segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Doppelgänger - #130 - O vazio está em todo lugar.

O caminho até Ar, dentro da Bolsa de Valores, parecia se iluminar em um caminho único em linha reta. E como se tudo estivesse sendo controlado por uma força invisível, as telas brilhavam em branco indicando o caminho a seguir. Al e Eliza Vogl caminhavam lentamente, atônicos, abismados com aquilo tudo que estava acontecendo.

Uma luz forte ligou. Iluminado por essa luz estava Ar. Ele estava encostado de costas no parapeito, em um lugar elevado, mexendo no seu celular. Provavelmente dando algum comando ao VOID.

“Oh, já chegou! E aí, meu irmão. Gostou do meu plano?”, disse Ar.

Al pegou o seu bolso e tirou um cigarro, acendendo-o.

“Ah, como eu odeio esse seu hábito. Sempre detestei fumaça de cigarro. Mas também né, que opção você tem?”, disse Ar, tirando uma pistola de um coldre embaixo do seu sobretudo preto, e mirando em Al, “Talvez diga que eu seja um desnaturado, apontando uma arma pro meu próprio irmão. Mas tô pouco me lixando!”

“Sou eu quem você quer. Deixa a menina ir. Ela não tem mais nenhum valor pra você”, disse Al.

“Tudo bem, tudo bem. Vou deixar ela junta da Briegel lá fora. Guardas, levem-na, por favor”, disse Ar, baixando a arma. Estava tranquilo que Al não tinha nenhuma arma escondida. Apenas mesmo um maço de cigarros na metade.

Dois homens saíram não se sabia de onde, e escoltaram Eliza Vogl até a saída. Ela parecia meio nervosa, seus olhos estavam lacrimejando ainda de culpa. Al não tirou os olhos dela, até ela desaparecer na escuridão das luzes desligadas da Bolsa de Valores.

“Bom, agora que ela foi, acho que você me deve explicações. Então se o Rosebud não serve para parar o VOID, para que então ele te serve?”, perguntou Al.

“Ótima pergunta! Sim, o Rosebud. Bom, Al, creio que você sabe como funciona o método de criar dinheiro. Tá tudo escrito lá, naquele Modern Money Mechanics. O governo passa títulos, bancos convergem títulos em valores, e dinheiro é criado assim. Um método seguido em todo o globo. É um mero código que o governo cria que é capaz de criar dinheiro do nada. Créditos eletrônicos, sabe?”, disse Ar.

“Sim. Foi assim que você tem feito cada vez mais e mais dinheiro com todas as instituições financeiras que você tem no mundo. Isso descobrimos. Ou será que foi você quem me deixou descobrir?”, perguntou Al.

“Bom, eu sei que você não é nada burro, meu irmão. E isso é de domínio público. Qualquer pessoa que pesquisar na internet sobre isso vai descobrir tudo. Só é preciso ler, entender, e ligar uma coisa com a outra”, disse Ar.

Al deu uma tragada profunda no seu cigarro, nervoso com aquela situação. A idade do seu corpo com envelhecimento precoce não permitia mais isso. Acabou tossindo toda aquela fumaça.

“Me desculpe”, disse Al, se recuperando. Essa tossida não foi com teor irônico, mas provavelmente Ar pensaria isso.

“Já acabou?”, disse Ar, depois que Al parou de tossir, “Você não está meio velho pra fumar tanto? Não falo da sua idade real, claro. Um cara que mal completou quarenta e todo grisalho e cheio de problemas de saúde que só apareceriam aos seus sessenta anos. Eu também fiquei com muito medo que te desse algum problema e você morresse no meio dessa missão, sabia?”.

“Bom, se isso te deixa feliz, eu quase morri algumas vezes”, disse Al, com um sorriso sem graça.

“Puxa, você tá me fazendo sair do foco da nossa conversa. Pois bem, voltando...”, Ar limpou a garganta antes de prosseguir, “...Esse método é bom, e como eu fazia isso aos poucos, em diversos bancos, conseguia fazer o dinheiro render. Mas eu queria acelerar o processo, e fazer meu plano tornar real o mais rápido possível. Quando pessoas acreditam em você como acreditavam nos nossos ideais, elas querem também ver resultados rápidos”.

“E onde entra o Rosebud nisso?”, perguntou Al.

“O Rosebud não é nada pra parar o VOID. Apenas eu sabia a verdade, e contei aquela mentira para os Doe. Como uma mentira é uma coisa grave, né? Por isso pessoas sempre falam que não devemos nunca mentir. Isso sempre confunde as pessoas, em um filme ou livro, por exemplo. Na vida real, nem se fala. A mentira é algo tão podre que quando as pessoas estão atentas em uma estória, leem aquilo acreditando que todas as conversas estão tratando sobre verdade. Aí você joga uma mentira e tem que esperar a pessoa que está assistindo a estória assimilar e ver que tudo aquilo que acreditava ser verídico era... Mentira. Fazer os Doe acreditarem que o Rosebud seria uma ameaça real os fariam mover céu e terra atrás do Rosebud. Ao mesmo tempo, esconderia de vocês a verdade sobre o que ele realmente é”, disse Ar.

“E o que essa merda realmente é?”, Al estava perdendo a paciência. E o cigarro, acabando.

“O Rosebud é o cartão de crédito mais poderoso do mundo! O Rosebud nada mais é do que um programa capaz de criar esses créditos que os bancos centrais cedem aos bancos do mundo e assim criar dinheiro infinitamente!”, disse Ar.

“O Rosebud cria os códigos eletrônicos que bancos usam pra gerar dinheiro? Mas se você injetar esse dinheiro todo na economia pode causar um caos imenso na economia”, disse Al.

“Essa é a ideia. Mas eu não vou apenas injetar na economia. Não é isso que eu quero. Meu plano é bem melhor. Preciso apenas dos créditos eletrônicos. Bancos vivem criando isso, é impossível ter todo esse dinheiro nos seus cofres. A questão é: onde eu irei usá-lo”, disse Ar.

Al apenas ouvia, tragando seu cigarro lentamente.

“Um código criptografado ultra-seguro, o Rosebud gera esses créditos pra mim, que com o VOID e seu processamento super avançado cria esse montante de dinheiro que eu monitoro bem por aqui. Milhões de libras por segundo sendo criados desde que você instalou o VOID pra mim”, disse Ar, descendo as escadas e se aproximando de Al, mostrando que estava vendo no seu smartphone.

As cifras já passavam de bilhões de libras.

“E onde raios está o VOID?”, perguntou Al.

Nessa hora Ar riu.

“Ora, ora, meu irmão, isso é óbvio!”, disse ele, erguendo os braços. Nessa hora todos os computadores e luzes da Bolsa de Valores acenderam. Nas telas aparecia o logo do Vanitas.

“O VOID está em todo lugar!”, disse Ar.

0 comentários:

Postar um comentário

Arquivos do blog