terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Cusco 2014 - Dia 3

13 de setembro
Pegamos o ônibus mais cedo esse dia rumo a Saqsaywaman. O dia estava nublado no início, parecia nuvens de algodão.

Ao chegar em Saqsaywaman pegamos uma caixa com alguns troncos grandinhos e levamos para perto do altar. Abner, Natália e Gabriela estavam bem, depois do susto que haviam dado no dia anterior, ainda bem! Abner havia passado mal de estômago, e as duas argentinas estavam passando mal por conta do Soroche, tiveram que inclusive ir ao hospital.


As madeiras para queimar no fogo do Homa que eu havia cortado com o machado no dia anterior estavam pequenas demais. Junto com o Kodama fui cortá-las pra ficarem ainda menores. Meu amigo Lenoir estava com alguns problemas musculares na coluna e fui me ajudar na tarefa. O sol nesse momento estava forte em cima de nós.

Começamos a colocar as cadeiras, e encontrei a dona Elza, Sadao-san e o Kusaba-san, que vieram nos ajudar também. Haviam algumas meninas contratadas que estavam fazendo o alinhamento das cadeiras, então nossa tarefa era mais tirar a cadeira mesmo e colocar para eles alinharem.

Ficamos fazendo isso até que o Kodama nos chamou para almoçar. Almoçamos um peru em pleno… Peru (o país). Nesse dia estava muito bom. Depois voltamos ao gohoshi. Pediram pra cortar ainda mais aquelas madeiras pequenas pra cerimônia, deixá-las bem finas. Mas o mais difícil ainda estava por vir: cortar aquelas madeiras grandes que havíamos trago no começo do dia.


Elas pareciam metal! Quatro homens golpeando: eu, Hisashi, Leno e Javier. Mas depois de muitos golpes, conseguimos. Mas eu pelo menos havia pagado um preço caro. Estava sentindo muita tontura, uma dor insuportável no estômago, um frio muito forte, enjôo, dor de cabeça e dor muscular. Mais a exaustão. Realmente eu havia puxado muito além do meu limite, mas ainda recebendo a proteção do Buda, nada pior aconteceu.

Cortamos alguns papéis para a fileira VIP, mas eu não estava aguentando ficar nenhum segundo a mais embaixo do sol. Sentei numa sombra e lá fiquei, tomando água.

Eu sou uma pessoa que transpira muito. E eu brinco que: Se estou transpirando, é porque estou bem. Fique preocupado comigo quando eu não estiver transpirando. E estava naquele momento queimando de febre. Eu me preparei pra tudo, pro ar rarefeito, pra queimaduras de sol, pro tempo seco, mas o que eu peguei foi justo insolação. E das bravas.

Mas ainda assim não queria preocupar o pessoal. Tiramos uma foto em grupo e voltamos ao ônibus. Tentava sempre sorrir, pra não causar preocupação a ninguém. No ônibus não aguentei e cochilei. Foi um cochilo bem rápido.


Durante o cochilo tive um sonho. Vi Seiryo Dai-Gongen, na forma de um dragão azul, fazendo o mesmo que eu havia visto em mim meses antes. Ele parecia morder e arrancar espíritos que estavam grudados em mim.

Eu estava tão mal, que sentia meu coração parando. Sentia meus batimentos ficando cada vez mais lentos. Acho que tinha sido uma das muitas vezes que eu havia ficado perto da morte. Teve um momento que não respirava mais. Não sentia o meu corpo. E sentia meus batimentos ficando cada vez mais fracos.

Lembrava da Shojushin-in. “Desça e ofereça sesshin para as pessoas, vou apenas descansar um pouco”.

E vi que estava fazendo o mesmo. Só pedi pra descansar um pouco, mas estava incentivando as pessoas a continuarem, não se preocuparem comigo. Foi aí que eu vi Shojushin-in-sama.

“Alain, a hora de você ir não é agora. Todos nós aqui precisamos muito e estamos contando com você. Não vou deixar acontecer nada com você. Amanhã preciso que você proteja a minha filha, ela vai correr perigo e preciso que você faça isso”.

E senti ela do meu lado. Dando aquele abraço caloroso materno, como a da minha mãe. Nessa hora eu chorei muito. E despertei. Ainda estávamos chegando no hotel.


Coloquei a blusa, peguei a marmita e subi pro quarto. Respondi o ICQ e Whatsapp de amigos e deitei um pouco na cama. Fiquei uns quinze minutos dormindo. Depois acordei, percebi que eu estava queimando de febre. Ainda assim fui e fiz oração pra Daniela, minha amiga, que o filho estava fazendo vestibulinho e ela tinha pedido oração. Foi no final da oração que Leno subiu no meu quarto e pediu para eu descer.

Eu seria o responsável, o facilitador no nosso encontro com Sua Santidade Shinso Ito. Quando me disseram que seria eu achei que todos estavam loucos. Porque justo eu? Eu carregar essa responsabilidade de ser o que iria falar com a Keishu-sama na frente de todos? Ensaiamos, e nos emocionamos muito quando Kodama disse que a Keishu-sama disse que havia ficado muito feliz quando viu os jovens acenando pra ela no dia anterior. Eu até dei saltos!


Como a marmita era peixe, e eu não como peixe, fui com a Cláudia e Ligia jantar num restaurante que, embora meu estômago ainda estivesse ruim, conversamos e nos emocionamos muito compartilhando nossos treinamentos budistas.

Na saída do restaurante senti muitos calafrios, e um frio insuportável. Eu estava queimando em febre. Tomei um paracetamol e fui dormir. Meu corpo mal me respondia, fiquei encolhido embaixo das cobertas e desmaiei de sono. Enfim o dia da cerimônia havia chegado!

É amanhã.

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