quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Pegasus 10 - 2008.


Em 2008 eu conheci a morte.

Antes de falar qualquer coisa sobre minha tentativa de suicídio, queria antes de tudo dizer que o que eu tive foi muita sorte. E que provavelmente não era pra eu estar aqui hoje, vivo, falando sobre isso. Tentar se suicidar, e chegar nas vias de fato por si só já é um erro enorme. Tirar a sua própria vida é um erro enorme, mas dentro do meio em que eu vivia, foi infelizmente a única opção que eu havia encontrado. E uma opção muito, muito, muito errada.

Mas também foi um capítulo da minha vida.

Talvez eu era exatamente como esse garoto dessa arte que fiz, cujo corpo irradiava pureza e uma luz. Uma pessoa que ficava entre a vontade de tirar sua própria vida e a vontade de vivê-la um pouco mais. Uma pessoa que a morte havia chegado cavalgando, e a mesma já começava a tirar o sangue que jorrava do meu braço. Uma pessoa que não precisa de nenhuma tatuagem - as onze listras no meu braço esquerdo já servem como um registro de algo que aconteceu - um erro, mas aconteceu. Algo que pra sempre vou olhar. Algo que eu jamais poderei esquecer. Algo que, sem dúvidas, levarei pro resto da vida como marcas de um erro que cometi contra mim mesmo.

Entre todas as artes do Pegasus 10, essa foi a primeira que terminei. Acho que foi uma forma de não apenas enterrar isso, mas também expor isso de alguma forma pras outras pessoas para ajudá-las a não cometer o mesmo que cometi. O que eu tive foi sim muita sorte. Talvez chamem de "intervenção divina", ou algo assim também. O que importa é que hoje estou aqui.

E a única coisa que eu falaria sobre isso é: não deixe as coisas chegarem nessas vias de fato. Procure ajuda. Pode ser um caminho sem volta, e raramente pessoas têm a mesma sorte que eu tive. Ou podem ficar com sequelas, ou qualquer coisa do gênero.

Haviam cinco anos que eu estava brigado com meu pai. Todos os dias eram intensos, cheios de brigas, discussões, dele querendo que eu fosse uma pessoa com carreira, estudos, família impecáveis aos míseros vinte anos. Afinal, como ele mesmo dizia, eu era um vagabundo burguês que só dava dívidas e desgosto pra ele (e isso pra pior). E óbvio que eu não era nada disso, e queria trilhar o meu próprio caminho. Ao mesmo tempo, eu estava muito mal por conta da garota do cabelo cor-de-beringela e uma chinesa que tive um rolo em meados de 2007. As brigas nunca cessavam, e em uma das muitas noites de insônia por nunca conseguir ser o que meu pai mandava eu ser, eu simplesmente peguei uma faca e comecei a cortar meu próprio corpo. Eu não lembro de mais nada a partir daí.

Sei que entrei em um estado de transe, de choque, aquilo não doía nada, até que acordei no hospital no outro dia. E um médico olhando pra mim, todo cortado, dizendo: "Você é tão jovem... Porquê fez isso com si mesmo?". Eu apenas virei o rosto.

E do meu lado estava meu pai. Chorando. Virei o rosto e ele me disse pela primeira vez: "Me desculpa por tudo o que fiz com você, filho".

Meu pai foi (e continua) uma pessoa bastante rígida, dura e brava comigo. Nunca mostrou sentimentos e dizia que eu deveria ser igual também. Pois pra ele, homem não chora. Mas embora tudo isso tenha acontecido, e eu estivesse na tênue linha entre a vida e a morte, depois de anos de brigas naquele momento eu sei o quão corajoso ele foi pra ter pedido aquelas desculpas.

E eu também tive muita sorte.

0 comentários:

Postar um comentário

Arquivos do blog