domingo, 10 de maio de 2015

Doppelgänger - #71 - Um botão para mudar o mundo.

Medo.

Agatha nunca sentira antes medo. Na verdade sempre viveu sua vida, pois nunca temeu que poderia morrer. Ela não era aquele tipo de agente que era um órfão adotado pelo Estado para se tornar uma agente. Agatha era de uma família abastada, e simplesmente entrou no ramo por estar "entediada". Sua sede de aventuras nunca a permitiu sentir medo. De nada. Nunca.

Mas naquele momento ela estava com medo.

Sara apareceu por detrás da holandesa e tocou com o seu dedo no ombro de Agatha. Uma pequena fagulha foi lançada, queimando seu corpo como se estivesse todo embebido em querosene. As chamas foram lentamente consumindo seu corpo, e parecia que quanto mais Agatha batia com sua mão para apagar as chamas, mais elas pareciam se multiplicar.

Mas Agatha tinha medo do quê?

Pensava que teria uma morte comum no máximo, com um tiro na testa, ou empurrada de um prédio. Nunca pensou que sofreria pra morrer. Sua vida era regada de prazeres, os quais ela nunca se proibiu, afinal a sociedade proíbe as outras mulheres de terem prazer, porque ela deveria segui-las se tudo para as mulheres era muito mais fácil do que para os homens?

Simplesmente ela não via sentido em seguir o pensamento da sociedade de que mulheres eram inferiores. Se um homem quer, por exemplo, sexo, ele deve conquistar a mulher, embriagá-la, ter uma conta bancária boa, uma boa conversa, ou ter charme. Mas se uma mulher quer sexo, ela apenas diz que quer fazer e aguarda o primeiro que chegar. Se um homem quiser crescer na vida, provavelmente tem que trabalhar muito, se destacar, ser amigo do chefe ou conseguir uma mina de ouro. Agatha sabia que essa era a mesma receita para mulheres, e sentia nojo das mulheres que diziam que "lutavam pelo direito de igualdade entre sexos", pois achava que elas eram um bando de desocupadas que não queriam ralar duro como ela ralava. Pois se Agatha chegou onde ela chegou, era puramente mérito dela, e do trabalho duro dela.

Ser uma mulher é muito vantajoso, e ela sabia usar absolutamente tudo ao seu favor.

Dizem que o ser humano tem uma mente que é muito fácil de se manipular. Se existe um corredor, qualquer pessoa pode tranquilamente caminhar sobre ele. Mas se você colocar uma placa - apenas apoiada por um pedestal - mesmo que não existe nenhuma barreira física, existe uma grande barreira intelectual: pessoas não passarão pela placa que estiver escrito "Proibida a entrada" pois ela é uma barreira muito mais mental do que física.

E na opinião de Agatha era isso que acontecia. A sociedade dizia que mulheres deveriam ser de um jeito ou de outro, mas nenhuma tentava ultrapassar essa barreira psíquica - e o que sobrava era essa revolta por não conseguir passar. E ela havia passado a barreira, e quando passou olhou pra trás, e viu que muitas não passavam pois obedeciam a placa do "Proibida a entrada", e aí que ela viu a fragilidade do ser humano quando ela ultrapassou a barreira e olhou pra trás.

Elas queriam passar da placa e ser respeitadas. Elas queriam passar pela placa e ser aceitas. Elas queriam passar da placa e continuarem sendo chamadas de moças de família.

E isso simplesmente nunca atingiu Agatha. Nunca se importou sobre essas questões. Nunca.

E tudo isso passou na sua mente naquele momento em que as labaredas ficavam mais e mais fortes. Agatha não soltou nem mesmo um gemido de dor, por mais que a dor fosse terrível. Aquele calor só aumentava e aumentava, e então caiu de joelhos.

O cheiro do seu corpo queimando era insuportável. E ela sabia que mesmo que sobrevivesse, dificilmente naquele ponto ficaria sem uma mínima sequela. Sua pele estaria destruída com queimaduras de terceiro grau, não teria mais cabelo, viveria como uma múmia por um longo tempo, e dificilmente sobreviveria.

Mas naquele momento olhou para Sara.

Sara recuou, inexplicavelmente.

Eu ainda tenho uma última arma, pensou Agatha.

E ela percebeu pela feição de Sara ao ler a sua mente: De fato tem alguma coisa ali, pensou Sara.

No seu cinto havia o que ela chamava de "botão de pânico". Um botão vermelho que alertaria alguma pessoa em algum lugar pedindo por ajuda. Se o prédio estava prestes a desabar em chamas, ou se o próprio corpo dela iria virar cinzas isso tudo não importava. A holandesa não queria ter que usar aquele botão, mas não havia escolha. Ela achava que conseguiria derrotar Sara tem maiores problemas, mas parece que seus poderes psíquicos eram muito além da capacidade humana.

Se ela não poderia derrota-la, pelo menos outra pessoa poderia.

Agatha então pressionou o botão.

Ela não tinha mais nenhum medo.

- - - - -

Do outro lado da cidade Ar estava verificando o computador. A pesquisa estava concluída.

A Dawn Of Souls indicou quem era o agente conhecido como "M".

O mesmo se espantou quando viu que era uma mulher.

E que havia inclusive trabalhado com seu pai, anos atrás, e era um dos membros fundadores da Chrysalis.

Ela é também filha do Arch..., pensou Ar.

Ela ficou ativa como M por cerca de vinte anos, entre 1978 e deixou o serviço em 1998. Não havia mais nenhum registro de sua atuação como M posterior a essa data. Provavelmente ainda estava agindo, pois uma pessoa que consegue tal cargo, por tanto tempo, acaba conseguindo de maneira vitalícia - mesmo depois que abandona o cargo. Vira uma pessoa tão essencial que nem mesmo os que cuidam do registro se dão ao trabalho de atualizar seu cadastro ás vezes.

E pelas informações, ainda estava viva.

Com certeza ainda está ativa. Ninguém fica vinte anos na elite e sai assim do nada, não importa a razão, pensou Ar.

No topo do arquivo o nome dela estava em negrito, em caixa alta, ao lado da sua foto: Natalya Briegel.

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