sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Uncharted 4: A thief's end (2016)


Eu sou super fã da série de games Uncharted. Já terminei a trilogia do PS3, e terminei hoje o quarto volume, o Uncharted 4: A thief's end. Só não joguei ainda o Golden Abyss, mas preciso antes de um PSVita, haha.

Na verdade eu sou super fã da produtora Naughty Dog, eles fazem uns games muito cinematográficos, que pra quem joga é toda aquela emoção de estar no controle do personagem como sempre quisemos fazer num filme. E pra quem assiste, é como estar sentado vendo um filme na telinha. Quase nada na tela pra causar o máximo de imersão, diálogos espontâneos e ações inesperadas.

Nesse jogo Nathan Drake está vivendo uma vida feliz com sua esposa, a Elena Fisher, quando seu irmão mais velho Sam aparece e o chama para viajar atrás do tesouro do lendário (e real) pirata Henry Avery. E Drake tem que aceitar essa empreitada, senão o jogo não acontece!

Eu gostei dos gráficos
Ser desenhista 3D na Naughty Dog deve ser tanto um trabalho muito recompensador como incrivelmente frustrante. Recompensador porque os gráficos são de outro mundo, são realmente muito detalhistas e lindos. Talvez as figuras humanas sejam uma das mais realistas pra um game. Mas as paisagens, putaqueopariu:


Isso acima é gráfico de jogo, não é gráfico de cutscene. Você pode mexer câmera, andar nisso tudo e explorar. E aí que vem a parte frustrante de ser desenhista 3D da produtora: imagina quantas horas, dias, semanas ou meses que os caras levaram pra desenvolver toda essa paisagem, com todos os detalhes de texturas, vegetação, iluminação e plano de fundo. E tem gente que passa por toda essa maravilha de carro, a mil por hora, e nem para pra apreciar a paisagem. Eu não sou fã de gráficos realistas, mas quando aparece algo assim é impossível no mínimo respeitar muito o trabalho dessa equipe.

Eu gostei da história
Embora no jogo você controle o Nathan Drake, que é um caçador de tesouros (ou ladrão, como preferir), é muito bacana como o jogo também apresenta diversos fatos históricos, já que o Drake só se interessaria por coisas que tivessem alguma história ou valor de venda alto. E normalmente em todos os jogos eles sempre usam alguma lenda que eles vão atrás. No primeiro era El Dorado (América do Sul), no segundo era Shamballa (Himalaia) e no terceiro o Irã dos Pilares (Oriente Médio). Nesse a busca é por Libertalia, uma cidade lendária fundada pelo rei dos piratas, Henry Avery, ali perto das quebradas de Madagascar.



Como se a busca pelo tesouro já não rendesse muitos plot twists, no roteiro conseguem desenvolver como ninguém a estória individual de cada um. Minha cena favorita é essa acima. Drake aprontou muito nos outros três games da série, e nesse jogo ele está feliz e casado com a gatinha da Elena Fisher (que aparece desde o Uncharted 1), mas ele mente pra ela dizendo que ia fazer um trabalho na Tailândia e vai em busca do tesouro de Henry Avery com seu irmão Sam. A hora que ela descobre tudo é esse vídeo acima quando a casa cai. Independente se jogou ou não, é incrível as atuações, os detalhes, as vozes, ângulos de câmera e iluminação. Não é cinema, mas é uma baita aula de cinema.

Eu gostei de interagir com os cenários
O jogo é bem linear. Muita gente não gosta, eu sinceramente não ligo muito. Significa que assim que você passou de uma área, você não consegue mais voltar lá. Por isso nessas horas que não tem tiroteios, nem nenhum precipício pra escalar, é legal ficar brincando com as coisas que aparecem. E tem tudo quanto é raio de cenário, desde mansões, florestas, vilas, ilhas desertas, cavernas, enfim. Minha parte favorita era uma cidade que você vai buscar pistas sobre Avery:



Tem esse mar de gente e muitas possibilidades. E você pode ou andar e passar batido sem interagir com nada ou pode brincar como no vídeo acima. A pessoa comprou uma maçã e depois interagiu com o lêmure, que roubou a maçã. Engraçado que o Nate comenta dizendo que quer ter um cachorro, e que iria colocar o nome de Victor (zuando o amigo na sua frente, que se chama Victor Sullivan) quando tudo acabar e no final do jogo o que acontece? Uma cadelinha chamada Vicky. Sensacional!

Eu não gostei da falta de opções
O jogo é muito cinematográfico. E é verdade que você tem meio o poder em suas mãos, mas o jogo é linear igual um filme também. Não tem como saber o que aconteceria se a Rose deixasse o Jack subir naquele pedaço de porta depois do Titanic afundar (e a internet provou que existia espaço! Rose que foi fdp mesmo!). Ok, eu entendo que se Uncharted te desse todas as opções do mundo como um GTA teria que pagar o custo desse espaço todo em algum lugar, como gráficos ruins, sei lá.


Mas tirando as interações e os tesouros a se buscar não se tem muito mais o que fazer a não ser seguir em frente. Uma sugestão, sem ser mundo aberto? Algumas quests! Ou o seu carinha ganhar experiência e melhorar as habilidades de luta, meio estilo RPG. É possível fazer isso, mas o jogo não apresenta muito isso. Acho que essas coisas dariam mais opções e mais diversão ao game, já que ele é muito, muito, muito linear.

Eu gostei do motion capture
Um dos motivos do jogo ter um CGI é porque o jogo abusa do motion capture. Os atores reais contracenam com aquela caralhada de sensores e captam tudo, desde o rosto, até movimentos, e com esses registros fazem o jogo muito mais realista. Não é aquele jogo que todos andam daquela forma quadradinha, sabe? Isso só aconteceu pois o jogo conta com atores reais por detrás de tudo.



Acima mostra como foi feita. Primeiro os atores (que também fazem as vozes) atuam e registram tudo. Depois passa pro computador os movimentos pros bonecos, e adicionam as luzes, texturas, fundo, e outras coisas pra deixar ainda mais realista. Resultado? Algo sensacional, como acima.

No mais, o jogo é sensacional. Levei mais ou menos uma semana pra terminar, e é incrível a melhoria dos gráficos. Menção honrosa aos dubladores, em especial os que dão voz ao casalzinho Nate e Elena, os atores Nolan North e Emily Rose, respectivamente. São grandes dubladores que ao fazer Uncharted só provaram que são os melhores mesmo. Jogo nota mil!

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Amber #2 - A garota que comia terra pra sobreviver.

Toda vez que Briegel saía com sua filha nas ruas de Berlim era alvo de olhares de estranheza. O que fazia aquele homem louro, alto, bonito, andando com aquela menina negrinha, fraca e desnutrida?


O ano era 1913. Roland Briegel era um soldado do exército prestando serviços ao Kaiser Wilhelm II. Foi designado pra lutar no Sudoeste Africano Alemão, cuja tropa era liderada pelo seu pai, um heróico major-general alemão e que ao mesmo tempo detestava seu próprio filho: Heinrich Briegel. Roland era o terceiro filho de cinco. Ser o irmão do meio é bem complicado também, e justo ele que era o mais humilhado de todos os seus irmãos por ser compassivo com o sofrimento das outras pessoas, coisa que nenhum dos irmãos e irmãs tinham por ninguém a não ser eles mesmos.


Heinrich Briegel, um homem essencialmente machista, dizia que seu filho Roland era fraco pois havia puxado as fraquezas femininas de sua mãe. Mãe essa que ele mal conheceu, pois faleceu ao dar a luz o seu irmão mais novo. A maior rixa de Roland era sua irmã mais velha, a primogênita Brigitte. Ela poderia ter uma aparência amistosa e bela, mas era um demônio pior que o próprio pai, e sempre fez o irmão mais novo sofrer muito, humilhando-o e dizendo que ela fazia isso “para o próprio bem dele”, ou porque “o amava muito”. Uma forma de poder cometer suas atrocidades com a desculpa de que era tudo por “amor”. Brigitte era essencialmente alguém doentia.


E foi justo naquele ano de 1913 que a vida de Roland Briegel cruzou com quem viria a ser sua filha.


O local em que hoje conhecemos como Namíbia era conhecida no começo do século XX como Sudoeste Africano Alemão. O local foi palco de um dos primeiros genocídios do século XX, também movido por uma questão racial do povo alemão, mas muitos anos antes do Holocausto e de sequer Adolf Hitler chegar ao poder. Mas não quer dizer que não foi algo detestável.


É verdade que o Holocausto matou muitos judeus. Algumas fontes dizem que os judeus perderam aproximadamente 35% do seu povo. Um número imenso, de fato. Mas durante anos de 1904 até 1907 o Império Alemão na época exterminou cerca de 50% dos membros da etnia namaqua e 80% dos membros da etnia hererós, no que ficou conhecido como Genocídio dos Namaquas e Hererós. Tudo isso acontecendo longe da Europa, de jornalistas, e justamente contra um povo negro e pobre, no próprio Sudoeste Africano Alemão.


Obviamente o povo Herero e Namaqua se rebelou contra a invasão alemã, mas o governador do Sudoeste Africano Alemão, Theodor Leutwein, pediu ajuda a Berlim que mandou Lothar von Trotha com tropas que totalizavam 14 mil homens. Milhares de homens armados contra um povo pobre que mal conseguia se defender, e só queria o direito de ser sua terra e suas famílias. Heinrich Briegel, pai de Roland Briegel era um dos seus homens de confiança, e durante todo esse período esteve por lá.


Ao total entre 24 mil a 100 mil hererós e 10 mil namaquas foram mortos. Com números tão grandes, é desnecessário dizer que sua grande maioria foi caçada, presa, torturada, escravizada e inclusive enviada a campos de concentração na própria região. Quase 150 mil vidas. 150 mil histórias.


Uma delas é da garotinha que se chamaria Alice Briegel. Porém, nessa época, ela ainda era conhecida apenas como “Tariro”.


“Tariro!! Por aqui, corre!!”, gritava uma menina num grupo de outras crianças.


O massacre dos hererós e namaquas havia acabado, o ano era 1913. A Alemanha estava a caminho de perder a Primeira Guerra Mundial, porém a presença alemã ainda existia na sua colônia na África. As ruas de Windhoek, a capital do Sudoeste Africano Alemão eram sujas, quentes, e os cadávares pareciam apodrecer entre as ruas. Manter a colônia e as pessoas sob as rédeas curtas eram uma forma que alemães tinham encontrado de tentar ficar com um mínimo de espólio de guerra. E pra manter esse domínio, alemães utilizavam do medo contra o povo que vivia nessa terra.


“Venha cá, sua pirralha!”, gritava Heinrich Briegel enquanto corria pelos becos em ruínas com seus soldados, “Você e aqueles bandidinhos vão morrer um a um por terem me roubado!”.


Pobre Tariro. Seus pais foram sumariamente executados durante o massacre enquanto ela ainda estava sendo amamentada. Heinrich Briegel a jogou numa das muitas valas onde estavam os mortos, e acreditava que se enterasse o bebê vivo naquele lugar cheio de mortos economizaria algumas balas pra execução. Mas parece que o destino sempre reserva uma sorte especial para bebês recém-nascidos. Tariro tinha fome, e mal conseguia chorar. Emitia uns sons abafados, tristes, que soava como morte. Mas ainda assim chamou a atenção de outras crianças de rua de Windhoek, que tentaram achar uma ama de leite para o bebê e a batizaram de Tariro. Que significa “esperança”.


“Por aqui, Tariro! Pula aqui, pula aqui!”, gritava seus amigos, do outro lado de um córrego, separado por uma vala, não muito comprida, mas que tinha uma altura grande até o chão.


Tariro não pensou duas vezes. Começou a tomar cada vez mais velocidade pra dar seu salto. Eles só queriam um pouco de pão para comer. E depois do susto, da correria para fugir e salvar suas vidas, deixou cair o valioso pão que havia dado tanto trabalho para roubar. Seria mais uma noite com o estômago roncando. Lembrou então do gosto horrível e ferroso que tinha a outra única opção que eles tinham: juntar água, fazer bolinhos com a própria areia e comer aquilo. E torcer obviamente pra não vomitar ou algo pior acontecer. Terra suja, cheia de sujeira, restos de cadáveres e fezes. Era a única coisa nutritiva no meio daquele fim de mundo desértico.


“Parada aí, sua pirralha!”, disse Heinrich, que a surpreendeu vindo pelo beco ao lado, agarrando a menina pelos trapos brancos e sujos que vestia. Obviamente o tecido começou a rasgar quando Tariro viu que havia sido pega e tentou fugir, logo Heinrich a ergueu pela perna, magra, pequena, e a deixou de cabeça pra baixo, como um animal, virada em direção das outras crianças órfãs de rua que estavam do outro lado do córrego a aguardando.


“Eles não são humanos! São uns pretos fedidos! Nem merecem ser chamados de animais! Abram fogo contra aqueles pivetes!!”, ordenou Heinrich. Nessa hora seis soldados que estavam junto dele apareceram e abriram fogo contra as crianças de rua sem hesitar. Tariro viu aquilo tudo e começou a gritar. Um a um foram sendo sumariamente mortos na sua frente. Seu grito agudo parecia ser mais alto que o barulho das escopetas do seu lado matando todos seus amigos. Era um grito por ter perdido os únicos que eram sua família.


Tariro viu seus amiguinhos todos mortos. Uma delas, inclusive, estava com o rosto virado pra sua direção. Seu olhar no chão agonizando ficou marcado em sua memória, pois sua amiga chorava lágrimas de sangue enquanto dava seus últimos soluços.


“Vai querer roubar nossa comida de novo? Vai querer? Não vai querer mais. Vou matar você agora mesmo e dar você de comida aos cachorros, sua pretinha!”, gritou Heinrich Briegel.


“Isso eu não vou permitir, seu bêbado idiota!”, disse uma voz, arfando, logo atrás de Heinrich.


“Roland? Seu inútil. Nem pra correr você serve. Saia já daqui!! Sou eu quem mando nessa merda!”, ordenou Heinrich Briegel.


Todos os homens apontaram suas armas pra Roland. Ainda assim ele continuou andando em frente. Havia corrido pois havia presenciado a cena do roubo, mas infelizmente havia perdido seu pai de vista quando teve esse acesso de fúria. Roland tinha apenas dezoito anos na época, e estava servindo pela primeira vez o exército alemão.


“Vocês, ou melhor, todos nós estamos perdendo essa guerra a cada dia. Por acaso você acha justo descontar sua raiva matando crianças de rua inocentes que só queriam um pedaço de pão? Eles ainda vieram pedir antes e estavam revirando o lixo atrás de restos de comida! Aquela comida iria pro lixo, e ainda assim você os chama de ladrões?! Você é um velho bêbado idiota, e eu devia ter te impedido de ter matado aquelas crianças. Agora você não vai encostar em um fio do cabelo dessa aí! Solta ela AGORA!”, disse Briegel, desafiando o próprio pai.


Heinrich Briegel era um cara ignorante. Um pai nojento, machista, que achava que ganhava na base do grito. Mas naquela hora, justamente o seu filho mais frouxo estava fazendo o que nenhum dos outros teve coragem: peitar o próprio pai tomado pela cólera.


Ele não teve escolha. Briegel não precisou apontar arma, nem encostar nele. Heinrich simplesmente soltou a menina, que caiu no chão, num som abafado.


Nenhum deles disse uma única palavra. Mas pela troca de olhares era possível ver que a inimizade do pai e filho era absoluta. Heinrich começou a andar, saindo de lá, mas não deixou de antes de ir virar o rosto e encarar o filho com um olhar furioso. Ao longe foi possível ouvir ele dando uma de suas escarradas características e cuspindo na parede catarro. Aquilo não terminaria ali.


Roland Briegel ficou apenas observando seu pai até perdê-lo de vista. Tariro estava no chão, com medo, toda suja de terra. Roland calmamente se aproximou dela, tomado pela culpa. Se ele não tivesse perdido seu pai de vista provavelmente aquelas crianças todas estariam salvas agora. Mas apenas a pequena Tariro havia sobrevivido.


Mas a menina viu algo no olhar de Roland Briegel. E aquelas lágrimas de arrependimento sabia que ela poderia confiar. Nem ela falava a língua dele, nem ele tampouco a dela. Ela se sentou e olhou pra ele, ainda com certa desconfiança.


“Eu sou um idiota mesmo… Eu devia ter corrido mais. Eu teria salvo seus amigos! Por favor, me desculpa… Me desculpa do fundo do meu coração”, disse Briegel, derrubando lágrimas. A menina não falava uma única palavra de alemão, mas aquela cena dele com a cabeça abaixada na sua frente agachado olhando pro chão enquanto ela estava encostada na parede sentada fitando-o deu certeza absoluta que poderia confiar nele.


A pequena Tariro levou a mão ao rosto do jovem Briegel e limpou sua lágrima com suas mãos pequenas. Ela não sorriu, apenas ficou olhando ele. Com uma vida tão dura ela nem sabia o que era sorrir.


“Ha! Puxa, é verdade né”, disse Briegel, rindo de si mesmo, “Eu não tenho muito aqui comigo, mas da onde veio esse, tem mais”, e Briegel deu pra ela um pacotinho com três amanteigados vienenses que ele carregava no seu bolso pra pequena Tariro. Ela pegou, abriu de deu uma mordida. Ela nunca tinha comido algo tão gostoso! Começou então a chorar também. E os dois um olhando pro outro estavam desabando em lágrimas.


“É verdade que seus amigos morreram. Mas agora, você tem o dever de viver a vida que eles não viveram. Você quer vir comigo? Eu te protegerei pro resto da sua vida. Posso te dar uma vida boa na Europa, te criarei como minha filha”, disse Briegel, mas a menina não entendia uma palavra de alemão.


Mas então Briegel usou um gesto universal, e estendeu seus braços em direção à garota, como se estivesse pedindo um abraço dela, e disse apenas:


“Quer vir comigo?”.


A menina em lágrimas largou o biscoito e correu pros braços de Briegel. Era o dia 22 de março. Foi o dia que Briegel a registrou como data de nascimento dela, já que ela mesma não sabia que dia havia nascido. Apenas sabia que tinha por volta de seis anos. Quando ela chegou nos aposentos de Briegel viu que sob a sua mesa estava uma edição de “Alice no País das Maravilhas”, ricamente ilustrado por John Tenniel. Era uma das edições originais em inglês de 1865. Roland era um grande fã de Lewis Carroll, e achava que aqueles livros tinham coisas bem mais profundas do que crianças poderiam entender. Mas Tariro ficou maravilhada com aqueles desenhos. Nunca havia visto algo tão bonito.


“Ah, essa aqui é Alice. Alice no país das maravilhas”, disse Briegel, apontando na ilustração do livro.


“Ah… A-Alice…”, disse Tariro.


“Alice…? Isso! Alice, isso mesmo!”, disse Briegel.


“Alice! Alice! Alice!”, disse Tariro.


Roland olhou pra ela e achou engraçado como a menina havia gostado do nome “Alice”. Tentando entender o que ela queria dizer, olhou pra menina novamente disse:


“Alice?”, disse Briegel. A menina atendeu e olhou pra ele. Briegel entendeu o que aquilo queria dizer e apontou o dedo pra ela, e novamente disse: “Alice?”


“Alice!”, confirmou Tariro.


E foi nesse dia que Tariro virou Alice. Alice Briegel. E Roland, seu mais novo pai adotivo, tinha um imenso presente para aquela pobre menina que ele salvou da morte no meio da guerra. Uma nova vida cheia de fartura na Europa. Uma vida que ela viveria no lugar daqueles que até aquele momento tinham oferecido suas vidas para que ela vivesse.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Gratidão pela colheita.

Semana passada passei no interior. Fiquei na casa do meu avô, deu pra descansar bastante e desacelerar um pouco da correria e da rotina de São Paulo. Mas também acho que voltei com uma bagagem boa de reflexões que acho que vale a pena mostrar aqui.

Meu tio Gerson plantou tomates-cereja, aqueles pequenos e bem gostosos, que normalmente são meio caros aqui em São Paulo. E como eu gosto de mexer na terra, muitas vezes ele me chamava pra ir lá com ele colher, já que muitos ali estavam maduros e prontos pra comer. Por incrível que pareça essa experiência me trouxe uma reflexão bem profunda sobre gratidão.

No budismo que pratico, a Shinnyo-en, e assim como em quase todas as ramificações budistas, gratidão é a base de tudo. E lembrei de algo que ouvi uma vez que muitas vezes devemos ter gratidão até pelas coisas que achamos que estão lá por estarem lá, mas que raramente vemos que existiram vidas, dedicação, empenho e paciência por detrás daquelas coisas. Vou usar os tomatinhos como exemplo!

Muitas vezes vamos no mercado e compramos frutas, acabamos não comendo, ou não aproveitando do jeito certo, mas cada fruta, cada verdura, cada legume foram plantados com dedicação, paciência e carinho. Posteriormente foram colhidos com cuidado, transportado até nós, vendido em uma quitanda próximo de casa para que pudessemos comer aquilo. E muitas vezes deixamos de ter gratidão a essas pessoas que se empenharam para que isso se tornasse realidade - afinal o alimento não brotou do nosso lado e apareceu na nossa frente. Muitas pessoas, histórias, esforço e trabalho duro levaram esse alimento pra gente.

Quando ia colher os tomatinhos, vi como era difícil, por exemplo, ficar debaixo do sol por tantas horas como agricultores ficam. E isso porque eu colhi mais ou menos um pote grande, e ainda ficaram diversos outros verdes no pé. Borrachudos me picaram nas pernas e nos braços (e descobri que acho que sou alérgico), sem contar o suor, a sujeira da terra, e depois que colhi e comi parei pra pensar que famílias também passam pelo mesmo, colhendo, plantando, algumas vezes com pragas destruindo a lavoura, também debaixo do mesmo sol, enfrentando insetos, cansaço, e tudo para que o alimento chegasse nas nossas mãos.

Ok, é verdade que esse é o sustento deles, e muitas pessoas podem falar algo como "mas é o trabalho deles, eles têm a obrigação de fazer isso bem", e isso é bem verdadeiro também. Mas não é porque você paga por algo que você não pode negar o esforço de diversas pessoas por detrás daquilo pra isso dar certo, e ser grato por esse esforço. Em um celular, por exemplo. Teve designers, engenheiros da computação, desenvolvedores de software, todos trabalhando em conjunto pra entregar algo que facilite de alguma forma nossa vida. E muitas vezes acabamos reclamando quando algo não funciona direito, mas não temos gratidão e consideração pelo esforço das pessoas por detrás daquilo.

Mesma coisa os tomatinhos. Teve que ter o clima correto, a terra saudável, as pragas não acabarem com a plantação (no caso do meu tio mais difícil, pois era uma plantação orgânica!), a colheita ser cuidadosa, o sol, insetos, cansaço, calor, enfim. Isso me fez repensar a questão da gratidão e o respeito pelo alimento. Seja um celular de última geração ou tomatinhos pro almoço, entenda que teve dedicação de muitas pessoas nesse processo e seja grato e não desperdice. Cada semente, cada gota de água, cada nutriente na terra contribuiu para que esse alimento chegasse até nós. E quando nos afastamos e enxergamos essa cadeia toda, é impossível não ter gratidão por tudo isso.

É essa gratidão que nos faz levar vidas mais leves, com respeito às coisas que temos, sabendo usar o máximo de tudo em nosso proveito e ajudando pessoas ao nosso redor. Colher tomatinhos me fez refletir como é difícil o processo do alimento chegar até a nossa mesa. E me fez refletir pra evitar eventuais desperdícios.

sábado, 24 de setembro de 2016

Amber #1 - Alice, o coelho, e o chapeleiro.

15 de abril de 1937
18h02

Briegel abriu a porta da sua casa, a luz da sala estava fraca, e era possível ver que havia alguém o esperando ali na sua casa. Schultz entrou logo dele e foi direto na sala, reconhecendo quem estava lá e foi cumprimentar, enquanto Briegel ia pra cozinha levando o pacote de amanteigados vienenses que Schultz havia aberto, horas antes.

“E aí, pretinha!”, anunciou Schultz na sala.

A pessoa que estava deitada no sofá se ergueu. Se aproximou da luz e Schultz viu sua pele negra - tão negra que até brilhava iluminada sob a luz cálida dos abajures da imensa sala da casa de campo de Briegel. Tinha uma aparência muito bela, um cabelo em belos caracóis pretos armados, bagunçados por estar cochilando no sofá, mas que realçavam ainda mais sua beleza negra única, olhos grandes, negros e penetrantes, lábios carnudos e um nariz compacto. Seu sorriso era branco e iluminado, e talvez estaria ainda mais deslumbrante com sua beleza natural africana se não estivesse enrolada até a cabeça num cobertor e com o nariz escorrendo catarro.

“Schultz, seu idiota! Quantas vezes eu tenho que te dizer pra não ficar chamando minha filha dessas coisas!”, disse Briegel, atrás de Schultz, jogando o sapato dele contra seu amigo com bastante força na cabeça.

“Não tem problema, papai!”, disse a filha de Briegel, “Sei que é brincadeira do tio Schultz!”, ela deu risada. Schultz, ainda com a mão na cabeça, tentando diminuir a dor de ter levado uma sapatada na cabeça sentou numa poltrona e observou enquanto Briegel se aproximava de sua filha e dava-lhe um abraço com ternura e um beijo em sua testa, “Prefiro que ele me chame de ‘pretinha’ do que ser o poço de DSTs que é o tio Schultz, hahaha!”.

Até Briegel deu risada.

“Alice, sua engraçadinha! Saiba que estou tomando jeito com a mulherada. Eu sou mestre no melhor método contraceptivo que existe, sabia?”, brincou Schultz.

“Ah é? Bom, se você achar uma utilidade pras camisinhas que não seja proteger da sujeira a boca dos barris dos rifles como os soldados estão fazendo ultimamente…”, brincou Alice Briegel.

“Nada! Eu tiro o pau e gozo fora. Infalível!”, se gabou Schultz.

“Vamos parar de ficar falando essas baixarias na frente da minha filha, chega, vai, tá na hora de ir embora Schultz!”, disse Briegel, espantando a visita.

“Ei, calma aí coronel!”, disse Schultz, zombando, “A Alice já é bem grandinha, para de tratar ela como criança! Dia 22 agora foi aniversário de trinta anos dela. E ela já tá noiva já. Ou você acha que ela ainda não fez aquil…”

“Eu já disse pra parar! Que saco, cara!”, disse Briegel, saindo da sala.

O silêncio tomou conta do lugar por alguns segundos. Depois disso Schultz e Alice caíram na risada.

“E como foi a missão, tio? Deu tudo certo?”, perguntou Alice.

“Sim! Deu sim. Conseguimos o nome do traficante de armas que o Himmler está atrás. Vamos entregar o relatório bonitinho pra aquele vesgo logo logo. E esse seu resfriado? Teve febre hoje também?”, perguntou Schultz.

“Não, hoje não. Acho que pelo visto está melhorando!”, disse Alice. Nessa hora ela olhou pro rosto de Schultz e viu ele abatido de certa forma. Alice tinha um coração muito puro e sincero, e ela mais do que ninguém sabia exatamente o que se passava com seu pai e seu tio, “Tio, tá tudo bem com o senhor?”.

“Ah, sabe como é, né. Eu sei que é meu trabalho e do seu pai, que somos agentes da SD, e trabalhamos pro Führer e tudo mais, mas…”, Schultz suspirou, como se estivesse de saco cheio, “Odeio ver como Hitler anda enganando o povo com esse papinho de raça superior, conquista e todo esse blábláblá. Eu queria muito poder derrubar esse cara, ou pelo menos dar um soco bem dado naquele bigodinho maldito. A Alemanha tá caminhando pra mais uma guerra, e estamos todos fudidos nesse barco…”.

“Aqui está o chá, meu amigo. Limão?”, apareceu Briegel com um bule.

“Claro, põe aí”, disse Schultz. Briegel já sabia o jeito que Alice gostava, e preparou pra ela sem ela questionar, adicionando inclusive um pouco de mel pra ajudar na gripe da filha.

“Papai, estávamos falando de…”, disse Alice, interrompida por Briegel:

“Sim, eu sei, eu ouvi tudo. E sim, nós, agentes da inteligência temos acesso a verdades que talvez o público nunca saiba. E de fato, sabemos o que Hitler e seus capangas estão tramando, e toda essa infeliz lavagem cerebral que estão fazendo ao povo nazista. E óbvio que estou tão revoltado quanto o seu tio”, disse Briegel.

“É isso aí, coronel! Eu tô muito puto com o vesgo do Himmler. Eu quero muito dar uma porrada bem naquele nariz dele quando encontrar com ele!”, bradou Schultz.

“Bom, eu disse que assim como você eu não apoio o regime nazista, e, bem, sempre a gente pode dar uma enrolada pra não ficar fazendo o trabalho sujo deles. E temos feito bem isso durante esses anos todos desde que Hitler chegou ao poder. Tudo isso graças aos nossos nomes e reputações impecáveis, mas…”, disse Briegel, tomando um ar, e bebendo um gole do chá, “Infelizmente dar um soco no nariz do Himmler não vai derrubar esse regime. Se quisermos abrir os olhos do povo alemão, temos que ruir antes esse governo. E mostrar pro mundo que existem muitos alemães que lutam pela democracia e liberdade no nosso país”.

“É isso aí, falou tudo”, disse Schultz, dando uma golada do chá, “Mas é sério que eu não posso mesmo nem dar um soquinho só naquele nariz do Himmler?”.

Alice e Schultz deram risada. Briegel apenas balançou a cabeça, mas por dentro talvez estivesse dando altas gargalhadas também. Os três eram uma família. Briegel e Schultz eram amigos inseparáveis, e Alice cresceu sob a tutela dos dois, e tinha seu pai e tio adotivos como as pessoas que mais a haviam inspirado.

Roland Briegel sempre fora muito responsável e completamente focado no trabalho. Mesmo sendo um homem, e com mais de quarenta anos nas costas, não tinha esposa. Simplesmente não tinha tempo pra namorar, e achava que nunca conseguiria dar atenção a uma esposa devido à sua agenda sempre lotada. Já Schultz, havia acabado de entrar nos trinta e poucos. Porém o que Briegel tinha de responsável, Schultz tinha de irresponsável. Sempre agia do jeito que queria, toda semana estava com uma mulher nova, bebia, jogava, e não era nem pouco comportado como o melhor amigo.

Mas apesar das diferenças, os dois eram amigos inseparáveis. Eram duas almas tão distintas, mas talvez exatamente por se completarem era isso que os tornava tão próximos. E Alice era o elo entre os dois. Cada um cuidava dela de um jeito diferente, e ela se sentia bem com os dois. Até na aparência eram diferentes: Briegel tinha os olhos azuis, pele clara, cabelo loiro escuro, corpo atlético, disciplinado na dieta e exercícios. Já Schultz tinha olhos verdes, pele mais bronzeada e cabelos bem claros, loiros, jogados pra trás com um topete. E uma pequena barriguinha, mas nada muito chamativo.

Ficaram até tarde daquela noite conversando. A hora voou de tal maneira que Schultz foi obrigado a pedir emprestado o sofá pra dormir pela milésima vez. Era da casa já. Um membro da família.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Metroid Fusion (2002)


Eu sou super fã da série Metroid. Quando eu era moleque eu tinha um SNES que veio com Super Metroid, mas morria de medo de jogo e inclusive cheguei a trocá-lo. É algo que me arrependo muito, pois anos depois eu joguei Super Metroid e ele está na lista de todos meus jogos favoritos de todos os tempos. Já joguei a versão do NES, do Gameboy, terminei toda trilogia Metroid Prime do Gamecube/Wii, mas faltavam as edições do Gameboy Advance. Enfim botei as mãos no Metroid Fusion!

O game foi feito pela mesma equipe que fez Super Metroid (menos, óbvio, o Gunpei Yokoi, criador da série, que morreu em um acidente de carro em 1997). De facto, pra eu que sou um super fã de Super Metroid é inegável as semelhanças. Tudo é muito parecido, desde os inimigos, até a interface do jogo. Óbvio que algumas coisas deram uma melhorada, mas tá tudo basicamente ali.

Eu gostei do controle
O GBA tem dois botões a menos que o controle do SNES. Mas dá pra jogar perfeitamente, e algumas mudanças a gente até pensa "Porque raios isso não tinha no original"? Exemplo: Pra soltar mísseis você não precisa mais apertar Select igual no SNES e selecionar e atirar. É só segurar o R e atirar.


Uma coisa meio difícil de se acostumar no começo é o tiro em diagonal. No SNES era o L/R, mas como eu disse acima, o R é o que temos que segurar pra transformar a arma em mísseis. Agora se você aperta o L a Samus mira na diagonal superior. Pra mirar na diagonal inferior, é só apertar pra baixo. Meio difícil de se acostumar no começo, mas depois de jogar um pouco faz super sentido e ajuda pacas.

Eu não gostei das músicas
Cara, que musiquinha fraca! Super Metroid (e a série Metroid em geral) sempre teve músicas sensacionais, muito bem arranjadas, e músicas que até hoje o povo na internet faz tributos e remixes, de tão boas que eram. Minha favorita do Super Metroid era o tema de Brinstar. E pessoas fazem tributos animais como esse aqui, tornando o que já era bom, sensacional.



Mas a trilha sonora de Metroid Fusion é tão ruim, mas tão ruim, que nem mesmo o tema da Samus toca no jogo. E tipo isso é ESSENCIAL! As músicas são repetitivas, chatas pra caramba, e tiram grande parte do tesão do jogo. Eu não sou um cara que ouve muita música, mas quando ouço gosto de ouvir algo de qualidade. E nisso o jogo foi péssimo.

Eu gostei de fugir da SA-X
Explicando um pouco a estória: Samus, depois dos eventos de Super Metroid, volta com pesquisadores pro planeta SR388 (que ela já havia ido, pois é o planeta de onde nasceram os Metroids), porém com os metroids exterminados, a criatura que os Metroids tinham como alimento, o Parasite X se multiplica e danifica a armadura da Samus, obrigando ela a tomar uma vacina Metroid pra poder viver. Porém, a armadura dela já estava corrompida com o Parasita X e cria vida, com todos os poderes dela, sai andando por aí.



E bom, como sempre é de praxe em Metroid, você começa o jogo pelado. Sem os upgrades, sem mísseis, sem morph ball, nada. E na estação espacial que você está, está também a SA-X, o que é um perigo lascado pois a qualquer momento ela pode aparecer e te pegar. E sempre que você a encontra sem querer no jogo é meio que pernas pra te quero e sair fugindo desesperadamente. E isso é muito legal! A batalha final contra ela é de longe a coisa mais complicada do jogo, eu perdi umas vinte vezes (sem brincadeira!). Realmente muito, muito, muito forte!

Eu não gostei por ser curto
Terminei o jogo em mais ou menos uns três dias. Isso alternando entre o jogo e Uncharted 4. E com a ajuda da Adam, seu computador que manda pros lugares onde você deve ir, o jogo fica ainda mais fácil. Só voltar nele, bater um papo e saber o que fazer depois. Tanto que tinha hora que eu nem falava com ele, só pra dar uma dificuldade maior no jogo. Mas ainda assim, ficou tão legal, mas ficou... Curto demais.


No Super Metroid você vai explorando o planeta Zebes e suas áreas (Crateria, Brinstar, Maridia, etc) que tem a ver com os ecossistemas do planeta. Já em Fusion você está numa nave e ela tem setores que simulam climas diferentes. Talvez por isso o jogo pareça pequeno, afinal, teoricamente, você não está num planeta, e sim numa nave espacial gigante. Senti falta desse aspecto de exploração maior.

Eu gostei da nova arte da Samus
Esse jogo acho que foi o primeiro que criou a Samus sem armadura da maneira que conhecemos até hoje. Pelo menos estabeleceu o padrão! Tudo bem que esse game foi lançado mais ou menos junto com Metroid Prime do Gamecube, e o pessoal da Retro Studios criou aquela Samus com cara da Margot Robbie (que ficou sensacional), mas acho que o bacana da Samus é o jeito caricato da figura dela sem a armadura. Ficou bem bacana desse jeito:


Se não me engano a Samus é a primeira heroína da história dos games. A Peach, ou a Zelda são personagens femininas mais velhas que a Samus, mas a Samus foi a primeira protagonista e foi revolucionário na época, criando base pra outras que vieram depois, como Lara Croft, Bayonetta e Jill Valentine. Tava na hora de padronizar mesmo o jeito que a Samus seria e assim fortalecer a personagem, marca e importância dessa loira no mundo dos games.


terça-feira, 20 de setembro de 2016

Amber - Prólogo

15 de abril de 1937

“Fyodorov…”, disse um homem, quase num sussurro, como se estivesse nas suas últimas forças, “Você confia em mim?”.

O homem que disse isso estava amarrado em uma cadeira, na frente de uma mesa, com dois copos de gim na sua frente. Ele havia sido espancado bastante, e o sangue, já escurecido no seu queixo, mostrava que ele havia no mínimo um corte no seu lábio. Estava claramente sendo torturado. Era um homem que tinha um cabelo loiro médio com alguns fios brancos, bem baixo e jogado pra trás estilo militar, aparentando por volta dos quarenta anos, olhos azuis, mas seu corpo ainda estava em boa forma.

Seu olhar se encontrou com o de outro homem, que estava amarrado e jogado a poucos metros dali, com os braços atados em um laço forte, e essa corda amarrada numa pilastra da sala. A gangue dos torturadores estavam claramente em busca de informação. E estavam torturando um deles para que o outro revelasse tudo o que estavam procurando.

“Fyodorov, por favor”, disse o homem amarrado na cadeira, “Vamos logo, acaba com isso. Eu não aguento mais…”. Logo após terminar a frase um dos torturadores chegou e deu um forte soco no seu abdomen. Ele gritou de dor, mas antes que ele pudesse contorcer direito o seu corpo levou um chute forte no rosto.

“Boris!!”, gritou Fyodorov, “Por favor, não façam nada com ele, é a mim que vocês querem, deixem meu amigo ir!”.

Porém, os torturadores não pareciam estar ali para conversa. Toda a conversa já estava em curso há horas, e a paciência deles estava chegando ao fim. Boris, o espancado, estava quase desmaiando, totalmente debilitado e sangrando. E do outro lado, Fyodorov, estava completamente suado, com marcas da corda nos seus punhos, seu cabelo cinza totalmente desgrenhado, e seus olhos vermelhos de um misto de fúria e medo. Seu corpo tremia, e cada centímetro da sua pele estava arrepiada. Estava no limite.

Havia um grande espelho na sala. Um espelho grande que praticamente cobria uma parede inteira. Do outro lado desse espelho estava outro homem, alemão, com o cabelo loiro claro, jogado pra trás com um topete e olhos verdes, pele ligeiramente bronzeada e barba por fazer, prestando atenção em tudo aquilo sem que ninguém do outro lado visse que ele estava observando tudo do outro lado do espelho. Estava junto de mais três oficiais, mas era claro que todos eram simples subordinados. Aquele que estava sentado na mesa, com um microfone na sua frente, estava com várias fichas do seu lado. Estava tão fixado observando a cena que mal viu quando um dos seus funcionários colocou um prato do seu lado.

“Aqui estão seus amanteigados vienenses, senhor Schultz”, disse o subordinado.

“Ah, obrigado!”, disse Schultz, como que saído de um transe, colocando um na sua boca, “Puxa, estão fresquinhos! Mas acho que não vou poder comer tudo isso. Acho que falta pouco pra sair o nome”.

Schultz apertou o botão do microfone e disse através dele para os torturadores:

“Por favor, injetem novamente uma dose de tiopental em Fyodorov”, ordenou Schultz no microfone, e o áudio foi apenas escutado no retorno que os torturadores tinham no ouvido.

Boris estava praticamente inconsciente, lutando contra as dores amarrado na cadeira. Fyodorov, em pânico, do outro lado, amarrado na pilastra grosseiramente, observava a tortura que estavam fazendo com seu amigo e estava cada vez mais em pânico. Seu corpo mostrava que ele estava sob efeito de muita adrenalina, com dificuldades pra respirar, ansioso e com as pupilas dilatadas. O local parecia mesmo um cativeiro: uma luz incandescente fraca, local todo vandalizado, com cheiro de urina e sujo, muito sujo.

Tiopentall sódico. Uma droga descoberta em 1915 por um médico americano, doutor Robert House, que viu que grávidas sob efeito desse sedativo perdiam o controle de si mesmas e falavam várias coisas que lhes eram particulares. Não era uma droga 100% eficaz, e Fyodorov havia sido injetado com isso três vezes - e em nenhuma delas havia mostrado que iria ceder. Era realmente um soviético fora do comum em resistir tão bem à tortura do famoso soro da verdade. Porém sua fraqueza maior estava lá: realmente parecia ter um laço forte com o tal Boris. Amizade e confiança totais em seu amigo.

“Não… De novo não, por favor!”, disse Fyodorov ao ver a seringa sendo preenchida com o tiopental, “Não! Não! Não! Não!!”, gritava Fyodorov de desespero ao ver que o torturador com o rosto e o corpo inteiro coberto de preto estava se aproximando dele com a seringa erguida.

Nessa hora Boris, do outro lado, olhou com o rosto todo sangrando em direção a Fyodorov. Durou apenas alguns segundos, mas o seu olhar se encontrou com o de Fyodorov, que na mesma hora parou de gritar, mas continuava com a expressão de medo e espanto, com medo de injetarem de novo nele o que estava torturando-o por dentro.

“Fyodorov, por favor, a hora é agora. Dê a eles o que eles querem!”, disse Boris, e nessa hora o torturador, também com trajes pretos e rosto coberto sacou uma arma e apontou na testa de Boris, “Por favor, meu amigo… Vamos sair logo daqui. Eu te suplico! Eu te imploro!!”.

Eles iam atirar na cabeça de seu melhor amigo! Fyodorov, duplamente em pânico - tanto pela seringa com o soro da verdade, como do medo eminente de perder seu amigo - soltou um grito abafado e caiu em lágrimas. Isso assustou todos na sala.

“Isso, vamos meu amiguinho, fala logo!”, disse Schultz, na sala anexa, já com papel e caneta em mãos, ouvindo tudo do outro lado do espelho.

“Sarkin… Abner Sarkin…”, disse Fyodorov. Schultz não perdeu tempo e anotou num papel, e puxou as fichas ao seu lado e buscou rapidamente a letra ‘S’. Sem dizer nada abriu o arquivo e rapidamente achou. Sarkin estava logo numa das primeiras folhas.

“Bingo!”, disse Schultz, “Então é esse o cara que estávamos atrás!”.

Havia passado apenas alguns segundos desde que Fyodorov havia dito o nome. E Schultz já tinha tudo o que ele precisava. Calmamente ele apertou o botão e deu a próxima ordem na escuta dos torturadores.

“Ok, pessoal. Missão concluída. Podem botar o nosso amigo pra dormir”, disse Schultz.

Fyodorov viu o torturador deixando a seringa na mesa e voltando em sua direção. Ainda tomado pelo pânico sem entender nada, viu o homem na frente do seu amigo Boris erguer a arma pra aplicar no seu amigo uma potente coronhada. Foi a última imagem que Fyodorov viu, pois logo após ver isso, o torturador lhe aplicou um potente soco que o derrubou instantaneamente.

“Coronel!”, gritou Schultz, abrindo a porta apressado, “E aí meu amigo, tá inteiro?”.

“Óbvio que estou, cara. Pegou o nome que ele disse?”, disse o tal Boris, que estava amarrado na cadeira, sendo solto pelos falsos torturadores. Aquilo era tudo uma farsa, um teatro pra simular uma sessão de tortura para fazer Fyodorov revelar o que eles estavam buscando.

E o tal Boris, obviamente, não era Boris coisa alguma. Seu nome real era Roland Briegel.

“Sim. Estava na lista dos suspeitos. Já podemos entregar ao quatro olhos”, disse Schultz, se referindo a Himmler. A desmontagem da cena foi rápida, várias pessoas surgiram no local, e dois homens prontamente pegaram Fyodorov inconsciente e o levou embora, carregado. “Escuta, que atuação de primeira, hein! Pena que o Oscar já foi, senão eu teria gravado tudo e você ganharia com certeza!”.

“Ah, conta outra!”, riu coronel Briegel, “Aquele filme que ganhou esse ano, o ‘Ziegfeld - O criador de estrelas’, era um lixo mesmo. Eu dormi no cinema, acredita? Mas não acho que o nome ‘Roland Briegel’ soaria melhor que ‘William Powell’ no cartaz do cinema. Powell vende mais”. Ao terminar a frase, um dos seus agentes entregou a ficha do homem que Fyodorov havia revelado.

“Ótimo. Já temos o nome do nosso homem. Abner Sarkin”, disse Briegel, olhando pro papel, ”Bom, eu vou me limpar, esse gosto de sangue artificial é amargo pra cacete. E tirar esse disfarce de ‘Boris Ivanov’. Preciso levar janta pra Alice”, nessa hora Briegel olhou nos olhos de seu amigo Schultz e sentiu um cheiro de algo que ele conhecia bem, “Peraí, seu pilantra… Esse cheiro… Por acaso você tava comendo os Spritzgebäck que eu encomendei?”.

Nessa hora Schultz olhou pra cima e deu um gargalhada sonora. Eram os tais amanteigados vienenses que ele estava devorando na sala anexa.

“Ah, qual é! Só comi uns três só, hahaha! Ainda bem que você foi bem rápido e arrancou o nome logo, senão eu ia comer tudo. Tem uma caixa inteira lá. E outra, eu fiz um baita favor pra você! Eu experimentei pra saber se estava envenenado. E olha só!”, disse Schultz, apontando pra si mesmo com as duas mãos.

“Olhar o quê?”, disse Briegel, incrédulo.

“Eu estou vivinho da silva!”, disse Schultz, debochando. Briegel ficou apenas encarando Schultz, com olhar sério, e logo depois disso seu amigo o abraçou de lado e deixou a sala para os seus agentes terminarem a limpeza.

“Escuta, coronel, a Alice é crescidinha já. Vamos tomar uma breja, comer uns bitterballen, pra comemorar! Conheço um bar com umas holandesas garçonetes gatíssimas! E depois você vai lá ver a sua filha. Por minha conta! Quem foi que ganhou o Oscar mesmo esse ano de melhor ator? Foi o Mr. Deeds, não? Eu gostei desse! E você foi bem melhor, de verdade, cara!”, disse Schultz.

“Não, seu panaca. Quem ganhou foi o que fez o Louis Pasteur lá do… Ah, deixa pra lá. Esqueci o nome do filme…”, concluiu Briegel, enquanto saía abraçado da sala junto de seu amigo Schultz.

domingo, 18 de setembro de 2016

Conselhos de amor ao Tomaz

Esses dias, aqui no interior, estava no meu quarto lendo quando o Tomaz, meu priminho de 10 anos apareceu e disse que queria conversar uma coisa. Até a porta ele fechou pra ter privacidade.

Tomaz está apaixonado por uma menina de dez anos também, que estuda numa outra sala. Ele comentou comigo que gosta dela desde o pré, mas não teve coragem de ir falar com ela ainda. Que bonitinho!

Quando ele veio me pedir conselhos amorosos, senti como se estivesse vivendo uma máxima budista que diz o seguinte: as coisas ruins que passamos servem para que possamos ajudar os outros que passam pelo mesmo que já superamos. É verdade que meus priminhos pré-adolescentes tem outras dúvidas relacionadas a sexo, e eu sempre tento orientar e tirar todas as dúvidas possíveis, afinal hoje em dia pessoas tem uma vida sexual péssima por achar que pornografia é o jeito correto de se realizar um intercurso sexual, quando aquilo não tem absolutamente nada a ver com a vida sexual. Mas é bom ouvir um pouco as dúvidas e sana-las, nessas horas vejo que todas as vivências, por mais dolorosas que sejam, sempre dá pra se tirar algo.

Eu disse pro Tomaz que isso na verdade é algo bem bonito de se sentir por alguém. E que é verdade que temos medo de chegar na pessoa e falar o que sentimos. Na verdade esse medo vai ser algo que vai provavelmente nos acompanhar pelo resto da vida. Mas uma coisa que a vida ensinou é: vai lá e tenta. É melhor viver com a certeza do "não" do que viver o resto da vida pensando no que poderia ter acontecido.

Na sétima série eu era apaixonado pela Natália. Ela tinha minha idade, era alta e magrela, meio bruta, mas éramos sempre grudados, grandes amigos. E como normalmente acontece comigo (é muito raro eu me apaixonar a primeira vista) a amizade se tornou um interesse amoroso, mas eu tinha apenas uns treze anos, e morria de medo de contar o que sentia pra alguém. E aí o ano passou, e no ano seguinte não continuei estudando com a Natália e perdemos contato. Anos atrás, voltando do serviço, encontrei a Natália numa padaria. Ela estava casada, com dois filhos. Ainda estava bem bonita, mas quando ela saiu não consegui parar de pensar que eventualmente poderia ter sido eu o pai daqueles pimpolhos. Afinal, acho que ela gostava de mim naquela época também. Mas nunca falei isso a ela, e o tempo passou, e hoje ela está feliz com outro.

Na vida muitas vezes a chance da felicidade passa por um segundo por você. E se você não agarra, você vê ela passando pelo retrovisor até perder pra sempre.

Por isso aconselhei ao Tomaz que não havia motivo pra ter medo de contar que gostava da menina. Quando se tem dez anos é muito mais fácil! Apenas gosta da pessoa e quer andar junto, de mãos dadas e abraçado. Quando se é adulto tem questão de dinheiro, emprego, vícios, desejos, sexo, família, IPTU, IPVA, renda... É algo tão complexo que muitos deixam boas pessoas passarem pelo retrovisor pois não preenchem um ou dois requisitos pra depois quando estiverem perto dos quarenta casar no desespero com a primeira mula que encontrar pra ter uns dois filhos e depois se separar pois a convivência era insuportável. Triste, mas conheço dezenas de exemplos assim.

Tenho uma amiga que sempre diz que admira que eu busco alguém quando estou a fim. Ela disse que poucos homens têm a coragem que tenho (e olha que eu, particularmente, me acho super tímido quando o assunto é paquera). É verdade que talvez a taxa seja de nove foras pra um relacionamento, mas desde que aconteceu a Natália, lá quando tinha meus treze anos, vi que prefiro mil vezes viver com a certeza do "não" do que com a dor de ficar remoendo um "e se eu tivesse tentado?"

Se até o Internet Explorer tem coragem de te perguntar se ele pode ser seu navegador padrão, qual sua desculpa pra não chamar a menina pra sair?

Dessa vez que vim pro interior vim querendo conhecer uma menina bem legal que conheci pelo Tinder, há uns três meses. É verdade que começamos super bem, mas aí as aulas começaram e último semestre da faculdade é osso. Mas pelo menos continuamos trocando conversas. E achei que seria uma boa chamar ela pra uma festa que ia ter aqui. Coisa de interior, sabe? Festa na praça da cidade promovida pela paróquia local. Fui sempre lembrando ela da data nessas últimas semanas todas, consegui na dificuldade uma passagem pro interior com meu pai, perdi dois fins de semana de atividade no templo budista (que eu gosto muito) e justo no dia da festa ela se arruma e vai pra outro lugar, me deixando com aquela cara de trouxa por ter esperado e minimamente acreditado que iríamos nos conhecer pessoalmente.

Note bem: marquei isso para nos CONHECER. Não pedi a menina em namoro, nem casamento, nem relacionamento aberto (Orkut? Alguém?). Pois bem, passou. Consegui uma carona, minha tia teve empatia pela minha situação e me ofereceu uma carona pra cidade dela (uns 10 minutos da onde estou) e pensei em chamar pra uma pizzaria, ou bar, sei lá. Só pra nós nos conhecermos. Sem compromisso. Simplesmente deu uma desculpa meio esfarrapada e mais um "não" pra coleção.

Às vezes secretamente acho que os roteiristas de "How I met your mother" me espionavam pra saber tudo da minha vida e criaram o Ted Crosby baseado em mim, hahaha. Vai ser azarado assim no quinto dos infernos!

Talvez essa menina do interior que eu estivesse afim seja dessas super idealizadoras que acreditam no Jack e Rose do Titanic. Eu já fui muito assim também. Mas hoje não sei dizer "não" sem tentar. Nunca se sabe, oras! Pessoas podem surpreender. Pode ser que o relacionamento não vingue, ou eventualmente terminem, mas pode ser que dê certo também! Nunca se sabe. É por isso que na vida é importante arriscar e ter uma mente aberta. A questão não é se vão terminar ou vão viver o resto da vida um do lado do outro. O importante é dar uma chance ao novo.

Nessa situação toda foi boa pra provar isso que acredito. Eu pelo menos tentei. Saí de São Paulo, deixei minhas coisas lá por uma semana, aguentando um avô chato (eu amo meu avô, mas por conta da idade todo mundo reclama que ele anda insuportável), calor dos infernos, picadas de insetos (picadas de borrachudos tão deixando até a pele quente), além de receio de chamar a menina pra sair (que, não adianta, sempre rola), e quando chamo, apenas para nós conhecermos, sem compromisso, afinal pode ser que pessoalmente eu não goste ou vice-versa, ela foge de medo. Como se tivesse uma chance na frente de recomeçar e deixasse passar pelo retrovisor por conta de um medo bobo.

Pois é, Tomaz, vai lá de declarar logo pra menina! A única chance que você tem é de tudo dar certo. ;)

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Livros 2016 [#7] O diário de Anne Frank

Engraçado que fui a Amsterdam e nem visitei. Tinha ouvido falar, mas ainda não tinha lido o livro. Agora mal posso esperar pra visitar meu lugar favorito no mundo de novo e ir na "Casa da Anne Frank" em Amsterdam.

Demorei muito pra ler, mas é incrível como me sentia a cada página, a cada dia, a cada anotação dela. Anne Frank, pra quem não conhece, foi uma criança judia, vítima do Holocausto, que durante dois anos viveu num sótão (o anexo secreto) na sede da antiga empresa do seu pai em Amsterdam com sua família, uma outra família (os van Pels) e um dentista (Fritz Pfeffer) com pouca comida, quase nenhuma diversão e todo o cuidado do mundo para não serem descobertos. Até o dia 4 de agosto de 1944 quando alguém anonimamente os denunciou e posteriormente enviados a campos de concentração. Anne e sua irmã Margot morreram de tifo em Bergen-Belsen. O único sobrevivente foi seu pai, Otto Frank, que publicou o diário da sua filha postumamente.

O livro é sensacional. Talvez eu poderia ficar aqui contando das dificuldades com a mãe, a luta pela sobrevivência, a sanidade perdida por ficar tanto tempo trancada com medo, mas o que senti nos relatos da Anne Frank é que provavelmente seríamos muito amigos.

Nós compartilhamos uma visão bem parecida do mundo. E ter trago esse livro pra ler enquanto estava no interior me fez refletir bastante. Tanto eu quanto Anne temos um diário. Tanto eu como ela também somos pessoas bem curiosas e estudiosas. Tanto eu quanto Anne sofremos com alguém próximo da família (Anne a mãe, eu o meu pai). E todos os textos dela me faziam lembrar do eu de anos atrás, que volta e meia me recordo quando vejo textos antigos do meu blog.

Adolescência é uma fase difícil. Talvez fosse adulta também, mas pelo menos não tem aquela explosão hormonal que ferra tudo. Anne, no trecho curto da sua vida que registrou no diário mostrou uma coisa que eu também tenho muito: um imenso dedo de si mesma apontando pra si mesma. Uma auto-condenação que quando eu li fiquei abismado, pois parecia descrever a mim mesmo. Muitas coisas aprendi a engolir seco pois simplesmente não tinha pessoas pra me ouvir, ou se fossem me ouvir iriam me julgar, me repreender, mas jamais entender. Esse é um dos maiores dilemas da Anne. E quando li, parecia que se encaixava perfeitamente em mim.

Anne tinha uma grande dificuldade com sua mãe, e lembrei da imensa dificuldade de relação que tenho com meu pai também. E exatamente pelo mesmo motivo, por ser distante, frio e calculista demais. Me lembrava da minha adolescência, e ela tinha pensamentos tão profundos, e muitas pessoas ao meu redor nessa minha idade não tinham tanta profundidade assim, por isso acredito que com certeza teria sido muito amigo de Anne Frank se tivéssemos nos cruzado.

Nas últimas entradas do diário dela ela mostra uma maneira de olhar a si mesma invejável. Tem uma parte linda que ela fala que sempre viveu num imenso dilema de dois "eu" dela. Um "eu" mais puro, que estava bem, até fazia piadas e sorria sinceramente. E um outro "eu" dela que era mais fechado, triste e melancólico, e ela vivia nesse imenso dilema, mas também tentava sempre enxergar seus erros e melhorar como pessoa.

Pois é, Anne. Somos dois.

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