segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Doppelgänger - #94 - O homem sem passado.

Nataku e Eliza estavam de frente ao Monumento. Atrás deles, Schwartzman observava tudo, com pouco mais de dez metros separando os dois. Por estar chegando no inverno, o sol estava se pondo pouco depois das 15h30.

A City, por mais que fosse um local igualmente seguro, ainda tinha o ar de local antigo. E com o anoitecer, por mais que houvessem luzes nas ruas, aqueles muros haviam presenciado assassinatos, guerras e o Grande Incêndio de Londres em sua história. E Schwartzman estava atrás, prestes a sozinho pegar Nataku e Eliza Vogl juntos.

Nataku e Eliza estavam um do lado do outro de frente ao Monumento. Estavam apreciando o silêncio. Eliza Vogl sabia que tinha que devia dar um tempo para que Nataku conseguisse entender tudo o que ela tinha explicado.

Já Nataku, estava em um estado de quase choque. Quanto mais descobria sobre, menos via uma luz no fim do túnel.

De súbito, Nataku perdeu o equilíbrio. Logo depois levou suas mãos na cabeça, como se estivesse sentindo uma dor de cabeça bem forte. Vogl se assustou, e colocou a mão nele, querendo saber o que estava acontecendo:

“Nataku, Nataku, você está bem? Tá passando mal?”, perguntou Vogl.

Mas Nataku não respondia. Seus olhos começaram a lacrimejar. A dor não parava, apenas aumentava. Foi aí que sua boca começou a emitir um surdo grito de dor. Algo estava acontecendo.

“Minha nossa, Nataku! Fala comigo! O que tá acontecendo? Tô ficando nervosa!”, disse a pequena garota Vogl.

E então Nataku caiu de joelhos no chão. A dor era tão intensa que seus olhos se viraram pra cima, e começou inclusive a babar. Era uma dor tão imensa que nem mesmo forças pra gritar ele tinha. Seus músculos tremiam, e o homem estava quase caindo inteiro no chão.

Ele não ouvia mais nada.

Aquela dor era tão grande que imagens do passado estavam sendo projetadas na sua mente.

Um jovem, com a aparência do Al, tirando o fato de usar uma barba logo abaixo do queixo estava na sua frente. A pessoa que via parecia estar ferida, ou algo assim, pois olhava sua mão, cheia de sangue. Ele colocou a mão no seu ombro, e falava com um imenso sorriso no rosto:

“Pássaros só voam juntos daqueles que são do mesmo tipo. Não sei se sou tão bom quanto você, mas gostaria muito de ser seu amigo. Ou pelo menos no mínimo você me deve uma! Muito prazer, meu nome é Arch. E o seu?”.

A próxima cena foi com uma mulher asiática. Uma oriental muito similar da que ele viu quando estava salvando Agatha na prisão na Holanda. Algo inexplicável dominava seu coração, que batia forte quando a via. Mesmo sem ele nem mesmo saber quem era.

Eles estavam num bar. E ela vomitou nele. O cheiro era péssimo.

Depois disso, mais um lapso de uma memória perdida, junto da imensa dor que dominava sua cabeça.

Eles estavam juntos, conversando. Ele não conseguia lembrar exatamente do que falou pra ela, mas sabia que aquilo era um misto de alívio com ansiedade. Aquilo era o amor. Aquele sentimento que todos nós sentimos antes de nos declararmos para quem nós mais amamos. O que ele não conseguiu esquecer foi a reação dela depois de uma frase que ele disse:

“Noriko, você quer namorar comigo?”.

A próxima cena da sua memória era conversando com novamente alguém bem parecido com o Al. Só que bem mais jovem do que está hoje. Sentia seu corpo doente, suas forças sendo sugadas. Estavam numa casa bem humilde e parecia que esse jovem parecido com Al estava buscando informações. Nataku só se lembrava do que havia falado pra ele:

“Seu irmão foi imbatível e um verdadeiro herói. E faz muita falta, foi a única pessoa que eu chamei de 'amigo' em vida. E agora... Está morto”.

A dor parecia continuar. Seu corpo não tinha outro instinto e não ser bater sua própria cabeça contra o chão, uma vez que estava de joelhos e com as mãos levadas na cabeça.

E Nataku viu sua morte. Viu sua doença cada vez mais deteriorando seu corpo. Se viu imerso num líquido estranho, sendo observado como se fosse um alienígena por cientistas de jaleco branco. Viu essa mesma dor e os poucos períodos que saía do coma. E sua memória cada vez mais embaralhadas. Um ruído mental. Apenas cenas perdidas, sem nenhuma ligação, sem nada que as fixasse na sua mente. Nada.

Eliza Vogl observava aquilo sem entender nada. Vendo Nataku batendo a sua própria cabeça incontáveis vezes no chão, ela não sabia o que fazer enquanto via aquela cena. A testa de Nataku estava vermelha, e começando a sangrar. Ela ficava abismada com a força da pancada que ele dava. E pessoas olhavam aquilo na rua e se perguntavam o que estaria acontecendo.

“AHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!”, Nataku gritou, começou baixinho, e foi aumentando o volume.

E aí depois do grito enfim Nataku disse algo, ainda aparentemente sofrendo de muita dor.

“Metamorfina!! Me dê mais metamorfina!!!”, gritou Nataku.

Depois disso, ele caiu no chão, deitando-se. Seus olhos estavam vermelhos, chorando de dor. Sua boca mostrava a baba, já seca, com aquela textura característica. Dava pra ver que ainda respirava. Mas a mesma estava ficando cada vez mais fraca. Vogl olhava pra aquilo, com os olhos lacrimejando, e não sabia o que fazer.

Foi aí que a última pessoa que esperavam que apareceria apareceu. Justo naquele momento.

“Lucca! Bom, já que você está aí, não se importaria se eu levar essa linda menininha pra um passeio, não?”, disse Schwartzman, agarrando Eliza Vogl pelo braço.

Nataku permanecia deitado no chão. Esgotado. Com a alma destroçada.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Invincible (2001)


Consigo lembrar até hoje de ver na tevê a propaganda desse álbum. Foi o álbum em que eu conheci o Michael. Tá, eu tinha visto Black or White quando era criança e tudo mais, mas foi em 2001 que eu comprei o meu primeiro álbum dele. Ironicamente, o último da carreira dele.

Invincible mostra uma coisa que adoro em Michael: sua capacidade de fazer seu som acompanhar as tendências. E por ter o ouvido e a habilidade que ele tem (e claro, muita ajuda dos produtores também), Michael prova que sempre conseguiu fazer o melhor do Pop não importa a época em que estivesse. Invincible vendeu 13 milhões de cópias, fazendo um dos álbuns mais bem sucedidos dos anos 2000. Os temas continuam parecidos, romance, isolamento, críticas sociais e ecologia. Mas o ritmo, quanta diferença!

Temos na produção, além do próprio Michael, temos Rodney Jerkins (que produziu desde Whitney Houston até Lady GaGa), R. Kelly (que era um ilustre desconhecido até escrever "You are not alone" pro Michael), e a volta da lenda, Teddy Riley (o mesmo de Dangerous), Dr Freeze e Babyface, entre outros.

Invincible é um álbum musicalmente muito bom. É de qualidade incrível e impecável. Foi muito caro de se produzir também. Além de original. Esse álbum marca também uma outra polêmica muito forte, que é Michael sendo usado por Tommy Mottola, então presidente da Sony, que não promoveu direito o álbum, e foi acusado de racista pelo próprio Michael. Naquele tempo os dois maiores artistas da Sony eram o Michael e a Celine Dion, pelo menos em números de vendas. E Michael nunca deixou de esconder como Mottola era uma espécie de "Tom Sheldom", o promotor de Santa Barbara que queria por cima de tudo prender Michael na época das acusações de pedofilia, para com ele. Mottola apenas queria usar o Michael para ganhar dinheiro, e isso sem dúvida foi um dos fatores para o longo hiato que Michael teve depois de Invincible - culminando na sua morte, em 2009, prestes a começar a turnê "This is it".

Invincible é talvez o álbum com maior número de músicas cujo temática era amor e romance. Eu não gosto muito, gosto do Michael mais revoltado, como em HIStory. Mas nem por isso é um álbum ruim. Tem uma qualidade musical incrível. Um trabalho épico e pouco conhecido das pessoas.

Rádio UOL mudou e agora tá tudo chato. Links estão offline. :(

1 - Unbreakable (Michael Jackson, Rodney Jerkins, Fred Jerkins III, LaShawn Daniels, Nora Payne, Robert Smith, Christopher Wallace)
Normalmente a primeira faixa dos álbuns do Michael são de chutar o pau da barraca. Essa é minha faixa número 1 favorita. Todos esses sons pop eletrônico, gosto muito dos graves e das leves batidas agudas no fundo. Uma coisa bacana é que a música tem uma ponte sensacional, enfim, é muito bom, muito variada, um pouco de tudo. A letra parece um desabafo, Michael dizendo que tentaram "quebrá-lo", mas ele é inquebrável. Além de tudo é daquelas pra nos botar pra cima!

2 - Heartbreaker (Michael Jackson, Rodney Jerkins, Fred Jerkins III, LaShawn Daniels, Mischke Butler, Norman Gregg)
Uma música romântica dançante. Bem dançante! Bem de balada mesmo, hehe. Refrão chiclete na cabeça. Eu acho bem legal! Tem muitas batidas, até aqueles sons de remixagem, etc, é uma música que não parece feita há 14 anos. Parece que foi feita ontem, de tão a frente do tempo.

3 - Invincible (Michael Jackson, Rodney Jerkins, Fred Jerkins III, LaShawn Daniels, Norman Gregg)
A música título é uma mistura da primeira com a segunda. Por isso eu sempre quando ouço o álbum, por elas serem similares (canções com batida bem singular, bem eletrônica) eu chamo Unbreakable, Heartbreaker e Invincible como "trio do começo", hehe. É legal, mas acho mais fraquinha das três. As três músicas são ótimas, mas por ficarem pertinho uma das outras ficou meio cansativo.

4 - Break of dawn (Dr. Freeze, Michael Jackson)
Mais uma música super romântica! Michael tocou todos os intrumentos dessa canção! Sensacional. É uma música tipo aquela "Borbulhas de amor" do Raimundo Fagner. Tem metelança de rola na música inteira: "I don't want the sun to shine I wanna make love, just this magic in your eyes and in my heart. I don't know what I'm gonna do I can't stop lovin' you, I won't stop 'til break of dawn makin' love". Sinto muito cara, mas uma ereção não dura tanto assim, caro amigo.

5 - Heaven can wait (Michael Jackson, Teddy Riley, Andreao Heard, Nate Smith, Teron Beal, Eritza Laues, Kenny Quiller)
Eu adoro essa música! Já começa com o refrão. Outra música mega romântica. O refrão é super melódico, em contraste com o restante da canção que é praticamente uma poesia declamada. Bem interessante. Gosto bastante da bastante Hip-hop encaixada com sons românticos. É realmente um achado. Uma das melhores do álbum, e uma das melhores da carreira do Michael!

6 - You rock my world (Michael Jackson, Rodney Jerkins, Fred Jerkins III, Nora Payne)
A música começa com Michael e Chris Tucker dizendo que viram uma gatinha passando no buteco, e o Chris desafia o Michael a pegar ela. E aí a música começa! Poxa, essa é a melhor do álbum, e eu adoro de paixão! Uma letra romântica bem leve, bonitinha! Parece que tá mesmo jogando um charme na menina. As mudanças de ritmo são muito boas também.


E como dá pra ver acima, rendeu um excelente clipe, com estorinha e tudo! Tem até o Marlon Brando, velho! Tem referências de "Smooth Criminal" e "The way you make me feel" total. Acho engraçado Michael correr atrás das gatinhas dançando. Se fossa na vida real, com certeza fugiriam de qualquer louco dançando por aí, haha.

7 - Butterflies (Andre Harris, Marsha Ambrosius)
Depois do ritmo todo empolgante da anterior, hora de baixar a poeira. Butterflies é uma música com uma poesia incrível, que descreve todos os estágios dessa coisa linda que é o amor! O título "brabuletas" vem do que sentimos em nossos estômagos quando estamos junto da pessoa que amamos. Parece uma batida meio retrô, sons bacanas no fundo, e o refrão bem lírico. Super bonita!

8 - Speechless (Michael Jackson)
Se Whitney Houston tinha "I'll always love you", Michael tinha "Speechless". Ele disse que escreveu essa canção de uma inspiração na hora que deu enquanto ele brincava nos jardins de Neverland com crianças! Disse que parou tudo, subiu e foi escrever. Quando eu ouvi eu não pude negar a clara similaridade com a canção do "O Guarda-costas": começa sozinho a capella, aos poucos vai criando o ritmo, depois... BUM! Música fica toda com a batida e segue assim até o final. Eu arrisco dizer uma música romântica tão linda do Michael que eu diria que ela é melhor até que o maior clássico romântico dele: You are not alone. Prefiro por muito pouco Speechless. É minha música romântica favorita do Michael!

Sente só a poesia: "Helpless and hopeless, that's how I feel inside, nothing's real, but all is possible if God is on my side. When I'm with you I am in the light where I cannot be found". Já me declarei pra uma pessoa usando essa poesia, haha. Não funcionou, mas fala se tem algo mais lindo?

9 - 2000 Watts (Michael Jackson, Teddy Riley, Tyrese Gibson, J. Henson)
Essa música me lembra muito Matrix, o filme, hehe. Muitos fãs reclamaram dizendo que não era a voz do Michael, mas era sim, apenas foi puxada pro grave pelo computador. Acho que fala muito da tecnologia, mesmo tendo coisas que hoje em dia são meio antigas, como DVD, D-Lo e tal. Muitos comparavam com "They don't care about us". Pra mim, pareceu sempre um desabafo contra o excesso de tecnologia. Como diz a canção, cuidado pra não dar "overload"!

10 - You are my life (Michael Jackson, Babyface, Carole Bayer Sager, John McClain)
Muita gente detesta essa música, haha. Eu acho até legalzinha. Mas de facto, não é das minhas favoritas. A poesia é legal. Bem romântica (sim, outra!), o que me leva a crer que Michael estava muito carente, hehe. Graças ao Babyface e à Carola Bayer Sager a música ficou bem melosa. Mas sei lá, o fundo de violão meio acústico ficou legal, mas só isso. Música parece meio down, sei lá. De fato poderia ter saído melhorzinha. Esse refrão é de doer também, hehe.

11 - Privacy (Michael Jackson, Rodney Jerkins, Fred Jerkins III, LaShawn Daniels, Bernard Belle)
E temos guitarra do Slash! Tava sentindo das revoltas do Michael, hehe. E nessa canção o desabafo dessa vez é privacidade. Coisa que Michael nunca deve, desde criança, com todo o assédio da mídia. Dá pra perceber toda a raiva no jeito de cantar do Michael. Além do fundo bem grave da música, tem vários sons de cliques fotográficos. O refrão é bem forte, chega a assustar até. Uma música super forte. E tem o Slash. Já falei?

12 - Don't walk away (Michael Jackson, Teddy Riley, Richard Carlton Stites, Reed Vertelney)
Eu também adoro essa música! É um romântico mais melancólico, mas super bacana. Violão no fundo, coral, várias cordas e a tristeza da voz do Michael. Música de foça mesmo. Mas é tão linda, meu deus! A voz do Michael tá super expressiva, a gente sente tudo e não tem como não cantar junto. Especialmente se você tomou um fora da menina que você tava super afim. Sente só o refrão: "And how can I stop losing you? How can I begin to say" When there's nothing left to do but walk away". Lindo demais, puta-que-o-paréu.

13 - Cry (R. Kelly)
Essa teve clipe também! Poesia do R. Kelly, o carinha que o Michael lançou ao estrelato quando gravou dele "You are not alone", hehe. Mas essa canção não é romântica! É mais uma música com aquele tom de "podemos mudar o mundo" que o Michael sempre faz. Sempre presença nos álbuns do Michael, que diga-se de passagem, é um dos artistas que mais colaboraram com causas sociais que já existiram.


O clipe é chato. O Michael nem aparece. #chatiado
Mas a música é legal!

14 - The lost children (Michael Jackson)
Uma versão leve de "Little Susie"? Talvez. Porque a letra é super triste e a música tem esse ritmo todo bonitinho. Fala sobre crianças perdidas. Perdidas mesmo, abandonadas. Ok, é meio tristinha, mas o ritmo é super pra cima, na minha opinião. Também não é das minhas favoritas desse álbum, mas dá pra ouvir.

15 - Whatever Happens (Michael Jackson, Teddy Riley, Gil Cang, J. Quay, Geoffrey Williams)
Violão de ninguém menos que Carlos Santana. Uma música com tom latino, cara. Michael nunca fez algo parecido. Menos ainda com o Carlos Santana, que é um ícone! É a música do Invincible que não tem nada a ver com o resto do álbum, mas nem por isso é ruim. Pelo contrário. Se destaca! Eu gosto muito, muito, muito. Parece "Give in to me" com um toque latino. Imperdível.

16 - Threatened (Michael Jackson, Rodney Jerkins, Fred Jerkins III, LaShawn Daniels)
Outra canção de revolta. Tava sentindo falta! Muitos associam com - obviamente - Thriller, mas observando a letra vai muito além. Mostra um eu-lírico sendo tratado pelas pessoas ao seu redor como uma verdadeira aberração mesmo, um bicho, ou qualquer coisa ruim que queira inserir aqui. Bem como o coitado do Michael era tratado por ele ter aquele jeitão - um monstro mesmo. Antes de Lady GaGa se chamar de "monstro", Michael já fazia isso há anos antes. Realmente algo muito bom. E a música é muito boa, diga-se de passagem.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

A fantasma da Frustração.


O que dizer de uma pessoa que você desde o começo sempre amou profundamente, passou anos mentindo pra si mesmo, até que um dia resolve que deve enfrentar isso e se declarar pra essa garota mesmo sabendo do resultado e no final nada dar certo?

Acontece.

Mas esse é um daqueles casos que eventualmente temos que ficar tranquilos. É óbvio que me machucou muito quando ouvia julgamentos como: "Você está confundindo as coisas". Eu não tiro o direito dela. Ela sempre esteve presente quando eu dizia que tinha interesse em outras garotas. É óbvio que ela só iria pensar que eu era um cafageste. O que ela não sabia é que eu tentava forçar me apaixonar por outras garotas pra fugir dela a todo custo. Mas sempre que eu levava um fora de outras garotas, aquele sentimento camuflado, no fundo do coração, voltava.

Mas o mais irônico disso tudo é que mesmo que não terminássemos juntos, eu ainda conheceria o amor. Isso então não faria sentido algum pra mim.

Desde fevereiro, a última vez que conversamos, já passaram seis meses. Mas dentro de mim parece que passaram seis anos. Viver cada dia desde então foi uma vitória. Como viver com uma pessoa longe dos olhos e dentro do coração? É impossível colocar num post todo o turbilhão de emoções que eu senti (e ainda sinto) nesses longos meses. O jeito de tentar esquecer ela de vez seria deixar de falar com ela. Mas como fazer isso se nós frequentamos os mesmos locais?

Eu sempre disse pra ela que eu sempre a amei. E amo mesmo, do fundo do coração. Não é paixão, aquele sentimento de posse. Se ela fosse ser triste do meu lado, eu jamais iria querer que ela ficasse comigo. Nesses longos seis meses de distância - não converso mais com ela, e ela até me cortou da lista de "amigos" dela, com toda a razão - eu sofri calúnias, sofri visões invertidas, sofri por pessoas me dizendo que eu era um idiota, e até mesmo sofri com pessoas que ficaram com raiva dela, dizendo que ela era uma vaca (e coisas piores).

E depois essa pessoa me xingava de volta dizendo que eu era um idiota por mesmo assim defendê-la quando pensavam coisas ruins dela. Mas só falei sobre ela pra umas três pessoas muito próximas de mim. Pelo menos da minha boca pouquíssima gente sabe. Fiz isso para protegê-la.

Se o que eu sentia por ela era um amor sincero, porque diabos eu ia querer o mal pra ela? Por mais que ela pisasse em mim, por mais que ela escrevesse coisas que eu passasse dias inteiros chorando, por mais que eu soubesse que ela estava saindo com outros caras, por mais que eu vivesse nesse eterna agonia, implorando aos budas que me permitissem... Viver.

Acho que a maior dor é essa dor dilacerante por dentro. Não é um frio na barriga, é uma geleira inteira. É uma vontade de cair no chão desmaiado, ou bater a cabeça e acordar como se tudo isso fosse um pesadelo. É esse desespero de ao mesmo tempo jogar tudo pro alto, ou tentar continuar em frente, mesmo que seja pouquinho.

Nesse meio tempo me colocava em várias situações. A primeira situação é se ela enfim conseguisse ter um namorado:

Por um lado eu sentiria uma dor indescritível. Se muitas vezes ao deixar o local que nós frequentamos eu subia aquela rua chorando pedindo pra deixar de sentir isso, resolvi mudar pra um sentimento de aceitação. Ela deve ser feliz. E deve ser feliz com quem ela quiser. E eu tenho que ficar feliz com a felicidade ela. Eu sou o Ross, ela é a Rachel, é impossível ela olhar pra um nerd babão, bobo e sentimental. Então comecei a colocar lentamente o sentimento de aceitação dentro de mim.

Sei que ela sai bastante com amigos, e sei que ela se apaixona muito fácil, assim como eu. Por mais que no meu peito, meu coração estaria estraçalhado em ver ela com outro, por outro lado eu tenho que ser forte, e aceitar que é ela quem diz com quem ela vai ser feliz, e não eu. Eu apenas tentei, e não deu certo. Tenho que desejar o bem pra ela, pois nunca foi um sentimento falho. Esse amor é esse sentimento imenso de querer ver ela feliz acima de tudo!

A segunda situação seria de ser pisado por várias coisas que seriam levantadas, ditas ou pensadas por ela contra mim.

Uma ponte pode unir um lugar com o outro. Mas não se esqueça que para as pessoas passarem para o outro lado da ponte, as pessoas têm que pisar na ponte. Tive que me livrar de qualquer forma de apego a mim mesmo, e aceitar ser pisado por ela. Quantas e quantas vezes eles agitaram passeios e eu não pude ir pois mal tinha um trocado pra almoçar? É claro que eu gostaria, mas isso tudo foi um imenso esforço de minha parte para continuar orando bastante e pedindo aos budas para que nunca deixassem faltar nada para que ela pudesse ser feliz, e incentivo muito que ela continue com todos os passeios dela, pois eu quero ver ela feliz. Mesmo que na minha cabeça eu imagine que sempre está rolando um encontro romântico com alguma pessoa, e isso me deixe com aquele sentimento de estar triste, frustrado e tudo mais.

Que ela não passasse aperto, e todo aperto que eu sofreria no lugar dela, e eu entenderia como uma forma de eu passar por isso para que ela fosse feliz. A mesma coisa podemos dizer sobre eu não falar mais com ela. Eu não falo com ela pois não quero correr o risco de nutrir uma intimidade novamente e com ela vir o que mais temo: esperanças. Não posso me declarar mais uma terceira vez, pois a primeira e a segunda vezes nos machucou muito. Se eu tenho que viver longe dela, é um sacríficio que eu faço pelo próprio bem dela. Para que ela consiga fazer as coisas dela, para que ela tenha seus amigos, seus namorados, seus passeios e até encontre um amor pra ela. Não posso ficar empatando. Minha missão é de apoiar de longe.

O que dizer essa angústia, dessa vontade de ficar junto dela? É péssimo. Antigamente eu era feliz só dela sentar do meu lado. Hoje eu sempre a vejo longe, distante, e sei que talvez em alguns momentos ela faça isso pra me proteger de alguma forma também. Mas ela não sente nada por mim. Uma tarefa que sempre foi difícil pra mim (e se você lê esse blog viu meus outros fantasmas) era saber conviver pacificamente depois do fora, sem atacar a pessoa. Afinal, depois do fora nós nos sentimos um lixo de seres humanos, não queremos nada com nada, e já que perdemos tudo não nos importaria perder o resto.

Mas eu sempre mantive uma meditação muito forte de querer o bem dela. Mesmo que eu tivesse que sacrificar todo aquele convívio bom que tínhamos. Mesmo que eu sentisse saudade de conversar com ela, e ter ela como a pessoa importante que era pra mim antes. Pois o amor que eu sinto por essa pessoa sempre foi algo verdadeiro e eu jamais negaria um sacrifício para que ela pudesse ser feliz. Nunca.

E a terceira situação seria o futuro.

Dizem que paixão dura meses. Mas parece que quanto mais tempo passa, mais eu sofro, e mais o sentimento aumenta. Quanto mais a luz fica forte, mais a sombra fica forte também. Quanto mais nutro um amor sincero por ela, mais o outro lado floresce, e eu sofro muito. Embora esse sofrimento eu sei que é como se eu suportasse todas as chibatadas pra proteger ela, é difícil imaginar o futuro assim. Se isso vai terminar, ou até onde eu conseguirei aguentar.

Será que uma pessoa comum, vivendo e sentindo isso que sinto, já não teria jogado a toalha? Certamente sim. A maior dor de viver com essa dor dentro da gente, por mais que saibamos que estamos fazendo isso com todo o amor do mundo pra proteger a outra pessoa, é que nunca sabemos como e quando terminará. Óbvio que eu não tenho esperanças nenhuma dela ficar comigo. E depois de tudo isso que eu fiz (e eu fiz muita merda) eu teria uma vergonha imensa se hipoteticamente ela ainda tivesse um sentimento amoroso por mim. Nesse momento, por vergonha de tudo o que eu fiz e disse pra ela, eu não conseguiria aceitar os sentimentos dela, isso é, se existissem. Mas isso está descartado, pois ela não sente nada por mim. E jamais sentirá.

Mas o sentimento vem aumentando cada vez mais, e muitas vezes chego novamente em um beco sem saída, pois os caminhos vão ficando cada vez mais e mais difíceis. Pesadelos se tornaram mais comuns, a dor no peito já é praticamente uma rotina, a angústia de ter que enfrentar isso de frente e me manter longe dela, a saudade que sempre bate na porta, a incapacidade de fazer algo sabendo que o coração por ela ainda bate forte, e o julgamento que eu faço contra mim mesmo condenando isso. Isso sem contar as garotas que eu tento arranjar pra fugir dela, mas parece que tudo conspira contra, até mesmo que tenho o desejo sincero de encontrar outra garota pra fugir e enterrar ela de vez no meu coração. Simplesmente nada dá certo.

Muitas vezes olho pra cima e me pergunto se os Budas têm dó de mim. São meses sofrendo, e eu não aguento mais. Sei que extrapolei meu limite há muito tempo, e cada vez mais por mais que tente acalmar o meu coração, eu não consigo. Eu quero que ela seja feliz. Eu não ligo do que vai acontecer comigo. Esse sentimento todo é algo sincero que eu faço para proteger ela, pois eu quero que ela seja feliz! Eu quero que ela encontre alguém, eu quero que ela consiga enfim superar os medos e os receios que ela deve superar. Eu quero que ela termine a faculdade dela. Eu quero que ela tenha ao lado alguém que ela realmente ame de todo o coração.

Será que esses desejos já não são sinceros o suficientes para que eu não precise carregar todo esse fardo que eu devo carregar?

Será que ela vai continuar como um fantasma, com a presença dela me rodeando e eu lutando com essa ambiguidade dentro de mim, de uma pessoa que quer ela seja feliz ao mesmo tempo que eu nutro um sentimento por ela maior que eu mesmo que me coloca em luta contra mim mesmo?

Se eu tivesse uma máquina do tempo, roubaria de Marty McFly e voltaria meses atrás e me convenceria de todas as formas do mundo a fazer absolutamente nada. De deixar daquele jeito, pois me declarar e expor os sentimentos pra ela foi a maior burrice que eu fiz na minha vida. Arruinei uma amizade, companheirismo, e tudo o de bom que eu sentia por ela para hoje viver com um fantasma. E eu me arrependo completamente, dia após dia, pois tudo isso que passamos de sofrer calado todas as humilhações, desespero, angústia e frustração é de nos matar de pouquinho em pouquinho a cada dia. Frustração em doses homeopáticas.

Mesmo se pudesse voltar no passado, sei que eu não conseguiria me convencer de não me declarar pra ela. Eu me conheço e sei da esperanças e sei o quão sincero era esse sentimento por ela. Por mais que eu esteja horrível e no meio de uma crise de depressão profunda atualmente, sei que ter a resposta dela - por mais dura que fosse - me deixa dormir tranquilo pensando que eu fui corajoso em me declarar e de não ter fugido como fiz com várias outras.

E cada dia piora. E a gente entra em depressão. As dores pioram a cada dia, e nós não conseguimos ver um futuro na nossa frente, exceto muita dor, angústia, e sofrimento.

E continuar do fundo do coração, torcendo para que essa pessoa enfim seja feliz. Pois no fundo, no fundo, o que sempre me moveu foi ver ela esbanjando aquele sorriso lindo dela, e ela junto de outra pessoa felizes para sempre. Mesmo que o custo disso tudo seja minha própria vida.

Uma vez ela me disse: "E se eu disser que eu tenho namorado, você vai me deixar em paz?". E eu disse pra ela: "Eu não ligo de você ter um namorado. E eu tenho certeza que nenhum homem nesse mundo vai te amar do jeito que eu te amo". Talvez um dia, daqui a alguns anos, talvez ela, mais madura, olhe pra trás e veja que se teve uma pessoa que a amou mesmo com todas as forças, que a apoiou, que esteve do lado dela, que a defendeu e que por mais que estivesse muito mal sempre orava e fazia mil sacrifícios para que ela fosse feliz, para que ela saísse para comer os hambúrgueres dela, para que ela mantivesse os círculos de amizade e que ela continuasse mostrando esse jeito único e apaixonante dela pros outros fui... Eu.

E esses sacríficios sempre valerão a pena quando mesmo que eu não possa ver o sorriso dela, eu saiba que ela está oferecendo aquele sorriso dela pra outra pessoa.

Talvez um dia ela entenda esses sacrifícios. Absolutamente tudo o que sacrifiquei terá valido a pena quando enfim vê-la... Feliz.

E hoje?
Fico feliz em ver que ela está cada vez mais saindo, que não está passando nenhum aperto, que sua família parece enfim estar estável e que mais do que nunca está se dando muito bem no seu trabalho. Sinto muito mal quando ela tenta vir conversar comigo, fazer algo que me faça rir, e eu me seguro pra não demonstrar nada. Sei que ela tenta, e sei que de vez em quanto ela me ajuda de certa forma. Mas ainda assim, não posso fraquejar, nem abrir brecha pra voltar a amizade. Temos que viver assim, pois só assim ela será feliz.

Uma canção?
Pode ser duas? E bem bregas, hehe. Vida Cigana, e sua poesia: "Por algum tempo que eu vou ter que viver por aqui, longe de você, longe do seu carinho... E do seu olhar". Que dureza viver longe de você.

E a outra é a que melhor define que de todas as garotas que passaram na minha vida, nunca teve uma como ela: "Amor igual ao teu, eu nunca mais terei... Amor que eu nunca vi igual, que eu nunca mais verei". Pois é. Igual a esse acho que só uma vez na vida mesmo.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Doppelgänger - #93 - O Monumento.

15h20

"Pode comer tranquila. Desculpa, sei que aqui não é um lugar muito bom, mas acho melhor não chamarmos muito a atenção", disse Nataku.

Ao seu lado estava Eliza Vogl, comendo um burrito barato. Estavam num restaurante mexicano, perto do distrito bancário de Londres. Na sua frente estava a King William Street, que dava em um dos pontos mais emblemáticos da City londrina: O Monumento (The Monument).

"Você não vai comer nada?", perguntou Vogl.

Nessa hora Nataku ficou surpreso. Eliza Vogl era uma menina muito bondosa acima de tudo. Deixou mais ou menos metade do burrito para seu amigo.

"Desculpa, Liza... Eu não estou com muito estômago", disse Nataku, apreensivo.

Afinal, lá fora estava Schwartzman, caçando-os em algum lugar.

"Entendo. Mas olha, é melhor comer alguma coisinha. Você tá praticamente de jejum ainda. Eu já estou satisfeita. Eu sou pequena, eu como pouco", disse Eliza Vogl, sorrindo.

Aquele sorriso ingênuo havia tocado o coração de Nataku. Ás vezes se perguntava se era ele mesmo que protegia a pequena Vogl ou se era o contrário. Já tinha uma meia hora desde que ligado pra Agatha. Por um motivo que ele não entendia ele sabia que Agatha van der Rohe era a única pessoa que ele poderia confiar. Havia algo inexplicável pra ele. Ela o transmitia segurança.

"Nataku, eu acho que você não deve ter perdido totalmente sua memória", disse Vogl.

"Ah, como é?", disse Nataku, tentando entender.

"É verdade que talvez seu cérebro tenha sido danificado ao ponto de perder partes da memória, mas o cérebro é um baita de um mistério. Você mesmo me disse que tem lapsos de memória, de pessoas que você foi, lembranças perdidas, mas sem dúvida são resquícios do que sobrou do tal Lucca que você foi um dia. Afinal, suas habilidades como membro da Inteligência não foram perdidas", disse Vogl.

Aquilo fazia sentido. Mas não preenchia as imensas lacunas. Pelo menos não ainda.

Os dois terminaram o burrito e saíram para andar nas ruas da City, com o sol se pondo. Nataku puxou conversa.

"Porque exatamente o Ar quer fazer isso com você? Pensando bem, todas as informações de provas poderiam ser conseguidas com outros cúmplices dele. Não entendo o motivo pra quererem sua vida", disse Nataku.

"As provas contra o Ar não são nada se não tiver alguém que possa parar os planos dele. E somente eu sei do sistema o suficiente para pará-lo", disse Eliza Vogl.

"Você sabe do plano?", perguntou Nataku.

"Sei por cima. Mas não sei datas, nem pessoas envolvidas. Pode estar acontecendo agora, com pode acontecer daqui a cinco anos. O que eu sei é como a máquina funciona. E como parar. A senhora Saunders também tinha o mesmo conhecimento, obviamente", disse Vogl.

"Entendi. Por isso o governo protegeu tanto a senhora Saunders. Mas ninguém, exceto a própria Saunders sabia da sua existência. Acho que no fundo ela tentou te proteger, não?", disse Nataku.

"Exato. O Ar recrutou um exército de pessoas da Inteligência pra lutar pelos ideais dele. Embora ele tenha o controle da mídia e do sistema econômico, existe ainda as engrenagens desse imenso sistema que ele criou", disse Vogl.

Nataku e Vogl estavam chegando na frente do Monumento do Grande Incêndio de Londres.

"Engrenagens?", perguntou Nataku.

"Sim. Ar criou um sistema muito engenhoso. Existe um supercomputador, o VOID, uma Inteligência Artificial, algo tão secreto que acho que nem mesmo seus amigos sabiam. Esse computador rastreia e sabe de todas as operações bancárias do mundo, além de ser a que move o dinheiro de um lugar pro outro. Foi um dinheiro enorme investido pelo exército, o Ar conseguiu investir ainda mais para que esse computador fosse inteligente o suficiente para tomar as decisões mesmo que ele seja preso. Por isso Ar sempre está a um passo a frente. Ele sabe tudo o que acontece por meio do VOID. E está espionando todos vocês, afinal hoje em dia tudo é feito pelo computador. É simples", disse Vogl.

"Nossa. E onde diabos esse negócio tá?", perguntou Nataku.

"No lugar mais seguro de todo o Reino Unido. Mais ainda que o 10 Downing Street. Em um cofre, na sede do Banco da Inglaterral", disse Vogl.

Nataku se sentiu frustrado. Esse lugar é impenetrável.

"A influência dele é inegável. E como é um computador forte como é, o principal é proteger o hardware dele. Faz sentido colocar num cofre. Tô me sentindo meio que num filme do Exterminador do Futuro", disse Nataku, com um sorriso amarelo.

Porém Eliza Vogl sorriu. E deu até uma gargalhada.

"Você é engraçado!", disse Vogl.

"Mas supondo que o Ar seja pego, e o VOID parado, ainda existiriam vários agentes por aí que seguem os ideais malucos do Ar. Como parar isso?", disse Nataku.

"Para isso precisam de um jornalista bom. O único jeito é levar essa história pra ser publicada numa mídia externa. Como os leaks que acontecem hoje em dia. Aconteceria provavelmente uma guerra interna entre agentes da Inteligência, muitos poderiam perder o emprego ou serem até caçados, mas é a única maneira", disse Vogl.

"E a economia mundial?", disse Nataku.

"Esse é o ponto mais complicado. Na verdade é uma variável. Sem o VOID e menos ainda o Ar causando destruição e riqueza em lados diferentes do globo, novamente a economia virará um faroeste. Não vivemos num mundo onde existe apenas um John D. Rockefeller com todo o dinheiro do mundo. O dinheiro está muito distribuído, e existe muito mais dinheiro rolando no mundo hoje em dia. Só que ao invés das carniças, eles iriam direto pra carne. E sabemos que empresários são seres bem egoístas. Vão querer mais e mais dinheiro. E o futuro do mundo está bem obscuro para depois desse ano de 2012. Isso é, se o plano do Al dar certo", disse Vogl.

"Sim. Talvez aí sim que a Crise Econômica que começou com o Ar em 2008 continue por muitos anos ainda", disse Nataku, cabisbaixo.

"Além do VOID, existe uma outra fissura no sistema do Ar. O Legatus tem uma falha muito grave. Hoje em dia grande parte do dinheiro que circula no mundo é baseado em créditos eletrônicos, que ganham valor graças a títulos do governo. Só que pro dinheiro se multiplicar, o Legatus pega os créditos criados e empresta dinheiro a si mesmo. Não parece fazer sentido, mas isso é perfeitamente aceitável dentro do mundo bancário. Bancos podem emprestar dinheiro a si mesmos e criar dívidas dentro de si mesmo para criar dinheiro em créditos eletrônicos do nada", disse Vogl.

"Uau, você é um gênio mesmo, Vogl", disse Nataku.

"Mas tem uma falha nesse sistema. Se pressionar, destruiria o Legatus, e toda a fortuna que o Ar criou com toda essa especulação", disse Vogl.

Mal Eliza Vogl terminou sua fala quando enfim a dupla chegou na frente do Monumento. Na frente deles a pilastra dórica se erguia até além dos prédios da City londrina. Mas atrás deles estava ninguém menos que Schwartzman, seguindo-os sorrateiramente.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

A fantasma da Discórdia.



"Nunca troque amigos por buceta".

É um provérbio que nós homens usamos muito. E, embora eu pensasse que amizade seria uma coisa firme, fácil de se conseguir, e que nunca iria se abalar com nenhuma garota, o que aconteceu nesse caso foi exatamente o inverso.

Bom, essa menina era uma japonesa tampinha. Ela estudou na faculdade comigo, mas ela era de um semestre diferente. Ela era super simpática e jeitosinha. Era bem bonita também! E ela tinha feito amizade com vários caras de vários períodos, quase todo mundo que cursava ali a conhecia. E, por ela ser essa pessoa com super desenvoltura, muitos também achavam que conseguiriam algo com ela. Eu lembro que ela sempre ganhava coisas - de ursinhos a chocolate - de vários caras. Todo mundo estava sedendo pela menina!

E eu, solteiro, em época de faculdade, achava que conseguiria alguma coisa. Eu sei que tem muito homem super covarde por aí, mas eu nunca tive medo de me arriscar não (mentira, eu sou super cagão, mas por algum motivo eu ainda assim tento). Ninguém aparecia afim de mim, o jeito era correr atrás de alguém que pudesse ficar afim de mim!

Só que a menina sabia, obviamente, das minhas intenções. Eu costumo dar muitas investidas e indiretas antes de tentar algo. Ok, nunca funcionou, mas sei que chegar de cara assusta 98% das mulheres, então pra que esgotar as chances indo direto ao pote? E nesse meio tempo eu era muito amigo de um casal de amigos que estudavam comigo. Nós três éramos unha e carne, sempre fazíamos trabalhos juntos, frequentavamos a casa um do outro, saímos juntos no fim de semana, enfim. Esse casal de amigos eram realmente grandes amigos meus.

O problema foi que essa japonesa tampinha que eu estava afim praticamente pediu pro meu amigo (esse do casal) pra dizer pra eu cair fora do barco, pois ele estava afundando. Só que esse meu amigo não soube como me falar, e ele tentava ainda assim falar bem de mim pra ela e assim me dar uma chance com ela. Só que eu não encarei desse jeito e achei que ele estava furando meu olho, me empatando com a tal japonesinha. Por exemplo: sempre que eu estava querendo conversar com ela, ele chegava no meio, ou sempre onde ela estava ele estava lá antes, enfim, era muito frustrante.

Não vou entrar no mérito aqui que a menina não foi nem um pouco anti-ética em não ter sido mulher o suficiente e vindo falar comigo de frente. Pois ela não o fez.

Só que esse casal acabou se separando no meio dessa coisa toda. Eles brigavam muito naquela época. E eu, de vingança, fui dar em cima da namorada dele (que durante aqueles sete dias era tecnicamente solteira) já que todos diziam que nós nos dávamos super bem, e que eu a faria muito mais feliz que o namorado dela. E ele também aproveitou e chegou nessa japonesinha que queria nada comigo. Só que nós dois tomamos duas botas - eu, por ter dado em cima da ex-namorada dele, e meu amigo por ter dado em cima da japonesa tampinha.

No final o casal reatou. E nós ficamos brigados por muitos anos.

Mas ano passado passamos uma régua nisso e deixamos isso de lado, reatando a amizade. A japonesa tampinha no outro semestre sumiu. O furacão que a menina foi, despertando os hormônios e a vontade de procriação de todos aqueles machos, incluindo eu, caiu fora da faculdade.

Mas não por conta da gente, e sim pois ela não curtiu o curso mesmo.

E hoje?
Ela se formou em cinema, e mora no Canadá. E namora um alemão. E já estão juntos há muito tempo. Ela virou super radical, toda tatuada, meio feminazi, e tal. Estudando bastante e firme buscando um trabalho na área dela.

E o casal de amigos continuam juntinhos até hoje! Eu brincava muito dizendo que: "Se eles voltassem depois dessa briga, pode ter certeza que iriam ficar para sempre juntos". Dito e feito! E claro que voltei a amizade com esse casal, e hoje está tudo bem. Já essa japonesinha, assim como todas as outras, nunca mais a vi. Isso tudo foi o que eu ouvi por terceiros sobre ela.

E aprendi a lição: Nunca mais trocarei amigos por buceta. Amigo do peito nenhum vale a pena ser trocado por nenhuma menina.

Uma canção?
Eu ainda gostava bastante de J-Rock nessa época. Ain't afraid to die sempre me fazia pensar nela!

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Doppelgänger - A história dentro da história (10)

Essa é uma estória de amor.

Início de 1986

"...o contato é Ramachandra Bose, tenente da SAS, será ele quem...", dizia Arch, dando o briefing da missão.

Porém, Lucca estava de olho em outra coisa.

Do outro lado da sala estava uma belíssima asiática. Seus traços eram finos, seus lábios eram ligeiramente grossos, e justo naquele dia ela estava com um lindo batom vermelho. Seus seios pareciam pequenos, mas bem firmes, e sua pele dava pra ver que era clara como seda. Embora o tipo físico de asiáticas era de mulheres com troncos grandes e pernas curtas, ela era o oposto disso. Suas pernas eram longas e tortas - como a de asiáticas comuns - e seu bumbum tinha aquele formato quadrado que elas normalmente têm.

Mas pra Lucca, aquelas pernas tortas e magrelas, e a bundinha quadrada era incrivelmente sexy.

"...alvo em questão é Siegfried Vogl. Alemão. Parece que tem ligações com o...", disse Arch, fazendo uma pausa depois de ver que Lucca estava distraído olhando pra uma recém chegada do Sector 9, uma japonesa da inteligência nipônica, Noriko Yamamoto, "LUCCA! Preste atenção!", gritou Arch.

"Ah!", disse Lucca, pulando de susto, "Desculpa Arch. Eu estou prestando... Agora". Todos riram do susto depois do grito de Arch.

Lucca era o braço direito de Arch nos tempos da Inteligência. Os dois sempre iam a diversas missões juntos, e se tratavam com muita intimidade. Eram grandes amigos. E mais tarde, no jantar, ambos conversaram no refeitório do prédio da Interpol.

"Escuta Arch, aquela novata, a Yamamoto. Sabe se ela tá solteira?", perguntou Lucca.

"Sim, ela está solteira. Porque a pergunta?", perguntou Arch.

"Ora, é óbvio! Ela é muito bonita, né?", disse Lucca.

Arch olhou sério pra Lucca. Segundos depois o olhar sério virou deboche e ele riu acidamente para Lucca.

"Qual é...? Sabe o que eu li? Que nós buscamos etnias diferentes para o coito, como se buscássemos genes que não temos no nosso DNA pra procriar. Por isso dizem que nos apaixonamos por tipos totalmente diferentes dos nossos. Você com essa cara de pizzaiolo italiano afim de misturar seus gametas com aquela filha de sushiman", brincou Arch.

"Olha Arch... Com essa aí eu misturaria é tudo. Como é linda!", disse Lucca.

"Só não deixe isso atrapalhar o trabalho, sim? Fiquei sabendo que ela é muito difícil. Abre o olho!", disse Arch, terminando o jantar.

E então Lucca e Yamamoto começaram a trabalhar juntos. E foram se conhecendo cada vez mais. Meses depois já haviam começado uma amizade. Mas Lucca sabia que ela era realmente muito difícil. E que por mais que ele se esforçava, jamais conseguia direito um tempinho com ela. E aquilo só dava mais e mais vontade.

Homens são seres bem podres. Quem escreve isso é um homem, e eu melhor que ninguém sei que homens são seres muito podres. Talvez se Noriko Yamamoto fosse das mais fáceis, independente de ideais feministas ou não, Lucca teria feito o que ele queria e deixado ela de lado. Mas de fato, Noriko Yamamoto era uma pessoa extremamente seletiva. E ela preferiria um namorado asiático, de preferência japonês, como ela. Seus pais sempre a fizeram sentir orgulho dela mesma. E ela, mesmo no padrão japonês, era uma mulher muito atraente, sempre atraindo os olhares nas ruas. Para ocidentais então, era muito mais linda. Um tipo que atraía de ocidentais e orientais.

Ela sempre dava desculpas para não encontrar com Lucca. Para homens cafagestes Noriko estava bem vacinada. E ainda mais por ser muito bonita, ela sabia que essa mesma beleza deixava os homens ao seu redor bastante tensos. Homens têm medo de mulheres bonitas. E quando a mulher é bonita e ainda muito difícil, menos homens ainda tinham coragem de tentar algo.

Mas a sede de Lucca era maior.

E aí ele começou a olhar ela de outra maneira. Como a amizade foi florescendo, ele viu que ela não era apenas um rostinho bonito. A cena que ele mais recordava com carinho foi quando ela fez um tsuru - o passarinho de origami japonês - pra ele.

"Bom, eu e a Émilie vamos nessa. Você vai ficar ainda aí?", disse Arch.

"Espera aí que eu vou também. Eu que sou o motorista da rodada, lembra?", disse Lucca.

Eles estavam num bar, confraternizando o sucesso em mais uma missão. Todos estavam desde o começo, mas quanto mais a noite ia chegando, mais eles iam embora. E na mesa só tinha ficado Arch, Émilie, Lucca e ela, Noriko Yamamoto. Lucca estava sem sorte, pois seria a pessoa quem daria carona. Não ia beber, pois dirigiria o carro. Mas ficou surpreendido com o que Arch, já meio bêbado, com a Émilie amparada pelo próprio Arch - também meio bêbada - haviam decidido algo diferente naquela noite.

"Vamos pegar um táxi. Mas não vai beber, hein! Leva a japonesa pra casa. Se comporta..", disse Arch.

E Lucca enfim estava sozinho com a Yamamoto. Mas depois de meses de convivência, depois de tanta amizade, ele nem sentia mais tanto tesão. Sentia tesão, claro, mas era algo diferente. Ela não era mais aquele corpo branquelo com as pernas tortas, peitos empinados e bunda quadrada. Noriko era uma mulher inteligentíssima, e tinha umas manias muito parecidas com ele, como trancar e destrancar a porta duas vezes antes de sair, alergia a amendoim e era boa de desenho. Além de gostarem de Beatles e música latina.

Além de bonita, ela era gente boa também!

"Ai, ai... Chega. Se me derem mais um Cosmopolitan eu vou vomitar", disse Yamamoto.

"Acho que é melhor você beber água. Toma isso aqui", disse Lucca.

Noriko Yamamoto bebeu dois goles. Mas tudo parecia girar. Ela perdeu a conta e estava tomando um porre.

"Sabe Lucca, você é legal", disse Noriko, bem bêbada, "E eu sei que você é doidinho pra me comer, seu canalha. Mas eu não vou te dar... Não, não, não. Essa periquita aqui tá reservada só pra pintos selecionados. Ninguém entra aqui de oba-oba".

"Noriko, fala mais baixo, estão olhando pra cá, hehe", disse Lucca, sem jeito, com um sorriso amarelo. Noriko estava realmente muito alterada.

Por mais que estivesse muito alterada e alegre, Noriko ainda tinha plenas faculdades. E pegou um guardanapo e começou a dobrar algo. Aquilo parecia uma máquina, cada coisa dobrada parecia milimetricamente planejada. No final, quando percebeu, um passarinho japonês, um tsuru, estava feito. Noriko entregou pra ele.

"Pegue. Esse passarinho traz sorte. Pode ser que te dê sorte pra conseguir o que você queira", disse Noriko.

Foi aí que Noriko ficou quieta. Seus olhos ficaram marejados, e Lucca não sabia o que estava acontecendo. Parecia olhar do nada, seu corpo ereto, sentado na cadeira. O italiano ficou na dúvida do que estava acontecendo e se levantou, ficando do lado dela em pé. Colocou o tsuru no bolso do blazer.

"Noriko, tá tudo bem contigo?", disse ele, dando uns tapinhas. Ela parecia estar em transe.

Depois disso Noriko Yamamoto vomitou na calça de Lucca. O cheiro do alcool, misturado com os snacks comidos naquela noite, misturado tudo com suco gástrico produziram uma obra aromática que incomodava o bar inteiro. A menina poderia ser bonita por fora, mas por dentro havia algo muito podre. Lucca a pegou, pediu desculpas pro dono do bar pela bagunça e a levou pro carro.

Ele resolveu levar Noriko pra casa dela. Ela estava começando a recobrar a consciência, conseguiu colocar a chave e entrar no seu pequeno apartamento. Ela foi até o quarto dela e deu uma toalha pra ele tomar um banho. Lucca tomou um banho, vestiu um roupão que ela tinha (já que ela não tinha nenhuma roupa masculina no armário) e Lucca sentou no sofá esperando por ela.

Noriko ainda estava um pouco bêbada. Andava com dificuldade. Ao levar coberta pra Lucca que estava no sofá ela simplesmente caiu em cima dele.

Era enfim a chance do italiano de transar com ela.

Mas Lucca não o fez.

Nem ele sabia o motivo.

Por mais que ele tivesse aquele desejo inicial por ela, esse tempo de convivência, e a amizade, fizeram ele sentir o oposto. Se eles fizessem sexo naquele momento provavelmente estragaria tudo. A amizade, o companheirismo, e tudo aquilo que era mais importante que o corpo e seu rosto lindos que tanto o atraiam.

E ele pegou e deixou ela no quarto. Noriko agarrou num sono. Lucca voltou pra sala e dormiu no sofá, longe dela. O italiano ainda acordou com o sol raiando, lavou suas roupas, passou na secadora, e saiu discretamente. Provavelmente nem Noriko percebera que ele saiu. Menos ainda que tanta coisa tinha acontecido naquela noite.

No dia seguinte, depois do almoço, Lucca encontrou Noriko nos corredores da Interpol. Ele foi em direção dela.

"Noriko, tudo bem? Podemos conversar um minutinho?", disse Lucca.

"Claro! Pode falar", disse Noriko.

"Olha, Noriko... Na verdade eu nem sei por onde começar. Falar com mulheres nunca foi um problema, mas eu tô aqui tremendo. Ha-ha! Engraçado, né?", disse Lucca, que de fato, tremia.

Noriko olhou com estranheza.

"Escuta, eu sei que isso é meio estranho, ainda mais por sermos amigos. E não vou negar que eu sempre achei você muito bonita! E provavelmente eu queria apenas uma noite com você. Mas olha... Nesse tempo todo da gente conversando, vi que a gente tem muito a ver! E nos damos muito bem com nossa amizade", disse Lucca, pegando na mão de Noriko, que continuava com os olhos arregalados, de surpresa, "Por isso eu estava pensando em levar isso pra um outro nível. Se você quiser, é claro!".

Noriko Yamamoto estava simplesmente muda.

"Noriko, você quer namorar comigo?", disse Lucca.

O coitado tremia de medo. É muito difícil descrever o que um homem sente nesse momento. Ficamos ao mesmo tempo com coragem e muito amedrontados. Sabemos que queremos arriscar, queremos que essa pessoa tente entender o nosso sincero sentimento. Muitas coisas passam nas nossas cabeças, mas apenas uma certeza é plena: de que chegamos num momento que não podemos mais viver sem essa pessoa.

E os momentos com a pessoa duram parece que milésimos, e os momentos longe parece que duram séculos. Se pegam pensando nela, querendo saber como ela está, se pode simplesmente estar quietinho do lado delas, ou apenas olhar pra ela uma vez, ouvir a voz doce dela. Como é duro ter uma pessoa longe dos olhos e dentro do coração.

Amor é como uma droga. Tomamos o alucinógeno que é a presença da pessoa, nosso coração palpita em adrenalina, queremos dar desculpas pra estar ao lado da pessoa, e ao mesmo tempo quando essa pessoa se vai sentimos uma falta imensa, como se algo faltasse em nós.

Noriko Yamamoto não era apenas um rostinho bonito. O que havia dentro dela era uma pessoa muito gentil e bondosa. Alguém que Lucca não queria apenas por uma noite. Ele queria ela pra sempre! Uma pessoa pra compartilhar vida, andarem juntos, apreciarem a vida juntos. Talvez até filhos. E sairiam filhos bonitos! Pelo menos com os dois super bonitões. Lucca não queria mais ela apenas para uma noitada. Queria ela pra sempre!

"Olha Lucca, você tem certeza mesmo?", disse Noriko, puxando sua mão, que estava com Lucca.

Lucca não tinha nada a oferecer pra ela. Exceto a sinceridade do seu sentimento.

"Claro que eu tenho! Por favor, me dá uma chance!", disse Lucca, se aproximando alguns passos dela.

Noriko deu alguns passos pra trás.

"Nós somos muito diferentes. Acha mesmo que vai dar certo?", disse Noriko, dando passos pra trás.

"Sim! Eu sei. Mas pense que isso nos complementa. Eu quero muito te fazer feliz. Eu quero muito que isso não fosse apenas uma amizade!", disse Lucca, avançando alguns passos.

"Você tem toda essa fama de conquistador barato. E se você apenas me quiser por uma noite?", disse Noriko, ainda se afastando de Lucca, dando uns passos pra trás.

Porém, Noriko encostou numa pilastra. Era uma parede do corredor. Não tinha mais pra onde se afastar. Então ela parou. Lucca, ao invés de avançar, parou na frente dela.

"Não quero você apenas por uma noite. Não pense isso de mim. Eu te amo, te amo muito! Não quero você por uma noite, pelo contrário. Quero você por todas as noites pelo resto da minha vida", disse Lucca, que parou de avançar, ficando parado na frente de Yamamoto. Ele não tinha motivos mais pra avançar. Era tudo ou nada.

Os dois se olharam. Olhos nos olhos. Parecia que a sinceridade do sentimento de Lucca havia chegado em Yamamoto.

"Então tá, vai. Mas se você fizer alguma coisa... Olha, você vai ser só comigo!", disse Noriko, que nem soube completar a frase.

Lucca sorriu. Um sorriso amplo e sincero.

"Que ótimo!! Posso te beijar?", perguntou Lucca, totalmente sem jeito, mas igualmente bonitinho.

"Seu idiota...", disse Noriko, "...Isso é coisa de se perguntar?".

E foi a japonesa dessa vez quem avançou e lascou um lindo beijo no italiano.

- - - - - - -

Meados de 1987

Noriko leu atentamente a caixa do teste de gravidez. Depois disso, leu novamente. E depois de novo. Ela nunca imaginara que passaria por aquela situação. A menstruação dela já estava atrasada há quinze dias, e ela estava começando a se sentir tensa.

Ai, Noriko, porque nessa pressa toda esqueceu justo de tomar a pílula? Vamos lá... Não deve ser nada isso, pensava ela enquanto pegava o potinho pra urinar dentro.

Molhou o teste e deixou. Releu a caixa. Três minutos. Os três minutos mais longos da vida dela. Se olhava no espelho, de roupão, e ficava pensando como seria quando uma criança aparecesse ali. Como ficaria a barriga de gestante. E os peitos, aumentariam? Naquela hora muitas coisas passaram pela sua cabeça. Foram tantas coisas que os três minutos passaram como três segundos. E ela pegou o teste e comparou com a caixa, lendo em voz alta.

"Se uma linha rosa aparecer, significa que está grávida", e ela virou o olho pro teste. A cor rosa brilhava, viva como nunca.

Ela jogou o teste no lixo e sentou no vaso. Seus olhos começaram a lacrimejar de desespero. Agora ela carregava um filho na sua barriga. Uma nova vida daqui a nove meses chegaria ao mundo. Um fruto do amor dela com Lucca. Como que por obra do acaso Lucca entrou no apartamento, justo naquela hora.

Noriko lavou o rosto, enxugou as lágrimas. Quando ouviu a voz do seu amado ela ficou mais tranquila. Se fosse pra alguém ser o pai daquela criança, não tinha pessoa melhor do que o homem que ela mais amava.

Mas ainda assim ela não contou nada pra ele. Achou que ainda não fosse o momento.

Porém, pro seu azar, semanas mais tarde começou o processo do expurgo de Arch. E Lucca teve que se exilar, pois foi caçado por ser o braço direito do traidor Arch. Noriko, que tinha tantos planos de constituir família com seu amado no final nem mesmo chegou a contar pra ele sobre a novidade. Passou o pré-natal sozinha. Deu a luz sem o pai da criança, enquanto seu amado era caçado por ser o braço direito do traidor Arch injustamente.

Seu filho, uma linda criança mestiça e saudável foi raptada por Émilie. Mas essa é uma outra história. Hoje esse filho já é grande, tem a mesma idade de Ar. E vive feliz junto de Noriko Yamamoto no Canadá.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Doppelgänger - #92 - Quando o coração da gente se apaixona.

"É realmente um material bem valioso que você pegou, Agatha", disse Neige, abrindo o HD.

Victoire, Neige e Agatha estavam na nova central temporária deles - um hotel barato em um local afastado de Candem Town, pelo menos até que outro local seja alugado. Não que dinheiro fosse problema, todos tinham bastante reserva. Inclusive Agatha, uma traficante internacional de armas. Mas pelo menos era possível verificar todos os dados que todos haviam coletado em um abrigo.

"Ótimo. Esses e-mails valem bastante. Mas preciso analisar todos o mais rápido possível. Quem era no telefone agora há pouco?", perguntou Neige.

"Era o Nataku", disse Agatha, "Ele disse que eu sou a única pessoa em quem ele confia. Não sabe da onde vem isso, mas sempre sentiu que poderia confiar em mim".

"São as memórias do Lucca. Ele sempre teve você como grande amiga, não?", disse Victoire.

"Sim. Vou dar uma saída pra ver como ele tá", disse Agatha, que de súbito parou na porta e se virou, "Se comportem", ela ressaltou.

E novamente Neige estava sozinho com Victoire. Ele estava já acostumado com isso. Via que a francesa sempre ficava na janela, de olho no movimento, enquanto ele ficava atrás dos seus óculos de grau olhando pra tela do computador.

Mas volta e meia olhava pra ela.

Tudo bem que eles não se conheciam há tanto tempo. Menos ainda eram amigos, ou íntimos. Mas havia algo que o atraía nela, e ao mesmo tempo o deixava longe de Victoire.

Não... Melhor não. Mulher que é apaixonada por outro cara é sempre uma furada. Ela nunca vai deixar de gostar do cara e olhar pra mim. Aliás, porque raios eu tô pensando nisso? Tenho um monte de coisa pra fazer... Mas não consigo me concentrar com ela aqui. Droga..., pensou Neige.

Nessa hora Victoire viu que ele estava olhando pra ela.

"Que foi? Tem alguma coisa na minha cara?", perguntou Victoire, rude.

"Ah, n-não", disse Neige, gaguejando, "Nada não, desculpa. Me distraí".

Neige virou pro computador. Sua mente estava em outro lugar.

Acho que é errado nutrir sentimentos por ela. Ela gosta do Al. Mesmo que ele não goste dela... Porque mulheres têm que ser assim? Ficar insistindo, insistindo... Se bem que homens também são assim. E outra, será que ela olharia pra mim? Não. Não dá pra nutrir algo por alguém que está apaixonado por outra pessoa, pensou Neige.

Foi apenas um olhar de relance. Mas quando ele virou os olhos pra Victoire, viu que os olhos dela estavam também olhando pra ele, e os olhos dos dois se encontraram, mas rapidamente ela virou o rosto pro outro lado e ficou olhando pra janela.

Esses encontros do olhar... Ai, ai... Será que eu tenho chance? Acho que não, né. Não dá pra nutrir sentimentos por ela. Pensa bem, ela é cheia de defeitos. Ela é toda viajada, mente no espaço, além de ter essas oscilações. Fica vivendo nesse mundo achando que o Al vai aparecer com um cavalo branco. Mas e aí? Será que eu conseguiria aceitar esses aspectos ruins dela mesmo assim? Será que se eu nutrisse um sentimento por ela, esse sentimento seria forte o suficiente pra não ficar idealizando e aceitar os aspectos ruins dela também?, pensou Neige.

Ele estava tão focado em parecer estar distraído pra Victoire que Neige nem percebeu que ela estava do lado dele. Sentada no sofá do quarto. Ele percebeu que ela estava do seu lado e tomou um susto. Sua mente nem estava no computador. Estava mais longe que isso.

"E aí? Alguma novidade?", perguntou Victoire.

Neige olhou pra tela, ficou encarando durante alguns segundos, depois voltou o olhar pra Victoire.

"Me desculpa... Eu estou tentando me concentrar, mas não consigo fazer absolutamente nada", disse Neige.

Puta merda! O que foi que eu disse!! E agora? Será que ela vai pensar que é por causa dela que eu não consigo me concentrar!! Edward, sua anta, e agora? O que ela vai pensar? Será que vai achar que isso foi uma indireta?, pensou Neige.

"Você deve estar cansado. Vou buscar um café pra você lá embaixo no Café Nero. Açúcar ou adoçante?", perguntou Victoire.

Foi aí que Neige viu que o que ele pensou que ela entenderia de um jeito, ela entendeu de outro. E viu a imensa distância de mil cento e noventa milímetros que os afastavam. Uma muralha intransponível. Poderia ser apenas um metro e dezenove, mas eram mil cento e noventa milímetros (a mesma medida, mas com um teor numeral que deixa a coisa bem mais distante). E viu como o coração de alguém apaixonado funciona. Vê significados onde não existe nada. Vê coisas que acha que são quando na verdade não são. Paixão é mesmo uma imensa ilusão, onde somos apenas a platéia vendo a mágica acontecer sem nem saber como o truque funciona na nossa frente. Até estarmos envoltos no meio da coisa.

E aí Neige enfim viu. Eram mil cento e noventa longos milímetros. Intransponíveis. Ela nunca sairia da defensiva. Ele nunca teria uma chance:

É... Melhor deixar essa menina de lado. Não tenho chance nenhuma com ela, pensou Neige.

"Açúcar, por favor", disse Neige, voltando o olhar pra tela do computador.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

A fantasma da Depressão.


Essa é uma das pessoas que até hoje eu me pergunto: onde raios você foi se meter, Alain seu retardado?

A garota do cabelo cor-de-beringela.

Uma coisa que detesto são mulheres que vivem no mundinho delas. No budismo dizem que o outro é nosso espelho, se não gostamos de algo em alguém é porque no fundo somos iguaizinhos, então acho que tenho que admitir que eu talvez tenha meu mundinho também. Uma coisa é fato: todas as pessoas que vivem nos seus mundinhos têm dificuldades em deixar outras pessoas entrarem no mundinho delas. Vestimos armaduras, achamos que estamos seguros de alguma forma, e somente deixamos entrar algumas pessoas selecionadas a dedo.

Hoje, talvez com a maturidade, eu sei diferenciar um pouco melhor. Mas naquela época eu tinha 16 pra 17 anos e tinha acabado o Ensino Médio, e estava indo pra vida adulta. E se hoje eu acho que devo crescer, imagine na época.

E aí, uma amiga que estudou comigo me disse que a prima dela era bem bonita, solteira e nós iriamos nos dar muito bem porque tínhamos gostos parecidos. A adicionei no extindo MSN e nós conversávamos muito. Muito, muito mesmo. Mas via que aquela menina tinha realmente sérios problemas.

O primeiro era uma extrema depressão. Com tendências macabras e suicidas. Eu era bem depressivo também. E dizíamos que suicídio seria uma fim de vida louvável. Bom, curiosamente tentei tirar minha vida em 2008, mas isso foi uma coisa que aconteceu na minha vida, fez parte dela, e embora hoje nem passe pela minha cabeça tentar isso novamente, foi uma infeliz única escolha que eu via - especialmente com meu convívio com a garota do cabelo cor-de-beringela.

Mas aos poucos fomos nos descobrindo. Eu lembro que ela tinha muitas dificuldades com a imagem dela. Ela era uma menina comum, branca, cabelo preto, olhos escuros, descendente de espanhóis e portugueses como 70% das pessoas desse país. Nas poucas fotos dela que ela me mostrou eu sempre a elogiava, e ela foi ganhando uma boa auto-estima.

Porém o sentimento foi crescendo, e naquele ano eu era um mero estudante de arquitetura que detestava estudar aquilo que havia sido imposto pelos pais. Ela era uma tomboy que queria ser militar e morrer em uma guerra. Duas crianças crescidas.

De facto o cabelo dela era tingido de cor-de-beringela. Especialmente numa das únicas vezes que eu a vi pessoamente. Ela me evitava totalmente por sabe lá deus o quê. Por algum motivo bizarro ela tinha uma total aversão a mim na vida real, embora via PC ela não parava de conversar comigo. Porém eu tinha sentimentos por ela, eu queria ver uma esperança e ser feliz com ela de alguma forma. Eu não queria ser apenas o cara de defensiva ou na passiva esperando alguém cair do céu. Eu queria ir atrás e fazer acontecer.

Só que eu agi de uma maneira totalmente errada!

Eu não lembro exatamente o que eu fiz, mas como conversávamos muito via internet, comecei a tentar chamar ela pra sairmos juntos. Nós nos conhecíamos pessoalmente (já havíamos ido ao Anime Friends, e mal nos falamos, éramos muito tímidos), mas ela sempre declinava. E eu, oras, eu tinha uns 17 anos, era imaturo de tudo. Por isso que hoje eu digo que o que eu fiz foi uma grande merda.

Sente só a merda que eu fiz, haha. Era um plano infalível, só que não:

Eu a havia chamado pra assistir um filme, acho que era o Código Da Vinci no cinema. E ela disse que já havia assistido e não iria sair comigo. E aí o moleque aqui foi lá resolveu provar que ela não havia assistido o filme, e perguntei o que ela tinha achado da teoria sobre o Santo Sudário, o pano que cobriu Cristo depois que ele foi crucificado, que é o tema central do Código Da Vinci, e ela disse que super deu pra entender e sabia exatamente tudo sobre o Sudário depois de assistir ao filme.

Bom, se você que lê isso e assistiu o filme, com certeza sabe que o filme trata do Santo Graal, o cálice de Cristo na Última Ceia, e não o Santo Sudário, haha. E aí eu joguei na cara dela, dizendo que ela não tinha assistido o filme coisa nenhuma, que não queria sair do mundinho dela, tinha medo de relacionamentos e tudo mais. Um plano de bosta que, é claro que ela ficou muito mal depois que eu fiz isso, e chegou inclusive a me bloquear e tudo mais, hahaha.

Nós nunca mais nos falamos desde então. Tudo bem que nós dois agimos de uma forma mega imatura, nós dois éramos adolescentes na época. Duas crianças com tamanho.

Eu não nego que isso foi realmente algo idiota, imaturo e muito babaca. Mas eu era um adolescente, e... Paciência, a gente aprende com os erros, hehe. Mas eu fiquei muito mal. E todo ano eu passava relembrando e remoendo aquilo. E junto da depressão que eu tinha, isso só piorava.

Todo ano, no dia 25 de maio (o dia em que nós brigamos e nunca mais nos falamos), eu postava no meu antigo fotolog. Até o dia 25 de maio de 2012, quando no dia seguinte, dia 26, com a ajuda do mundo espiritual eu elevei ao nível de daijo no templo. E quando isso me aconteceu, vi que era tempo de enterrar aquilo de uma vez por todas. Mas foram seis anos pensando nela praticamente todos os dias. Me odiando por ter agido daquela maneira e ao mesmo tempo me perguntando o motivo dela ter sido tão infantil e simplesmente ter fugido. Mas grande parte da culpa foi minha, isso é inegável.

Mas ainda assim foram... Seis anos. Seis longos anos que duraram quase que uma vida.

E ela serviu de base para a personagem homônima das minhas histórias. O jeito frio da personagem é exatamente como ela era, uma aquariana, levemente deselequilibrada, mas no fundo era uma pessoa muito amável e gentil. Era uma figurinha única mesmo essa menina, hehe. Aquariana braba que só ela! Hoje eu dou risada, mas aquilo com ela foi sem dúvida uma das coisas que mais pesaram para que eu tentasse tirar minha vida dois anos mais tarde.

E hoje?
Poxa, essa aí se deu super bem! Em 2011 ela começou a namorar um cara que ela realmente gostava, mas ele havia deixado o país pra estudar fora. Os dois estão firmes até hoje! Abriram juntos um estúdio de arte para games. E ela até ajuda ele, os dois são um casal super ponta-firme. E apesar das brigas (que sempre rola em qualquer relacionamento) eles estão super bem e felizes. Fiquei muito feliz quando ouvi isso!

Uma canção?
Já que o momento era deprê, o jeito é música deprê: Higeki wa mabuta wo oroshita yasashiki utsu, dos roqueiros japoneses do Dir en Grey. Em 2008 eu entrei em terapia e fiquei um bom tempo indo na psicóloga. Ajudou pacas a me erguer depois (e me preparar pro que ainda viria, hehe! Não tá fácil pra ninguém).

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Doppelgänger - #91 - Uma fria.

"Olá senhor, meu nome é David Frost", disse Frost, estendendo a mão para Al.

Al retribuiu, com expressão séria, apertando sua mão.

"Muito prazer. Sou Al. No momento sou o líder desse grupo que quer parar a insurreição de Arthur Blain", disse Al.

"E quem seria exatamente essa pessoa?", disse Frost.

"Existem informações nos dossiês que estamos te entregando, Frost. Mas basicamente é quando a conspiração se torna realidade. Arthur Blain é meu sobrinho, conhecido no nosso meio pelo codinome Ar. É um ex-agente que tem o comando de todo o sistema econômico e político mundial, além de ter também um objeto chamado Dawn of Souls, com a identidade e ficha completa de todos os agentes de todos os serviços de inteligência no mundo", disse Al.

"Nossa. Nunca ouvi falar dessa 'Dawn of Souls'", disse Frost.

"Assunto confidencial. Por isso você não sabe. Mesmo entre os membros da Inteligência, apenas alguns sabem da existência disso. Ele criou uma sociedade secreta poderosa com agentes que ele conseguiu recrutar no mundo todo. Nunca sabemos onde estão eles. Por isso não quero que confie em ninguém. Ar controla a mídia, e mesmo pra um jornalista como você, é algo bem complicado", disse Al.

"Não faz sentido. Eu sou jornalista. Tenho um compromisso com a liberdade de imprensa. Vivemos num país democrático e livre", disse Frost.

"Isso é o que querem que você pense, Frost. Pode começar mostrando como pauta a morte dos cinco Doe. Você terá uma surpresa e verá que não é assim que a coisa funciona", disse Al.

"E pra que exatamente precisam de mim?", perguntou Frost.

Natalya Briegel resolveu entrar na conversa.

"Frost, você não é um jornalista famoso, mas acredito que tenha um faro investigativo, não? O que estamos te dando é ouro nas suas mãos. Mas ao mesmo tempo que isso vai alavancar sua carreira, isso pode também te trazer muitos inimigos. Inimigos nas mais altas cúpulas das empresas, governos, todos vão querer a sua cabeça, assim como querem as nossas. Você pode ser um herói do mundo, ou pode ser apenas mais um Stieg Larsson", disse Briegel.

Frost ficou pensativo. Larsson era um famoso jornalista sueco que fez graves denúncias contra governo e teve uma morte igualmente misteriosa. Especialmente pois pesquisava pessoas de extrema-direita do seu país. Aquilo vindo de agentes da Inteligência era sem dúvida a confirmação da ideia que todos tinham.

"Ainda sabendo que sua vida estaria em perigo, você toparia ajudar?", perguntou Al.

David Frost pensou. Em poucos segundos milhões de coisas passaram na cabeça dele. Mas ainda assim, aquilo era muito tentador. Sua vida era um tédio mesmo. Apenas revisão de texto dos colegas superiores, matérias pequenas sobre coisas triviais, e nada daquilo que ele sempre sonhara quando fosse jornalista: coisas exclusivas, capazes de abalar estruturas, e que mesmo que ele morresse, morreria feliz pois aquilo era seu sonho. Seu sonho era ser um jornalista que cobrisse a verdade.

Sem dizer nada Frost estendeu a mão para Al. Os dois apertaram as mãos fechando o acordo.

"Vamos te passar as informações, Frost. Contamos com você", disse Al.

- - - - - -

A voz do alerta das estações no metrô londrino havia acabado de anunciar a próxima estação: King's Cross St Pancras. Uma das estações mais importantes do metrô londrino, pertinho da sede do The Guardian, onde David Frost trabalhava. Entrou correndo no prédio e subiu o elevador até seu andar, e por fim chegou na sua bancada.

"E aí Frost, achou alguma coisa?", disse seu colega.

"Achei sim. Parece que cinco empresários morreram misteriosamente. É um furo e tanto. Seus corpos foram achados em diversos locais de Londres", disse Frost.

"Nossa! Incrível! Leva logo do Tommy pra ele dar uma olhada! Isso vai ser manchete!", disse seu colega.

Frost gastou aproximadamente vinte e três minutos escrevendo uma pauta. Ele tinha inclusive fotos de John Doe - ou Bruno Andrada, o líder dos Doe. Estava escrevendo um perfil completo sobre quais empresas que ele influenciava, que era conselheiro e seus próprios negócios engolindo outros menores ao redor. Deu uma última olhada no texto e enviou um e-mail para Tommy, seu gerente.

Cinco minutos depois seu telefone tocou.

"Frost, pode vir na minha mesa?", disse Tommy.

Aquela era a chance dele! Frost foi para a sala do editor como se estivesse andando em nuvens. Aquilo era o doce caminhar rumo a promoção, rumo ao fim da procrastinação no trabalho, muita atividade, e tudo que existia de melhor.

"Feche a porta, Frost", pediu o editor.

Frost sentou e um silêncio tomou conta da sala. Tommy Smith era gordo, usava óculos, cabelo grisalho e uma voz aterrorizante. Ele não tinha cara de poucos amigos. Tinha cara de ter amigo nenhum, isso sim. E uma matéria daquela, na cabeça de Frost, era algo magnífico. Mas talvez Tommy não visse daquele jeito.

"Frost", disse Tommy, tirando o óculos, "Não vamos publicar isso. Foi um pedido do pessoal lá de cima. Quero que apague quaisquer resquícios dessa notícia, ela não será publicada em lugar algum".

Nessa hora Frost sentiu como se tivesse tomado um balde de água fria.

"Senhor, posso questionar o motivo?", disse Frost.

"Frost, não se mexe com figurões como esses. Não é assim que o mundo funciona. Nós não somos guardiões da liberdade que podemos publicar qualquer coisa, e recebemos a ordem de que isso não pode ser divulgado, mesmo você com todas essas provas. Somos uma empresa, e temos que obedecer e publicar o que empresários ordenam entre eles. Não somos pessoas que lutamos pela liberdade de expressão. Nós temos liberdade dentro do cercadinho que é a vontade dos empresários, e por algum motivo que eu não entendo direito não querem que publiquem nada sobre. Nem mesmo uma nota de falecimento. Nenhum desses caras existem, todas as informações serão supridas sumariamente por ordens lá de cima", disse Tommy.

Frost viu então com quem estava se metendo. Assim como Al havia dito, a notícia iria ser invariavelmente barrada. Apenas agradeceu e saiu da sala, voltando pra sua mesa. Ao sentar, seu colega virou pra ele e o questionou.

"Vieram perguntar se eu tinha alguma informação sobre isso que você trouxe, eu disse que não. É coisa quente?", disse seu colega.

Nessa hora Frost começou a pensar:

Minha nossa... Alto escalão? Então isso tudo que o Al e a Briegel falam é verdade? Caramba... Onde é que eu fui me meter. E como assim essa notícia não agrada os empresários? Eles têm uma cúpula entre eles do que pode ou não ser divulgado na grande mídia? Isso não é nem um pouco ético. Eu tinha ouvido falar disso, mas vendo agora estou vivenciando tudo isso.

Merda. Agora tô enfiado até meu pescoço nisso. Justine vai me matar..., pensou Frost em sua esposa, que ficaria furiosa ao saber de tudo, e dele abandonar tudo pelo sonho profissional.

"Ei, ei!", disse seu colega, estralando os dedos pra chamar atenção de Frost, "E aí? É quente a notícia?".

"Não. É fria. Na verdade é bem fria...", disse Frost, mostrando um desânimo.

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