando reprimir esse sentimento. Jogar essa doença para um cantinho do coração, mas infelizmente, deixei o coração de infectar com isso. Agora é tarde, e nenhum antibiótico ajuda.

O que ela me respondeu foi algo muito bonito: Amor não se elimina. Se vive ao máximo, até que não se tenha forças pra não mais fazer. Amor não correspondido só se multiplica quando reprimido, porque quando é verdadeiro, resiste, persiste. Amor, qualquer um que seja, tem que ser vivido até o fim. Ele não se elimina porque se reprime, mas porque se esgota.

Então isso que sinto é... Verdadeiro? Mas do que adianta? Pra ela eu continuo sendo um grude nojento, derretido de amor, que não é correspondido. E jamais será. Ela precisa desse "Marco (ou Vagner)" do sonho. Ela não precisa de um cara como eu, que tem nada a oferecer.

Já se passou quase meio ano desde que me declarei pra ti naquela mesa na praça de alimentação. E o idiota aqui continua nutrindo falsas esperanças.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

13 Almas do Joelma.

Dia 3 de junho do ano passado eu fui conhecer e prestar respeito para as Treze Almas do Joelma. Eu tenho muita pena de quem morre em incêndio, acho uma morte terrível - tão terrível como qualquer outra, óbvio. Quando fiz um curso de combate a incêndio no meu primeiro emprego, os instrutores nos mostraram alguns vídeos de um dos piores incêndios da história do Brasil, o do Edifício Joelma, em 1974.
Tive muita dó, muitas pessoas morreram nesse acidente. A Boate Kiss ano passado também. Nesse eu passei tão mal enquanto ouvia as notícias que fui internado e tive que passar por uma cirurgia de pedras no rim, pois simplesmente não conseguia fazer outra coisa a não ser chorar enquanto ouvia as notícias e a tristeza dos familiares.

Existe até um vídeo do Linha Direta sobre isso. Óbvio, recheado de suspense. Mas dá pra se ter uma idéia. Minha primeira visita como disse foi no dia 3 de junho de 2013, onde prestei respeito a eles, recitei alguns mantras, e tirei essa foto:


Fiquei abismado em como as pessoas faziam pedidos para as 13 Almas. Vários cartazes, flores, imagens, todas agradecendo a graças alcançadas pelas 13 Almas. Mas acho que embora as pessoas viessem pedir coisas para essas pobres almas, não sei se todo mundo orava por elas, para que elas descansassem.

As pessoas colocavam copos de água em cima das lápides, como dá pra ver na foto. Dizem que as pessoas ouviam vozes deles ainda pedindo por socorro, pedindo por ajuda, e a forma que as pessoas acharam de aliviar as vozes era por oferecimento de água, já que todas elas morreram carbonizadas.

Toda vez que ouvia isso eu ficava muito triste. Queria sim que elas enfim descansassem, e parassem de sofrer. Acho lindo e mágico que almas tão bondosas mesmo apesar do seu sofrimento, sempre colocaram as outras pessoas em primeiro lugar, ajudando as pessoas daqui a conseguirem curas de doenças, empregos e até moradia. Eu via um espírito budista incrível nelas - mesmo que aquele lugar fosse dominado por oferendas cristãs.

Resolvi então todo mês, pelo menos uma vez, oferecer um pedido de consolação espiritual budista para as 13 Almas na Shinnyo-en. Antes de postar isso eu pensei bastante, mas queria postar com o espírito de mostrar que quando se acredita, as coisas mudam, mesmo que você pareça estar sozinho. Basta ter sinceridade.

Eu sou um grãozinho de areia na palma da mão da imensa compaixão dos Budas, eu sou absolutamente nada, e tenho poder nenhum. Embora eu tenha feito os pedidos de consolação espiritual para as 13 Almas do Joelma, todo esse meu esforço foi apenas 0,01%. Todos os 99,99% foram parte da benevolência e compaixão dos Budas.

O que mais me machucava era ver aqueles copos d'água ali. As pessoas colocavam os copos pois as almas gritavam de dor, e a água os aliviava. O que eu pedia para os Budas era que essas almas enfim descansassem, e não precisassem mais de água, que enfim encontrassem a compaixão dos Budas.

Hoje me deu na cabeça que eu deveria ir lá. Peguei minhas coisas de oração, coloquei um amuleto budista pra proteção no bolso (não que eu tenha medo, mas prevenir é o melhor remédio!), e fui até o Cemitério São Pedro novamente, mais de um ano e meio depois da minha última visita.

E quando chego no local onde as 13 Almas estão enterradas, tenho uma bela surpresa:


Não havia nenhum copo d'água! Apenas lindas flores.

Não consigo descrever minha felicidade quando vi isso! Estava um belo dia de sol, olhei pra cima e agradeci muito aos budas, pois parecia que enfim aqueles almas estavam felizes, não estavam sofrendo. Foram abraçados pelo grande amor benevolente dos Budas.

Eu tirei foto apenas de uma das lápides, mas nenhuma delas tinha nenhum copo d'água. Em gratidão, recitei alguns mantras, inclusive o Mantra da Benevolência e do Poder de Salvação de Achala. Enquanto recitava sentia que as 13 Almas estavam entoando em unísono comigo. Senti como se elas quisessem agradecer aos Budas por toda a ajuda estendida, e enfim terem conseguido um descanso. E eu agradeci por todas as preces não terem sido em vão, e por ter ajudado-os, essas vítimas anônimas que resguardarão todas as outras que morreram nesse trágico incêndio. =)

Desde junho do ano passado, como disse, não visitei mais o túmulo das 13 Almas. Mas nunca me saiu da mente eles. Estou feliz, muito feliz. Vê-los bem foi o melhor presente de Natal que eu poderia receber. =)

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Doppelgänger - A história dentro da história (6)

Talvez apenas uma mulher poderia compreender tão abertamente o coração de outra mulher.

Amanda Figuerola era filha de um pai sueco, residente na Costa Rica. O pai não tinha muito o que oferecer, mas sempre fora dedicado. Havia visitado o país numa viagem de turismo, e lá conheceu uma mulher encantadora. Tinha um lindo corpo, um sorriso cativante, e mesmo que não tivesse muitos recursos, lhe sobrava aquele sangue latino que sempre encantou o mundo afora. Seu amor lhe dava tranquilidade, e o próprio nome da donzela latina inspirava esse estado: Paz Florido.

A jovem Paz se apaixonou a primeira vista pelo senhor Figuerola. Todas as noites eram regadas de amor, e nesse ninho eles deram a luz a quatro homens, e a caçula, a jovem Amanda.

O senhor Figuerola descendia dos povos celtas. Toda sua família na sueca ainda praticava seus rituais pagãos, porém ele desde cedo vira que nunca levara jeito para aquilo. Estar na Costa Rica era sua fuga. Seus quatro filhos homens também nunca viam, tampouco sentiam nada. Porém, justamente na mais nova, algo parecia diferente.

“Mãe, mãe”, disse a pequenina Amanda, puxando o vestido da mãe, “Tem um homem em pé lá no meu quarto. Ele tá me dizendo pra mim muitas coisas estranhas”.

Paz se assustou. Pensou que fossem narcotraficantes invadindo sua casa. Ela sabia que não muito longe dali haviam plantações de drogas que seriam enviadas aos americanos pelo México. Porém sua casa não tinha nada demais, eles eram muito humildes, viviam da terra, produzindo numa pequena chácara de agricultura familiar. Porém, quando Paz adentrou ao quarto, viu que havia ninguém lá.

“Filha, não tem ninguém aqui. Será que ele levou alguma coisa?”, disse Paz, abrindo os armários para conferir se estava tudo ali.

“Mãe, ele está ali, perto da janela”, disse Amanda.

Mas por mais que a mãe se virasse, ela não conseguia ver absolutamente nada. Não havia ninguém. Mas a filha falava com uma convicção muito forte. Paz, na sua humilde ignorância, pensou que a filha estava vendo coisas, pois ela não conseguia ver nada ali. Agachou na frente da filha e olhou nos olhos dela, segurando-a pelos ombros.

“Filha, não tem ninguém aí. O que esse homem te disse?”, disse Paz, sem crer no que a filha via.

“Esse moço disse que o José vai morrer em três dias”, disse Amanda, que logo depois disso a mãe lacrimejou e deu um tapa forte na boca da filha.

“NUNCA MAIS DIGA ISSO! JOSÉ É SEU IRMÃO, E ELE ESTÁ BEM!! ISSO É PECADO!! Vá já para a igreja confessar ao padre que você levantou uma calúnia!!”, gritava a mãe, enquanto a filha saía com a mão na boca ensanguentada indo em direção da pequena paróquia local.

Por mais que o padre ordenasse que ela orasse, as visões não paravam. A pobre Amanda não falava mais com a mãe, mas os espíritos sempre vinham contar coisas que estavam prestes a acontecer. Premonições com dia, hora e circunstâncias exatas.

E como previsto, três dias depois José, seu irmão mais velho, faleceu por atropelamento. A mãe não sabia o que fazer com a filha. Via aquilo tudo e ouvia os comentários na rua, de que sua filha mexia com magia negra. Que iria matar todos os habitantes da vila. Que sua filha tinha pacto com satanás. As fofocas nunca cessavam.

E então Amanda foi crescendo. Se tornou uma jovem bonita, tinha o que havia de melhor dos dois mundos: ser loira por conta de seu pai, e a pele bronzeada da sua mãe. Como seu tipo era bem diferente dos outros costa-riquenhos, os rapazes todos ficavam ouriçados ao vê-la – ainda mais no local onde ela morava, que era isolado de tudo.

“Filha, ouvi falar que tem uma dupla de americanos infiltrados por aqui. Parece que são sanguinários espiões, capazes de matar qualquer pessoa. Tome cuidado com eles, sim?”, disse a mãe de Amanda, temendo pela filha.

Amanda estava tomando banho, se aprontando para mais um dia na escola do seu vilarejo. Quando colocou seu uniforme, viu que dois primos seus estavam a encarando. Eram primos bem mais velhos, um tinha 22 e o outro 26. Amanda era uma menina de apenas doze anos.

“Sua bruxa. Você merece uma punição por ter matado todas as pessoas da família. Você é uma desgraça e merece uma punição... Que vamos dar agora!”.

Os dois foram pra cima de Amanda, com uma corda amarram as mãos dela, e a levaram para fora do portão da humilde casa. Ela gritava por ajuda mas ninguém aparecia. Quando fechou o portão ela olhou para a janela e viu ninguém menos que a própria mãe, com lágrimas nos olhos, testemunhando tudo e não fazendo nada.

Todas as pessoas que viam os dois primos carregando a jovem Amanda nada faziam. Na verdade, as pessoas eram tão fanáticas que temiam pelos dois primos, e não pelo que iriam fazer com Amanda. Achavam que Amanda era uma bruxa, e que qualquer um que tentasse fazer algo com ela, iria ter um castigo divino, amaldiçoados. Porém, Amanda era uma menina boa e pura, nunca iria fazer mal a ninguém, mesmo que pudesse fazer tal coisa. Via todos aqueles olhares de julgamento das pessoas do vilarejo, todos pareciam apontar o dedo e agradecer por aquela punição que os primos lhe dariam era um castigo de Deus contra aquela pecadora.

Os primos estavam praticamente babando. Levaram Amanda pra um matagal, e quando mal abaixaram as calças, seus pintos saltaram dela, duros como rocha. Rasgaram o uniforme escolar de Amanda, e a encheram de tapas. Sem dúvida, eles que estavam possuídos pelo demônio.

O que se passa na mente de uma jovem de doze anos ao ser estuprada? Ela não sabia o que estava acontecendo, e depois de um momento as dores pareciam estar anestesiadas. Apenas sentia uma pontada muito dolorida, esporadicamente, depois ela se forçava a fechar os olhos e torcer para que aquilo acabasse logo.

Os primos, covardes, revezavam na violência contra a jovem Amanda. Não tinham nenhuma dó dela, afinal na mente deles ela era uma bruxa, condenável à morte, e aquela era apenas a primeira punição contra ela. Pra eles, era justo. O que os movia era um sentimento sem igual de justiça, eles faziam aquilo pois diziam a si mesmos que ela merecia aquilo. Seu lindo rosto logo estava cheio de hematomas, seu olho direito inchado depois de socos que levou, suas nádegas com marcas de tapas e sua boca não parava de sangrar.

As lágrimas nos olhos embaçavam sua visão. Seus olhos só viam vultos, vultos que não paravam de estupra-la. Eram apenas dois, mas pareciam incontáveis, e aquilo era interminável.

Quando Amanda recobrou a consciência já era o pôr-do-sol. Seu corpo estava tomado pela dor. Provavelmente ela havia desmaiado depois de tantas agressões. Não tinha roupa nenhuma, apenas alguns trapos. Não sabia nem como voltar pra casa, tampouco como chegara ali. Provavelmente teria que ficar lá esperando a morte chegar, pois ela sabia que ninguém – nem mesmo sua família, a receberia no vilarejo depois disso. Amanda encostou numa árvore e dormiu ao relento, torcendo para que logo pela manhã já estivesse morta depois dessa vergonha.

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“Ela acordou, venha Arch!”.

“Minha nossa... Espero que os analgésicos façam efeito logo. Porque alguém faria algo tão cruel com uma menina tão jovem?”.

“Ela está ainda meio entorpecida pelos medicamentos. Acho que não consegue falar nada”.

Amanda não conseguia distinguir os rostos com precisão. Mas se aquele era o céu, e se aqueles eram os justiceiros divinos, ela tinha a obrigação de delatar os que haviam feito aquilo com ela.

“Quem fez isso com você, garota?”.

Como um suspiro alto, ela disse o nome e o sobrenome deles, usando ao máximo seu esforço. Depois fechou os olhos, e só ouvia palavras perdidas enquanto novamente caía num sono profundo.

“Sim, são eles, esses nomes....”; “...Eles são ambos ligados ao traficante....”; “...Nos levar direto a ele...”; “Lucca, chamem nossos homens, vamos acabar logo com isso”.

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O pão estava quente. Tinha uma manteiga, que derretia lentamente. O café com leite também estava bom. Era difícil pegar o pão, pois o braço estava enfaixado e engessado, e embora mesmo que o outro braço estivesse com curativos, Amanda conseguia rasgar pedaços de pão com a mão, e colocar na boca.

O gosto do pão se misturava com o sangue que ainda saía dos ferimentos da sua boca, dando um gosto ferroso característico. Mas aquela era a primeira refeição de Amanda em dias – pelo menos a primeira que ela realmente se lembrava. No acampamento improvisado ela estava em uma mesa simples, sentada numa cadeira desmontável de madeira, próxima a dois furgões numa língua que ela não ler naquele momento – inglês.

Um jovem, que não aparentava ter mais de vinte anos, sentou-se na mesa com ela. Ele parecia ter notícias, e falava um espanhol bem fluente.

“Amanda Figuerola é seu nome, não? Amanda, não sei como dizer isso, mas os primos que te estupraram pertenciam a uma gangue que trafica armas no Nicarágua. Eles são um braço deles, e isso vai nos ajudar a chegar nos cabeças, quando cruzarmos o país até lá”.

Amanda ficou chocada. Mas não conseguia falar nada.

“Eles resistiram, estavam armados, e nós éramos em maior número e melhor armados. Acabamos executando-os ontem à noite, depois de arrancar mais pistas para completarmos nossa missão”.

Amanda ainda não falava nada. Abaixou os olhos e olhou pro pão que comia. Ela clamava por justiça, e parecia que um cavaleiro da esperança havia aparecido.

“Você tem pra onde ir?”.

Amanda balançou a cabeça negativamente.

“Nós trabalhamos na inteligência, atualmente estou fazendo um trabalho nos Estados Unidos, mas sou inglês. Você enquanto delirava chorava pedindo para não te levar de volta... Não tenho muitas coisas boas pra te oferecer, mas se quiser dar uma chance, posso tentar te arranjar uma nova vida em outro lugar”.

Os olhos de Amanda lacrimejaram. Por um lado, temia morar sozinha em um novo lugar, sem sua família. Por outro lado, temia que ninguém mais no vilarejo a aceitasse, e que eventualmente pessoas a violentariam movidas pelo mesmo fanatismo. Das duras dores, pegou a dor que carregava esperança. Olhou para os olhos do seu cavaleiro da esperança, se esforçou pra abrir a boca apesar da dor, e com toda a força que tinha disse no mais alto e bom tom que poderia falar:

“S-si!”, disse Amanda.

Amanda foi levada para “Land of Freedom”, a América. Seus salvadores conseguiram que a Inteligência a protegesse, pelo menos até que ela ficasse grandinha e conseguisse andar por conta própria. Em um mês todos aqueles ferimentos haviam cicatrizado, e ela era uma nova pessoa. Uma nova identidade. Um novo lar.

Mas ela nunca esquecera dos homens que a salvou. E depois de meses, conseguiu conversar com eles, e implorou para que a permitissem caminhar nos mesmos passos que eles. Ela queria de alguma forma estar próxima dos que a salvara. Eles eram Arch e Lucca, que coincidentemente estavam em missão na América Latina naquela ocasião, um freelance conseguido pela CIA.

Amanda tinha apenas quinze anos em 1988. No ano do expurgo e assassinato de Arch. O homem que não apenas a havia salvado, mas que havia lhe oferecido uma nova vida estava morto. Amanda adotou o nome de Ravena, e se tornou uma poderosa médium a serviço da Inteligência americana, ajudando a resolver inúmeros casos.

Ela queria continuar aquilo que o homem que lhe salvou a vida havia começado. Continuar seu legado, mesmo depois do seu falecimento, e levar adiante seus ideais como uma bandeira por toda sua vida, em gratidão por tudo que ele lhe fizera quando ela tinha apenas doze anos.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Doppelgänger - #50 - Ameaça invisível.

Vanitas? Sim... É a organização por detrás da Legatus. Existe mesmo, Al, você estava certo! Era o que estávamos chamando de Legatus-X o tempo todo, pensou Victoire.

“Trabalhar na inteligência é um trabalho muito desonrado. Somos mandados pra todos os cantos do mundo, e se nos descobrem, nosso destino é morrer como cães, jogados em caçambas de lixo. Não temos família, não temos sequer um nome. Nem mesmo você, meu irmão”, disse Ar, apontando para Al.

“O que diabos você tem em mente, Ar?”, perguntou Al.

“Talvez você me veja apenas como uma pessoa que quer dominar o mundo. Tipo um vilão de segunda categoria, sabe? Mas é algo muito mais profundo. A verdade é que nesse momento eu já tenho controle total. Esse é o primeiro ponto”.

Nessa hora Ar, e todos as pessoas ao redor dele colocaram máscaras. Exceto Schwartzman.

“Merda!!”, sussurrou Agatha pra Victoire, “Eles vão fazer alguma coisa! Temos que pensar rápido, Victoire!”.

“Não podemos atirar! Temos que descobrir tudo sobre o Ar, senão isso nunca vai acabar!”, replicou Victoire.

“O segundo ponto é que o que me move, como você sabe, é plenamente vingança. Primeiro eu quero me vingar de você. Você me abandonou, você era a única família que eu tinha. Isso você não contou pra ninguém, não é? Não sei porque a coroa confia em você... Você é um velho decrépito que está chegando aos quarenta, mas seu corpo está com quase sessenta.”, disse Ar.

Al ficava apenas ouvindo. Ele só precisava de uma confissão, algo mais concreto, para ordenar que Victoire ou Agatha desse um tiro certeiro.

“E a terceira coisa que me move, é exatamente o que move você também”, disse Ar.

“O que me move?”, disse Al.

“Sim. Vou deixar você pensando sobre isso”.

Droga!! Eles não vêem que essa briguinha familiar pode causar o colapso das economias do mundo inteiro?, pensou Agatha, furiosa.

Ar foi até Schwartzman e pegou algo que parecia um detonador. Nessa hora três portas grandes se abriram, e uma tropa inteira de homens do exército entraram, fortemente armados, rendendo todos.

“Senhor, esses três são os terroristas procurados pela Interpol! Provavelmente eles que sequestraram Saunders!”, disse um dos soldados.

Tá de brincadeira comigo! Mais uma coisa pra nossa ficha criminal... Filhos da puta!, pensou Victoire.

“Todos vocês, parados!”, gritou o capitão, “Vocês mascarados, identifiquem-se”.

Ar ergueu o detonador. E começou a falar algo. Seu rosto, por causa da máscara era irreconhecível.

“Quem somos nós? Nós somos onipresentes”.

Nessa hora, aproximadamente de quinze a vinte soldados dessa mesma tropa da rainha colocaram máscaras. Alguns soldados olharam pra eles, sem entender. Ar apertou o botão e um barulho de um estalo foi ouvido. Parecia que era um gás vazando, era um som de pressão.

Ar se virou e saiu pela porta do outro lado calmamente.

Mas antes que ele pudesse andar, cada um dos soldados foi caindo. Um a um. Eles pareciam se contorcer, mas não havia nada, nenhum cheiro.

Al deixou as duas e foi correndo em direção ao Ar. Era tudo ou nada.

“AAAAAAR!!!!”, gritou Al.

Ar virou pra trás e viu Al. Os dois se olharam por poucos segundo, mas aquilo parecia correr em câmera lenta. Foi aí que a visão de Al começou a ficar embaçada, e sentiu uma dor imensa no seu tronco e simplesmente caiu. Suas pernas não respondiam, pareciam adormecidas, e sua cabeça parecia confusa.

Seu corpo parecia estar sendo dominado por uma imensa dormência. Embora não sentisse nenhum cheiro diferente, sua respiração começou a ficar difícil. O Ar não parecia ter nada de diferente, e ele parecia esperar tudo, menos uma ameaça invisível e inodora.

Ao seu redor todos os soldados pareciam se contorcer de dor.

Mas o barulho da agonia deles foi acabando. Todos pareciam sucumbir e simplesmente morrer.

Al virou seu rosto e viu Ar. Ele estava em pé, olhando, parecia alguém muito superior. Ele era apenas um mortal sendo subjulgado por um deus. Al se sentia um inseto prestes a ser queimado com uma lupa. Aquela neurotoxina foi rapidamente fazendo efeito, e sentia que dentro de momentos ele morreria exatamente como Ar previra: como um animal sacrificado.

Os três seriam apenas três corpos entre as dezenas da chacina, e ninguém mais conseguiria parar Ar. Foi nesse momento que a porta se fechou. E sua visão ficava cada mais escurecida.

Impotente. Era isso que Al sentia. E agora, junto daquele pessoal todo ele iria morrer. Não havia o glamour de um James Bond. O que havia era um descarte de um corpo.

A inteligência era um trabalho sem honraria.

“Al, Al! Aguente firme!”, disse Victoire, correndo em sua direção. Agatha parecia bem também. Sem hesitar, Victoire injetou algo em Al, mas o próprio Al estava muito debilitado pra reagir. Simplesmente desmaiou.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Cusco 2014 - Epílogo


Quando cheguei em casa fui recebido pelos meus pais e a Meggie, minha cachorrinha. Sempre quando viajo ela fica muito mais excitada que o normal, e não foram poucas lambidas que recebi dela.

Minha mãe e meu pai haviam dito que havia assistido ao serviço religioso online, mesmo que ambos não fossem conectados ao budismo como eu. Isso me deixou muito, muito feliz mesmo. Minha mãe disse que achou a cerimônia muito bonita, realmente mostrando a busca pela paz mundial.

Quando subi ao meu quarto e vi o altar do Buda, eu agradeci.

Agradeci por voltar são e salvo para casa. Realmente pensei que não sobreviveria.


Agradeci muito pela imensa compaixão e proteção que recebi todos esses dias. Eu normalmente não aguento nem meia hora embaixo do sol, e dessa vez suportei durante horas. Isso é realmente inexplicável.

Agradeci por terem protegido nosso vôo, afinal era uma área de intensa turbulência, mas parecia que nosso avião era protegido por uma força invisível.

Agradeci por mesmo apesar de tudo terem me dado forças. Foi complicado representar os jovens, mesmo eu passando mal, mas depois de orar muito mentalmente, novamente os budas não me deixaram na mão, e me protegeram, me deram forças.

Agradeci por não ter rolado nenhuma briga, e todos nós desfrutarmos uma viagem que ficará para sempre nas nossas memórias.


E engraçado que depois que voltei, tudo aquilo havia passado! Pensei que ficaria ainda alguns dias ruim, mas acho que tudo tem um porquê. No budismo se ensina muito a darmos um passo além. Voltei com minha fé ainda mais fortalecida, agradeci muito pelas coisas que senti e vi espiritualmente lá, e com uma gratidão imensa por tudo ter dado certo, e feliz por ter participado daquele sonho que havia se iniciado há dois anos atrás.

E bem vindo de volta! É bom estar entre os espíritos dessa terra novamente. Sei que estavam esperando nosso retorno ansiosamente. Trouxemos muitos docinhos pra vocês. =)

This is my town, watch your step if you come around! ;)

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Cusco 2014 - Dia 4

14 de setembro
Domingo, dia da tão esperada cerimônia!

Acordei de manhã com o corpo naquela sensação pós-noite de febre. Dolorido, mãos meio dormentes, exaustão. Fui ainda assim fazer ablução com água fria, e me senti até um pouco revigorado depois.

Saímos do hotel às 7h, chegamos antes mesmo dos funcionários do templo lá em Saqsaywaman. Me juntei às meninas e fiquei colando os adesivos de VIP na cadeira. O dia começou ensolarado, e ficou ensolarado o resto do dia. Não parecia que cairia uma única gota de chuva em Saqsaywaman naquele dia.


Tentei ajudar a carregar algumas cadeiras, mas o corpo não respondia muito. Às 9h o sol já batia nas nossas cabeças sem dó, e resolvi ficar parado ao lado da tenda da câmera, um dos poucos lugares com sombra em Saqsaywaman.

Mais ou menos umas 10h vi a procissão andina no topo das escadas para chegar no altar. Eles ficaram em pé por uma hora, com todas aquelas roupas, mas acho que estavam acostumados. Começaram a chegar então os convidados. Habitantes de Cusco, crianças vestidas de uniforme escolar, e até umas pessoas do movimento Hare Krishna batucando tambores e cantando suas animadas músicas.

A partir de umas 10h30 um flautista andino começou a fazer uma apresentação muito bonita. Ele realmente tinha muita habilidade. E faltando poucos minutos para as 11h vi a Sua Santidade Shinso Ito chegando ao local, e então a procissão começou.


Como havia sido adiado para nós, teríamos que formar um cordão de proteção pra procissão ocorrer bem. E lá estávamos nós de mãos dadas protegendo a procissão. Lembrei do que Shojushin-in havia me falado, para proteger sua filha, e lá estava eu, dando meu melhor.

A cerimônia começou, fui sentar numa cadeira pra orar junto com os oficiantes. Tudo ocorreu muitíssimo bem. Na saída fizemos o mesmo cordão de proteção e depois fomos até as tendas montadas na entrada de Saqsaywaman, pois os jovens teriam um momento com nossa lider, Keishu-sama.

Reuní todas as forças e fiquei lá no meio do círculo de pessoas, falando com bastante vigor para nossa amada líder. Muito humilde, ela embora cansada pela viagem e por ter feito a cerimônia, respondia a todos nós com sorriso. Estava muito feliz em ver os jovens lá. Já de minha parte tive que me concentrar bastante para não chorar. Foi muito complicado, mas só chorei no final do encontro mesmo.


“Será que vão cumprir essa promessa de vocês mesmo? Vou estar de olho!”, foi o que ela disse. Isso pelo menos pra mim foi um misto de torcida, carinho e rigidez dela. Realmente suas palavras são medidas, como se fosse de um verdadeiro buda! Ainda tivemos a chance de cada um de nós dar um aperto em sua mão. Inesquecível!

Depois tiramos algumas foto em grupo e eu já mal me aguentava em pé. Sei que abusei da proteção dos guardiões do darma, normalmente eu mal aguento meia hora embaixo do sol, e eu já estava há mais de quatro embaixo do sol torrando. Me deu febre, perdi o apetite, muita dor de cabeça. Fiquei sentado com meu amigo Abner conversando na sombra, enquanto comia uma bolacha recheada e esperava os efeitos da insolação passar.

Eu não gostaria de causar problemas ou passar mal. Não queria preocupar ninguém. Tinha vindo preparado pra tudo: soroche, ar seco, o frio. Mas o que peguei foi justo insolação. Lembro que haviam dito que deveríamos tomar cuidado para não passar mal, pois enquanto uma pessoa estivesse mal, outro teria que estar junto, e mesmo que eu tivesse ajudado nos dois dias anteriores, justo no dia da cerimônia não consegui fazer muita coisa. Naquele momento chorei e pedi sinceras desculpas pra Erika, pois não queria estar passando mal. E ela com um sorriso disse que não era pra eu me culpar, que isso acontecia. Queria ter ajudado mais, mas meu corpo adoeceu e não conseguia ter mais forças. Mas ela, repleta de bondade, havia entendido e disse que não havia motivos pra pedir perdão.


Pegamos o ônibus. Chegamos de volta ao hotel umas 16h30. Eu resolvi ficar no quarto, pois às 18h30 iríamos jantar juntos. Aproveitei pra tirar um cochilo e tomar um banho. Umas 18h10 desci e fiquei aguardando todos. Fomos jantar juntos, e foi uma experiência incrível! Muito divertida. Fiz amizade com o Alberto, praticante do México, o mais tímido do grupo, e vi que ele era uma pessoa divertidíssima e muito bacana. Ficamos eu, as duas argentinas Natália e Gabriela, Abner, e as duas peruanas Ami e Mei jogando conversa fora. Jantares em grupo eram sempre divertidos e memoráveis!

Não consegui me despedir de todos. Aliás, detesto despedidas. O pessoal ainda queria ir tomar um café, mas preferi voltar e aproveitar que estava bem pra fazer as malas. Aquela janta tinha sido minha primeira refeição em dois dias de estômago ruim por conta da insolação. Me sentia bem melhor (só fiquei triste que queria ter aproveitado mais a culinária peruana).

Deitei na cama com febre (de novo) e fui dormir. Nem lembro de ter aberto a porta pro Leno entrar, já que estávamos dividindo o quarto. No outro dia apenas arrumamos a mala e fomos embora. Por coincidência sentei sempre perto da Cláudia, então não faltou papo durante o voo inteiro. Passou voando, literalmente e figurativamente.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Cusco 2014 - Dia 3

13 de setembro
Pegamos o ônibus mais cedo esse dia rumo a Saqsaywaman. O dia estava nublado no início, parecia nuvens de algodão.

Ao chegar em Saqsaywaman pegamos uma caixa com alguns troncos grandinhos e levamos para perto do altar. Abner, Natália e Gabriela estavam bem, depois do susto que haviam dado no dia anterior, ainda bem! Abner havia passado mal de estômago, e as duas argentinas estavam passando mal por conta do Soroche, tiveram que inclusive ir ao hospital.


As madeiras para queimar no fogo do Homa que eu havia cortado com o machado no dia anterior estavam pequenas demais. Junto com o Kodama fui cortá-las pra ficarem ainda menores. Meu amigo Lenoir estava com alguns problemas musculares na coluna e fui me ajudar na tarefa. O sol nesse momento estava forte em cima de nós.

Começamos a colocar as cadeiras, e encontrei a dona Elza, Sadao-san e o Kusaba-san, que vieram nos ajudar também. Haviam algumas meninas contratadas que estavam fazendo o alinhamento das cadeiras, então nossa tarefa era mais tirar a cadeira mesmo e colocar para eles alinharem.

Ficamos fazendo isso até que o Kodama nos chamou para almoçar. Almoçamos um peru em pleno… Peru (o país). Nesse dia estava muito bom. Depois voltamos ao gohoshi. Pediram pra cortar ainda mais aquelas madeiras pequenas pra cerimônia, deixá-las bem finas. Mas o mais difícil ainda estava por vir: cortar aquelas madeiras grandes que havíamos trago no começo do dia.


Elas pareciam metal! Quatro homens golpeando: eu, Hisashi, Leno e Javier. Mas depois de muitos golpes, conseguimos. Mas eu pelo menos havia pagado um preço caro. Estava sentindo muita tontura, uma dor insuportável no estômago, um frio muito forte, enjôo, dor de cabeça e dor muscular. Mais a exaustão. Realmente eu havia puxado muito além do meu limite, mas ainda recebendo a proteção do Buda, nada pior aconteceu.

Cortamos alguns papéis para a fileira VIP, mas eu não estava aguentando ficar nenhum segundo a mais embaixo do sol. Sentei numa sombra e lá fiquei, tomando água.

Eu sou uma pessoa que transpira muito. E eu brinco que: Se estou transpirando, é porque estou bem. Fique preocupado comigo quando eu não estiver transpirando. E estava naquele momento queimando de febre. Eu me preparei pra tudo, pro ar rarefeito, pra queimaduras de sol, pro tempo seco, mas o que eu peguei foi justo insolação. E das bravas.

Mas ainda assim não queria preocupar o pessoal. Tiramos uma foto em grupo e voltamos ao ônibus. Tentava sempre sorrir, pra não causar preocupação a ninguém. No ônibus não aguentei e cochilei. Foi um cochilo bem rápido.


Durante o cochilo tive um sonho. Vi Seiryo Dai-Gongen, na forma de um dragão azul, fazendo o mesmo que eu havia visto em mim meses antes. Ele parecia morder e arrancar espíritos que estavam grudados em mim.

Eu estava tão mal, que sentia meu coração parando. Sentia meus batimentos ficando cada vez mais lentos. Acho que tinha sido uma das muitas vezes que eu havia ficado perto da morte. Teve um momento que não respirava mais. Não sentia o meu corpo. E sentia meus batimentos ficando cada vez mais fracos.

Lembrava da Shojushin-in. “Desça e ofereça sesshin para as pessoas, vou apenas descansar um pouco”.

E vi que estava fazendo o mesmo. Só pedi pra descansar um pouco, mas estava incentivando as pessoas a continuarem, não se preocuparem comigo. Foi aí que eu vi Shojushin-in-sama.

“Alain, a hora de você ir não é agora. Todos nós aqui precisamos muito e estamos contando com você. Não vou deixar acontecer nada com você. Amanhã preciso que você proteja a minha filha, ela vai correr perigo e preciso que você faça isso”.

E senti ela do meu lado. Dando aquele abraço caloroso materno, como a da minha mãe. Nessa hora eu chorei muito. E despertei. Ainda estávamos chegando no hotel.


Coloquei a blusa, peguei a marmita e subi pro quarto. Respondi o ICQ e Whatsapp de amigos e deitei um pouco na cama. Fiquei uns quinze minutos dormindo. Depois acordei, percebi que eu estava queimando de febre. Ainda assim fui e fiz oração pra Daniela, minha amiga, que o filho estava fazendo vestibulinho e ela tinha pedido oração. Foi no final da oração que Leno subiu no meu quarto e pediu para eu descer.

Eu seria o responsável, o facilitador no nosso encontro com Sua Santidade Shinso Ito. Quando me disseram que seria eu achei que todos estavam loucos. Porque justo eu? Eu carregar essa responsabilidade de ser o que iria falar com a Keishu-sama na frente de todos? Ensaiamos, e nos emocionamos muito quando Kodama disse que a Keishu-sama disse que havia ficado muito feliz quando viu os jovens acenando pra ela no dia anterior. Eu até dei saltos!


Como a marmita era peixe, e eu não como peixe, fui com a Cláudia e Ligia jantar num restaurante que, embora meu estômago ainda estivesse ruim, conversamos e nos emocionamos muito compartilhando nossos treinamentos budistas.

Na saída do restaurante senti muitos calafrios, e um frio insuportável. Eu estava queimando em febre. Tomei um paracetamol e fui dormir. Meu corpo mal me respondia, fiquei encolhido embaixo das cobertas e desmaiei de sono. Enfim o dia da cerimônia havia chegado!

É amanhã.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Cusco 2014 - Dia 2

12 de setembro
Acordei às 6h40 para fazer ablução de água fria e desci pra tomar café no hotel. Como estava com muita fome, comi três omeletes, mais algumas frutas e pães.

Pegamos o ônibus às 9h30 para Saqsaywaman. É bem perto de Cusco, diga-se de passagem. Apenas alguns minutos de ônibus, o problema mesmo é que é uma ladeira imensa. E é possível ver toda a cidade de Cusco no caminho. Muito lindo.


Quando cheguei em Saqsaywaman, passamos pela chancela de checagem e entramos. Ao ver aquelas rochas, todas muito bem desenhadas e enormes senti uma imensa sensação de já ter estado lá. Eu acredito em vidas passadas, projeção astral, mesmo sendo coisas que não são inerentes no budismo. Mas parecia que naquele momento muitos esperavam meu retorno, mesmo que eu não conseguisse fazer outra coisa a não ser chorar em ver que eu estava lá. Via aquelas rochas e não conseguia conter as lágrimas. Sabia que esse dia ia ser realmente repleto de emoções.

Como somos jovens ainda, e no amanhã venceremos, fomos ajudar nos preparativos para a cerimônia de Saisho Homa no Peru. Era minha primeira missão foi com um pequeno machado quebrar algumas madeiras para queimar durante o serviço religioso.

No começo foi bem complicado. Muito receio e hesitação. Mas com o tempo fui pegando a prática, e por ser um exercício de força, transpirei um bocado no processo.


Depois fomos arrumar as lamparinas pra cerimônia e logo após almoçar. Não consegui comer muito, ainda estava me acostumando com a comida local, e foi um pouco complicado. Disse que estava sem fome - o que era verdade também.

Depois voltei e ajudei meus amigos a colocar uns fios delimitadores para as cadeiras dos espectadores. E mais ou menos umas 14h40 a líder da Shinnyo-en, sua Santidade Shinso Ito entrou em Saqsaywaman. Ela estava muito cansada, a vi apenas de longe num primeiro momento, mas meu coração se acelerava, como se fosse a primeira vez que a via.

Chorei. Lágrimas caiam sem que eu notasse. No ensaio também chorei bastante. Parecia que a cada aperto de mão que ela dava mais eu sentia que aquele gesto pequeno estava criando harmonia pela paz, para um mundo melhor.


Ficamos assistindo o ensaio, e todo aquele cansaço e mal estar parecia ter sido jogado fora. Ficamos até pouco antes do anoitecer fazendo gohoshi.

Na volta encontramos a Iti, jantamos com ela Pollo Assado e fomos tomar um café numa cafeteria próxima. Demos muitas risadas e depois andamos por Cusco. Fiquei triste em ver uma mulher pedinte com uma criança naquele frio daquela cidade. Deve ser muito difícil aquela situação. Fomos no Starbucks buscar um café pro Kodama (escrevemos “Kodaminha” com direito a um coraçãozinho!) e depois enfim fomos dormir. Amanhã tem mais!

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Cusco 2014 - Dia 1

11 de setembro
Chegar em Guarulhos às 5h foi um desafio. Não consegui dormir na noite anterior, tomado pela ansiedade. Mas o caminho até o aeroporto foi tranquilo. Nenhum trânsito. Ao chegar lá pra fazer check-in encontrei meus amigos. Fiz o check-in e nos encaminhamos pro embarque para Lima.

Lembrei do que meu sesshin havia indicado: tentar fazer harmonia. Não sou desses que fica dizendo que devemos harmonizar, gosto de por meio dos atos sinceros mostrar essa harmonia, pois todos eles eram muito diferentes uns dos outros. Uma amiga, por exemplo, atormentada por um sonho que tinha tido que havia perdido o vôo, estava muito nervosa. Já outros, estavam tranquilos demais. E eu, no centro. Fiquei junto dela e ela me contou o medo que tinha de dar errado as coisas.

Nesse momento vi que criar harmonia é muito mais que apenas dizer que se quer harmonizar. É com atos integrar as pessoas, compartilhar e, se você faz parte de um grupo já, fazer com que seu ato de se aproximar de quem se isola você colocar essa pessoa no grupo compartilhando problemas e anseios. Ser o agente da harmonia.


O vôo foi sossegado. O Airbus A230 é pequeno, comparado com os que pegava pros vôos de cruzeiro para Europa ou Estados Unidos. Mas turbulência é turbulência, não importa onde você esteja. O avião deu um salto pra baixo que realmente me deixou traumatizado, parecia montanha russa. Foi apenas alguns segundos, mas foi algo que não gostaria de repetir.

Chegamos em Lima e fizemos o check-in para ir pra Cusco. Haviam nos dito que o vôo pra Cusco passaria por uma área de intensa turbulência. Durante grande parte do vôo enquanto lia "O caminho da unidade" recitei vários mantras. Entre eles o mantra do Achala, para que nada de turbulência acontecesse. E de fato, nada aconteceu. Agradeço aos Budas pela infinita ajuda, e mesmo que a previsão fosse de tempo ruim, chegamos recepcionados por um belo dia com um belo sol lá.

Fomos ao hotel e depois de alguns minutos descemos pra conhecer Cusco.


Cusco é bem humilde. Uma cidade montanhosa que vive do turismo, mas mesmo tendo um povo bem pobre ainda assim é um local muito seguro. Muitos vendedores nas ruas, e 90% bem incisivos e chatos, de ficar andando contigo mesmo depois de você dizer que quer nada. Foi um grande choque ver um local onde ter um povo humilde não significava povo bandido.

E então que me deparei com o temido soroche.

O mal da montanha (soroche, para os íntimos) parece que em cada pessoa se manifesta diferente - e isso porque tem pessoas que sentem absolutamente nada. O que senti não foi dor de cabeça, e sim uma fadiga muito súbita. Às vezes mesmo falando no celular, desenvolvendo uma ideia eu sentia o ar acabar do nada. Aí para, respira e continua. Parecia que mesmo falar era algo cansativo, que devotava uma grande carga calórica! Andando em Cusco em algumas ladeiras eu sentia o soroche. Mas nada que se você não parasse pra respirar não melhorasse.


Fui tirar várias fotos pela cidade. Depois nos reunimos no hotel às 18h30 para irmos jantar. Nossa janta foi num restaurante típico peruano onde eu comi uma sopa de quinoa de entrada e depois um espaguete à bolonhesa. Todos ficaram rindo de mim por ter escolhido o macarrão, e a Adriana, minha amiga, chega passou mal de tanta risada que demos no restaurante. Fizemos realmente muita bagunça.

O resultado no final do dia foi simplesmente... Cansaço. Por conta do vôo longo, por conta do soroche, por conta das brincadeiras e tudo. Hoje foi um dia bom, e o cansaço foi compensador.

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