quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

No rain, can't get the rainbow.


Um arco-íris só aparece depois que a chuva passa.

Se o ano passado foi chuvoso, esse ano veio a tempestade. Mas acredito muito que sempre depois de tanta coisa ruim virão coisas boas. Quase dois anos sem emprego, muitas dificuldades pessoais, familiares, no país, com amigos, e tudo mais.

Em suma, se eu fosse ficar aqui citando a quantidade de problemas, o número de posts no blog duplicariam e nada conseguiria resolver.

Mas dessa vez que eu fui no interior, muitas vezes quando olhava pro céu depois de chuva via um arco-íris. Esse acima foi um dos que eu consegui fotografar. E resolvi refletir sobre isso. Talvez esse ciclo de 2014-2015 seja também pra coisas boas que virão no futuro. Verdade que sofri (e sofro) horrores, e talvez na minha frente nem mesmo eu consiga ver um bom futuro, mas temos que seguir em frente e continuar ajudando os outros. Se uma pessoa terá que sofrer, que seja eu, pois gostaria de auxiliar as pessoas ao meu redor de alguma maneira, por menor que pareça ser.

2015 foi o ano em que o Pegasus Wings completou dez anos. E esse ano não fiz um post de natal, embora tenha feito uma retrospectiva em forma de uma carta pra mim mesmo, só que para o eu de dez anos atrás, contando resumidamente o que aconteceu nos últimos dez anos. E se teve uma coisa que o blog me ensinou - além de ter noção da passagem do tempo que passou - foi a de que sempre depois de momentos ruins aparecem coisas boas.

Isso foi algo inesperado. Reparei muito disso enquanto revisitava todos os momentos da minha vida registrados nesse blog. Momentos ruins, momentos bons. Talvez o eu de dez anos atrás nem pensaria que essa seria uma das coisas que eu me ligaria quando tivesse o blog. Mas é algo que aconteceu naturalmente, e fico muito feliz com essa constatação.

E que o futuro seja abençoado, e que toda essa energia negativa saia e dê lugar a muita coisa boa que virá para todos nós. =)

Força!

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Diário de Fotógrafo #28 - Pássaros

Sempre apreciei as pessoas que tiram fotos de pássaros na natureza. Realmente é complicado... Eles são sempre ágeis e difíceis de se distinguirem ás vezes no meio da vegetação. Passei o mês de dezembro na chácara do meu vô Chico, no interior, e aproveitei o clima e o cenário pra dar uns cliques. Gostei bastante do resultado!








segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Pegasus 10 - 2010


Em 2010 eu virei budista. Foi algo que sempre busquei como fé, e desde que conheci, jamais larguei.

Eu sempre busquei praticar uma religião. Sempre admirei muito cristianismo e todas as outras religiões que temos no Brasil. Sempre gostei de estudar muito e tinha um lado espiritual bem forte antes mesmo de conhecer budismo. Porém sempre quis praticar budismo, mas ao mesmo tempo não tinha muito a vontade de me isolar em um monastério.

Até que conheci a Shinnyo-en.

A Shinnyo-en que pratico é budismo laico - isso é, que não é preciso se tornar monge - podemos praticar e chegar no mesmo nível de um monge sem precisar fazer votos num monastério e viver isolado do mundo. E isso desde o começo foi algo que sempre busquei, e quando conheci a Shinnyo-en em 2010 me senti realizado, como se tivesse achado o que sempre busquei na vida inteira.

Shinnyo-en foi tudo o que eu sempre busquei em uma religião. E, apesar dos percalços que todo caminho possa trazer, sou muito feliz e cada dia que se passa me sinto mais realizado de praticar algo que sempre admirei e busquei!

domingo, 27 de dezembro de 2015

Doppelgänger - #119 - Uma rosa para parar a aurora.

Dentro da Bolsa de Valores de Londres estava tranquilo. Alguns monitores estavam ligados, câmeras de vigilância continuavam a funcionar e até mesmo alguns seguranças faziam a ronda noturna. Estava muito calmo o local. Até demais.

“Algum sinal do Ar?”, perguntou Natalya Briegel, no fone para Al.

Não havia sinal de nada. Ninguém. Dois guardas apenas guardando o local. Parecia que tudo estava pronto para a qualquer momento Ar começar sua insurreição. Sem testemunhas. Sem ninguém.

“O lugar está tranquilo. Quieto demais”, disse Al.

Enquanto Al procurava algum terminal do VOID no térreo, Neige e Eliza Vogl subiram para os andares superiores. Depois de invadir o sistema de segurança com seu laptop, Neige conseguira abrir uma porta atrás da outra, e ia adentrando nos andares superiores da Bolsa de valores londrina.

“Nada ainda, Al. Estamos indo pro segundo andar”, disse Neige, subindo as escadas.

Enquanto Al virava em um dos corredores, entrando na sala onde as negociações de ações são feitas viu um vulto ao longe.

Pessoas que conhecem bem umas às outras muitas vezes possuem a curiosa habilidade de reconhecer uma pessoa de longe, de qualquer ângulo possível. E assim que Al viu essa pessoa de costas tinha certeza absoluta de quem era. O cabelo, altura, até o jeito de caminhar.

Mano?, pensou Al. Mas logo ele se corrigiu e viu que era impossível de Arch estar lá. E que isso com certeza era a incrível semelhança que Ar, o filho dele, tinha com o pai.

Al foi seguindo calmamente Ar, tomando cuidado para não ser visto. Realmente a sala estava muito deserta, e uma penumbra dificultava ainda mais a invasão. Ninguém próximo deles. As câmeras pareciam estar desligadas, e apenas alguns computadores com proteção de tela com o logo da Bolsa de Valores de Londres que iluminavam o caminho até lá.

Ar havia entrado numa sala, e estava conversando com uma pessoa que fazia muito tempo que Al não encontrava. Dietrich. E do lado estava Rockefeller. Era uma sala pequena, com um mainframe imenso, e três laptops conectados a eles.

“Boss, quer que eu vá lá e mate Al e Victoire? Se eles entrarem aqui e virem o que estamos fazendo podem usar como provas contra nós”, disse Dietrich.

Al, ouvindo a conversa toda encostado na quina da porta não acreditava no que seus olhos viam. Dietrich havia desaparecido depois que a Dawn of Souls havia sido perdida, há quase dez anos. O tempo havia castigado ele demais, mas ele parecia que usava uma espécie de exo-esqueleto, uma armadura metálica que deixava ele com uma estranha aparência robótica embaixo do sobretudo militar. Dietrich estava realmente estranho.

“Não. Não tem mais nada que eles possam fazer agora. Vamos colocar o plano em ação agora, o Al não pode fazer mais nada. O que nós não podemos deixar é que aquela menina coloque o Rosebud aqui”, disse Ar.

“Será que ela descobriu o que o Rosebud pode fazer? Pra ela deve ser apenas um programa estranho que a Saunders deixou. Eu duvido que eles tenham essa informação”, disse Rockefeller.

“Mas o que realmente o Rosebud faz?”, perguntou Dietrich.

“O Rosebud é um programa de segurança, que funciona como um vírus de computador, criado pela Interpol para um fim específico. Eu havia pedido para que os Doe os buscasse, mas eles nunca conseguiram achar esse programa. Na época eu lhes disse que esse programa é o único que poderia parar o VOID, mas na verdade ele é capaz de parar o VOID pois seu alvo é na verdade outro. É apagar quaisquer rastros da Dawn of Souls”, disse Ar.

Al, que estava escondido, nessa hora arregalou os olhos.

“Entendo. E você colocou a Dawn of Souls no local mais protegido dentro do VOID, na raiz do seu sistema”, disse Rockefeller.

Então é isso... Será que esses laptops estão conectados no VOID então? Se for, preciso buscar o Neige e a Vogl o mais rápido possível, pensou Al.

Tudo parecia enfim estar caminhando para um fim. Depois de semanas correndo atrás de Ar, cruzando países, cidades, investigando diversas pessoas, depois de diversas mortes, tudo parecia enfim estar chegando no seu fim. Era só levar Eliza Vogl com o Rosebud para lá e acabar com tudo isso.

“Ei, o que é aquilo na porta?”, perguntou Rockefeller.

Al pensou rápido, se virou, agachou e foi andando sorrateiramente na direção oposta. Rockefeller foi até a porta, esticou o pescoço e olhou. Nada.

“Acho que foi impressão minha”, disse Rockefeller.

Al já estava saindo do salão principal quando ligou seu comunicador para falar com Neige.

“Neige, aqui na sala principal onde negociam as ações. Acho que achei um terminal do VOID”, disse Al.

- - - - - -

Victoire estava erguida. Tinha rasgado um pedaço de pano e enrolado no seu braço para estancar o sangue que continuava jorrando do ferimento de bala que ela havia sofrido. Tirando o ferimento que estava com a bala alojada nela, ela parecia estar bem e ativa.

Ao ver Victoire em pé, Natalya Briegel se assustou.

“Onde você pensa que vai assim?”, perguntou Natalya para Victoire.

“Eu vou entrar. Não vou ficar aqui parada”, disse Victoire.

Victoire começou a caminhar até a entrada, pressionando o ferimento no seu braço com a outra mão. Natalya foi até ela e a puxou pelo braço.

“Você tá louca? Com esse ferimento você vai só atrapalhar, e se acontecer alguma coisa com...”, disse Natalya, interrompida de súbito por Victoire, que havia com apenas um braço e com dois golpes nas pernas de Natalya, a jogado no chão de bruços, e aplicado uma chave com seu joelho, imobilizando-a.

Natalya Briegel não estava acreditando naquilo.

“Eu só preciso de um braço. Eu já atrapalhei demais o Al nessa missão. Não quero mais ser um estorvo para ele”, disse Victoire, soltando Natalya, que teve dificuldades em se erguer. Até mesmo os capangas de Natalya Briegel ficaram sem reação ao ver a força da francesa.

“Ah... O que eu faria se pudesse ter uns vinte anos a menos. Com certeza seria eu quem te daria uma surra”, disse Briegel, “Então vai logo e para de me encher o saco”.

sábado, 26 de dezembro de 2015

Doppelgänger - A história dentro da história (12)

Era o primeiro dia de Natalya Briegel na Inteligência. Ela era uma simples analista, mas sabia que não podia se atrasar. Por mais que seu pai fosse conhecido como o respeitado e carinhosamente apelidado de “Coronel Briegel”, por mais carinhoso que ele pudesse ser com sua filha única, não queria que ela fosse apenas uma sombra do seu pai por ter o mesmo sobrenome. Natalya teria que ralar muito se quisesse deixar de ser chamada de “Natalya” e pudesse ser chamada de “Briegel” pelos outros. O sobrenome tinha um peso imenso.

“Está atrasada”, disse uma voz simpática a ela.

Quando Natalya se virou viu um homem loiro, que aparentava ter quarenta anos, mas provavelmente tinha muito mais do que isso. Seus cabelos eram meio platinados e dourados, seus olhos azuis não escondiam sua ascendência alemã. Era um dos funcionários mais requisitados na Inteligência, uma verdadeira lenda no setor. E também um grande amigo do seu pai, e companheiro de trabalho.

“Ah! Senhor Schultz! Me perdoe. Acabei pegando um pouco de trânsito pra chegar aqui”, disse Natalya, que logo depois de dar a clássica desculpa esfarrapada lembrou que Schultz a conhecia muito bem, e sabia que aquilo era mentira.

“Trânsito? Por acaso da linha Picadilly tava com excesso de trens em circulação?”, disse Schultz, puxando a orelha dela amigavelmente.

Natalya Briegel era uma mulher bonita. Embora hoje existam diversas mulheres trabalhando na Inteligência, naquele tempo muitas vezes o trabalho das mulheres era apenas servir o café ou organizar a papelada. Natalya teve muitas dificuldades para poder mostrar que não estava lá para servir café. Ela estava lá para trabalhar, e pegar pesado igual todos os outros homens ali. Mas teria que lutar muito ainda pra conquistar seu espaço.

Ainda assim, desde que ela entrou, levou longos cinco anos até que fosse chamada pra sua primeira missão em campo.

“Recebemos uma informação dos militares norte-americanos que um ataque nuclear que estava sendo planejado contra a União Soviética foi interceptado por agentes da KGB. A situação é muito grave. Estamos seriamente na beira de uma guerra nuclear sem precedentes. Nunca nada assim aconteceu desde a Crise dos Mísseis em Cuba, anos atrás”, disse o coronel Briegel para sua equipe.

Natalya estava sentada no fundo na sala. Era uma jovem de apenas vinte e sete anos, e depois de tanto tempo aguentando o machismo que imperava naquele local, enfim ela havia trabalhado e mostrado para o que tinha vindo. Havia se destacado em tudo, com muito louvor, e a situação tinha ficado até indelicada se ela não fosse enfim aceita no time dos agentes de campo.

Mas sua primeira missão era justamente junto com uma equipe parar o início de uma guerra nuclear. Só. E no meio da Guerra Fria. Ou seria um começo grandioso ou desastroso. Natalya não sabia se sorria de orelha a orelha ou se tremia de medo.

“É, e lá vamos nós de novo!”, disse Schultz reunindo seu time, enquanto saía da sala depois de uma reunião com o coronel Briegel.

“Era um ataque de fato que o governo americano queria fazer contra os soviéticos?”, perguntou Natalya, para confirmar.

“Sim... Eles fazem a merda toda e depois nós temos que arrumar a bagunça que essas crianças como presidentes fazem. Desde que os soviéticos derrubaram aquele avião coreano matando o chefe daquela organização anticomunista umas semanas atrás, parece que os americanos estão loucos pra uma retaliação”, disse Schultz.

“Larry McDonald, certo?”, disse Natalya, sobre o congressista anti-comunista que havia morrido na queda do avião das linhas aéreas coreanas.

“Exato. Mas como é de praxe, esse será mais um conflito que ninguém vai nem imaginar que aconteceu. Afinal, vamos todos nós arrumar essa coisa toda”, disse Schultz, indo pro seu escritório se aprontar.

Seria mais uma guerra decidida pelos espiões. Como quase todos os conflitos evitados na época da Guerra Fria, onde espiões eram os verdadeiros mantenedores da paz mundial. Mesmo que isso significasse arriscarem suas próprias vidas.

Americanos haviam movido seus navios, e estavam prontos para disparar mísseis nucleares contra a União Soviética a qualquer momento. A queda do avião não poderia ficar impune, e o mundo ouvia as declarações de Ronald Reagan dizendo que os países dentro do Pacto de Varsóvia eram o “eixo do mal”. O clima era completamente hostil.

Entre as pessoas que estavam no time do ocidente estavam Schultz, Natalya Briegel e o coronel Briegel. Pai e filha na primeira missão juntos. Já haviam se passado dois dias, e o time havia sido dividido em dois. Um time precisava encontrar e passar as informações para os agentes da KGB que o ataque não iria acontecer, e um outro time cuidaria para que o ataque não acontecesse de fato, que estariam junto dos comandantes das frotas enquanto outra parte desse segundo time estaria em Washington tirando a ideia maluca de iniciar uma guerra nuclear do presidente e do seu gabinete.

Natalya estava junto de Schultz. Justamente como espiã no meio da União Soviética.

“Você tá tremendo?”, perguntou Schultz.

“Um p-pouco”, disse Natalya.

“Fica tranquila. Vai ser moleza”, disse Schultz.

Ambos entraram escondidos em um trem cargueiro indo para Leningrado, atual São Petersburgo. Ao cruzar a fronteira deveriam deixar o trem e a partir de lá ir a pé. Mas era novembro, e o inverno russo se mostrava bem mais frio do que imaginavam que seriam. Como ambos eram fluentes em russo, ao encontrarem um pequeno vilarejo bateram em uma das portas do local pra pedir ajuda.

Um jovem russo abriu a porta. Ele viu os dois, cobertos de neve, com casacos pesados e com o corpo todo branco e simplesmente ficou paralisado depois de abrir a porta.

“Quem é, filho?”, perguntou a mãe, da cozinha.

O garoto não respondeu.

“Podemos entrar, garoto? Somos do sul, estamos indo pra Moscou, nosso carro enguiçou, e precisamos fugir da nevasca”, disse Schultz.

O garoto permanecia mudo.

Nessa hora a mãe, esperando a resposta do filho que não havia chegado apareceu. E deu de cara com Schultz e Natalya, disfarçados de russos, na porta da sua casa.

“Minha nossa! Por favor, entrem! Vocês estão congelando! Sentem-se, por favor”, disse a mãe.

Schultz e Natalya entraram. E se apresentaram.

“Olá, meu nome é Dimitri Ionov, e essa é minha filha, Natalya Ionova”, disse Schultz.

“Muito prazer. Essa é a casa da nossa família, os Vasin. Essa é meu filho mais novo, Aleksei Vasin”, disse a mãe.

“Muito prazer”, disse Natalya ao garoto. Ele estendeu a mão e cumprimentou. Ainda assim o garoto não disse nada.

Esse garoto está muito estranho. Mesmo depois de nos apresentarmos ele ainda não nos cumprimentou. Não deve ser timidez isso, pensou Natalya.

“Vou na cozinha buscar sopa quente para vocês. Por favor, esperem mais um pouquinho, tudo bem?”, disse a mãe.

O garoto continuava encarando os dois. Até mesmo Schultz estava começando a se sentir incomodado.

A senhora estava demorando muito, e por mais que Schultz tentasse quebrar o gelo, o garoto não sedia. Continuava parado, encarando eles.

“Somos de Svetlograd. Conhece? Fica no meio do Mar Cáspio e do Mar Negro. Não faz tanto frio como aqui, é bem mais fresco”, disse Schultz, tentando quebrar o gelo. Mas o garoto continuava imóvel. Até que quatro homens armados com espingardas apareceram na frente dos dois, mirando em Natalya e Schultz.

“Sabemos quem são vocês! Nossos camaradas disseram que são espiões do ocidente! Saiam já daqui, senão todos vocês vão morrer aqui mesmo!”, disse um dos homens.

Enfim o jovem Aleksei estava se mexendo. Deu meia volta e foi pra cozinha onde sua mãe o esperava. O garoto era apenas uma distração.

“Merda, a KGB parece que estava na nossa frente, haha! E agora, Natalya? Você que tá no comando da missão. O que você mandar, eu faço”, disse Schultz, com um sorriso amarelo.

Natalya não sabia o que fazer. Menos ainda o que dizer. Ela mal tinha completado trinta anos, e ouvir isso de Schultz, uma pessoa que mais a inspirou e que era um símbolo de destreza e sucesso dizendo que ela eram quem estava encarregada da missão era demais pra ela. Segundos depois ela enfim entendeu.

Ninguém dava um voto de confiança nela. A única mulher agente de campo de toda a Inteligência teve que lutar muito pra chegar onde estava. E ninguém havia dado sequer um voto de confiança nela até então. E justamente a primeira pessoa que tinha dado um voto de confiança pra ela estava ali do lado dela. Schultz.

Era a chance da vida dela. E ela não poderia deixar isso fugir das mãos dela!

Natalya não apenas negociou amigavelmente com todos os homens armados, como também conseguiu com que eles a levassem até um agente da KGB que passou aos seus superiores que aquilo não era um ataque, e sim um exercício militar. É óbvio que era mentira, e é claro que os Estados Unidos estavam prestes a atacar a União Soviética se os comunistas não estivessem um passo na frente e pego eles. A informação mal havia subido até o chefão da KGB e enfim o Kremlin havia recebido um comunicado pela hotline de que era apenas um exercício, e não um ataque.

Mas a verdade daquela que ficou conhecida como operação Able Archer naquele ano de 1983 ficaria como segredo de estado, e os únicos que saberiam de tudo o que aconteceu além dos políticos da alta cúpula era aquele time de espiões, entre eles Natalya, Schultz e o coronel Briegel.

“Você se destacou na sua primeira missão a ponto de ser a pessoa mais jovem a conseguir essa patente. A partir de agora, você, Natalya Briegel vai entrar para o rol dos melhores agentes da Inteligência mundial. De agora em diante você será a agente M”, disse seu pai, chefe do gabinete, entregando a honraria para a filha.

E assim Natalya Briegel iniciou na Inteligência. E passou ainda muitos anos trabalhando. Viu Schultz ganhar um pupilo, que em pouquíssimo tempo teve uma ascensão mais meteórica que a sua própria. Essa pessoa era Arch.

Já era o ano de 2001, e Natalya, que havia focado em sua carreira profissional estava enfim com vontade de fazer o que a correria do dia-a-dia nunca a havia permitido: constituir uma família.

“Senhora Briegel, por favor, sente-se”, disse o médico.

Natalya sabia que aquilo não deveria ser algo bom. Seu obstetra sempre fora uma pessoa muito sorridente e simpática, e estranhamente estava naquele dia sério e distante. Os exames do seu filho estavam prontos e entregues, e ela estava rigorosamente em dia com seu pré-natal. Por mais que tenha passado por missões complicadíssimas na sua vida toda, essa talvez seria a sua missão mais complicada.

“Senhora Briegel, recebi os exames do seu filho, que está agora aí na sua barriga, e o que tenho não é nada animador. Por conta da sua idade avançada, quarenta e cinco anos, temo dizer que seu filho não nascerá saudável como você desejava”, disse o médico.

“Como assim, doutor? O que os exames indicaram?”, disse o médico.

“Ele está sofrendo de uma má formação no seu útero. Sei que foi por conta do seu trabalho e da sua rotina você adiou muito a gravidez, mas as chances disso acontecer eram imensas, além do risco que sua gravidez poderia acarretar”, disse o médico.

“Em outras palavras ele vai nascer...”, disse Natalya, esperando o médico responder.

“Sim. Com uma séria defiência ment...”, disse o médico, que foi interrompido por Natalya.

“...Um filho retardado?”, disse Natalya, enfurecida.

Natalya estava entrando na décima semana de gravidez. E não entendia porque a natureza tinha que ser assim. Ela estava ocupada trabalhando, tentando ser alguém da vida, defendendo seu país e justo agora em que ela gostaria de entrar numa nova fase da vida, que teria enfim um filho, fruto de um doador de um banco de esperma, que iria cuidar dela na sua aposentadoria e estar junto dela alegrando sua vida, recebia a notícia de que o seu filho teria uma deficiência mental, deixando-o dependente dela pela resto da vida?

Ela não aceitava aquilo. Não queria ter um filho “retardado”, como ela dizia. Era pedir muito? Porque o mundo tinha que ser tão injusto? Será que ela deveria ter sido como todas as outras mulheres e ter virado uma dona de casa e nunca ter tentado viver na ânsia e no desejo de dar orgulho pro pai que ela tanto amou e tanto a apoiou?

“Aborto. Eu vou abortar esse feto”, disse Natalya.

O aborto é legalizado no Reino Unido há muitos anos. E esse era o desejo de Natalya Briegel. Não queria deixar essa criança nem mesmo nascer. Sem pestanejar foi até um clínica que realizava abortos e agendou uma consulta. Pagou a consulta e no outro dia enquanto se preparava para tirar o carro e ir até lá ela viu na estante uma foto do seu pai.

E naquela hora se lembrou do seu pai. Que mesmo que ela não tivesse nenhum tipo de problema mental, seu pai havia criado ela sozinha, sem sua mãe, mas com muito amor. Que seu pai, mesmo apesar de todas as suas fraquezas, sempre esteve do lado dela, apoiando, jogando ela pra cima, acreditando nela. E agora, com um filho ainda na barriga, um filho que ela enfim poderia ter a chance de ser para ele o que seu pai foi para ela, seu desejo era mata-lo e morrer sozinha no futuro.

Papai... Mesmo nos momentos em que eu não pude dar nenhum orgulho para você, você ainda assim acreditava em mim, pensou Natalya, olhando o porta-retratos do seu pai.

Nessa hora ela acariciou sua barriga.

E ainda assim, na primeira dificuldade que me aparece, eu quero simplesmente desistir e virar as costas. Será que nas incontáveis vezes que passamos dificuldades juntos, se você tivesse me deixado mesmo ao invés de acreditar em mim, será que eu teria chegado tão longe?, pensou Natalya.

Meses depois seu filho nasceu. De fato, ele nasceu com uma séria deficiência mental. Mas ainda assim, ele era o ser mais lindo que Natalya Briegel havia visto.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Mikaela - O desencontro


Esses dias passei na Livraria Cultura e vi um livro que há um tempo eu queria muito ler. É o livro da Marcella Brafman, uma das pessoas cujo blog eu acompanho e fiquei bem interessado quando fiquei sabendo do livro que havia lançado. Chama-se Mikaela – O desencontro.

Bom, eu não conheço a Marcella, e embora eu tenha uma imensa admiração pelas estórias e pelo seu jeito de escrever (que ficou inegavelmente impresso no livro), gostei muito do que li. Pode parecer meio “girly” pela capa, mas não achei muito não. Eu me interesso muito pelo jeito feminino de pensar, mas como eu sou homem, fica difícil escrever sobre personagens femininas nas minhas estórias sem cair no estereótipo masculino da mulher sem profundidade que autores homens e héteros não conseguem sair.

(ah, e eu adoro Sex and the city. Acho um seriado genial, e todo homem deveria assistir pra entender melhor sua namorada. E meu sonho é ter uma namorada igual à Miranda!)

O livro tem uma coisa genial, que são nomes de músicas como título de capítulo. Eu acho isso uma sacada muito boa, que sem dúvida funciona com 95% das pessoas hoje em dia, menos comigo, que não sou uma pessoa muito musical. Eu até ouço, não tenho preconceitos nem nada contra nenhum gênero musical, mas eu só devia conhecer por nome umas duas ou três faixas das dezenas de capítulos. Ainda assim achei bacana porque mesmo as poucas músicas que eu conhecia achei que fizeram super sentido ao que se passava no capítulo. Acho que se eu fosse uma pessoa mais musical provavelmente o resto me faria sentido também.

Temos aqui a história de Mikaela. Uma menina mineira (como a autora), que mora em BH (como a autora), jornalista (como a autora) e que se expressa muitíssimo bem com palavras (como a autora). E, pelo que já li no blog da Marcella, a Mikaela usa até expressões e constatações sobre o ser humano que já vi nos textos do blog dela. Eu achei isso bem interessante, por mais que possa parecer repetitivo. Muitas vezes é difícil escrever um texto que pareça bem verossímil sem que o protagonista se afaste muito do autor. É como no caso do Bukowski e Henry Chinaski. E eu me encaixo nisso também (embora o Al tenha muita coisa similar comigo, mais da metade do personagem é uma idealização do que eu gostaria de ser).

Resumindo: não achei ruim a personagem ser tão similar com a autora (ou pelo menos pelo que eu acho que ela seja, tomando em consideração o que ela escreve no blog pessoal dela). Muito pelo contrário. Trouxe uma carga de realidade para a personagem que brinca com a proximidade da ficção com a realidade. É muito bom.

Agora vamos pra estória. O subtítulo “o desencontro”, escolhido muito bem, sintetiza bem o que o livro passa. Mikaela é uma mineirinha que troca o pão-de-queijo pelo café amargo de São Paulo quando se muda pra cá para participar de uma entrevista em uma famosa fictícia revista teen daqui. Isso seria um passo enorme, e renderia uma estória sensacional por si só se não tivesse um personagem caótico (e bem chato) no meio: seu namoradinho, o Felipe.

A Mikaela é bem legal. Difícil traçar alguma coisa ruim nela, que não seja muito anormal, ou muito avoada. Parece ser uma garota bem pé-no-chão, que deseja estabilidade no relacionamento e felicidade. Eu diria ainda mais: Mikaela parece normal e boa demais pra ser verdade, por isso, a personagem Bela (uma garota que divide o apartamento com ela enquanto ela se aloca em SP) parece BEM mais interessante. É como se pudesse dar um Oscar de melhor coadjuvante, a Bela sem dúvida mereceria, com todo o mistério sobre relacionamentos dela, a frieza, seu passado conturbado, o escapismo, o humor instável e tudo isso escondido com um jeito amigável e sorridente – um sorriso que esconde uma imensa lágrima por detrás, até o momento perto no final do livro em que ela conta tudo sobre ela, e as suspeitas que você tinha sobre ela enfim se mostram verdadeiras! Ah-há!

A Bela parece a típica coadjuvante que até mesmo escrever sobre ela é mais legal que a protagonista. Sei bem como é.

O livro foca bastante na amizade que Mikaela tem com Rick, o amigo gay que toda mulher tem. Ele também é outro que domina o livro pelo menos até seu segundo terço, depois simplesmente some pra dar lugar a uma que tinha sido apresentada como grande amiga que tinha feito em SP, mas que não tem muito apelo, nem carisma, e parece bem entediante: a Paula.

Enquanto estava lendo e a Paula ressurgiu das cinzas perto do final do livro eu até pensei: “Que Paula é essa?”. Aí lembrei do começo do livro onde ela foi apresentada.

Depois dos personagens legais (Mika, Bela, Rick) e a personagem sem sal (Paula), agora vamos ao personagem mais chato. Se Mikaela fosse um romance medieval, sem dúvida seu namoradinho Felipe seria o antagonista. E terminaria numa morte, ou algo do gênero.

Felipe é muito chato. Não sabe o que quer, bagunçado, todas as vezes que eu lia algo sobre ele imaginava um moleque de treze anos com cabelo enrolado vestindo camiseta de banda de roque (sim, fanboy idiota pra mim não curte “rock” e sim “roque”). Felipe é o clássico exemplo da vida real, o cara que não presta, completamente irresponsável, que age conforme a ereção do seu pênis, incapaz de sentir amor que não seja no momento do orgasmo no meio de uma cópula. Esse é bem um resumo de quem ele é.

(sim, o livro foi muito bem escrito, talvez seja por isso que eu criei tanto ódio e carisma pelos personagens, haha! Parabéns, Marcella!)

Só tem um fator caótico que muda tudo: Felipe seria um moleque masturbador viciado no Xvideos se não existisse Mikaela, completamente apaixonada por ele (VAI ENTENDER ESSA VIDA!).

Existe apenas um fator que não me fez fechar o livro quando vi esse rolo do “bom e velho entra-e-sai” (e não tô falando do Laranja Mecânica): o detalhe do que se passa na cabeça da dona Mikaela.

Se existe uma coisa que detesto são homens canalhas. Porque eu como homem sei muito bem até homens podem ir, mentir e enganar pra conseguir uma xoxota pra penetrarem seus pintos na noite. Mas uma coisa que detesto mais ainda são mulheres que correm atrás desses mesmos canalhas. O romance da Marcella é basicamente isso. Não é o romance onde rola toda aquela odisseia pro cara conquistar o coração da menina (algo que não acontece mais hoje em dia, pois sempre se termina num fora hoje em dia), é um romance que já mostra uma relação que já aconteceu tudo o que devia acontecer, e sim, aquelas respirações pra ressuscitar o que já se afogou e está morrendo faz tempo.

Mas como eu disse, o legal é ver o que se passa na cabeça da Mikaela com uma riqueza de detalhes empolgante. E, por mais que o que Mikaela faça fuja muito da realidade (no mundo real, não duvido que Mikaela teria respondido toda amorosa a primeira mensagem do Felipe depois da traição dele, e não ter dado aquele gelo nele. Pessoas não fazem isso na vida real), a história acaba se tornando aquele romance meio idealizado empolgante pra, no final, os dois ficarem juntos.  O que é claro, eu detestei o final.

Acho que teria sido muito mais legal ela ter ficado sozinha, ou melhor ainda, ter conhecido um Fernando, um Roberto, um Carlos, Zé Bonitinho ou até o Kid Bengala, hahaha. Mostrando que a vida é feita de foras, e que ficar insistindo numa coisa que já deu o que tinha que dar muitas vezes só vai trazer sofrimento e tristeza. Felipe nunca vai mudar. Uma vez nascido canalha, vai ser sempre canalha, só vai mudar o endereço. Vai continuar dando uma de indeciso sempre pra ter uma vagina úmida esperando ele na noite. Mas homem mentiroso e canalha assim de indeciso não tem nada. Sabe exatamente o que faz e tem o controle da situação na palma da mão. Faz parte do instinto de filhas da puta como ele.

Ou talvez ter fechado a estória dela com um felizes para sempre e o próximo volume ser “Bela – A garota sem limites”, com muita droga, sexo e pegação. Espero que na sequência a Bela seja uma personagem bem explorada, acho bem bacana!

Mas em suma, livro muito bom. Vai pra minha estante dos livros bons! Parabéns Marcella, pelo excelente trabalho! :)

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Pegasus 10 - 2009


Em 2009 Michael Jackson morreu, a pessoa pelo qual eu sempre nutri uma admiração maior do que qualquer outra.

Acho que essas coisas que deixam um grande buraco dentro da gente acabam escritas na nossa memória de maneira que jamais o tempo pode apagar essas tristezas. A perda de Michael foi uma delas. Eu lembro exatamente do que estava fazendo no dia: tinha ido na Paulista, assistir um filme de José Padilha, e estava voltando pra casa quando algumas pessoas me ligaram, perguntando se eu sabia o que tava acontecendo com o Michael.

"O que aconteceu com o Michael? Ué, pra mim ele tá bem!", eu respondia.

E ele estava. Claro que eu tava muito feliz em ouvir que ele estava voltando com tudo para a turnê This is it. E até onde eu sabia, as últimas semanas daquele período de 2009 eram de intensos ensaios, pois parecia que a coisa realmente prometia ser espetacular. E quando chego em casa e ligo a tevê, vejo carros saindo de Neverland, o corpo de Michael, e depois a morte confirmada.

A morte sempre vai ser algo trágico. Mas parece que na minha vida, as mortes que presenciei sempre foram muito do nada. Era uma doença ou algo muito grave que pegavam, que já evoluía, e... Pum. Matava. Como se num dia estivesse tudo bem, e no outro... Morto.

Levou quase um mês pra cair a ficha. Pra mim Michael ainda estava lá nos ensaios da turnê, ou que isso era uma piada dele, sei lá. Minha ficha só começou a cair mesmo no dia em que assisti seu memorial. E chorei muito com Paris Jackson quando ela - no final do serviço memorial - chorou quando falou do que seu pai significava pra ela.

Paris, pra mim seu pai significou muito também.

Michael começou pra mim como uma pessoa que eu curtia muito suas músicas. Mas quando eu conheci sua pureza de caráter, as dificuldades que ele sofria com seu pai, a infância que ele nunca teve, pois nunca conseguiu brincar com as outras crianças, e aquela ingenuidade me fez ver que aquele cara poderia ser pra mim algo mais do que um ídolo. Michael era o amigo que eu nunca tive, que passou pelas mesmas coisas, que tinha as mesmas manias, que era um adulto por fora com uma criança imensa por dentro - criança essa que foi muito reprimida quando era uma pequeno - assim como eu.

Eu não gosto de falar da minha infância. Mas não foi nada boa.

Michael era a esperança que eu tinha de ser eu mesmo. Que não era errado essa pureza que eu nutria. Que não era errado eu querer brincar com as crianças do que conversar com adultos. Que não era errado eu querer ser diferente das pessoas.

E quando ele morreu, uma parte enorme dentro de mim morreu junto.

Michael foi sem dúvida a maior base da minha vida inteira. E ainda hoje continua uma imensa inspiração pra ser cada vez melhor em tudo o que eu faço. Exatamente como ele era.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Pegasus 10 - 2008.


Em 2008 eu conheci a morte.

Antes de falar qualquer coisa sobre minha tentativa de suicídio, queria antes de tudo dizer que o que eu tive foi muita sorte. E que provavelmente não era pra eu estar aqui hoje, vivo, falando sobre isso. Tentar se suicidar, e chegar nas vias de fato por si só já é um erro enorme. Tirar a sua própria vida é um erro enorme, mas dentro do meio em que eu vivia, foi infelizmente a única opção que eu havia encontrado. E uma opção muito, muito, muito errada.

Mas também foi um capítulo da minha vida.

Talvez eu era exatamente como esse garoto dessa arte que fiz, cujo corpo irradiava pureza e uma luz. Uma pessoa que ficava entre a vontade de tirar sua própria vida e a vontade de vivê-la um pouco mais. Uma pessoa que a morte havia chegado cavalgando, e a mesma já começava a tirar o sangue que jorrava do meu braço. Uma pessoa que não precisa de nenhuma tatuagem - as onze listras no meu braço esquerdo já servem como um registro de algo que aconteceu - um erro, mas aconteceu. Algo que pra sempre vou olhar. Algo que eu jamais poderei esquecer. Algo que, sem dúvidas, levarei pro resto da vida como marcas de um erro que cometi contra mim mesmo.

Entre todas as artes do Pegasus 10, essa foi a primeira que terminei. Acho que foi uma forma de não apenas enterrar isso, mas também expor isso de alguma forma pras outras pessoas para ajudá-las a não cometer o mesmo que cometi. O que eu tive foi sim muita sorte. Talvez chamem de "intervenção divina", ou algo assim também. O que importa é que hoje estou aqui.

E a única coisa que eu falaria sobre isso é: não deixe as coisas chegarem nessas vias de fato. Procure ajuda. Pode ser um caminho sem volta, e raramente pessoas têm a mesma sorte que eu tive. Ou podem ficar com sequelas, ou qualquer coisa do gênero.

Haviam cinco anos que eu estava brigado com meu pai. Todos os dias eram intensos, cheios de brigas, discussões, dele querendo que eu fosse uma pessoa com carreira, estudos, família impecáveis aos míseros vinte anos. Afinal, como ele mesmo dizia, eu era um vagabundo burguês que só dava dívidas e desgosto pra ele (e isso pra pior). E óbvio que eu não era nada disso, e queria trilhar o meu próprio caminho. Ao mesmo tempo, eu estava muito mal por conta da garota do cabelo cor-de-beringela e uma chinesa que tive um rolo em meados de 2007. As brigas nunca cessavam, e em uma das muitas noites de insônia por nunca conseguir ser o que meu pai mandava eu ser, eu simplesmente peguei uma faca e comecei a cortar meu próprio corpo. Eu não lembro de mais nada a partir daí.

Sei que entrei em um estado de transe, de choque, aquilo não doía nada, até que acordei no hospital no outro dia. E um médico olhando pra mim, todo cortado, dizendo: "Você é tão jovem... Porquê fez isso com si mesmo?". Eu apenas virei o rosto.

E do meu lado estava meu pai. Chorando. Virei o rosto e ele me disse pela primeira vez: "Me desculpa por tudo o que fiz com você, filho".

Meu pai foi (e continua) uma pessoa bastante rígida, dura e brava comigo. Nunca mostrou sentimentos e dizia que eu deveria ser igual também. Pois pra ele, homem não chora. Mas embora tudo isso tenha acontecido, e eu estivesse na tênue linha entre a vida e a morte, depois de anos de brigas naquele momento eu sei o quão corajoso ele foi pra ter pedido aquelas desculpas.

E eu também tive muita sorte.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Doppelgänger - #118 - O tiro no coração.

Ar havia fugido. Al estava sem balas, os dois tiros que foram contra Ar haviam errado o alvo. Agora era tarde. Ele havia entrado na Bolsa de Valores de Londres. A qualquer momento ele iria colocar seu plano em ação. Sua insurreição estava pronta pra iniciar a qualquer momento.

Al olhava pra onde Ar havia corrido. Seu rosto mostrava uma expressão séria e compenetrada. Estava tão focado em sua missão que sequer viu quando atrás dele apareceram Neige e Eliza Vogl.

“Al! Pelo amor de deus, quem atirou na Victoire?”, disse Neige, assustado, se ajoelhando perto de Victoire.

“E-ela está m-morta?!”, disse Eliza Vogl, aterrorizada.

Al nem mesmo se virou para a direção dos dois. Ainda de costas pra eles ele respondeu, seriamente:

“Fui eu quem disparou. E não sejam tolos. Ela não está morta”, disse Al.

Mas Victoire bem que gostaria de estar morta.

O tiro havia acertado pouco abaixo do ombro esquerdo dela, estava alojada no braço, e o sangue jorrava tingindo o chão todo de vermelho. Ela sequer piscava. Olhava pra cima como se estivesse esperando a morte chegar. Mas a morte não chegaria pra ela depois de ser baleada no braço.

Mas acima de tudo ela estava em choque. O homem que ela mais amava havia dado um tiro nela. Homem esse que nunca conseguiu nutrir esse mesmo sentimento por ela.

Todos estavam mudos, e perceberam que Victoire, mesmo naquele estado de choque, estava tecnicamente bem. Eliza Vogl estava um pouco mais tranquila em saber que o tiro não havia matado ela, mas estendida no chão do jeito que estava Victoire parecia uma morta, inerte, sem reação alguma. Por outro lado Neige estava com ela nos braços, e ficava chamando por ela, enquanto a cabeça da francesa pendia e ela olhava pro nada, em choque, paralisada.

Diversas coisas passaram na cabeça de Victoire nesse momento.

Ela se lembrava do sonho que ela queria que se tornasse realidade. Que Al enfim a salvasse, viesse como um mocinho de um filme que viria salvá-la das garras do vilão. Porém os filmes são grandes mentiras que as pessoas assistem para trazer a fantasia que não existem em suas duras vidas regadas de realidade.

Al não estava lá para salvar ninguém. Al sequer nutria um único sentimento por ela, e isso fazia Victoire se render a um sentimento que, embora tenha sim uma aspiração no amor, era completamente submisso. Aquilo não era uma ficção. Não haveria um final feliz pra ela. Aquilo era a vida real, e na vida real as pessoas não estão dispostas a amar. Tudo faz parte de um jogo, onde o sortudo que conseguir que a outra pessoa já esteja apaixonada por ela ou ele irá ganhar. As pessoas não estão dispostas nos tempos atuais a serem conquistadas, a darem uma chance ao outro. Apenas querem viver suas fantasias com quem elegeram para tal, e ninguém mais que isso. Pessoas nos tempos atuais são seres mesquinhos que só querem amar quem eles mesmos querem. Nenhuma outra pessoa tem a menor chance se não for a que as pessoas idealizaram. Mulheres e homens que acreditam que algo como amor pode mudar as pessoas.

Mas o amor nunca mudará. Pois ele sequer existe no mundo de hoje.

Isso então é estar morta? O Al me matou. Isso foi tão bom. Não conseguiria viver num mundo onde o Al não está. Eu quero ser essa princesa, que mesmo que não consiga realizar o que quer, morre e é eternizada pra sempre por ter oferecido a vida para quem mais ama. Não quero mais saber dessa vida. Eu quero morrer. E parece que enfim eu consegui isso. E quer saber? Estou muito feliz. Muito mesmo. Morri nos braços da pessoa que eu mais amo, pensou Victoire.

Al, em pé, ainda de costas, viu que haviam se passado alguns minutos, e Neige estava com Victoire nos braços estendida no chão chamando por ela e ela não queria se levantar. Al disse apenas uma coisa, em alto e bom tom:

“Chega disso, Victoire. Levanta logo daí!”, disse Al, em pé, de costas para Victoire, virando apenas o rosto.

Victoire voltou do seu transe como que atingida por um raio que a trazia de volta à realidade. E como que uma pessoa que se afoga e volta depois de uma ressuscitação, ela sentou-se, puxando o ar como quem havia acabado de se afogar.

“Victoire! Por deus! Você está bem?!”, disse Neige, abraçando-a com lágrimas nos olhos.

Hã? O que aconteceu? Porque o Neige tá me abraçando desse jeito? Ele... Ele está chorando. Não tô entendendo... Era pra ser o Al, e não o Neige. Porque ele está chorando? Ele se preocupa comigo?, pensou Victoire.

Mas Neige não era o Al. E isso causava um nojo em Victoire. Ela mal se recompôs e deu um leve empurrão em Neige. E ao se virar viu Al, se costas pra ela, conversando com Natalya Briegel.

“O perímetro inteiro está fechado pra vocês. Al, não tenho como usar minha influência mais que isso. Você tem que entrar lá, carregar o rosebud que está com a menina no VOID e acabar com isso de uma vez por todas”, disse Briegel.

“Entendido”, disse Al, sério, “Então essa é a sucessora da Saunders? Eliza Vogl?”.

A pequena Eliza Vogl assentiu com a cabeça. Ela estava enfim de frente pro tal Al que todos falavam. Ele era bem mais alto e frio do que ela pensava. Não tinha absolutamente nada de parecido com Lucca.

“Fica tranquila, Eliza”, disse Neige para acalmá-la, “Ele parece durão mas é uma boa pessoa”.

“Mas ele... Atirou nela”, disse Vogl, apontando pra Victoire, que estava pressionando o ferimento no seu braço, sentada no chão.

“Ei, até parece! O Al tem uma mira excelente. Ele nunca atiraria na Victoire pra mata-la! Fica tranquila!”, disse Neige.

Victoire, nessa hora, olhou pra Neige. E depois ela olhou pra Al.

Nessas horas a gente vê como um coração apaixonado é capaz de distorcer as coisas. Mesmo depois de Victoire ter levado um tiro do próprio Al, da pessoa que ela mais amava, ainda era capaz de achar que aquilo tiro havia algum sentimento, alguma demonstração de afeto, por não ter sido um tiro no seu coração.

Mas a realidade é dura. E no mundo real, amor não existe.

“Não...”, disse Al, enfim se virando pra Victoire, Neige e Eliza Vogl, depois de ouvir o comentário de Neige, “...Eu errei o tiro”.

Nesse momento o mundo de Victoire havia desabado. E seu coração estava em frangalhos.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

De: mim; Para: mim mesmo (10 anos atrás)

De: Alain (2015)
Para: Alain (2005)

Não existe viagem no tempo. Não é possível voltar e mudar coisas no passado, mas é possível revisitá-lo. O passado é como algo escrito a caneta. Você pode ler o que está escrito, mas não pode apagar e mudar o que escreveu. Mesmo que passe corretivo, o que foi escrito vai estar pra sempre lá, mesmo que você tente ocultar.

Caro Alain do passado. Aqui quem fala é você mesmo, só que do futuro.

Não vou perguntar como as coisas estão, porque provavelmente você criou esse blog exatamente pois tinha medo do que iria acontecer. Dá pra entender, você está entrando na fase adulta, e de agora em diante seu maior medo era que o tempo passasse rápido demais. Por isso você quis fazer o registro da sua vida nesses dez longos anos. Tenho uma boa notícia pra você: vendo hoje, dez anos depois, não acho que o tempo passou muito rápido não. Nem muito devagar. O tempo passou na velocidade correta.

Cara! Tanta coisa aconteceu! Vendo esses dez anos na verdade parece que passou foi uma vida. O cara que começou o blog com dezessete anos hoje tem vinte e sete. Ainda é jovem. Acho que só não se é mais jovem quando passa dos noventa. E olhe lá! A começar pela sua formatura do Ensino Médio. Super meninão:


Foi demais! Você nunca tinha aproveitado assim uma festa antes, huh? Valeu cada esforço. Eu sei que provavelmente você está com muito medo do que está por vir, mas posso te adiantar que muita coisa ruim vai acontecer. Mas muita coisa boa também vai acontecer! Esse foi apenas o primeiro passo de uma longa jornada, e acho que seria bom você ter uma ideia do que está por vir.

Em 2006 você vai continuar no seu curso de inglês, e vai terminar com honrarias no final do ano. Você se esforçou tanto pra dominar o idioma, só gostaria que continuasse estudando, lendo, vendo filmes, e tendo todo o contato que você tiver com o idioma pra não perdê-lo. Para que nove anos na frente você possa encontrar seu antigo professor do CNA e ele comentar: "Your english still at the excelent fluency that you had when you studied". Combinado?

E é bom que aproveite as amizades. Pelo menos até hoje, nove anos mais tarde, você não os encontrou novamente:


E em 2006 ainda vai arranjar um bico como professor de inglês pra criança. Mas não se fruste, porque só vai ser nesse ano mesmo. Mas aproveita porque você vai se divertir horrores. Afinal, você adora crianças!

Você vai entrar em arquitetura em 2006. Mas não vai curtir muito. Cara, que fase vai ser essa pra você... Na verdade em 2006 esteja preparado porque muita, mas muita coisa vai dar errado. Mas você vai sobreviver. E ter cursado arquitetura foi uma delas. Você vai ter muitas brigas com seu pai, que quer desesperadamente que você não largue arquitetura e você vai entrar numa depressão ferrada por ter apenas dezessete anos e não saber o que quer fazer da vida. E vão ter dias que tudo vai dar errado.

Não desanime. Isso é normal. Até hoje, em 2015 você não vai saber direito o que quer fazer, hahaha. Você tem muitos talentos, vai descobrir que é quase um Da Vinci no século XXI com o empurrão certo e sua curiosidade sem limites.


E teve ela também. A menina do cabelo cor-de-beringela.

Olha, eu sei que vai ser muito difícil. Você vai se apaixonar muito por ela. Mas tente não sofrer muito com isso, sim? Ela tem esse jeitão, bem depressiva, e você vai conseguir ajudar muito ela. Vocês vão se tornar muito amigos, muita coisa vai acontecer, mas eventualmente as coisas chegarão ao fim. E você vai ficar péssimo. E vai ficar dias, meses, e anos péssimo. Mas depois de um tempo, vai passar. Ela vai ser uma ótima pessoa na sua vida, e mesmo que leve um pedaço enorme de ti, saiba que esse pedaço vai voltar a crescer depois.

Porque em 2006 ainda você vai, no meio do ano, se consultar com uma cartomante, e você vai falar sobre o novo curso que você quer fazer. Ela vai dizer que ele é muito bom, que é exatamente o que você quer e precisa. Mas que não será um caminho fácil. Tô falando sério! Vai ser muito difícil estudar Design em Interface Digital no Senac.


Porém você vai fazer amigos de ouro lá!

E você vai enfim estar feliz. Cursando uma faculdade que você se sente bem, estudando bastante sobre algo que você curte muito, com pessoas valorosas que vão saber incentivar o que há de melhor em você.

Você vai conhecer e adorar J-Rock (rock japonês), e vai super entrar no movimento, vai parecer um metaleiro com seu cabelão vermelho. Porém nesse ano vai ter ainda mais problemas com seu pai. Vocês vão infelizmente brigar direto, até ele vai falar besteiras pra você dizendo que você é viado, e coisas piores que você nunca foi. Apenas era alvo desse julgamento besta, e nunca que isso seria algo determinante pra mudar sua preferência sexual.

E, francamente? Vai ficar foda esse cabelo vermelho:


Em 2008 essas constantes brigas com seu pai, todo esse sofrimento incalculável que você passou vai fazer com que em fevereiro ainda você no meio da noite vá a cozinha, pegue uma faca, e tente cometer suicídio.

E, bem, você não vai lembrar de muita coisa, vai entrar num estado de choque e só vai se lembrar do outro dia no hospital. Vai ficar com o braço esquerdo todo arranhado, pra sempre, talvez como símbolos na sua pele do sofrimento todo que seu pai te fez sofrer - que até então estava guardado apenas em seu coração. Vai entrar pra geração prozac, mas tem uma notícia boa.

Seu pai vai mudar. Infelizmente você teve que quase perder a vida pra isso acontecer, mas vai acontecer.

Mas nunca se esqueça que isso que você fez foi completamente errado. Ao tentar tirar sua própria vida, e chegar às vidas de fato, você cometeu um erro imenso que ninguém deveria sequer cogitar em fazer. Você tinha apenas vinte anos, e infelizmente era a única maneira que você achou de lidar com um pai que te cobrava tanto, te humilhava, demonstrava zero compaixão, usava o poder dele contra você, além das brigas constantes. Foi um erro. E você foi salvo por um milagre, por muito pouco mesmo.

Provavelmente esse seria seu último post da sua vida. E do blog também.


Em 2008 seu blog irá pra blogger, e vai mudar pra fallen Pegasus. A amizade com esses dois acima vai crescer muito! André e a Gabi! Mas infelizmente vocês vão brigar por uma besteira, e vão ficar anos sem se falar. Mas em 2014 vocês vão voltar a se falar, se perdoarem, e tudo vai voltar como era antes.

Peraí, e as garotas? Nenhum conselho do eu do futuro?

Sua vida amorosa daria um filme fácil. Mas não valeria nada pois até hoje - sim, dez anos depois - você ainda não encontrou ninguém. Fique tranquilo que não foi por falta de tentativa. Apenas que... Não rolou, uai. Acontece. Não quer dizer que não tenha dado uns beijinhos, até rolou, mas se fosse fazer um filme seria melhor fazer um que tivesse um final feliz, com você enfim encontrando alguém. Logo... Você, dez anos mais tarde, está vivendo o filme ainda, hahaha!

Segue meus conselhos de acordo com cada ano: em 2006, tente esquecer a menina do cabelo cor-de-beringela e siga em frente com sua vida, pois em 2007 você vai pegar uma chinesinha meio xarope, extremamente egocêntrica, que vai te fazer passar por trancos e barrancos. Em 2008 você vai se interessar por duas japonesas, mas tira o cavalinho da chuva o quanto antes você descobrir que uma delas é racista pra caralho, porque depois vai vir uma que é bem desmiolada, mas ambas acabam em 2008 mesmo, não vão te fazer falta, eu garanto. Em 2009, no seu trabalho, você vai conhecer uma outra japonesinha, e vocês vão namorar um tempinho, mas tente não chorar na frente dela quando ela vir pedir pra terminar contigo.


Em 2009, tente não ficar desesperado, mas o Michael vai morrer...

E sim, você vai ficar péssimo. A perda de Michael vai ser algo que vai te abalar muito, e mesmo depois de tantos anos desde que você virou fã o Michael vai continuar uma presença enorme na sua vida, te inspirando. Você vai chorar vendo Moonwalker quando o SBT passar depois, vai chorar vendo todos os tributos que fizeram a ele, e vai se derrubar em lágrimas quando Paris, a filha dele, chorar no enterro do pai.

Mas em 2009 enfim você vai ver um show do Dir en grey no Brasil! Sua banda de J-rock favorita! E depois de muita luta e ralação, vai entregar o último projeto da faculdade, entrando no TCC no ano de 2010.

Sabe aquele seu medo de água? Por você não saber nadar e ter muito medo de entrar em piscina e se afogar? Você vai perder o medo indo numa confraternização da firma do seu pai no Wet 'n wild em 2009, você vai se afogar até dizer chega no parque, e assim, vai perder o seu trauma de água. E no ano seguinte vai nadar igual um peixinho.

Em 2010 você vai não apenas conhecer pela primeira vez um templo budista, como vai se tornar budista. Sim, BUDISTA! Você queria muito a vida inteira, e enfim em 2010 vai conhecer e vai praticar budismo. E quer saber? Vai ser a melhor coisa que você vai fazer na sua vida.


Em 2010 você vai sair do primeiro emprego e entrar na Fundação Abrinq. Mas 2010 foi o ano do TCC. Nossa, se a faculdade inteira foi complicada, esteja preparado pro TCC, porque vai ser péssimo. Como se não bastasse todo o trabalho imenso de pesquisa e tudo mais, por conta de problemas com sua orientadora, você vai acabar reprovado sumariamente.

Isso vai ser péssimo. Ver todo mundo indo pro segundo semestre do TCC e você lá, parado no primeiro. Acho que a pior sensação é a incerteza. Que mesmo que você esteja se esforçando até dizer chega não é certeza que vai conseguir, e tudo mais. Mas no final do ano você vai passar no primeiro semestre do TCC e vai seguir em frente, pra terminar o curso em 2011.

Mas vai ser péssimo, horrível, todos os adjetivos ruins aqui. Acredite.


Mas em 2010, você vai conhecer o esporte! Corrida de rua! Sim, justo você que sempre foi muito sedentário, você vai se encontrar muito na corrida e vai admirar práticas esportivas. E vai ter uma parceira super bacana, a Vera, pra correr junto contigo. E vai correr várias provas, várias camisas e medalhas de participação. Mas a primeira, a Fila Night Run, ninguém esquece!

Em 2010 você ainda vai comprar usada uma Nikon D60, uma câmera profissional que será seu xodó e uma grande parceira de viagens, pra cima e pra baixo. Você vai tirar muitas fotos excelentes, e vai encher o blog aqui com elas, vai ser muito legal. Além de tudo vai ser fotógrafo também!

Em 2011, lógico que teremos uma coisa excelente. Você vai enfim se formar!



Ficou bem bonita a monografia, e você fechou com nota 9,5, excelente! Não desista, cara. Vai ser muito difícil, vai ser cansativo, vai te tirar noites e noites de sono, ansiedade, insegurança, enfim, vai ser talvez uma das barras mais pesadas que você vai passar. Mas mantenha o foco e vai até o final. Vai arrebentar!

Muitas vezes é dureza plantar as coisas, mas 2012 vai ser um baita ano de colher muita coisa boa. E olha que até agora eu arrisco dizer que 2012 foi o melhor ano da sua vida.

Você vai perder o medo de avião, e vai viajar. Não é viagem qualquer, você vai pro Japão e pra Europa nesse ano! Sim, provavelmente você tá pensando que isso é delírio, que você vai viajar pra esses locais assim, tão jovem, mas acredite. Vai tudo acontecer. Por mais inacreditável que pareça:


Nem preciso te dizer que vai ser uma das coisas mais loucas da sua vida. Não vou dar detalhes, senão o post vai ficar imenso quando chegar pra você aí em 2005. Mas tudo, absolutamente tudo vai ser inesquecível. Um sonho. Algo indescritível.

Seu aniversário de 24 anos vai ser algo inesquecível, uma das melhores festas da sua vida, num karaokê. Ainda em 2012 você vai tirar sua carteira de direção, e vai se elevar espiritualmente no seu templo budista em maio. O quê? Não sabe o que é isso? Acredite. Vai ser inesquecível.

Além da marca de mil posts no blog. Sim. Tudo documentado. Você fala, hein?

Em 2013, bem... Em janeiro teremos uma surpresa nada legal:


Calma, não foi nada grave. Você vai ter pedras no rim. E lembra que o teacher Kiss do CNA dizia que isso doía pacas? Sim. Dói. E muito. E você vai parar no hospital. E vai ter que passar por uma cirurgia, e vai ter que ficar com uma cordinha pendurada no buraco do pinto atrapalhando seu xixi e mijando sangue por uma semana mais ou menos.

E não tenha uma ereção. Sério. Vai doer muito com essa corda "enforcando" seu bilau.

Sabe o Guilherme? Pois é, ele vai casar! Seu melhor amigo vai enfim ser encoleirado, hahaha. Mas 2013 reserva ainda mais uma viagem daquelas inesquecível. Você vai enfim pisar na terra do Tio Sam pela primeira vez.


Sim! Você vai pra Chicago, pertinho de Gary, Indiana, onde Michael Jackson nasceu. E vai ser muito legal, inesquecível e tudo mais. Só tome um pouco de cuidado com uma garota que você vai conhecer melhor na viagem, sim? Tente não se apaixonar, só isso. Pro seu próprio bem.

Em 2014 vai ser um ano que você vai passar por muitas dificuldades. Vai rolar uma crise no país e tal, a coisa vai ficar osso. Vai ser bem complicado de arranjar emprego, então já fica preparado. Mas vai ser um ano pra você aprofundar ainda mais sua crença e sua religião budista, que segue contigo nesse ano todo.

Tanto que você irá pra Cusco em 2014, no Peru, e participará da primeira cerimônia da Shinnyo-en na América do Sul:


E vai sofrer por amor o ano inteiro. E em 2015 também. Tudo por algo que começou lá atrás, em 2010. Eu disse pra você não vacilar em 2013, eu bem que te avisei... Não vai ser ruim como foi a garota do cabelo cor-de-beringela de 2006. Mas vai chegar quase lá.

Mas em 2015, mesmo sendo um ano de muitas dificuldades, e poucas entrevistas, vão ter coisas boas. Vai ter muito conteúdo bom no blog, como comentários sobre todos os filmes de James Bond e todos os álbuns de Michael Jackson. Como você vai estar bem duro, vão ter coisas pequenas, mas bastante significativas, como reencontrar a Cris, Aline e o João:


Você vai escrever um livro no blog! Vai se chamar Doppelgänger, um romance policial que você está seriamente pensando em publicá-lo em algum lugar. Vai fundo que vai ser muito, muito divertido escrever. E também um layout bem bonitão de dez anos do blog. Vai ter muitas coisas comemorativas. Até auto-retrato seu você vai fazer. Que chique!

No final de outubro você vai organizar um fórum budista no templo budista que você frequenta (o que vai ser um passo enorme) e vai conviver uma semana com uma grande amiga sua que, pasme, é de Belém do Pará, lá do norte do país, que vai se hospedar na sua casa uma semana e vai ser muito legal.

Mas fique tranquilo que é apenas amizade. Ela é lésbica, haha! Mas vai ser quase uma alma gêmea sua, de tão bem que vocês vão se dar:


E, bem, tenho duas más notícias.

O Bidu, em fevereiro de 2015, não vai suportar a luta contra o câncer que ele teve e vai partir desse mundo. E o Betão, em 9 de setembro vai partir desse mundo também, com falência nos rins. Sim, você vai ficar péssimo. Difícil de imaginar que esse dia iria chegar, né? Mas você terá a Meggie e a Lisa pra alegrar sua vida.

Eu não preciso colocar aqui em palavras o quanto esses dois acontecimentos vão te fazer sofrer muito em 2015. E vai ter muito mais coisa ruim acontecendo nesse ano, mas você ainda assim vai se mantendo firme, tomando o tempo que precisa pra se recuperar entre cada porrada que a vida te dá, mas você vai se erguer. Um a um.

Porque muitas vezes a vida é isso. Pelo menos até você chegar hoje você vai reparar que sempre depois de coisas ruins virão coisas boas. O que importa é seguir em frente. Uma das inspirações suas pra colocar o nome de "pegasus" no seu blog é o Seiya de Pégaso, personagem do seu anime favorito, os Cavaleiros do Zodíaco.



Verdade que é "apenas um desenho animado" para alguns, mas existem diversas coisas ali que você vai levar pra sempre na sua vida. Poucos são "Seiya", e menos ainda são "Pégaso". Aquele que, no anime, leva todas as surras e continua se re-erguendo. E sempre voltando mais forte. E sempre superando todos os obstáculos. Pelo amor e pela justiça.

Seguindo em frente, sempre. Queime em chamas, meu cosmo!

E fique tranquilo. São apenas os dez primeiros anos dessa jornada.

Muita coisa tá vindo por aí. ;)

PS: Você vai estar bem grisalho com 27 anos.

domingo, 13 de dezembro de 2015

Pegasus 10 - 2007.



Em 2007 esse era eu. Um cara magro, cabelo vermelho, aparelho nos dentes e completamente viciado em rock japonês.

Não daria pra falar do caminho até chegar aqui sem citar uma das coisas que mais me influenciaram, o J-Rock. Entre todas as bandas que eu ouvia muito em 2007, uma das que eu mais curtia era Dir en grey, cujo guitarrista, Die, era a pessoa que mais me inspirava. Esse guitarrista era completamente viciado na cor vermelha, até seu cabelo era vermelho. E fiz a mesma coisa pra homenagear meu ídolo:


Fiquei durante um bom período de 2007 com o cabelo assim. Aí eu tingi de preto de volta. Depois ele ficou grisalho. Hahaha!

É bem caricato, mas era basicamente assim que eu era. Bem magro, alto, cabelo vermelho, aparelho nos dentes e esses olhos esbugalhados. Por conta do aparelho (que coloquei em 2006 e tirei em 2008) fiquei dois anos sem sorrir com os dentes. Por isso, em nenhuma foto, não existe nenhum (ou quase nenhum) registro do meu sorriso metálico. Motivo? Simplesmente não curtia.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Pegasus 10 - 2006.


Em 2006 minha vida foi virada pelo avesso por uma garota que me apaixonei. Sua maior característica eram seus cabelos cor-de-beringela.

Quando eu a conheci ela era uma menina completamente desmotivada, que achava que era feia, e detestava sua aparência. Vivia enclausurada em seu mundo particular, assistindo Shoujo Kakumei Utena, negando o mundo ao seu redor, e tendo um estranho gosto por morte, o macabro, o obscuro.

Provavelmente hoje eu veria uma pessoa assim e pensaria: cai fora antes que esse barco afunde. Mas eu na época era um bocado imaturo e entrei no barco. E óbvio que ele afundou.

Mas antes de afundar vi uma menina se tornando uma mulher. Gostando da sua aparência, vendo que poderia sim ser muito bonita. Uma pessoa acreditar nos sonhos, uma pessoa que teve alguém que a incentivou, que mesmo que a tenha criticado em alguns momentos, sabia que estava fazendo para o próprio bem dela.

Quando brigamos e paramos de nos falar, durante anos fui atormentado por ela, como se fosse um fantasma. Verdade que ela tinha muitas vezes minhoca na cabeça, mas foi também uma pessoa que deixou uma marca gigantesca em mim. E talvez ela seja o maior símbolo de todas as que viriam a seguir - embora muitas mulheres tenham me machucado nesses anos todos, nenhuma chegou aos pés do que senti com a garota do cabelo cor-de-beringela. Foi sem dúvida um dos períodos mais difíceis da minha vida.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Pegasus 10 - 2005.


Em 2005 eu não tinha ideia de como seria o futuro. Terminei o Ensino Médio e temia o tempo passar mais rápido do que pudesse ver. Criei o blog para registrar a passagem do tempo e não sentir o tempo passar rápido.

Como eu era um jovem saído da adolescência e entrando na fase adulta resolvi me retratar em 2005 como um jovem saído da formatura (de smoking e tudo), em estilo mangá, e com esse olhar de medo sobre o futuro, subindo a escada apreensivo.

Era apenas o início da caminhada do início do blog até hoje.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Pegasus 10.



Quem diria. Tempo passou e chegamos aos dez anos do Pegasus Wings. :)

Essa arte eu estou desde o começo do ano produzindo. Queria fazer uma escadaria onde todos esses desenhos representassem algo importante em cada ano da minha vida - de 2005 até 2014, terminando com uma foto minha atual no topo, que seria 2015.

No final coloquei esse efeito de aurora boreal e a constelação de pégaso brilhando no topo. Abaixo dele está o logo especial comemorativo dos dez anos do blog, o logo do Pegasus 10.

Cada uma das artes de cada ano foi elaborada, pensada, rascunhada várias vezes e depois pintei no computador. Pintura digital, vetor, todos eles foram feitos de um jeito que parecessem diferentes uns dos outros. Cada um em um estilo, refletindo cada um desses anos da minha vida. ;)

O significado de cada um deles? Aguardem os próximos posts!

O aniversário do blog será dia 14, segunda-feira que vem. Para esse dia terá post especial! Mas o layout está aqui fresquinho a partir de hoje.

Para quem quiser ver a arte original em alta resolução, abra numa nova guia o link abaixo:


quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Final Fantasy VIII (1999)


Quando eu tinha onze pra doze anos teve um jogo que eu morria de vontade de jogar. Um jogo que na época tinha causado um super hype, e eu fiquei mais ou menos uns dezesseis anos pra enfim botar a mão nele. Como eu não tinha Playstation, e sim um Nintendo 64, Zelda sempre foi algo mais presente na minha vida do que Final Fantasy (que era uma franquia da Sony).

E nesse ano, enfim, coloquei no PSP o tal jogo que eu sempre quis jogar: Final Fantasy VIII e terminei hoje. Yeeey!

Mais um capítulo pra minha coleção. Final Fantasy VIII é muito parecido e ao mesmo tempo tem muitas coisas totalmente diferentes dos outros títulos da série. O primeiro e o mais difícil de sacar são que as magias não são aprendidas por você e depois você usa seu MP (Magic Power) pra gastar. Na verdade você tem que usar o comando "Draw", roubar dos inimigos e deixar estocado pra você depois usar.

Em quase todos os Final Fantasy temos os summons, que são os seres que você pode invocar no meio da luta pra te dar aquela mão esperta pra derrotar os carinhas. Eles são chamados de diversos nomes ao longo da série, como Eidolons, Espers, Summons e aqui o nome deles são Guardian Forces. E cada uma é diferente e tem uma animação animal de ataque:


Diversos clássicos da série, como Ifrit, Shiva, Alexander, Odin e Bahamut estão presentes. Outra coisa diferente do resto da série é que não temos equipamentos, e o número de armas é bem limitado, mas possível de se fazer upgrade. Game que facilita em algumas partes e complica em outras.

Um dos fatores complicantes é que no game não importa muito o seu nível. Os carinhas simplesmente vão ser fortes do mesmo jeito, eles vão meio que acompanhar o seu nível. Por isso uma manha do jogo é sempre ficar apelando pros Limit Breaks (quando você tá com HP muito baixo você pode dar um golpe mega destruidor). Muitas vezes esse é o único jeito, como aumentar de nível nas Island Closest to Hell/Heaven no mundo. Isso e o Degenerator da Quistis.

Agora vamos falar da história!

Em Final Fantasy VIII você controla Squall, um SeeD, uma força mercenária que completa missões ao redor do mundo. Parece uma coisa bem nobre, mas você também engaja em guerras e afins. Acontece que esse Squall tem umas tretas com seu rival loirinho, Seifer, e depois de um quebra-pau com ele acabou indo parar na enfermaria com uma cicatriz enorme no meio dos olhos:


E seu primeiro teste é no meio de uma guerra, puta-que-pariu. E lá vai você, junto do Seifer e um outro SeeD estudante, o Zell, um garoto loiro ponta-firme e com uma tatuagem do Mike Tyson no rosto. No meio do caminho esse Seifer foge e se junta com os malvados, e você conhece Selphie, que fica também como personagem jogável, igual o Zell.

Guerra terminada enfim você se forma como SeeD e pode sair pelo mundo em missões. Mas não antes da sua formatura, onde você conhece uma mocinha muito bonitinha, de cabelos pretos e um sorriso cativante que contrasta totalmente com o jeito cem porcento cusão retraído do protagonista:


Quando eu via muita gente xingando o Squall dizendo que ele era um dos piores protagonistas da série não pensei que fosse tanto. Jogando o jogo dá pra sentir bem como ele é calado, fechado, e muitas vezes cusão e extremamente narcisista. Mas durante o jogo a Rinoa vai quebrando esse gelo com o jeitinho dela.

No meio do jogo você descobre que quem está por detrás de todas as guerras e conflitos é uma feiticeira do mal, chamada Edea. E durante uma parte do jogo você tenta realmente fazer um atentado contra ela no meio de uma parada. CLARO QUE ISSO IA DAR MERDA, NÉ?


O roteiro do jogo brinca muito com o tempo. Às vezes você tá jogando o jogo de boas e do nada todo mundo cai no sono, por exemplo. Aí você revive os fatos que aconteceram com um outro soldado do passado, Laguna (que mais pra frente se revela ser o pai do Squall) e dois dos seus amigos, Kyros e Ward. Os atos deles no passado, nos flashbacks que você tem, ajudam a entender melhor no que aconteceu pra mundo estar hoje como está.

Mais pra frente no jogo você descobre que a Edea era apenas um fantoche sendo controlada por uma feiticeira ainda mais poderosa, chamada Ultimecia, que deseja comprimir o tempo todo em um único momento e reinar sobre o mundo. Mas para isso essa Ultimecia precisa dos poderes de uma outra mulher que controla o tempo, que é boazinha, a Ellone, a que manda esses flashbacks pra você descobrir coisas sobre o passado. Essa é a malvadona Ultimecia do jogo:


(parece um pouco a gostosona da Cloud of Darkness)

Só que a Ultimecia fica pulando de corpo em corpo até conseguir o que ela deseja. E aí ela vai justo parar em quem? Na Rinoa! Nesse momento, com toda a convivência e o coração bondoso da Rinoa, o Squall já está mais caidinho por ela. Ela entra em coma, e, só pra garantir que a Ultimecia não controle ela, congelam a menina também.

(o foda era que a Rinoa era uma das minhas principais, a que eu deixei mais forte no jogo, e era foda porque ela sempre era pega, ou entrava em coma, ou era sequestrada, puta-que-o-pariu, que ódio!!! Nota mental: da próxima vez que eu for jogar, não ficar deixando a Rinoa como top do meu time)


Acontece que a Ultimecia sai do corpo da Rinoa e vai pra um outro hospedeiro - um outro feiticeiro adormecido chamado Adel. Então seus amigos têm um plano "genial" que é fazer com que esse Adel entre de novo na alma da Rinoa, e quando estiver lá Ellone mandaria os dois pro passado e enfim faria acontecer a "Time Compression" que despertaria a Ultimecia e daria forças absolutas pra ela, mas também enfim ela poderia ser derrotada, pois não precisaria mais estar parasitando no corpo de alguém. Fariam isso pra revelar Ultimecia no seu corpo físico, porém, ao mesmo tempo, sacrificando o mundo todo para tal

(que plano de bosta, hein!)

E aí, enfim no mundo do tempo comprimido da Ultimecia, onde não existe passado, nem futuro, você chega lá com seus carinhas pra enfim chutar o pau da barraca e derrotar a vilã e salvar o mundo. E quando enfim derrotam Ultimecia o tempo volta a ser como era antes, e tudo termina bem de novo.

O final é lindo. A famosa música Eyes on me da cantora Faye Wong. Não canso de ouvir no celular, hehe:


Bom, enfim, é um jogo do caralho. Valeu a espera de todos esses anos pra enfim botar a mão nele. Joguei, chorei, fiquei com raiva, dei risada, enfim. Isso aqui é um resumo do resumo da história, tem muitos outros personagens e coisas que eu pulei pra resumir bem a coisa toda. Final Fantasy VIII foi um dos jogos mais caros da sua época, e mesmo hoje se tornou um baita clássico, que não perde muito pros atuais não.

Uma grande obra de arte da SquareEnix (na época, Squaresoft), um roteiro magistral, e personagens muito bons, mesmo que o protagonista seja um cuzão. Mas no final, ele se redime e tudo fica bem quando termina bem.

E mais um Final Fantasy terminado pra minha maratona de jogatina dos jogos que nunca joguei! Qual será o próximo? :)

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Doppelgänger - #117 - O fera e a bela.

Al não saiu do lugar ao ver Ar empunhando a arma, se colocando por trás de Victoire e apontando a arma pra cabeça dela.

“Mas que merda, Victoire!”, disse Al, quase num sussurro.

Victoire sentia o frio cano da arma na sua cabeça. Por um lado teve medo de morrer, mas por outro lado aquilo pra ela significava outra coisa.

Na sua frente estava o Al. Seu amado cavaleiro. A pessoa que mais fazia seu coração bater. E ela sabia que ele iria salvá-la. Que apesar de tudo o que havia acontecido, e tudo o que ele não sentia por ela, no final seria ele quem a salvaria do vilão. E ela presenciaria o seu Fera virando Príncipe Encantado.

Mas por outro lado havia outra coisa intrínseca nessa situação toda.

Al viu de longe que parecia que Ar não a imobilizava corretamente. Seria impossível pra uma pessoa com experiência na Inteligência como Ar não saber como imobilizar corretamente uma pessoa. Dava pra ver claramente que era apenas com a mão que ele segurava o braço direito de Victoire enquanto ele ficava atrás dela – e isso era muito simples de se escapar e tomar a arma de volta. Toda aquela situação poderia acabar sem o disparo de uma única arma. Aquilo para Al era apenas charme da Victoire pra querer ser salva por ele.

“Chega de asneiras. Victoire, vamos, saia daí. Você já se livrou de situações muito piores do que essa”, disse Al, se aproximando deles.

Nessa hora Victoire viu que ele não estava lá para salvá-la. Al estava a pelo menos uns dois metros deles, estava realmente próximo. E de fato, era apenas a mão de Ar que a estava segurando, era muito fácil dar um movimento e se livrar.

Mas nessa hora Victoire viu como é tolo o coração de alguém apaixonado. Ela, por mais que fosse a mulher forte que era, naquele momento era frágil como uma menininha. Era de propósito aquilo tudo pra ela. É óbvio que ela queria era ser salva pelo Al, e não se livrar, mesmo que aquilo fosse possível e ridicularmente fácil. Parecia até que o Ar tinha feito isso de propósito.

Porém o tempo estava passando. Victoire baixou a cabeça e começou novamente a chorar. Ela não queria se soltar. Ela queria ser salva pelo Al.

“Al! Vamos lá. Estamos aqui de novo. Assim como a garota do cabelo cor-de-beringela de anos atrás você está na frente de mais um dilema. O que você vai escolher? A garota ou a missão?”, perguntou Ar.

Al foi direto ao ponto:

“Mate-a. Não significa nada para mim”.

Victoire ao ouvir aquilo ficou sem chão. Simplesmente queria poder enfiar a cabeça na areia e nunca mais tirar de lá. Tinha vergonha de si mesma, vergonha de ter nutrido por tantos anos tal sentimento pelo Al, e agora estava numa situação onde sua vida estava por um triz e a decisão de Al era clara. Que ela não significava nada para ele.

Se isso fosse um filme, provavelmente Al a salvaria e os dois ficariam juntos para a sempre. Mas essa era a vida real. E na vida real não existem finais felizes quando se ama alguém. Especialmente se a outra pessoa não corresponde. Só existe sofrimento, desilusão, tristeza e frustrações. Isso era a vida real. Esse era o amor cru e seco do mundo de hoje.

Por um momento Victoire pensou na missão. Al saiu para viver um exílio em algum país do mundo com uma outra identidade havia anos, e ela ainda estava lá, trabalhando na Interpol, solucionando crimes, agindo como uma agente da Inteligência. Ele não voltou em Londres em 2012 para ficar com ela. Ele voltou para parar o homem que naquele momento a estava fazendo de refém.

E que, por mais que Al parecesse um grande canalha e cafajeste, infelizmente todas as consequências e escolhas foram culpa exclusivamente dela. Foi ela quem escolheu nutrir aquilo. Foi ela quem escolheu sofrer de amor por alguém que nunca a amaria. Não era Al que estava errado em querer transar com ela. Era ela quem estava nutrindo um sentimento amoroso e se deixando se submeter esperando que houvesse algo do outro lado – mas nunca teve.

E agora o próprio Al havia dado o ultimato. Poderia matar ela, ela não significa nada para ele.

Ficar sem ver o seu amor era a pior das coisas que ela poderia ter que encarar. Mas naquele momento ela, ainda com o rosto cheio de lágrimas, ergueu e olhou para Al nos olhos. Victoire sorriu timidamente.

“Olha só... Você tá sorrindo, Vicky?”, disse Ar, vendo a reação por detrás dela, “Você mesma ouviu, você não significa nada para ele. Esse sorriso significa o quê? Que você vai morrer pela missão?”.

“Não”, disse Victoire, “É que não existe felicidade maior no mundo do que ser morta pela pessoa que mais ama”.

Al permanecia parado, observando tudo e tragando seu cigarro. Ele parecia realmente calmo, apenas vendo o desenrolar dos fatos.

“Ok, meu irmão! Hora de fazer o último pedido...”, disse Ar, engatilhando a arma.

O que aconteceu a seguir foi muito rápido.

Ouviu-se um disparo. Al sacou a pistola dele, a mesma que ele havia usado pra torturar Andrada no Zoológico de Londres mais cedo e simplesmente disparou ele mesmo contra Victoire.

Sangue da francesa jorrou e se espalhou pelo ar em forma de gotas vermelhas. O impacto fez Ar recuar e o corpo e Victoire foi caindo ao chão.

Al ainda tinha duas balas. Nessa hora Ar viu que sua refém já havia sido baleada e simplesmente se virou e começou a correr. Al mirou nele e atirou, mas com a confusão toda os tiros passaram bem perto, mas nenhum acertou Ar.

No chão estava o corpo de Victoire, todo ensanguentado. Ar havia fugido.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Doppelgänger - #116 - O amor está morto.

Victoire suava. Seus olhos estavam arregalados, ela parecia uma animal acuado com as garras prontas para atacar. Ratos mordem gatos quando sabem que vão morrer. Era o que parecia Victoire, com a arma, apontada para os dois Al que estavam na sua frente.

“Calma, Vicky, abaixa essa arma, vamos, devagar”, disse o Al que estava abraçado com ela, se aproximando da francesa.

“Sai daqui! Nem um passo mais pra frente!”, disse Victoire, apontando a arma pra ele.

“Vicky, sou eu. Nós fizemos amor há pouco! Isso tudo foi planejado por mim. Eu vim aqui pra buscar esse impostor”, disse o Al que estava abraçado com ela, apontando pro outro Al, do outro lado.

Do outro lado, o outro Al, o que havia chegado depois jogou no seu dispenser de cigarro a bituca do cigarro que havia fumado. E calmamente pegou outro e colocou na boca, acendendo-o.

“Vem cá, me dá essa arma. Você vai machucar alguém”, disse o Al que estava abraçado com ela.

Victoire permanecia assustada e acuada. O Al que estava abraçado com ela era bem amável, mas o outro ficava ali parado, olhando com desdém pra ela, fumando outro cigarro.

“E você aí? Não vai dizer nada? Ele tá dizendo que você é o farsante!”, gritou Victoire, apontando a arma pro outro Al.

O outro Al olhou tranquilamente pra Victoire, mesmo com ela apontando a arma pra ele. Deu uma tragada e soltou a fumaça pelo nariz. E mostrava o prazer único que era tragar um cigarro. Nicotina realmente o acalmava.

“Já acabou o seu showzinho, Victoire?”, disse o outro Al, fumando, “Não dou a mínima pro que você for fazer com essa arma, apenas saia do meu caminho, que eu tenho que parar o Ar. Não seja um empecilho”.

Victoire estava desiludida. E naquele momento começou uma guerra imensa entre seu coração e sua razão. De um lado estava o Al que ela sempre sonhou, o que a havia abraçado, o que havia dito que queria fugir e ser feliz com ela, o que havia acabado de fazer amor com ela, minutos atrás.

Do outro lado estava o outro Al. Frio, distante, focado na missão. Ela olhava, mas por mais que ela tentasse não acreditar na dura verdade que estava sendo esfregada na cara dela. Victoire era uma pessoa que se iludia com o amor. Uma pessoa que acreditava que as pessoas realmente poderiam se amar. Uma pessoa que acreditou sempre que o amor poderia mudar as pessoas.

Mas naquele momento ela viu que aquilo era o mundo real. Aquilo não era um daqueles filmes que ela tanto gostava.

E na vida real não existe amor. Pessoas hoje em dia vivem numa sociedade líquida, pessoas são tão mesquinhas e individuais que acham que vivem seu próprio filme, que vale a pena correr atrás da pessoa até o fim do mundo, e não se permitem ser conquistadas mais. Não se permitem tomar um desvio no caminho e apostar numa pessoa que fuja daquela idealização que sempre têm. Pessoas são carentes, e dentro dessa carência apenas sonham, se masturbam, ficam calados.

Amor é uma utopia. Não existe hoje em dia. E naquele momento, vendo o outro Al, ela vira que infelizmente o Al que ela sempre sonhou jamais seria um cavaleiro que viria salvá-la montado em um cavalo branco. Não foi por isso que ele colocou aquele rastreador no celular dela. Ele colocou aquele rastreador pela missão. Pois sabia que ela iria se render ao Al que ela sempre idealizou.

Mas o coração, ah, o coração. É sempre ingênuo.

E mesmo que a verdade esteja sendo esfregada na nossa cara, mesmo que nós tenhamos uma raiva incontrolável de quem tenta abrir nossos olhos, nós acabamos só sabendo apontar o dedo e criticar a pessoa. Talvez o amor não seria uma utopia se as pessoas não fossem tão mesquinhas. Talvez o amor existiria se as pessoas tivesse abertura nos seus corações para darem chances para aqueles que eles não sonham. Talvez o amor não seria uma coisa distante se as pessoas soubessem diferenciar a ficção que veem em filmes da dura realidade do mundo.

A realidade de que o amor não é pra sempre. E tampouco o amor existe. O que existem são escolhas. Pois enquanto o ser humano não corta essa individualidade idiota dos tempos contemporâneos, jamais vai conseguir amar pessoas, e pessoas legais passarão pelo seu retrovisor e jamais conseguirão dar uma chance ao novo, pois vivem um amor preso no passado.

E enquanto Victoire refletia isso, ela olhava pro outro Al. E sequer percebeu que o Al que a havia abraçado estava do seu lado, havia se aproximado devagar, enquanto ela estava divagando sobre o amor.

“Vicky, baixa essa arma”, disse o Al que estava abraçado com ela, “Vamos, vai, dá ela pra mim, vai... Por favor”.

O coração de Victoire estava a mil. Ela poderia ser uma mulher forte, capaz de derrubar homens com o dobro do tamanho dela, mas naquele momento ela mostrava a maturidade de relacionamentos de treze anos de idade que ela tinha. Não era algo que ela tinha desenvolvido. E por mais que na sua frente estivesse o outro Al, o verdadeiro, fumando e a encarando com frieza, ela, não como mulher, mas como ser humano, se rendeu ao seu coração.

E baixou a arma.

“Isso. Agora calma... Dá ela pra mim. Você não está bem”, disse o Al que estava abraçado com ela.

Victoire, com os olhos marejados simplesmente obedeceu. E entregou a arma dela ao Al que estava abraçado com ela. Era o coração, né? Talvez naquele momento poderia ter uma reviravolta. Uma pessoa apaixonada acredita, mesmo cega, dá duas, três, quatro, milhões de chances esperando que a outra pessoa enfim receba seu coração.

Mas isso não era um filme. Isso não teria o final feliz com o casal se beijando. O amor só existe na ficção. Por isso pessoas praticam essa auto-ilusão. Pessoas acreditam que tal coisa possa existir no mundo real, mas ao aplicarem esse sentimento na vida real descobrem que o amor é algo que ninguém sabe direito o que é. Que ninguém está disposto a amar alguém que não amavam antes. Ninguém quer deixar de idealizar alguém, mesmo que do outro lado tenha uma pessoa que talvez seja sua alma gêmea. Mesmo que essa pessoa que amam antes sequer deem a mínima para essa pessoa. O amor morreu há muito tempo.

“Isso. Boa garota”, disse o Al que estava abraçado com ela.

O outro Al não acreditou no que estava vendo. No final das contas Victoire se rendeu ao seu sentimento e entregou a arma pro Al que ela acreditava ser o verdadeiro, o Al que ela havia idealizado, que obviamente, era o Ar.

“Hora de fechar o bar, meu irmão!”, disse o Al que estava abraçado com Victoire, tirando a peruca e revelando seu cabelo raspado e preto, “Um último pedido?”.

Ar pegou a arma e apontou na cabeça de Victoire.

Arquivos do blog