terça-feira, 6 de outubro de 2015

Doppelgänger - #103 - Preto como a morte.

Schwartzman parecia uma máquina. Batia, batia, e batia. Acertava o rosto, peitoral, pernas, tudo. Ele parecia dar golpes que pareciam esmigalhar cada uma das partes do corpo de Lucca depois de cada impacto.

Novamente aquilo parecia o fim. Mas talvez depois de tanta adrenalina correndo nas veias, Lucca por mais que tentasse desistir, não conseguia. Já era pra ele ter morrido faz tempo. Um ser humano não conseguiria aguentar tantos golpes e ficar vivo.

“Morra, morra, morra!! Você não é Lucca coisa nenhuma!!”, gritava Schwartzman, dando chutes.

E depois de um chute forte no estômago Lucca perdeu as forças, e seus olhos pareciam ter se fechado. Mas ainda assim ele ouvia tudo. Mas já não sentia dor. Tinha levado tantos golpes que havia perdido a consciência, e sua mente se fechara dentro de si mesmo.

Tudo estava escuro. Mas ele ainda ouvia o que se passava ao redor. Estava inconsciente, e ainda levando os duros chutes de Schwartzman.

“Você é um ser sem alma!! Você é apenas um invólucro vazio! Você não tem família, não tem sentimentos, não tem passado, você é um ninguém, um nada!!”, gritava Schwartzman, perdendo o controle depois da overdose.

A dose excessiva estava deixando Schwartzman louco. Perdendo o senso das coisas, virando apenas uma máquina agressiva. Seus olhos estavam se dilatando, e seu corpo parecia ficar em um eterno loop de chutes e mais chutes em Lucca, que já nem mesmo mais reagia.

“Nataku, Nezha, é isso o que você é! Você nunca vai recuperar o que você foi no passado, ouviu! Nunca!! Nunca!!!”, gritava Schwartzman.

A overdose estava fazendo um efeito bizarro. Ele continuava chutando e os seus músculos começaram a saltar, como se estivesse dominado por câimbras. Piscava seus olhos tentando buscar foco da retina mas nada acontecia. Sua língua estava pra fora, parecia adormecida. Ainda assim não conseguia parar de chutar. Começou a sentir uma palpitação, e parecia que seu braço já não respondia direito. Nem mesmo sua perna também. Algo estava acontecendo.

Schwartzman abriu seu jaleco e tentou buscar algo. Mas sua vista estava tão embaçada que conseguia ler absolutamente nada dos rótulos.

“Droga, cadê, cadê... Acho que um pouco daquilo poderia dar uma acelerada no meu batimento, e aquele outro poderia desentupir as artérias do meu cérebro... Deve ser princípio de um derrame da overdose”, ele falava sozinho, e parecia extremamente calmo, como se estivesse fazendo um procedimento em outra pessoa.

“Parado, seu assassino!”, gritou uma voz feminina. Mas por ser fina era óbvio deduzir que se tratava de uma criança.

Era Eliza Vogl com a Five-Seven mirando em Schwartzman.

“Ah, que bom que subiu. Vou terminar com você aqui mesmo também. Que prático”, disse Schwartzman, indo em direção da pequena Eliza Vogl.

“EU DISSE PARADO!!”, gritou Eliza. Estava realmente disposta a atirar no homem.

Era apenas uma menina. Nunca havia pego numa arma antes. Seus olhos lacrimejavam e ela tremia muito. Olhava pra baixo e via Lucca, totalmente ferido no chão cheio de sangue, desacordado. Provavelmente mais morto do que vivo. Mas tudo o que Schwartzman precisava era isso. Quando ela desviou o olhar pra ver Lucca no chão ele avançou em direção da menina.

“Ora, corta essa!”, disse Schwartzman, indo em direção de Eliza Vogl.

E nessa hora Eliza Vogl puxou o gatilho. Mas a arma estava travada. A bendita trava de segurança!

“Acha que eu não vi! Tá na cara que essa merda tá travada! Dá pra ver de longe!!”, disse Schwartzman, jogando a arma dela no chão.

“Não!!”, gritou Eliza, assustada.

E foi aí que algo bateu forte no braço de Schwartzman quando havia erguido Eliza, soltando a menina no chão. Um golpe forte, que óbvio que ele não sentiu numa dor, mas mecanicamente ele a soltou. Eliza caiu de bunda no chão, e olhou pra cima. Sob as luzes da noite ela reconheceu o rosto. Inexplicavelmente era Lucca.

Schwartzman ficou mudo. E como nunca antes na vida foi a vez dele sentir medo. Por mais que fosse um psicopata com todas as letras, como todo psicopata, a única coisa que temia era sua própria vida. E Lucca estava lá, em pé, todo ferido, e parecia forte como nunca. Como depois de tantos golpes ele ainda estava de pé?

Mas que merda... Eu apaguei a memória dele! Não é possível que ele ainda tem essa característica. Sim... Eu lembro! Quando ele ainda estava em treinamento as pessoas falavam da imensa capacidade de suportar golpes que ele tinha. E que mesmo que ele fosse mais fraco que o oponente chegava um momento em que ele apenas recebia os golpes pra guardar forças e voltar ainda mais forte!, pensou Schwartzman.

E de fato, Lucca desferiu o soco potente no rosto de Schwartzman, deixando-o zonzo. E antes dele cair no chão Lucca o agarrou pelo pescoço e o jogou brutamente pro outro lado, acertando o gradil de ferro de segurança do topo do Monumento.

Esse idiota recebeu os golpes de propósito pra guardar o máximo de força pra se erguer depois! Mas eu pensei que havia apagado tudo do cérebro dele. Inclusive essa característica dele. E agora ele perdeu completamente o controle de si mesmo, nem mesmo abriu os olhos!, pensou Schwartzman.

Na verdade os olhos de Lucca estavam minimamente abertos. Porém ainda assim ele não via nada. Estava fora de si. Era como um animal. Como um leão vendo sua presa. Por mais que seu corpo estivesse machucado, ombro deslocado, órgãos internos feridos, completamente ferido e cheio de sangue havia ainda uma coisa que o mantinha em pé. Um instinto assassino. Lucca havia virado uma fera, incapaz de responder ninguém, que apenas descansaria quando sua presa estivesse morta.

“Acha que tenho medo? Eu não tenho medo de voc...”, gritou Schwartzman, porém antes de terminar sua frase seu corpo se contorceu.

O tempo crítico pra overdose havia terminado. A droga estava destruindo seu sistema nervoso. Parecia que tinha um alien dentro dele. O corpo inteiro estava com os músculos vibrando sozinhos, como se tivesse algo passando embaixo da pele, sua boca espumando e seu corpo se contorcendo no chão. Era algo mais bizarro ainda do que quando Lucca estava sofrendo com a droga no sistema nervoso, momentos atrás.

Lucca pegou a arma no chão calmamente e ficou na frente de Schwartzman. Aquela cena era uma poesia muda. Não havia troca de olhares, nem nada. Apenas os sons de desespero do corpo contorcido de Schwartzman. Até mesmo Eliza Vogl estava em choque vendo aquela cena. Nem ela sabia que o corpo poderia se mexer daquele jeito.

Lucca destravou a Five-seven, mirou no peito de Schwartzman, e disparou.

O corpo de Schwartzman soltou um gemido abafado. E enfim parou os movimentos estranhos.

Quando caiu no chão inerte o ferimento da bala estava jorrando um sangue estranho. Um sangue preto como a morte.

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