terça-feira, 12 de julho de 2016

Sobre desemprego.

Desde março de 2014 estou em busca de emprego. E achei que talvez seria um bom momento de falar sobre! É verdade que quando se está desempregado todo mundo gosta de dar pitacos sobre sua vida. E, acredite, ficar dois anos sem emprego me fez ouvir todo tipo de coisa, todo tipo de coisa mesmo. Mesmo o clássico "porque você não muda de área?" indo até o "não arranja emprego porque não quer".

Sem contar aquelas pessoas que vivem perguntando se já arranjou emprego, e sempre quando respondo que "não", dão aquele clássico sorriso amarelo.

O país passa por uma crise, e isso é um facto. E, curiosamente, foi justo agora quando terminei a faculdade e resolvi dar os primeiros passos na vida adulta. Sou budista, praticante da Shinnyo-en, e sei que muitas vezes um texto como esse pode ir ao encontro de alguém, pois sempre na tevê falam de maneiras de se sair desse momento de dificuldade. Falam pras pessoas se reinventar, colocam um exemplo de alguém que conseguiu sucesso no meio da crise, ou de gente que aponta o dedo e diz: "Se mexa!" tem um monte. Mas uma pessoa que está afundada na fossa junto e diga "Sei como você se sente", são raríssimas.

A ideia desse texto é essa. Não é nenhuma receita, menos ainda um desses textos motivacionais de quinta categoria. Também não vai dizer o que todo mundo diz, como "reinvente-se" ou "use a crise pra alavancar algo". Já existem pessoas que fazem isso. São reflexões que esse momento me trouxeram, e espero que ajude alguém que caia aqui e que esteja no meio desse furacão.

Importância de seguir em frente
É inevitável que a gente fique desesperançoso. Mas na sociedade atual todos só sabem pressionar as pessoas a serem mais, os melhores. Os melhores salários, empregos, vida, etc. E, bem, ninguém consegue, ora bolas.

Não é errado buscar algo de bom na sua vida, mas será que está sabendo ter gratidão pelo que tem agora?

Um exemplo comigo: é verdade que estou sem emprego, e não tenho quase nenhum dinheiro. Mas busco olhar coisas ao meu redor que me tragam motivos para ser grato. É um exercício diário, e claro, não é fácil. Mesmo comigo tem dias que eu fico bem mal.

Teve um dia que eu estava voltando do templo budista que frequento e estava bem quente, o ônibus estava cheio, e eu estava cansadíssimo. Quando vi que a melancolia estava surgindo, pensei comigo mesmo: "vamos achar algo pra eu ser grato!" e reparei que, apesar de estar em pé, passando calor e cheio de gente, não havia trânsito, meu celular estava inteiro com a bateria pra ouvir música, e a janela na minha frente volta e meia soprava uma refrescante brisa.

Ter essa gratidão dá forças e esperanças para seguir em frente. Falo isso por experiência própria. E eu não tenho dúvidas que eu nunca teria chegado a essa conclusão, do quão ter essa gratidão por tudo na nossa vida, se esse tempo desempregado não tivesse acontecido. Na Shinnyo-en muitas vezes nos falam que não existe má sorte. Mesmo a má sorte nos permite reinventar e transformar aquilo que parecia ruim em algo positivo, pois na verdade é isso que essas coisas são, na real. Isso é algo que carrego, e sempre tento mostrar pras pessoas olharem pra esse lado. A vida fica melhor e mais simples.

Vibre com cada conquista
Momentos de crise inevitavelmente fazem pessoas se tornarem mais mesquinhas, de facto. Todos querem apenas saber de emprego pra si mesmas. Mas será que você olhou pro lado alguma vez? Não digo em oferecer emprego pra alguém, ou se achar uma vaga marcar uma pessoa pra que ela veja, mas algo além. Falo mesmo sobre ajudar a pessoa. Estender uma mão amiga, ouvir, torcer para que a pessoa consiga logo um emprego. Torcer para que o outro consiga como se fosse pra você essa vaga.

Nesses dois anos de desemprego é verdade que rolaram entrevistas de emprego. E, independente da vaga ser interessante ou não, não acredito que ter ganância seria correto. Ganância nos faz mentir sobre nossas habilidades, maquiar factos conosco, e muitas vezes o desespero nos faz aceitar um trabalho que não se encaixa 100% na gente, mas queremos mesmo assim aceitar e ter tudo pra gente - mesmo que, tecnicamente, não duraremos nem mesmo um mês naquela vaga, pelos mais diversos fatores.

O preço inevitavelmente é cobrado lá na frente. Causa-e-efeito.

E nesse tempo eu pensava: "Puxa, talvez aja alguém que esteja precisando mais do que eu". E de facto, sempre tem. Já tive uma entrevista em grupo que havia um cara que era pai de família competindo comigo. Por mais que, obviamente, eu quero me recolocar no mercado de trabalho, esse cara que estava competindo comigo tinha filhos, esposa, uma casa pra sustentar. E em muitos momentos eu dirigia sinceros desejos para que pessoas mais necessitadas que eu conseguissem a vaga no meu lugar, pois pra eles era algo mais urgente. Eu poderia viver mais alguns dias, semanas ou meses com o pouco que eu tenho, mas essas pessoas ao meu redor, não.

Me cortava o coração quando ouvia de alguém que sustentava uma família ter sido despedido. E isso era o que muitas vezes me dava esperança a cada "não" que recebia de uma empresa depois da entrevista. De que essa vaga iria ajudar alguém mais do que eu, com certeza. E que meu momento chegaria, de uma forma ou de outra.

Motive os outros
Existe uma grande diferença entre simpatia e empatia. Simpatia é ruim. Simpatia é você estar distante da pessoa e ser "aquele tipo de pessoa", como aquela pessoa que quando você quebra o dedo chega em você e diz: "mas eu já quebrei um braço". A pessoa que acha que está ajudando, mas na verdade não está tendo um pingo de consideração pelo seu sofrimento exatamente pois não tem a mínima ideia do que você está passando.

Eu sigo alguns sites que dizem "motivacionais". Donos desses sites motivacionais sempre dizem que existe um número imenso de pessoas ajudadas com suas frases de para-choque, esses exemplos de sucesso que acham que motiva todo mundo, ou terminando com um "pense nisso". Mas gostaria de saber o quanto essa distância deles, de tentar ajudar todo mundo com a mesma frase, tenha feito na verdade o inverso e colocado uma pessoa na pior. Talvez pra umas dez motivadas, no mínimo umas vinte ficaram mal por simplesmente não ter ninguém que realmente sabia como eles se sentiam.

Vejo gente se tornando palestrante, mas falando de conteúdo extremamente superficiais, tratando todo mundo como um imenso coletivo com os mesmos anseios, problemas e mentalidades.

Talvez o foco desses caras seja mesmo um público grande, quando na verdade muitas vezes o que a pessoa precisa é uma atenção próxima, individual. As pessoas não precisam que você as mande se "reinventar" ou "criar vergonha na cara e deixar de ser vagabundo" ou esfregar exemplos de sucesso dizendo que "basta você agir que você vai conseguir". Não, gente, pelo amor!

Pessoas precisam que você desça ao lado delas, as ouça com seu coração, que digam que sabe como se sentem, e, se essas pessoas quiserem, você compartilhar o que essa situação igual que você viveu te fez refletir. Isso é empatia.

Isso parece bobeira, mas pense que essa felicidade que você oferece pras pessoas, mesmo que sejam duas ou três, volta em triplo pra você. Não apenas em carinho ou consideração dessa pessoa, mas eventualmente essa pessoa que foi inspirada individualmente por você pode perceber que isso pode ser espalhado, e elas também tentarem ajudar as outras. Felicidade é como uma luz de vela, dá pra acender milhões de outras com a chama de uma única vela. Heróis não são aqueles que compartilham aquelas frases em Facebook sobre sucesso, heróis são aqueles que estendem a mão de ajuda pra uma pessoa.

Vai melhorar o seu mundo? Claro que vai! Você está oferecendo sua atenção e seu coração pra pessoa ser feliz. E a pessoa sendo feliz, você estará feliz, pois será mais uma sementinha de felicidade que você plantou. Isso vai te incentivar a seguir em frente também, pois vai tirar aquele peso das suas costas, a vida ficará mais leve. Você não ficou distante da pessoa dizendo asneiras. E quando as pessoas ao seu redor estão felizes fazem seu mundo ficar mais leve e feliz. A pessoa (ás vezes até você) está já desempregado, triste e deprimido. A última coisa que a pessoa quer são essas frases frias mandando a pessoa se mexer. Desça junto no fundo do poço onde essa pessoa está, e suba junto com ela de volta a superfície.

Vivemos numa sociedade humana que só chegou aqui pois compartilharam o que haviam aprendido. Imagina lá atrás se quem inventou a roda não tivesse ensinado e percebido que o que tinha inventado poderia ajudar gerações e gerações depois dele? Cada pessoa passa por momentos de dificuldade que sem dúvida alguém do seu lado está sofrendo nesse momento. Ao invés de dizer que a pessoa "merece" estar lá, ou pisar nesse pessoa, entenda que o que você passou e o que você aprendeu pode ajudar pessoas a não precisarem reinventar a roda sempre que passarem pela dificuldade que você está passando. A sociedade humana só evolui quando compartilhamos o que sabemos. Incluindo os insights nesses momentos de dificuldade.

A crise vai passar, sem dúvidas, mas enquanto estamos no meio do furacão podemos fazer o mundo um lugar melhor estendendo essa mão de carinho pros outros. Não custa nada, e vai voltar vinte vezes mais pra você. Acredite. Falo por experiência própria.

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