terça-feira, 29 de março de 2016

Não seja de esquerda, nem de direita. Seja de centro.

Clima político dominando as conversas! É impeachment pra cá, corrupção pra lá, e enfim. Tem gente até perdendo amizade por decisão política de amiguinho. Gente, assim nem o Dollynho pode te ajudar.

Se você chegou aqui, e pensa que vai me apoiar/criticar por eu falar minha posição política, bom, não vai funcionar, hehe. Não vou criticar nem PT, nem PSDB, nem ninguém. E espero que as pessoas que caiam aqui tenham um mínimo de cérebro também, larguem suas bandeiras (independente da cor) e analisem o que quero dizer. Não vou defender nenhum dos lados, o ponto que eu quero citar aqui é outro. E serve pra todo mundo.

O que quero dizer é que o maior valor da democracia não é defendermos um lado ou outro até a morte. Estamos cansados de ver que os dois lados são corruptos, e teremos pessoas que fecharão os olhos pra corrupção de ambos os lados pra levantar a bandeira que eles acham que sabem que estão levantando - mas estão tão cegos em suas convicções ou sede de justiça que jamais pensarão diferente.

Portanto, a coisa de maior valor que você pode fazer é primeiramente não criticar nenhum dos lados.

O maior valor que a democracia nos oferece não é a capacidade de escolhermos e defendermos cegamente direita ou esquerda. Mas sim o que sempre vence será uma coisa só: o centro. Sim! O centro! Não centro-direita ou centro-esquerda. Mas puramente o centro.

Eu, por exemplo, tenho amigos de ambos os lados. E eu gosto das minhas amizades, e eu super sei ouvir os dois lados. Tem muita coisa que eu gosto na esquerda. E tem muita coisa que eu gosto da direita também. Sempre dá pra tirar umas coisas boas de cada lado, e ter uma mente aberta é essencial para tal.

Meu voto é meu. E acho que todos temos o direito de fazer o que quiserem com seus votos. E a vantagem de ser uma pessoa de centro é entender que existem momentos melhores para um lado estar no poder, enquanto existem momentos melhores para outro lado estar no poder, pois o que importa não é defender um lado, mas entender que um país cresce forte quando os dois lados mostram seu melhor de acordo com sua situação.

O inimigo de quem está na manifestação verde-e-amarela não é quem tá vestindo vermelho. Assim como na manifestação dos vermelhos o inimigo não é quem tá de verde-e-amarelo. O inimigo de todos nós é quem defende coisas como golpe militar. Esses sim merecem todo nosso mais profundo repúdio, pois essas pessoas querem estragar o maior valor da democracia, que é exatamente isso. De podermos escolher entre um lado e apoiar.

Não encare política como se você estivesse apaixonado. Encare a política como se você estivesse solteiro e cada um dos lados tentasse te paquerar, mostrando cada um os seus prós. A escolha de quem você dar uns catos é sua, de acordo com a situação.

Sejam cabeças mais abertas, ouçam e respeitem todos os pontos de vistas, pois todos têm coisas boas e ruins. Acho ótimo que as pessoas enfim despertaram nesse país para a política. Agora o próximo passo é isso: voto consciente, voto pensado, voto responsável. Mas pra isso, não podemos levantar nenhuma bandeira cega de direita ou esquerda. Devemos analisar a situação que o país se encontra e escolher entre uma escolha mais liberal ou conservadora. Assim que um país cresce. Com pessoas discutindo, aceitando outros pontos, e na hora da urna considerando tudo o que pesquisaram e acham que vai ser melhor.

quinta-feira, 24 de março de 2016

Doppelgänger - #138 - DEICIDIUM III

“Cala a boca, Al. Vê se cala essa sua boca!”, gritou Ar.

Com os últimos servidores do VOID destruídos, o fogo de alastrava cada vez mais. Os dutos não estavam mais sugando a fumaça pra fora.

“Tá vendo isso, seu idiota? Olha o que você fez!”, gritou Ar, todo machucado, “Era o VOID que estava tentando me proteger jogando a fumaça toda pra fora. Nós dois morreremos aqui! Merda! Porque esses sprinklers não foram ativados? Merda, merda, merda!!”, Ar gritava várias vezes a última frase.

Não havia muito tempo. Al olhava a fumaça que começava a se acumular no topo do local. Os dois morreriam ali, sufocados, no mínimo. Teriam sorte se não fossem carbonizados também.

“Já que não temos muito tempo, acho que te devo também falar sobre a pessoa que você nunca conheceu, pra fechar isso. Meu irmão mais velho e o seu pai, Arch”, disse Al.

“Eu já te mandei calar essa boca!! Cadê a porra da minha arma?”, disse Ar, procurando a arma, mas naquela escuridão alaranjada das chamas era impossível ver qualquer coisa.

“Ar, me machuca muito ver você usando o Arch pra justificar esses seus atos impensados. Você nem mesmo chegou a conhece-lo! Quando você nasceu, Arch já estava morto. E quando ele morreu, você ainda estava na barriga da Émilie ainda”, disse Al.

Ar virou o rosto pra baixo. Seus olhos estavam começando a arder por causa da fumaça. Deu um grito e avançou em uma cabeçada novamente contra Al, que estava distraído e acabou desviando, mas por muito pouco. Ar escorregou e caiu no chão, deslizando, mas sem encostar nas chamas.

“ARGH!!”, gritou Al.

Mas para Al foi pior. Seu corpo foi acometido por uma dor tremenda. Não parecia ser outro princípio de infarto, mas sim uma grande cãibra. Seu reumatismo havia atacado por conta do movimento brusco, além do cansaço e a pressão psicológica do momento. A dor o fez gemer alto e simplesmente travou seu corpo. Parecia ir da ponta do pé até o último fio de cabelo. Era uma cena grotesca.

Não, justo agora, não! Ahhhh, que dor terrível! Não consigo me mexer, minhas costas...!, pensou Al. Mas a dor era tão grande que dominava seu corpo. Mais um sinal grave do envelhecimento precoce que Victoire havia colocado nele, anos atrás, se manifestando.

“Ora, se nós dois vamos morrer aqui”, disse Ar, tossindo bastante por conta da fumaça, “Pelo menos vou te dar um presente e te mandar pro além antes de mim”.

Ar acabou caindo justamente ao lado da arma, que não hesitou em pegá-la. Al não estava se aguentando em pé, seu corpo parecia estar tomado por um espasmo, retorcido, sofrendo de dores terríveis. Al caiu de joelhos ainda com a mão na região das costas, tentando destravar aquela cãibra imensa.

“Você... Nunca conheceu... O seu pai”, disse Al, também com dificuldades pra respirar, “Se conhecesse, saberia... Meu irmão foi a pessoa mais bondosa do mundo. Ele nunca iria trabalhar em um plano que colocasse vida de pessoas em risco!! Mesmo que ele quisesse um mundo mais justo e livre, ele nunca faria isso causando guerras, fome, dificuldades econômicas nem nada do gênero!!”.

“Você quer destruir os planos dele!! São os sonhos de Arch que você quer destruir! O mundo que ele sempre sonhou que existisse que eu vou ajudar a construir! Você merece morrer, seu merda!!”, disse Ar, que também não tinha muita coragem de atirar contra seu tio, que pra ele, era como um irmão mais velho que ele nunca teve.

Al olhava para aquele cano em sua direção. E nesse momento olhou pra cima e lembrou de Arch.

Al sentia que Arch era como a sua própria sombra projetada no chão em um fim da tarde. Por mais que ele corresse, jamais conseguia alcançar. Sua sombra sempre estaria lá, na sua frente, em um local impossível de se conseguir chegar.

E lembrou de que em diversos momentos desde que havia perdido seu irmão, pensava consigo mesmo: Será que meu irmão resolveria isso como?

Arch, com sua bondade, havia deixado um rastro de amor e admiração de diversas pessoas. Pessoas como Agatha e Lucca, entre tantas outras. Talvez Lucca nem tanto, pois havia sofrido lavagem cerebral, mas Agatha sempre admirou muito Arch. Mesmo depois que Al a prendeu, anos atrás, isso não diminuiu o que ela sentia por Arch. Pessoas que foram tão tocadas pela sua bondade, que jamais foram para a escuridão novamente uma vez que haviam encontrado a luz que era Arch em suas vidas.

“Não, Ar. Eu não concordo com você”, disse Al, em lágrimas, tomado por lembranças do seu irmão que tanto amou.

Seus músculos vibravam de dor, a tal cãibra era uma dor inexplicável naquela hora. Al olhou pra cima e viu seu irmão. Ele era como um anjo, tinha lindas asas douradas.

Mesmo se fosse pra morrer ali, Al não iria morrer de cabeça baixa, rendido. Não era assim que seu irmão queria que ele morresse. Arch o ensinou valores como confiança, amor, respeito e sabedoria. Colocou uma perna, usou todas as suas últimas forças e foi se erguendo. Lentamente. Nem mesmo Ar conseguia acreditar naquilo. Al ainda estava com a mão nas costas, soltando gemidos de dor cada vez mais sonoros, mas ainda tomava forças de algum lugar. De alguma convicção. De alguma certeza que estava escrita em seu coração.

“Não, você tá errado!”, disse Al, enxugando as lágrimas, “Você não conheceu o meu irmão, cara!”, brincou Al.

“O quê?”, disse Ar.

“Tudo bem, pode ser até que meu irmão tivesse um plano desses de querer fazer uma sociedade livre e justa para todos, onde todos tivessem liberdade, uma vida confortável e que todos se ajudassem. Mas, conhecendo meu irmão como eu conheci, não tenho dúvidas de qual seria a reação dele agora, nesse momento, lá do céu olhando pra gente, mesmo em lados opostos”, disse Al.

Nessa hora Al sentiu que Arch estava olhando pra ele, de onde quer que ele estivesse. E viu seu irmão mais velho sorrindo pra ele.

Al virou e olhou Ar no fundo dos seus olhos. O olhar do seu rosto mostrava uma determinação inabalável:

“Mesmo que eu fosse contra os ideais do meu irmão, eu não tenho dúvidas que ele me respeitaria e até me apoiaria, mesmo assim! Meu irmão nunca me chamaria de traidor, ou diria que eu iria contra os planos dele! Arch era a pessoa mais bondosa e generosa desse mundo, e mesmo que o seu próprio irmão estivesse em um lado oposto, ele nunca faria nada que me deixasse triste. Arch jamais me condenaria por não o seguir. Meu irmão sempre apoiaria pessoas que pensassem por si mesmas, pessoas com mentes livres, opinião própria. Acima de tudo me respeitaria...”, disse Al, com dificuldades em respirar, por conta da fumaça.

Ar desengatilha a arma. O clique era sonoro, mesmo naquela fornalha. Al resolve então concluir suas palavras, mesmo com o oxigênio acabando, e cada vez mais sem forças, tomado pela dor:

“...Pois o Arch que conheci nunca censuraria ninguém, nem mesmo quem tivesse um pensamento oposto dele! Não me venha dizendo que meu irmão está com raiva de mim, pois você nem sequer o conheceu! Meu irmão me apoiaria, mesmo que eu tivesse uma opinião que fosse contra os propósitos dele! Você é a última pessoa desse mundo que não pode falar sobre ele, Ar. Pois se você o conhecesse mesmo, saberia que mesmo que seu objetivo fosse o mesmo que o dele, os meios que você usa pra chegar nele são completamente ilegais, antiéticos e imorais! E meu coração, que sempre esteve ligado com meu irmão, sabe que mesmo que eu tenha que lutar pra proteger o seu legado de pessoas como você que tentam manchar o seu nome, mesmo que seu objetivo seja o mesmo que o dele, Arch estaria do meu lado mesmo assim!”, concluiu Al.

A fumaça já estava praticamente na cabeça deles. Já estava ficando difícil manter-se acordado. O oxigênio estava acabando, a visão ficando embaçada, e sem dúvidas o primeiro a cair seria...

BANG!

O tiro de Ar acertou Al em cheio, que caiu de joelhos no chão.

quarta-feira, 23 de março de 2016

Doppelgänger - #137 - DEICIDIUM II

Ar estava começando a se erguer. Já estava sentado. Al mal tinha forças pra fazer isso, permanecia jogado no chão.

“Acho que agora tenho que falar sobre mim também”, iniciou Al.

“O que? Depois de falar tanta asneira de mim agora vai falar sobre você?”, disse Ar, ainda furioso.

Al virou o rosto e encarou Ar calmamente.

“Eu sinto muito por tudo o que eu te fiz. Muito, muito mesmo. Me perdoa, por favor. Eu sei que o que mais pesou foi que eu era um exemplo muito grande pra você, não é mesmo?”, confessou Al.

“É óbvio que você era! Você foi a pessoa que me criou, me treinou, e me tornou o que sou hoje! E depois me abandonou e foi pro fundo do poço, como um derrotado que você sempre foi, vivendo tentando alcançar o que seu irmão mais velho era, que você nunca será!”, disse Ar.

Al, com os olhos lacrimejados parecia recuperar o fôlego. Havia se erguido e também já estava sentado. Colocou a mão no ombro de Ar calmamente. Estava claramente tomado pela emoção.

“Ar, eu nunca vou conseguir fazer nenhum mal contra ti. Talvez eu poderia até tentar, mas cada coisa que faria contra você doeria o triplo em mim. Você que esteve junto comigo e a Val naqueles tempos difíceis, era você quem estava do nosso lado, compartilhando as dificuldades. Você é a minha única família, a única pessoa que restou pra mim. E eu também de você. Vamos parar com isso. Por favor!”, disse Al.

Por um momento Ar ficou olhando atentamente pra Al. Os olhos de ambos haviam se encontrado, e eles estavam se vendo como há muito tempo não se viam. Ar havia mudado muito. Talvez Al não teria mudado tanto desde a morte da esposa, que culminou no afastamento de Ar. Mas naquele momento, tomado pela escuridão e pelo alaranjado daquele fogo todo, parecia um momento em que eles nunca haviam compartilhado em tanto tempo.

“Corta essa!”, disse Ar, se erguendo.

Al estava surpreso. Com a expressão mostrando seu susto viu Ar agarrando-o pelo pescoço com as duas mãos e o erguendo.

“Vamos, levanta seu idiota. Pelo menos morra com a cabeça erguida!”, disse Ar, usando toda sua força pra erguer Al, que mesmo exausto, tentou se manter em pé.

“Me desculpa, Ar! Me desculpa por ter me rendido à depressão quando minha esposa morreu!”, disse Al, tentando apelar pra alguma compaixão que tivesse em Ar ainda.

Ar ainda segurava Al pelo pescoço. Ar deu uma brutal cabeçada depois da última fala de Al, que o fez cambalear para trás, com a mão na cabeça, sentindo muitas dores. Chamas ficavam cada vez mais furiosas atrás de Al. E Ar teve a ideia de se jogar contra Al, empurrando-o contra as chamas atrás dele.

“Quem vai virar cinzas é você, seu idiota!”, gritou Ar, correndo em direção de Al, para empurrá-lo com toda sua força para as chamas.

Merda! Ele está tomado pela fúria!, pensou Al.

Ar veio correndo pra cima de Al. Este percebera que ele estava cego de fúria, e que não teria condições dele, na altura da sua idade, combater Ar de igual pra igual. O jeito era usar a força dele contra ele mesmo. Al simplesmente desviou.

Ar foi com tudo e passou por Al, sem nem tocá-lo. Desviou a tempo e bateu nos servidores do VOID, derrubando-os. Vários fios partidos jogaram faíscas pra cima, enquanto Ar se erguia novamente.

“Seu espertinho, eu vou te matar agora!!”, gritou Ar, com marcas de ferimento no braço.

“Ar, se provavelmente minha esposa estivesse viva, eu não descarto que talvez seria eu que estaria do seu lado, nessa sua insurreição. Mas a morte dela abriu um buraco enorme em mim, uma cicatriz que nunca consegui de fato curar! Eu não queria saber de mais nada, exceto viver num eterno luto por ter perdido ela nos meus braços! Eu não consegui lutar, eu não consegui me erguer! Queria enfim ter uma vida comum, com problemas comuns, como uma pessoa comum! Estava farto de ser uma ferramenta de interesses maiores!”, disse Al. Mas Ar não parecia ouvir.

“CALA A BOCA!!”, gritou Ar.

Novamente Ar, furioso, correu pra cima de Al tentando agarrá-lo. Mas, novamente, Al desviou sem problemas, e Ar acabou se chocando contra outros servidores do VOID, derrubando todos do lado oposto de que ele havia caído da primeira vez.

“Eu queria ser pra você o que meu irmão foi pra mim. Mas eu nunca consegui isso. Meu irmão era um avatar da justiça, uma pessoa justa e bondosa, e eu nunca consegui ser como ele pra você. Nunca. E isso tudo é culpa inteiramente minha, Ar.”, disse Al.

Ar ainda tentava se erguer, no meio de mais lixo do VOID que ele havia aterrissado.

“Infelizmente não sou um ser humano como meu irmão foi. Eu tenho falhas, e muitas. E eu sinto muito, muito mesmo por tudo o que eu te fiz. Eu não sou nenhuma lenda, não sou nenhum super agente da inteligência. Sou um cara comum e melancólico, triste por ter perdido a esposa que tanto amou e o irmão que tanto se inspirou. Eu sou apenas um sobrevivente. Porque sei que morreria igual um animal a qualquer momento, sem glórias, sem ninguém. Essa é a verdade sobre mim”, disse Al.

Ar estava terminando de se erguer. Seus olhos estavam furiosos. Ele havia perdido o controle de si mesmo.

“E se não for tarde demais, será que não poderia me dar a chance de te ajudar?”, pediu Al.

sexta-feira, 18 de março de 2016

Amy (2015)


Eu assisto/jogo muita coisa, mas só as coisas que acho bacanas que merecem serem postadas aqui. Na última edição do Oscar, um documentário sobre uma das pessoas que eu mais adoro ganhou o prêmio de melhor documentário. Como está no Netflix, resolvi assistir. E ficou genial mesmo.

Amy Winehouse morrer foi talvez um dos piores presentes de aniversário que eu tive na vida. Inesquecível a data, 23 de julho de 2011. O documentário mostra não apenas a trajetória, mas a vida pessoal dessa cantora que em seu tempo tão curto entre nós, conseguiu encantar tantas pessoas.

É incrível como eles conseguiram tantas filmagens e áudios dela, além dos clássicos depoimentos. Impossível não chorar de tristeza ao ver ela se envolvendo com drogas pesadas, e também impossível não chorar de alegria quando ela ganhou seu primeiro Grammy, entregue pelo seu maior ídolo, a lenda do jazz Tony Bennett.

O documentário tem umas sacadas muito boas. Amy era um gênio, isso ninguém nega. Como ela não gostava muito das letras de músicas de outras pessoas, ela mesma escrevia diversos dos seus sucessos. Letras impactantes, que falam de dificuldades da sua vida, eram lindas poesias que por si só seriam muito boas, sem precisar da voz dela cantando com aquele jeito único dela. O jeito que o documentário mostra é genial. Pois mostra ela cantando (ou gravando) e as letras vão saltando na tela de acordo como ela canta, como um karaokê, mas... Diferente. Pessoas como eu que sabe diversas músicas dela de cor olhou de outra maneira vendo desse jeito.

O jeito que colocaram a linha do tempo foi muito boa. Não é um documentário com pessoas falando pra câmera, mas sempre mostram fotos ou vídeos da Amy, locais que ela visitou, pessoas que conheceu. Isso dá um outro ar ao documentário.

E a parte da morte dela foi bem sutil até. Infelizmente Amy Winehouse sofria de bulimia, além do consumo excessivo de álcool, essa combinação dura iria um dia inevitavelmente acabar matando ela. E foi exatamente o que aconteceu. Eu gostava muito dela, e fiquei muito feliz quando via nos noticiários que ela estava melhorando. A morte dela foi uma surpresa péssima pra mim, assim como foi perder o Michael, pois assim como ela, ele estava super bem, se preparando pra uma turnê nova, e tudo mais.

Mas em suma, é um documentário muito, muito bem feito. Vale muito a pena conhecer outros aspectos dessa pessoa ímpar que foi Amy Winehouse.

quarta-feira, 16 de março de 2016

Doppelgänger - #136 - DEICIDIUM I

O punho de Al havia acertado Ar em cheio. Este recuava pra trás tentando se recompor, e antes que conseguisse recuperar o equilíbrio, Al veio com todo impulso, e em um empurrão se jogou de cabeça contra Ar, que bateu forte na parede de um dos servidores do VOID.

Ar não soltava um único grito. Al o agarrou pelo seu sobretudo e o puxou de volta da parede, segurando firme com uma mão e desferindo socos com a outra. Depois do terceiro soco Al acabou soltando o sobretudo de Ar, e o impulso de um quarto soco o jogou no chão, que caiu deslizando no chão deitado, até ficar bem próximo de chamas que haviam alcançado o chão.

Al foi caminhando até ele. Faltavam apenas alguns passos, e Ar virou seu rosto, com o nariz sangrando e os olhos vermelhos, dizendo:

“É só isso?”, disse Ar, “Você pode ser inteligente, mas acho que teria sido melhor trazer Victoire ou Agatha. Elas teriam batido bem mais forte. E você sabe disso”.

Era verdade. Al estava completamente sem ar. Sua respiração estava ofegante, e sua mão, que havia usado pra desferir os socos em Ar, estava doendo muito. E Al achava que tinha usado toda sua força. Mas sequer tinha feito cócegas em Ar. Nem mesmo um grito ele tinha soltado.

O jeito era usar as palavras.

“Bom, vou começar falando sobre você, imbecil”, iniciou Al, “Você acha que pode manipular o mundo pra criar essa utopia, usando a imagem do meu irmão, e do seu pai, uma pessoa pura que sempre quis o bem de todos! Você brinca com a economia, empresas e governos como se fosse seu joguinho particular! Você não tem noção nenhuma do que está fazendo, seu idiota! E se as coisas saírem do seu controle?”

Ar estava se erguendo calmamente enquanto Al falava. Tirando o sangue escorrendo do nariz, parecia que nada havia acontecido.

“Essa é a ideia. O caos! O homem durante sua história sempre passou por momentos de transformação. Caso contrário estaríamos presos em feudos ainda. Saíamos dos feudos e criamos o capitalismo. Derrubamos a monarquia, e veio então a república. Agora vamos sair da selvageria, e vamos todos viver uma sociedade enfim igualitária onde ninguém será submisso a nenhum governo. Uma anarquia que todos ajudarão uns aos outros, um mundo perfeito!”, disse Ar.

“É exatamente isso, seu idiota! Você fica se escondendo por detrás desse seu plano de aperfeiçoamento social, mas você parece que não entende que você não foi o primeiro, nem mesmo o último a pensar isso!”, disse Al.

“Ora, cala essa boca! Guerras acontecem por causa disso! Os dois lados sempre vão defender sua justiça como a correta!”, disse Ar, vindo pra cima de Al.

O golpe de Ar dessa vez doeu muito mais do que da outra vez. Al tentava se defender, colocando os braços em frente ao corpo, mas foram muitos golpes. Sequer teve tempo de respirar, tentando se defender dos golpes, e recuando passo a passo. Quando encostou na lataria do VOID (ou do que ele tinha sido um dia), Al pegou e se jogou pra cima de Ar, empurrando-o.

Ar foi jogado, caindo novamente no chão.

“Sim, muita gente tentou isso! As ideias que meu irmão tinha foram herdadas do coronel Briegel, de uma missão que ele viveu durante a Segunda Guerra Mundial! Foi depois de lá que nasceu o plano do Chrysalis, que você diz que é original seu. Não, Ar... Muita gente, muita gente tem tentado isso. Mas ninguém conseguiu! E talvez passarão décadas, séculos, milênios, e ninguém vai conseguir! É verdade que coisas como democracia não são as melhores opções. Mas entre as opções, é a melhor que temos, e temos que defender ela! Entre os males, é o menor pior!”, disse Al.

“Cala essa boca!! Tô cansado de falar com você, você nunca vai me ouvir!”, disse Ar, se erguendo e indo pra cima de Al.

Cada vez mais os golpes vinham com mais e mais fúria, mas dessa vez Al usou a força do seu adversário contra ele mesmo. Assim que ele veio pra cima, Al se agachou, desviando do golpe e aplicando uma cotovelada peitoral do seu adversário.

Ar recebeu o golpe, e quando ia se virar, recebeu do seu tio uma rasteira jogando-o no chão. Al montou em seu tronco e começou a desferir diversos socos, cada vez alternando entre um punho e outro na cara dele. E enfim, depois de alguns golpes, Ar deu o primeiro grito de dor. Talvez estivesse enfim funcionando.

Mas Al estava velho. E cada vez mais ele ia ficando mais tonto. Os golpes, que estavam fortes, estavam fracos. Até que ele caiu pro lado, cansado.

Ah, que merda... Agora não, argh!, pensou Ar. Mas seu corpo não respondia mais. A luta contra a idade era uma luta perdida.

Os dois estavam jogados no chão. Um do lado do outro. Al estava sem energia, olhando pro teto, cada vez mais escuro, sendo tomado pela fumaça negra, cada vez mais presente.

“Sabe o que mais me machuca? Você usar o meu irmão, o seu pai, pra justificar seus atos. Justificar pessoas sofrendo. Você manipulou eu, manipulou pessoas que estiveram ao lado dele, e eu falhei nessa missão desde o começo. Ainda estamos em 2012, e o mundo está caminhando pra um futuro cada vez mais sombrio. Eu te criei como meu irmão mais novo Ar. Eu queria ser pra você o que meu irmão foi pra mim. Isso que eu achava correto”, disse Al.

Mal sua visão tinha ficado boa novamente e Al vê, ao seu lado, de pé, o próprio Ar. Ele fita Al, como um predator olhando sua presa, prestes a abater.

“Sua vingança não é contra mim. É contra o mundo que todos nós demos sangue pra proteger. Ar, meu irmãozinho...”, disse Al, com lágrimas, “...Meu querido sobrinho... Pare com isso. Eu imploro”.

Ar ainda em pé ao seu lado. Começou então a chuta-lo com brutalidade.

“Seu inútil!”, dizia Ar, enquanto alternava as falas entre os chutes no corpo de Al, “Quando eu precisei de você, não estava lá! Não esteve do meu lado! Se afundou na depressão depois que perdeu a esposa! Vive com outra identidade em algum lugar do mundo, escondido de todos! Eu queria você do meu lado! Eu queria você construindo comigo o mundo que o seu irmão sempre quis!”.

Mas Al ainda persistia. Por mais que o corpo pedisse para desistir, ele continuava tentando se manter acordado. Mesmo com todas as dores, não apenas no seu corpo, mas na sua alma.

A vontade de viver. Eu preciso continuar. Não importa se for contra o meu irmão, pessoas irão sofrer se eu desistir. Eu não posso desistir! Eu não fui tão longe pra completar o treinamento com meu mestre e agora não usar. Uma pessoa lógica pode ter certa vantagem de não usar seus sentimentos na investigação, mas eu posso usar meus sentimentos. Eu posso superar isso! Eu tenho que fazer diferente! Nada supera essa vontade de viver!, pensou Al, como num flashback do treinamento final do seu mestre.

Ar cansou de chutar. Al já não gritava. Talvez estivesse morto.

Ele se abaixou e olhou no rosto de Al. Ainda piscava e respirava. E Al foi lentamente se erguendo, até ficar sentado no chão, de frente pro seu sobrinho.

Da onde ele tirou forças?, pensou Ar.

Al não queria mais bater. Não queria mais violência. Depois de tomar um Ar, sorriu um sorriso cheio de sangue nos dentes para Ar, mas ainda totalmente amistoso.

“Escuta... Eu sei que falhei. Não fui um irmão, ou tio perfeito pra você como meu irmão foi pra mim, mas...”, disse Al, sorrindo amistosamente, “...Se não for tarde demais, será que poderia me dar a chance de te ajudar? De me redimir de tudo o que te fiz? Me dê a chance de consertar. Por favor”.

segunda-feira, 14 de março de 2016

Doppelgänger - #135 - Não há revolução sem banho de sangue.

Ar estava com Al na sua mira. Os dutos de ar condicionado estavam ao máximo tentando aspirar aquela fumaça dali. Mas com certeza não durariam muito tempo. Al estava na frente de seu sobrinho. Os dois transpiravam. Aquele local parecia uma fornalha.

“Ar, espera. Acho que você ao menos poderia explicar o que faria depois que sua missão estivesse pronta”, disse Al.

“Cala essa boca! Com o VOID destruído várias etapas foram interrompidas. Pelo menos até eu recuperar o investimento e criar um novo continuar da onde parei!”, disse Ar.

Ambos se olhavam andando em círculos. Cada um observando milimetricamente o movimento do outro. Al não tinha nenhuma arma ali. E mesmo num combate corpo-a-corpo seria complicado, pois não apenas Al não era tão bom em combate, assim como Ar também tinha uma clara vantagem: juventude.

“Você não iria querer destruição pela destruição. Não faz o seu estilo. Devia ter algo que você iria colocar em ação depois que tudo estivesse caminhando”, disse Al.

“Hahaha!”, Ar deu uma gargalhada forçada, “E o mais irônico é que justamente quem deveria ser o sucessor desse sonho, é justamente quem quer me parar!”.

Ar deu mais uma gargalhada. Al avançou pra cima dele, puxando o seu braço, e aplicando um golpe, derrubando a arma da sua mão, chutando-a para longe. Ainda com o braço de Ar em mãos, Al deu uma cotovelada potente no rosto do seu inimigo, que recuou alguns passos, pra se recuperar.

“Ora, seu! Porque acha que eu vou temer um velhote como você!”, disse Ar, avançando com uma cabeçada pra cima de Al, que acabou sendo pego e jogado violentamente contra um dos imensos e pesados servidores do VOID, que queimavam do outro lado.

O golpe doeu mais do que Al pensava.

“Eu parar isso? Eu nem sabia de nada, seu louco”, disse Al, ainda no chão, se recuperando.

Ar desferiu um chute bem no peitoral de Al. Este gritou de dor, no chão.

“O sonho do seu irmão mais velho!”, disse Ar, sem jamais se referir a Arch como seu pai, “Ou você era muito criança pra saber o que ele desejava fazer?”.

Ar desferiu mais um chute, dessa vez bem no queixo. Al bateu a nuca no VOID com o impacto. Mas ainda estava consciente, por mais dolorido e forte que havia sido a pancada.

“Meu irmão...”, disse Al, cuspindo sangue, “...Mesmo que tivesse um sonho, jamais gostaria de ver inocentes sofrendo”.

“Cala essa boca, você não sabe de nada!”, disse Ar, agarrando Al pelo colarinho e puxando. Al ainda mal havia se recuperado. Ar o deixou num canto e virou de costas, indo em direção da arma.

Al estava fraco. Seu corpo envelhecido – por mais que fosse por causa da doença – mostrava que se erguer depois de uns dois ou três golpes era uma tarefa quase impossível. O corpo inteiro doía, e pedia pra descansar. Mesmo que fosse pra descansar eternamente ali, no meio daquelas chamas.

Ar veio com a arma, apontando pra Al.

“Consegue ainda me ouvir, seu velho?”, disse Ar, apontando a arma. Al, caído no chão, apenas virou o olhar em direção pra ele, confirmando.

“Seu irmão tinha um sonho, sim. Você sabe muito bem. Arch sabia muito bem que todos os agentes eram apenas ferramentas do governo, e pra isso ele havia feito um plano pra trazer liberdade pra eles”, iniciou Ar.

Al apenas observava aquele cano preto da arma apontada pra sua testa. Estava tentando obter alguma força pra se erguer.

“Mas muitas pessoas tinham o seu irmão como um paladino da justiça. E pessoas seguiam ele. Pessoas foram inspiradas no seu melhor graças a atos bondosos que ele demonstrava com todos. E acreditavam nos ideais dele. De um mundo livre. Um mundo que eu quero trazer hoje, completando os planos dele. Pra isso criei o Vanitas e o Legatus. E nosso exército pessoal, os Filhos de Arch”, disse Ar.

“Entendi”, disse Al, se apoiando com os braços no chão tentando se erguer, “Você pegou pessoas que tinham meu irmão como inspiração e os colocou na mesma altura que você. Como o único filho de sangue dele”.

“Exato, tornar o Zeitgeist não apenas real, mas também aprimora-lo”, disse Ar.

“Hã? Você está se inspirando em um movimento real, de estudiosos, que querem de alguma forma fazer um mundo melhor, pra justificar sua guerra contra o mundo?”, disse Al, furioso.

“Não existe revolução sem banho de sangue”, disse Ar.

Al colocou o joelho e apoiou nele. Estava enfim conseguindo se erguer.

“Um mundo perfeito, onde todas as pessoas serão livres, não haveria mais comércio, não haveria competição, e todos os seres humanos viveram fazendo pleno uso da tecnologia, da genialidade inata de cada um, onde todos se ajudassem. Pensa bem, meu irmão! A crise que sofremos hoje não é uma crise econômica, nem de religiões, países ou interesses. É uma crise de CONSCIÊNCIA!”, disse Ar, enfatizando a ultima palavra.

Al ainda arfava. Conseguir se apoiar no joelho tinha sido uma coisa e tanto pra quem mal conseguia se mexer, jogado no chão.

“Por isso estou fazendo tudo isso! Não se pode construir um novo castelo se não demolir o antigo! Preciso criar um caos mundial, para então ir colocando a ideologia de um novo tempo aos poucos, e as pessoas veriam que tudo o que eu desejo é apenas o benefício da humanidade! Era o que seu irmão queria! Um mundo livre, onde não estivéssemos presos a nada, que todos pudessem ser quem sempre quiseram ser. Um mundo ideal. Um mundo que eu tornaria real, se não fosse você se meter no meu caminho, seu idiota!!”, gritou Ar.

Al conseguiu mais um pouco de força. Estava se erguendo, mas a mão não saía do seu tronco. Estava doendo muito. Parecia que tudo dentro dele havia sido esmigalhado pelos golpes de Ar.

“É! Você diz que eu sou o vilão, Al. Mas na verdade, o vilão aqui é você. Esse mundo foi idealizado pelo seu irmão! E você, tendo o sangue dele, assim como eu, está lutando pra que esse sonho dele não se realize. Mesmo que seja postumamente!! Eu vou pegar toda essa ideologia do Zeitgeist, todo esse mundo perfeito, e irei aprimorar! Arquitetarei uma nova sociedade, um novo paradigma. Pessoas serão felizes. O mundo será igualitário, justo e todos terão uma vida digna. Todos os que acreditavam nesse mundo que seu irmão sempre idealizou. Pessoas essas que morreram acreditando no que o Arch pensava que um mundo ideal deveria ser!”, disse Ar.

Al, com uma mão na altura do estômago, foi caminhando, a passos tortos em direção de Ar, que ainda com a arma em punho apenas observava os passos lentos e fracos do seu tio. O rosto de Al estava virado, e seus olhos com as sobrancelhas cerradas, fitando Ar. Os dois estavam mudos. Apenas o som das chamas ao fundo que dava a trilha sonora para a cena.

Enfim, depois de uns cinco ou seis passos chegou até onde estava a arma de Ar. Calmamente colocou sua mão sob a arma, e Al gentilmente abaixou o braço de Ar que segurava a arma. Ele não se opôs.

Al deu um sorriso tímido olhando pra Ar.

“O que é isso? Vai dizer que você entendeu e vai me ajudar?”, disse Ar, desconfiado.

Al se dizer nada fechou o punho de deu um soco com todas suas forças no rosto de Ar.

sexta-feira, 11 de março de 2016

Doppelgänger - #134 - Tu, que eras cinzas, às cinzas retornarás.

Agatha ouviu os passos que subiam até o andar onde estava com Lucca. Calmamente foi caminhando até o corredor, e sacou seu celular.

“Dieter, desligue as luzes do hospital, por favor”, ordenou Agatha, para um dos seus capangas que trabalhavam com ela como traficante de armas. E assim foi feito. O hospital estava ás escuras. As poucas luzes que entravam no local vinham da iluminação pública através das janelas, “Bom, obrigada. Ah, eu peguei emprestado sua Desert Eagle também, mas vou tentar não precisar dela. Só no caso de uma emergência”.

Agatha ia na espreita, parecendo alguém caçando animais. Via que eles haviam acendido lanternas nos seus rifles, apontando pra todos os cantos. Homens encapuzados, trajando preto, prontos para matar ao menor movimento.

Isso, um a menos, disse Agatha ao chegar por trás de um deles e estrangula-lo sem produzir o menor ruído. Ele havia entrado sozinho em uma das salas com leitos.

“Ei, parada aí!”, disse um segundo e terceiro homem que entraram e viram enquanto Agatha escondia o primeiro inconsciente.

Agatha correu e se escondeu em uma quina de um móvel, o primeiro veio procura-la enquanto o outro ligava o rádio pra avisar os outros. Antes mesmo do primeiro chegar na quina, esse havia sido derrubado e batido a cabeça abafadamente no chão. Enquanto o outro observava a situação sem entender nada o que estava acontecendo, Agatha chegou na frente dele e lhe aplicou um golpe preciso no meio do rosto com seu punho.

Ah, cacete... Minha mão!, gemeu Agatha baixinho. O homem vestia uma proteção, e o punho de Agatha foi direto nessa proteção do rosto. Alguns ossos da sua mão esquerda haviam trincado.

Agatha pegou do uniforme dele duas facas do exército.

Quatro outros caminhavam cautelosamente com suas armas apontadas na frente, iluminando o caminho. O primeiro viu as pernas de um companheiro seu e se aproximou.

“Temos uma perda! Venham logo, tem alguém aqui nesse andar causando problemas!”, anunciou.

Dois deles se aproximaram, os outros dois cruzaram o corredor na frente, buscando Agatha. Ela saiu de uma sala que ficava na frente de onde estava o corpo do soldado caído e fincou as facas nas costas de outros dois. Se agilizou e cruzou o corredor, mas deu de cara com os outros dois soldados que, ao verem Agatha, se assustaram e começaram a atirar.

Agatha voltou alguns passos, e os guardas foram atrás dela. Ela havia sumido.

“Pra onde diabos ela foi?”, perguntou um deles.

Agatha caiu do teto em cima de um com uma forte cotovelada na nuca, enquanto o outro mal teve tempo de reação, pois Agatha enfiou o pé na sua cara antes que ele pudesse entender o que estava acontecendo.

“Rá! Vocês podem ser do exército, mas eu dei uma surra na Victoire, que é bem mais forte que todos vocês juntos!”, brincou Agatha.

Nessa hora um soldado apareceu atrás dela e outros dois do outro lado do corredor. Estava encurralada.

Merda...!, pensou Agatha, que se agachou, e sacou a Desert Eagle. Quatro disparos bem sonoros. Três na cabeça, e um outro acabou acertando o pescoço, pois ela não tinha certeza se realmente tinha acertado.

Puxa, não queria ter que usar isso. Mas era uma emergência, disse Agatha, guardando sua pistola atrás da calça. Seu celular tocou. Era Dieter, um traficante de armas que trabalhava com ela.

“Senhora, ameaça neutralizada aqui pelos seus homens. E aí no andar que a senhora está? Ouvimos uns tiros”, disse Dieter.

“Está tudo bem. Acabei sendo encurralada, mas sua arma calhou bem. Pode ligar as luzes de novo”, disse Agatha.

Al, por favor, me diga que você está bem!, pensou Agatha.

- - - - -

“Fique aqui”, disse Al para Frost, “Ou volte para onde Neige e Victoire está. Eu vou atrás do Ar. Sua missão já está completa”.

Completa? Como assim? Eles vão invadir isso aqui a qualquer momento! E se nos matarem também?, pensou Frost. Ele não voltou, nem seguiu Al, permaneceu apenas parado ali.

Al observava Ar descendo as escadas. Ele ia seguindo-o calmamente, logo atrás dele. A força havia sido cortada assim que ele havia chegado no primeiro subsolo, mas o caminho era iluminado parcamente por luzes de emergência instaladas no teto. O cheiro de algo se queimando só aumentava quanto mais se descia, seguindo Ar de perto.

Chegaram então no terceiro subsolo. A cena ali era indescritível. Haviam grandes servidores com o logo do Vanitas estampado. Um grande salão com diversos mainframes e um telão imenso no lado oposto da parede. Aquilo tudo ali devia ser o VOID, em chamas, mas ainda ativo e processando, pelos LEDs que piscavam.

Tudo era tingido de laranja. O laranja das chamas que se misturava com a fumaça que tentava escapar sendo sugada pelos dutos do ar-condicionado.

Mas o pior detalhe era o que estava no chão. Haviam manchas escuras, e corpos completamente dilacerados por balas, com suas entranhas saindo dos seus corpos. As manchas não eram pretas. Al logo viu que se tratava de sangue. E muito. Homens e mulheres, todos vestidos com fardas e o logo do Vanitas. Parte do exército de Ar, que seguiam os ideais dele. Todos mortos, alvejados brutalmente.

Alguém esteve ali. E começou o incêndio, e matou todas aquelas pessoas brutalmente.

“Esse era o lugar mais seguro que havia encontrado pra manter o VOID. Eu achava que absolutamente ninguém o encontraria, que ninguém teria acesso”, disse Ar, ainda de costas para Al, observando todas as chamas consumindo tudo, “Mas alguém descobriu e... Fez isso com tudo o que havia criado”.

“Achei bem apropriado”, disse Al, caminhando lentamente na direção de Ar. Aquele local parecia uma fornalha, e os dois já estavam começando a transpirar, “E ainda mais chamas. Acho que não tem melhor maneira de terminar com isso”.

“Terminar? O que quer dizer que isso?”, perguntou Ar, se virando, furioso.

“Apenas que... Tu, que eras cinzas, às cinzas retornarás”, disse Al, cerrando os punhos, e pronto para um embate corpo-a-corpo com Ar.

“Seu imbecil!”, gritou Ar, “Ao menos eu vou me contentar com a sua morte!!”, apontando a arma para Al.

quarta-feira, 9 de março de 2016

Arrow (2012)


Eu assisto com meu irmão mais novo e minha mãe o seriado The Flash, da Warner. Mas havia uma personagem que fazia diversos kameos que desde que apareceu ganhou meu coração: Felicity Smoak (interpretada por Emily Bett Rickards). Eu queria ver ela mais vezes, porque era uma personagem nerd, gata e muito, muito engraçada e atrapalhada. E pra administrar doses de Felicity Smoak eu teria que assistir o seriado de onde ela originalmente é: Arrow.

(Sim, eu tô assistindo todos os seriados de super-heróis disponíveis. Isso tá mais legal do que na minha infância! Hehe)

No começo eu estava meio apreensivo. Nada contra super-heróis que não tem poder algum (como o Demolidor). O Arqueiro Verde é um desses heróis sem poder, mas muita ideologia e vontade de chutar uns traseiros. Mas gostei bastante! E aqui está o que mais gostei e detestei no seriado:

Eu gostei porque tem muita gente bonita
Definitivamente Arrow não se passa em São Paulo. Além de ser uma terra onde não existe amor, não existe muita gente bonita aqui. Mas fico impressionado com a beleza desse povo de Starling City, onde se passa a história. Todo mundo é muito bonito, e não era só a Felicity. O seriado é um colírio para os olhos, seja uma audiência masculina ou feminina.


Como por exemplo, a estonteante Laurel Lance (interpretada por Katie Cassidy, acima), advogada, linda, sabe surrar e se defender muito bem, é alta (isso é o mais difícil) e ainda é a Canário Negro, uma das primeiras heroínas da DC. Cada episódio é certeza de babar vendo ela com seu andar de parar o trânsito. Isso porque não contei a Thea Queen, Felicity Smoak, Sara Lance, entre outras.



Mas mulherada pode babar também. Minha mãe adora quando o Oliver Queen, o alter-ego do Arqueiro Verde, faz umas participações especiais no The Flash. Para o delírio da mulherada, o cara aparece sem camisa várias cenas. Pras mulheres, o tanquinho perfeito que as deixam no delírio. Para nós, homens, temos Laurel, Thea, Felicity pra embelezar nosso dia. Todo mundo é feliz assistindo ao Arrow!

Eu gostei da Felicity Smoak
Ok, eu queria assistir porque queria ver a Felicity várias vezes. Fiquei triste porque comecei a assistir, e os primeiros capítulos eram meio chatos, porque o legal mesmo é ver a turma inteira, e não o Oliver sozinho fazendo justiça. E pelo menos até que ela se junte ao time do Oliver pra combater o crime, ele sempre inventa uma desculpa esfarrapada pra ela achar os criminosos/organizações do mal:



Bom é óbvio que essa flecha é de um assassino, e não de nenhum amigo dele. Mas a forma que ele conta é a mais escrachada possível, e a cara da Felicity que finge que acredita no papo é melhor ainda, hahaha. No final da primeira temporada ela enfim se junta ao time e deixa de ser uma personagem que aparece de vez em quando. Curiosamente é quando o seriado fica melhor ainda, hehe. Felicity merecia um seriado só dela!

Eu não gostei da produção
Eu comecei a sacar que talvez tenha vantagens e desvantagens de um mesmo produtor fazer várias séries ao mesmo tempo com seu toque pessoal. A Netflix com séries da Marvel tomou cuidado com isso, em Jessica Jones e o Demolidor (colocou produtores diferentes). Mas o problema aqui é que Greg Berlanti produz ao mesmo tempo Arrow, The Flash, Supergirl e Lendas do Amanhã. E pelo menos nos três primeiros a estrutura é muito parecida.


Por exemplo, sempre temos um hacker fudido que ajuda o protagonista (Felicity em Arrow, Cisco em The Flash e o Winn em Supergirl). Tem uma trama que permite um número imenso de vilões: o caderno com os nomes dos criminosos de Starling City (Arrow), o raio que criou meta-humanos malvados (The Flash), e Fort Rozz (Supergirl). Famílias problemáticas: A mãe criminosa do Oliver (Arrow), a paixão pela sua irmã de criação (The Flash) e uma tia kriptoniana psicótica (Supergirl). Pra quem assiste um separado, ótimo, parece genial. Mas depois de ver os quatro começa a sacar que existe demais a assinatura do produtor, e fica repetitivo.

Eu gostei do suspense
Barry Allen, no The Flash, pode ser até um perito forense trabalhando na polícia, mas The Flash não tem nada de trama policial. Já Arrow, o coitado não tem poder nenhum, então o jeito é apelar pra trama com diversos plot twists e investigações. E pra apimentar mais a coisa, coloque junto diversos aliados que vão aparecendo, enriquecendo ainda mais o time de personagens.


Tem muito, mas muito personagem. E muitos você vê crescendo, como a irmãzinha Thea (acima) na primeira temporada virando a imbatível Speedy na quarta (ok, eu tô assistindo a segunda temporada, mas eu adoro um spoiler!). Eu adoro quando uma história é boa e me envolve ao ponto de eu falar: "CARALHOOOO! Não é possível!" quando um acontecimento chave acontece. Coisa que só Arrow poderia ter.

Eu não gostei dos flashbacks
Oliver Queen era um playboy vagabundo, até que ao sair pra viajar no iate com seu pai ele acaba ficando preso cinco anos em uma ilha no meio do nada e lá come o pão que o diabo amassou com manteiga na chapa. E eu entendo que os Flashbacks são necessários pra criar todo o background do personagem, mostrar como ele se tornou o Arqueiro Verde, e assim por diante...


Mas tem hora que fica chato! Tem um episódio na primeira temporada que é inteiro em flashbacks, pois o Oliver levou um tiro e fica inconsciente enquanto o Diggle e a Felicity tentam ressuscitar o cara. E eu pensando que isso só iria durar uma temporada, na segunda voltam os flashbacks! O mais chato é que nos flashbacks o Oliver é cru de tudo, super bundão (aliás, parabéns ao ator, mandou bem!), e por ser torturado e provocar um exército maluco por lá tem que dar seus corres pra se salvar.

- - - - -

Em suma, até que gostei bastante! Pensei que seria mais chato, e tá cada vez mais ficando legal com outros heróis e vilões aparecendo. Ainda tô na segunda temporada, mas me empolguei o suficiente pra vir postar e indicar aqui. Vale super a pena!

Doppelgänger - #133 - AURORA.

“Vamos, Frost. Me diga logo, onde estão as escutas que você colocou. Facilite o meu trabalho”, disse Ar, apontando sua arma pro rosto de Frost.

“Deixa ele, Ar. Ele é apenas um jornalista”, disse Al, se aproximando.

“Cala essa boca, Al!”, disse Ar, começando a se alterar, “David Frost é um jornalista de merda. Eu pensei que o Tommy tiraria da sua cabeça essa sua ideologia e te colocasse no mesmo caminho que o resto do mundo está indo. Pra que ser tão divergente, Frost? Pra quê? O que acha que vai ganhar com isso?”.

“Dinheiro, nem ideologia nenhuma vai comprar a liberdade, Ar”, disse Frost.

A arma não saía da cabeça de Frost.

“Não importa. E eu não quero também sujar minhas mãos. O VOID vai achar cada uma das câmeras sem problemas”, disse Ar, tirando a arma do rosto de Frost, “Já dei o comando pro VOID. Guardas, juntem mais uns três de vocês pra buscar as câmeras. Deixem Frost aqui”. Os guardas soltaram os braços de Frost imediatamente. Ele caiu de joelhos.

“É, pelo visto você não teve o melhor tratamento”, disse Al.

“Me bateram um pouco, sim. Mas precisariam de muito mais que isso pra me tirar da brincadeira”, disse Frost. Al deu um singelo tapinha nas costas dele. Frost se ergueu e ficou do lado de Al, se apoiando nele com o braço.

Nessa hora o celular de Ar tocou inesperadamente. Número desconhecido.

“Hã? Quem seria numa hora dessas? VOID, intercepte a ligação”, ordenou Ar. Segundos depois uma mensagem saltou no smartphone de Ar:

AURORA WATSON. Procuradora geral do Reino Unido.

“VOID, quero que jogue o áudio nos auto-falantes daqui. Quero que todos ouçam”, disse Ar.

O que ele pretende? Não... Ele deve estar com algum tipo de megalomania. Talvez queira provar algo, pensou Al. Realmente aquilo era inesperado. Al e Frost permaneceram calados, enquanto ouviam a conversa entre Ar e Watson.

“Arthur Blain? É você?”, perguntou Watson.

“Senhora Aurora Watson, eu presumo! Não achou que ligar pra mim de um número desconhecido iria me deixar de alguma forma intrigado, não? Sei exatamente de quem se trata. Em que posso ajuda-la?”, perguntou Ar.

“Ar, nesse momento você está preso, e tem o direito de ficar calado! Você foi pego em flagrante, e vou tratar de desmantelar toda essa rede que você criou ao longo desses anos!”, disse Watson, decidida.

Ar parecia estar calmo, com o controle da situação. Deu um leve riso e prosseguiu:

“E quem você vai me mandar prender? Achou que eu teria um time de pessoas corruptas que se voltariam contra mim no menor sinal? Não, senhora Watson, sinto lhe dizer, mas nós somos muito mais que isso. Essas pessoas que estão em todos os lugares do Reino Unido e da Europa apontando armas pros seus companheiros são todas pessoas que acreditam no mundo melhor que irei construir. São pessoas que me seguiriam até a morte! Não acho que uma dúzia de policiais que você tenha possam fazer algo”, disse Ar.

“Estou nesse exato momento movendo juízes, promotores e políticos. Não importa se eles estejam contigo ou não, todos eles sofrerão o peso da lei, e com a ajuda de Frost que tornará público todas as denúncias contra você! Você pode controlar um pedaço da elite, mas quero ver o que vai fazer quando isso tudo se tornar um escândalo público!”, bradou Watson.

“Não me faça rir, Watson!! Existem dois idiotas que estão te ouvindo também. Fiz questão de jogar essa ligação nos auto-falantes para que tenham a prova final de que me derrotar é impossível. Um deles é um ex-agente, exilado, doente de velhice, vendo tudo o que a pessoa que ele treinou está fazendo para ter uma ascendência apoteótica. Num momento em que o meu domínio é tão grande que nem mesmo uma quantidade ínfima de pessoas incorruptíveis poderia me parar. Agora é tarde. Já estou em todos os lugares!”, disse Ar.

“Ar, tenho em mãos todas as provas que o Al coletou contra você. E mais toda a gravação do que está planejando e da sua conversa com o Al agora. Acabou! Pare o VOID e impeça seus planos, ou a consequência será grave!”, disse Watson.

“Não me faça rir. Nem mesmo deus pode parar o VOID agora. Ninguém!”, disse Ar enquanto olhava o seu smartphone, que servia de monitor para o VOID também. Acessou um menu e buscou todas as escutas e câmeras que estavam transmitindo algo dentro da bolsa de valores.

Nenhuma estava ativa. Foram desligadas antes de mandar os guardas irem verificar. Estavam gravando nada. Rolou um pouco a tela e viu que havia um alerta de cinco conexões que haviam transferido um montante de dados há segundos atrás, mas que não estavam mais transmitindo nada. Mais uma pesquisa. Dessa vez focou nas conexões de internet para fora da Bolsa de Valores. Havia uma ativa, transmitindo um vídeo via streaming.

“Senhor Blain, ficar vendo seu smartphone não vai te ajudar a apagar as provas contra mim”, disse Watson.

Mas como Watson sabia que Ar estava vendo seu smartphone?

“Se você parar o VOID, posso garantir que a sua pena pode ser diminuída. E talvez nem mesmo precisamos fazer a imprensa saber sobre isso. Você não quer isso, quer?”, Ar olhava por todos os cantos, buscando a câmera que o estava observando, “Não precisa me procurar muito, Ar. Estou bem na sua frente”, disse Watson, pausadamente.

Nessa hora Ar olhou pra Frost. Havia um pingente na sua lapela muito estranho...

“Estou mandando agora uma equipe da SAS onde você está. Vamos invadir e pegar todos aí junto do VOID! O primeiro-ministro vai saber de tudo, e se você não se render não haverá nenhum rastro de você, nem mesmo do VOID pra contar história!”, disse Watson.

O quê? O VOID está aqui?, pensou Al, assustado.

“Foi o Neige. Ele conseguiu descobrir onde está o VOID”, sussurrou Frost para Al.

Genial como sempre, Neige, pensou Al.

Ar permanecia mudo, pensando em alguma coisa. Al estava segurando Frost apoiado em seu corpo. O mundo parecia cada vez mais rodar e rodar. Ar estava começando a ficar desesperado. A conexão de onde Aurora Watson o via estava vindo de uma pequena câmera instalada discretamente no terno do próprio Frost. Era tudo uma armadilha.

“Acabou, Ar. Desista, ou todos nós morreremos aqui”, disse Al, calmamente.

Nessa hora um cheiro de queimado dominou o salão. Das escadas do subsolo estava vindo um dos agentes de Ar, ensanguentado e com o corpo cheio de queimaduras, se rastejando pela escada. Ele gritava de medo e dor enquanto dizia:

“Senhor Ar!”, gritou o agente, “Fogo!! O subsolo três está em chamas!!”.

segunda-feira, 7 de março de 2016

Doppelgänger - #132 - O momento de hesitação.

Frost estava junto de sua esposa andando cautelosamente em uma das grandes salas onde os corretores ficam na bolsa de valores do Reino Unido. Ao longe ele ouve passos se aproximando. Estavam cruzando o corredor e entrando na sala. Eram homens armados portando lanternas, e rostos protegidos por capacete. Pareciam membros das operações especiais.

“Justine, quero que volte e fique por lá. Não vou me perdoar se acontecer algo com você, meu amor”, disse Frost, dando um beijo nela.

“Dave! Não! Eu estou junto de você nessa, lembra?”, disse Justine.

“É exatamente por isso. Tenho que fazer isso, caso contrário nunca mais poderemos ficar juntos”, disse Frost, virando-se e caminhando cautelosamente pro outro lado enquanto Justine voltava.

Não deu certo. Frost acabou sendo pego.

- - - - -

“Ei, meu querido irmão, olha só! Já pegamos um dos seus companheiros”, disse Ar, apontando pros três guardas que traziam Frost, algemado.

“Frost?”, Al ficou assustado, “Como você foi...?”

“Eu sinto muito, Al. Eu tentei, mas eles foram mais espertos”, disse Frost.

“Sim, e o VOID aqui está apontando que você estava passando arquivos. Arquivos bem interessantes de áudio e vídeo com o papo que eu estava tendo aqui com meu irmão. Bom, agora você vai ter diversão, meu caro David Frost”, disse Ar, apontando a arma na testa de Frost, “É bom que comece a dizer onde estão as escutas que você colocou, ou a querida Justine Frost vai dormir sozinha nessa noite”.

- - - - -

Momentos antes...

“Ah, puxa vida, que bom encontra-los. Natalya me falou que você estaria aqui. Você deve ser o hacker que ajuda o Al, certo? Muito prazer, meu nome é David Frost”, disse Frost, esticando a mão para cumprimenta-lo.

Neige estava em uma sala anexa daquele salão que Victoire havia praticamente destruído na sua luta contra Olivia, minutos atrás. Ele estava sentado numa cadeira, e Victoire sentada no chão, com a mão na cabeça. Na mesa, com uma corda improvisada com cortinas estava Olivia Carrion, inconsciente e amarrada firme. Atrás de Frost estava sua esposa, Justine.

Neige ao vê-los pediu para entrarem rápido e trancou a porta.

“Sim, eu ouvi sobre você. Era o jornalista que o Al pediu pra ajudar no caso do Ar, certo?”, disse Neige.

“Isso. Exato. Achei que poderia vir aqui pedir sua ajuda. Tenho um contato, é a procuradora geral do Reino Unido, seu nome é Aurora Watson. Eu estava conseguindo enviar um streaming pra ela com vídeos sobre o que o Ar está confessando com o Al agora, mas não sei o que aconteceu, a internet não está mais funcionando... E, bem, não é bem minha área”, pediu Frost.

“Entendo, posso ver o seu laptop?”, disse Neige.

Levou alguns minutos. Neige vasculhou a conexão, e viu que aquele laptop havia sido descoberto pelo VOID, e este havia colocado um bloqueio para que nenhum byte sequer pudesse ser enviado para Aurora Watson.

“Certo. Tenho um plano. Vou deixar esse computador tentando enviar os dados ainda assim. Quero que o VOID pense que você não sabe o que está acontecendo, e que você ache que isso é algum problema de conexão. Enquanto isso, vou começar a enviar os vídeos e arquivos que você tem de outros computadores, vou usar uns cinco computadores aqui nessa sala. Vamos torcer pra sorte estar do nosso lado e que o VOID, embora com um processador poderoso, seja ainda um computador binário e burro como qualquer outro”, disse Neige.

“Minha nossa, o VOID estava nos vendo o tempo todo?”, disse Justine.

“Sim, senhora Frost. Mas isso pode ser o nosso triunfo. Acho que consigo rastrear a localização do VOID, pois tenho aqui uma barreira criada pela conexão dele. Vai dar trabalho, sei que até isso deve estar altamente protegido, mas saberemos onde os servidores do VOID físico estão”, disse Neige.

“Ótimo!”, disse Frost.

“O único problema é que o VOID já sabe de você, e sabe onde você está. Eu tenho uma sugestão: deixe esse laptop em algum local inusitado, tipo sei lá, o banheiro. Depois eu preciso que você pense num jeito de ser pego pelo Ar”, disse Neige.

“Você tá louco! Ele é o meu marido! Não vou deixar ele fazer isso!”, disse Justine.

Frost apenas ouvia o plano. Mas não conseguia esconder sua cara de apreensão.

“Não, senhora Frost. Eu preciso que pensem que pegaram o Frost e que ele vai apontar onde o laptop está”, disse Neige, tomando ar, “Isso vai ser tempo o suficiente pra eu enviar as evidências pra essa Aurora Watson. Enganaremos ao mesmo tempo o VOID e o próprio Ar. Por favor, esse sacrifício será para pararmos de uma vez por todas o Ar. Autoridades honestas precisam saber da sua existência e dos seus planos! E se Natalya Briegel confia nessa Watson como alguém incorruptível...”

“...Eu também confio”, disse Victoire, quebrando o silêncio, “Qualquer coisa eu estarei de olho em Frost. Irei protege-lo”.

Victoire pegou seu sniper. Estava pronta pra detonar, novamente.

- - - - -

No hospital Agatha estava cochilando assistindo TV ao lado de Lucca, acamado. Do outro lado do leito estava Ravena ao lado de Sara, ainda em estado letárgico.

De súbito as luzes se apagaram. Agatha acordou num salto.

“Merda, até aqui eles chegaram?”, sussurrou Agatha pra si mesma.

Dava pra ouvir os passos de pelo menos uns quinze soldados entrando no hospital. Eles vieram pra executar todos eles.

sábado, 5 de março de 2016

Livros 2016 [#4] - Alice

Eu comprei há um bom tempo uma versão comentada de Alice, de Lewis Carroll, contendo suas duas obras: Alice no País das Maravilhas e Alice através do espelho e o que encontrou por lá. Estava encostado em uma das minhas muitas estantes de livros até que lembrei que não tinha lido ainda.

O livro é uma obra genial. Tão genial que acho que seria muito complicado de adaptar ao cinema. Por isso, depois de ler os livros, cheguei a conclusão que todos cagaram em Alice. Desde o Valdisney, até o Tim Burton. Alice é uma estória mesmo impossível de ser transportada ao cinema por dois fatores bem simples: continuidade (ou falta de) e o nonsense. Muitas partes do livro é de se ler e ficar pensando: "Caralho, o que diabos eu li?" ou "Que papo é esse que tá rolando?". Em filme ficaria boring e sem nexo. E o legal de Alice é exatamente as coisas sem nexo!

Não vou destacar todos os pontos aqui (embora eu gostaria muito), mas acho que vale uns posts separados mais tarde.

A maior vantagem do livro são os comentários. Curiosidades, significados e até mesmo debates entre estudiosos da obra de Carroll te faz se sentir menos burro quando vê que não foi só você que não entendeu determinada parte. Tem pessoas que fazem até artigos científicos com fragmentos de textos do Carroll, isso sem contar tantos outros que não foram comentados.

Outra coisa que dá pra ver no texto original é como as versões de Alice misturam as coisas. Ou até omitem diversas outras. Ok, é normal, é assim que funciona o cinema, mas não ficaria tão ruim não no original. Um exemplo são os personagens Tweedledee e Tweedledum, que não aparecem no original do Alice no País das Maravilhas, e sim na sua sequência, Alice através do espelho.


Talvez o Valdisney gostava do personagem, sabe-se-lá deus o motivo de ter colocado eles dois.

A história é bem parecida. Alice está junto da sua irmã, reclamando dos livros não terem figuras e serem chatos, até que ela entra num torpor alucinógeno (mas não percebe) e vê um coelho de terno e correndo pra sua toca. E isso a faz cair no País das Maravilhas. Até mesmo a queda dela tem um significado todo físico, pois é uma queda muito mais longa do que retratada nos desenhos. E logo nesse começo, depois de aterrissar, tem aquela cena clássica do "beba-me" e "coma-me", do bolo e bebida que faz crescer ou diminuir.

Aí que começa a diferença. No livro o objetivo da Alice é basicamente cruzar essa porta que ela não consegue passar. Na versão famosa da Disney logo depois do mar de lágrimas ela diminui e passa pela fechadura. Talvez seja pra manter a continuidade no filme, mas no original ela é salvada por um rato, que lhe oferece um leque pra ela diminuir de tamanho e a guia para uma outra margem do mar de lágrimas, onde ela encontra diversos animais em uma ilha, até mesmo um Dodô, como nessa ilustração de Tenniel, que fez ilustrações originais pro livro (usadas até hoje!):


Depois tem a cena dela cair dentro daquela casa que ela cresce e acaba ocupando a casa inteira, e a ameaça de queimar com ela dentro. Come o bolo, cai fora da casa, e encontra um cachorro, que é motivo de bastante pesquisa, pois é um dos únicos animais em Alice que não falam com ela. Tem várias teorias interessantíssimas sobre a presença dele na história.

Alice encontra aquela lagarta maconheira com narguilé, que conta outra estória mais bizarra ainda, e depois tem uma das mais partes mais estranhas, o encontro dela com a Duquesa, uma mulher bem mal-humorada, com um bebê de colo e o gato de Cheshire. O gato aparece apenas três vezes no livro, e essa é a primeira vez. Um gato sorridente não é todo dia que se encontra:


Essa parte é a que mais me deixou encucado pois a duqueza o alimenta com sopa de pimenta, e isso sempre o faz chorar. E quando entrega pra Alice seu bebê, ele se transforma em um porco. Que acaba fugindo e Alice se vê naquele bosque com o Gato de Cheshire perguntando pra que lugar ela deseja ir.

Depois disso temos o famoso chá do Chapeleiro Maluco e a Lebre de Março. Eu lembro que quando eu era criança era ótimo ouvir aquela desculpa de "presente de desaniversário", mas o curioso é que no original nem o Chapeleiro, nem a Lebre comentam isso. É um capítulo muito divertido! E mais divertido ainda é uma outra coisa suprimida pelo Valdisney: o caxinguelê. Caxinguelê é um tipo de esquilo, e ele está presente sentado na mesa, mas está mais sonolento do que tudo! E ele sempre dorme, não consegue ficar acordado, mesmo quando Alice tenta contar uma história pra ela.

Alice volta então aquele salão do início (da portinha que ela tava grande demais pra passar) e enfim consegue passar por ela. Do outro lado da porta estava o campo de croquê da Rainha de Copas. Essa parte é muito parecida com o filme, tem as cartas pintando as flores de vermelho, e o mais curioso é que vai um pouco além: cada um dos naipes tem uma função, como guerrear, medicar, etc.


A Rainha de Copas é bem parecida. Vive dizendo que vai cortar as cabeças das pessoas. E acontece o jogo de croquê (ou críquete?), e o jogo vira uma confusão, até o Gato de Cheshire aparecer imenso pra todo mundo e todos ficarem se perguntando de quem era o gato. E chamaram a Duquesa, a dona do bichano bizarro.

Quando a Duquesa chega tem mais uma conversa nonsense com a Alice, e a Rainha resolve contar pra ela uma história sobre o grifo e a Tartaruga falsa. Outra puta duma viagem, e também outra coisa muito discutida entre os entendidos sobre Carroll. Depois de dois capítulos de muita estória eles voltam para ver o julgamento do Chapeleiro Maluco. O crime? Um que crime que está para acontecer ainda! (oi?)

Alice participa, mas como ela estava pequena, o efeito tava passando e ela começa a voltar ao seu tamanho natural. E ela fica imensa perto dos bichos, e todas cartas começam a atacar, e ela paga de King Kong massacrando todo mundo. Pum, ela acorda.

(aliás, a transição dela acordando é genial. Tipo aquele do osso do macaco que vira um satélite em 2001: Uma odisséia no espaço)

E isso é apenas metade. Tem o Através do Espelho que, sendo bem resumido, conta que Alice passou por um espelho e caiu num mundo invertido. Esse mundo é cheio de campos quadrados, como se fosse um tabuleiro de xadrez. E o livro é basicamente isso! Um jogo de xadrez, onde Alice, um peão deve ganhar o jogo e dar cheque-mate.

Só que óbvio que não existe nenhuma referência direta a um jogo de xadrez. E todos os personagens do livro são peças que a Alice vai encontrando na sua caminhada pelo mundo/tabuleiro, como o Humpty Dumpty e os gêmeos Tweedledum e Tweedledee. O livro não tem nada especificamente sobre xadrez, mas o avançar dela nas casas é mostrado em forma de personagens, locais, dilemas e tudo mais.

Em suma, é tão interessante quanto o País das Maravilhas (gostei um pouquinho mais do Através do Espelho). Mas esse post ficou imenso, e não vou contar mais não, haha. Vale muito a pena ler, e a versão comentada ficou maravilhosa!

quinta-feira, 3 de março de 2016

Doppelgänger - #131 - No hero to answer the call.

“Pft... Isso te torna apenas um ladrão de bancos, idiota”, disse Al, terminando de tragar seu cigarro e colocando a bituca num cinzeiro portátil.

“Não seja ingênuo, meu irmão. É óbvio que não era apenas pelo dinheiro!”, disse Ar.

Al apenas olhava, arcando as sobrancelhas. Estava ficando furioso. Não havia cigarro que poderia acalma-lo.

“Sabia que essa crise financeira que o mundo está foi iniciada por mim lá em 2008? E não era apenas para causar o caos. Na verdade tudo foi bem controlado, todo movimento foi muitíssimo bem calculado”, disse Ar.

“Explique-se”, disse Al.

“Foi um desafio pessoal. E eu fiz tranquilamente. Pessoas vão culpar umas as outras, e ninguém irá assumir a existência de terrorismo econômico. E eu fui direto nas cabeças. Nos Estados Unidos. E derrubei feio instituições financeiras seculares. Deixei os líderes do mundo fracos pra arquitetar meu ataque nos outros menores. Mas não pense que foi a única coisa que eu fiz. Vamos dizer que foi a única que foi televisionada...”, disse Ar.

“Agora faz mais sentido. Você quer manipular a economia ao redor do globo, todas as instituições, cotações de moeda, acionistas, todos”, disse Al.

“Sim. E pra isso eu precisava da mídia, precisava dos políticos, precisava do exército e dos bancos e empresários. Todos estão comigo. Muitos talvez achando que podem dar algum golpe em mim, mas o VOID sempre vai me proteger e me avisar de antemão se algo está acontecendo. O mundo inteiro é observado por mim. É a era da informação!”, disse Ar.

“Faz sentido. Todos os dados de todas as pessoas do mundo trafegam por aí por meio de bytes. Quem tiver uma máquina capaz de rastrear isso tudo e selecionar o que importa ou não será o rei do mundo”, disse Al.

“Exato. Como acha que eu fui te ligar justo no número que você achava que não tinha como descobrir?”, disse Ar.

“Que merda...”, disse Al, terminando com um suspiro, tirando o celular do bolso e observando.

“Eu fiz a Crise acontecer. E como transações financeiras e negócios ocorrem sem a regulamentação de ninguém, eu poderia controlar tranquilamente o mundo inteiro. Existe outra coisa também. Sempre as empresas que estiverem do meu lado irão triunfar também. Pois estamos todos financiando um novo mundo. E eu vendo pra eles o mundo que eles quiserem. Mal sabem que não estão dando a perna em mim. E sim, comendo migalhas na minha mão”, disse Ar.

“O que quer dizer com isso?”, disse Al.

“Se você fizer uma lista vai ver que hoje, no mundo, são umas poucas empresas controlam tudo. Desde grandes conglomerados de mídia, passando por empresas alimentícias e de bebidas. Parecem que existem diversas marcas e empresas diferentes, mas todas elas são apenas subsidiárias de algo maior. É assim que o mundo funciona”, disse Ar.

“Isso geraria mais dinheiro”, disse Al.

“E esse dinheiro seria muitíssimo bem aplicado. É igual esse mesmo dinheiro que o VOID está gerando agora. Ele mesmo está encaminhando pros destinatários que eu quero nesse exato momento. E não são apenas empresas”, disse Ar.

“Nesse momento? Faz sentido você dizer que nada realmente pode ser feito. Pois já foi feito”, disse Al, provocando.

“Anote o que acontecerá nos próximos anos, meu irmão. Tem dinheiro agora indo pra financiar grupos terroristas no Oriente Médio. Quero separatistas para derrubarem governos e chamarem a atenção pra lá. Isso vai causar muitas mortes, imigração em massas pra diversos países próximos e o mais divertido: atentados terroristas. Tanto lá, como ao redor do globo!”, disse Ar.

Al permaneceu calado. Era inacreditável.

“Outra parte irá para um dos continentes com democracia mais frágil do globo. América Latina. Vou patrocinar mídia, empresas, políticos, e colocarei no poder pessoas ligadas à esquerda. Farei com que sejam colocados como estandartes da justiça social e dignidade, e duas coisas acontecerão: ou todos se unirão e farão uma revolução comunista com guerras civis pelo continente (esses tontos adoram Cuba e Che Guevara), ou simplesmente vão quebrar país atrás de país. Pra ambos os casos só restará uma alternativa: resposta armada contra eles”, disse Ar.

“Você...”, Al deixou o semblante de raiva e ficou assustado com a engenhosidade do plano.

“Outro lugar que dinheiro está indo é pra grupos separatistas no Europa Oriental. Quero ver sangue, guerras civis, Insurreições e caos! Ucrânia, Bulgária, Polônia, et cetera, esses países desse lado. Vai ser divertido ver o que esses grupos farão com dinheiro e armas. E quero também mexer com asiáticos também. Vou comprar a mídia, fazer com que acreditem que existe um milagre econômico acontecendo daquele lado do globo. Até o dia que, é claro, eu mandar desmentirem tudo, e virem que de progresso não tem é nada, e derrubar o mundo inteiro que investiu por lá”, disse Ar.

Al colocou a mão na testa. Suava frio. E tudo já estava feito, não tinha como impedir o VOID. Os atos de Ar haviam passado do limite há muito tempo, e iria mudar radicalmente a maneira com que vemos o mundo.

“Eu demoraria décadas pra conseguir fazer isso. E olha que não era pouco dinheiro não. Injetando o dinheiro que estou fazendo com o Rosebud e direcionando pros lugares que eu quero vai agilizar o processo que levaria décadas em... Alguns minutos”, disse Ar.

Al estava pálido. Não era vingança pessoal, nem nada do gênero que Ar queria. Era apenas poder, e ele precisava que alguém fizesse exatamente o que ele queria de alguma forma.

“E imagina só... Cada vez mais dinheiro a OTAN usaria em guerras, até o momento que quebrariam. Economias de diversos países estariam em frangalhos pedindo socorro, grupos de extrema esquerda e direita querendo tomar o controle de países, terroristas em todo o lugar do mundo disseminando mais preconceito. E não teremos nenhum herói de Kripton para salvar a Terra. Estaremos a mercê das minhas vontades. É no mínimo genial, meu irmão!”, disse Ar.

Um calafrio passou no corpo de Al. Aceitar essa missão foi um erro que o mundo inteiro pagará o preço da sua falha.

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