quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Doppelgänger - #92 - Quando o coração da gente se apaixona.

"É realmente um material bem valioso que você pegou, Agatha", disse Neige, abrindo o HD.

Victoire, Neige e Agatha estavam na nova central temporária deles - um hotel barato em um local afastado de Candem Town, pelo menos até que outro local seja alugado. Não que dinheiro fosse problema, todos tinham bastante reserva. Inclusive Agatha, uma traficante internacional de armas. Mas pelo menos era possível verificar todos os dados que todos haviam coletado em um abrigo.

"Ótimo. Esses e-mails valem bastante. Mas preciso analisar todos o mais rápido possível. Quem era no telefone agora há pouco?", perguntou Neige.

"Era o Nataku", disse Agatha, "Ele disse que eu sou a única pessoa em quem ele confia. Não sabe da onde vem isso, mas sempre sentiu que poderia confiar em mim".

"São as memórias do Lucca. Ele sempre teve você como grande amiga, não?", disse Victoire.

"Sim. Vou dar uma saída pra ver como ele tá", disse Agatha, que de súbito parou na porta e se virou, "Se comportem", ela ressaltou.

E novamente Neige estava sozinho com Victoire. Ele estava já acostumado com isso. Via que a francesa sempre ficava na janela, de olho no movimento, enquanto ele ficava atrás dos seus óculos de grau olhando pra tela do computador.

Mas volta e meia olhava pra ela.

Tudo bem que eles não se conheciam há tanto tempo. Menos ainda eram amigos, ou íntimos. Mas havia algo que o atraía nela, e ao mesmo tempo o deixava longe de Victoire.

Não... Melhor não. Mulher que é apaixonada por outro cara é sempre uma furada. Ela nunca vai deixar de gostar do cara e olhar pra mim. Aliás, porque raios eu tô pensando nisso? Tenho um monte de coisa pra fazer... Mas não consigo me concentrar com ela aqui. Droga..., pensou Neige.

Nessa hora Victoire viu que ele estava olhando pra ela.

"Que foi? Tem alguma coisa na minha cara?", perguntou Victoire, rude.

"Ah, n-não", disse Neige, gaguejando, "Nada não, desculpa. Me distraí".

Neige virou pro computador. Sua mente estava em outro lugar.

Acho que é errado nutrir sentimentos por ela. Ela gosta do Al. Mesmo que ele não goste dela... Porque mulheres têm que ser assim? Ficar insistindo, insistindo... Se bem que homens também são assim. E outra, será que ela olharia pra mim? Não. Não dá pra nutrir algo por alguém que está apaixonado por outra pessoa, pensou Neige.

Foi apenas um olhar de relance. Mas quando ele virou os olhos pra Victoire, viu que os olhos dela estavam também olhando pra ele, e os olhos dos dois se encontraram, mas rapidamente ela virou o rosto pro outro lado e ficou olhando pra janela.

Esses encontros do olhar... Ai, ai... Será que eu tenho chance? Acho que não, né. Não dá pra nutrir sentimentos por ela. Pensa bem, ela é cheia de defeitos. Ela é toda viajada, mente no espaço, além de ter essas oscilações. Fica vivendo nesse mundo achando que o Al vai aparecer com um cavalo branco. Mas e aí? Será que eu conseguiria aceitar esses aspectos ruins dela mesmo assim? Será que se eu nutrisse um sentimento por ela, esse sentimento seria forte o suficiente pra não ficar idealizando e aceitar os aspectos ruins dela também?, pensou Neige.

Ele estava tão focado em parecer estar distraído pra Victoire que Neige nem percebeu que ela estava do lado dele. Sentada no sofá do quarto. Ele percebeu que ela estava do seu lado e tomou um susto. Sua mente nem estava no computador. Estava mais longe que isso.

"E aí? Alguma novidade?", perguntou Victoire.

Neige olhou pra tela, ficou encarando durante alguns segundos, depois voltou o olhar pra Victoire.

"Me desculpa... Eu estou tentando me concentrar, mas não consigo fazer absolutamente nada", disse Neige.

Puta merda! O que foi que eu disse!! E agora? Será que ela vai pensar que é por causa dela que eu não consigo me concentrar!! Edward, sua anta, e agora? O que ela vai pensar? Será que vai achar que isso foi uma indireta?, pensou Neige.

"Você deve estar cansado. Vou buscar um café pra você lá embaixo no Café Nero. Açúcar ou adoçante?", perguntou Victoire.

Foi aí que Neige viu que o que ele pensou que ela entenderia de um jeito, ela entendeu de outro. E viu a imensa distância de mil cento e noventa milímetros que os afastavam. Uma muralha intransponível. Poderia ser apenas um metro e dezenove, mas eram mil cento e noventa milímetros (a mesma medida, mas com um teor numeral que deixa a coisa bem mais distante). E viu como o coração de alguém apaixonado funciona. Vê significados onde não existe nada. Vê coisas que acha que são quando na verdade não são. Paixão é mesmo uma imensa ilusão, onde somos apenas a platéia vendo a mágica acontecer sem nem saber como o truque funciona na nossa frente. Até estarmos envoltos no meio da coisa.

E aí Neige enfim viu. Eram mil cento e noventa longos milímetros. Intransponíveis. Ela nunca sairia da defensiva. Ele nunca teria uma chance:

É... Melhor deixar essa menina de lado. Não tenho chance nenhuma com ela, pensou Neige.

"Açúcar, por favor", disse Neige, voltando o olhar pra tela do computador.

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