quarta-feira, 20 de julho de 2016

A garota da moto (2016)



Eu acho que a Globo mudou muito desde que o Schroder assumiu a direção dela. Tava mesmo muito quadrada sob a direção do Roberto Irineu Marinho. Surgiram (e estão surgindo) muitas coisas que eram totalmente diferentes do formato antigo, como séries, e tudo mais. E por mais que a Globo tenha talvez a melhor geladeira de artistas da tevê (ninguém que chegou até lá quer sair, aí tem que inventar programinhas B como "É de casa" pra usar o elenco em standby), é legal ver que muitos a deixam e hoje existem outros canais que fazem séries e novelas tão bons quanto. Descentralizou, saca?

Ano passado o destaque foi a novela "Os Dez Mandamentos", feito pela Record, com muitas doses da teologia judaico-IURD. Foi ótima, aliás, teve bons efeitos especiais, uma boa trama, ótimos atores, mas aí terminou de um jeito que cagou tudo, sem um final feliz, e tentaram arrumar criando uma segunda temporada (que ficou muito chata) e só vai terminar quando os judeus chegarem à Palestina. Mas foi ótima a tentativa e tremeu com os alicerces da Globo, que dominava na criação de séries e novelas, pelo menos.

Os canais de tevê a cabo entraram com tudo nesse mercado. HBO foi uma das que iniciaram (Alice, que eu assisti, foi um excelente trabalho e revelou a Andreia Horta), afinal, Netflix ajudou a popularizar muito esse formato de séries aqui. E chegamos enfim, aos tempos atuais, onde o SBT que havia feito rios de dinheiro com "Carrossel" e "Cúmplices de um resgate", resolveram investir nesse formato e se juntou com a FoxLife, Mixer e até com a Ancine e surgiu o ótimo seriado A garota da moto, que está passando no SBT atualmente.

E o mais legal é que o SBT disponibiliza todos os capítulos na íntegra gratuitamente no seu canal do Youtube. Melhor que Netflix!

Eu gostei do formato
Mas cara, curti e curti muito! Eu tava achando que era novela, mas é um meio termo entre novela e seriado. Novelas em geral são histórias com vários núcleos (núcleo pobre, rico, familiar, vilões), uma trama quase que exclusivamente sobre relações amorosas, e uma narrativa sem ser centralizada num personagem e uma duração maior em número de episódios.



Nisso A garota da moto mostra-se bem diferente, pois só existem uns dois núcleos no máximo (dos mocinhos e dos vilões), não tem tanto foco no amor como é em novelas, e a narrativa é centralizada na protagonista mesmo, Joana. Existem umas outras diferenças também, como reflexões dela durante a trama (coisa que seria impossível em novelas), além de narrativas em temas individuais em cada episódio (ao contrário da novela que é uma narrativa apenas a ser desenvolvida ao longo dos capítulos).

Eu gostei da fotografia
Outra diferença da fotografia de novela e seriados é que o plano de novela é sempre mais certinho, dominando apenas closes e plano americano no máximo. Mas em seriado é obrigatório ter outros closes, câmera tensa, panorama, enfim, e não sei quem é o diretor de fotografia desse seriado, mas tá de parabéns.


Destaco as tomadas externas. Cara, é muito difícil fazer tomadas no meio do trânsito. E todas foram feitas com muito capricho, nem parece que as avenidas e ruas de São Paulo são todas remendadas e fazem a câmera "pular" a cada desnível. Eu gostaria de ver o making of, porque o pessoal de fotografia tá de parabéns mesmo.

São Paulo é uma cidade tão feia, e a fotografia consegue até deixar essa cidade menos feia.

Eu não gostei dos cenários
Ok, não dá pra acertar em tudo. Mas alguns cenários são perfeitinhos demais. Como o boteco pé-sujo do Reinaldo (pai da Joana). É muito coloridinho, muito estilo "Carrossel", sei lá. E tudo poderia ser resolvido com alguns azulejos trincados, ou esse vermelho mais rebaixado:


Claro, existem botecos limpinhos, mas boteco de verdade tem alguns detalhes que valeriam a pena serem explorados no cenário pra dar mais vida. A Motópolis (onde a Joana trabalha) também não tem nem pó ou graxa no chão, ou uma freada ou machucadinho nas coisas. Por ser um local que motos entram e saem seria bom ter algo assim. Um pouco mais de sujeira, coisas rústicas, não fazem mal a ninguém e dá mais naturalidade.

Eu gostei das atuações
Eu não conhecia a atriz que faz a protagonista Joana (Christiana Ubach), e enquanto escrevia esse post vi que ela tinha feito a série da HBO, O hipnotizador, (que eu gostei muito e assisti) e, nossa, cacete, como ela tá diferente... Mas, enfim, ficou uma atuação de primeira da menina! Gosto muito de como ela consegue se mostrar durona e fica toda derretida (ou com medo mesmo) quando algo acontece com o filho, Nico. Vive emburrada e uma protagonista de muita personalidade. Não me estranharia se ela falasse "I'm Batman", como a justiceira de Gotham City.


Tem muitos atores paulistas (meio medianos), mas é sempre bom ver caras novas. O que tá mesmo me impressionando é a vilã, Bernarda (Daniela Escobar) que tá muito boa! E isso porque nem apareceu pra valer ainda até onde assisti. Vilões em geral em novelas muitas vezes são retratados apenas como "o mal encarnado", mas em seriados podem explorar mais seus perfis psicológicos, e claramente Bernarda é uma psicopata das brabas.

Eu gostei dos toques de realidade
Ser motoboy não é fácil. Ser motogirl então, é pior ainda. E, no meio das tramas, o roteirista mandou super bem, colocando os dilemas e dificuldades de ser uma mulher nessa profissão (e as dificuldades de ser mulher em geral, infelizmente). Existem pessoas que menosprezam a Joana, por exemplo, achando que ela não é capaz de fazer as entregas por ser mulher. Ou acham que ela é frágil, por ser mulher, mas ela aprendeu Muay Thai (eu acho) pra se defender, e surra muito marmanjo por aí (coisa também que seria difícil de acontecer em uma novela).


Mas claro, o mais triste mesmo são os assédios. Joana pode ser pobre, mas é bem bonita, atraente, e isso acaba atraindo as cantadas bobas do dia-a-dia, como ser chamada de "gostosa", ou outros motoqueiros que a assedia nos semáforos, pegando no cabelo dela, etc. Isso sem contar as quedas. Dublês parecem ter trabalho garantido nessa série. Tem muitos tombos bem feios, provando o que um professor meu na faculdade dizia: moto é um negócio que não fica em pé sozinha, logo, é um negócio feito pra cair. É bom ver os dilemas da profissão. Sem dúvida vai ajudar o pessoal a olhar de outra maneira os motoboys e motogirls da cidade!

0 comentários:

Postar um comentário

Arquivos do blog