domingo, 11 de setembro de 2016

A lua que eu te dei.

Aquele era um dia de junho. Achei que deveria acessar o Tinder e dar uma olhada, afinal a esperança é sempre a última que morre. E lá estava ela. Era uma moça bonita, cuja descrição dizia que ela tinha mais de um metro e setenta de altura. Nas fotos via uma pessoa bem bonita, tinha um aspecto nerd, e parecia uma pessoa que seria bem gente boa. Marquei um "like" deslizando o dedo. Larguei o celular de lado e horas depois apareceu um aviso de que alguém havia dado "match". Era ela! E começamos então a conversar.

É verdade que pessoas podem acabar se conhecendo nas mais diversas situações da vida. E mesmo um aplicativo que talvez tenha objetivo final (ou inicial) como sexo sem muito compromisso poderia eventualmente resultar em algo mais sério. Nunca se sabe onde a vida vai nos levar, não é mesmo? Mas ainda assim, começamos a conversar.

Logo de cara me lembro que ela havia dito que era uma pessoa que sofria de TDAH. Transtorno de déficit de atenção com hiperatividade. Uma condição bem real que muita gente chama de "frescura", mas ela dizia que fazia tratamento disso. Pra brincar, disse que eu tenho alergia ao sol (de facto, eu tenho), que muita gente chama de "frescura" também, e tenho que viver longe do sol, com protetor solar, óculos escuros. Achei que poderia naquele momento compartilhar algo "ruim" para que pudesse não fazê-la sentir mal. No fundo foi legal!

Desde então começamos a conversar. Não era como essas tantas pessoas modernas que mandavam nudes umas para outras, com conversas cheias de erotismo ou putaria. Mas nossas almas talvez estivessem desnudas naquele momento para que de alguma forma pudéssemos nos conhecer. Descobri estórias lindas de uma mulher que não era grande apenas no tamanho como ela dizia, mas alguém grande na alma também. Uma moça que tinha estórias lindas de crianças carentes que ela ajudava na cidade onde ela morava, uma estória de um joelho que era doente, que havia sido curado como que por milagre, e um problema numa coluna que havia adquirido em um acidente de kart.

Talvez pessoas de fora ao ler esse texto poderiam pensar que talvez ela apenas falava de tragédias, doenças, ou coisas ruins da sua vida. Mas falava de coisas boas também. Falava que gostava muito da lua. Que lua combinava com a personalidade dela, cheia de fases, faces diferentes, e ao mesmo tempo tinha um teor pejorativo pois muitas vezes diziam que era alguém com personalidade líquida como a lua.

Mas ouvir a voz dela me acalmava. Eram sempre respostas que começavam com um "Então..." em nossas conversas de áudio via whatsapp. Era uma voz doce, fina, bondosa. Algo bem grande havia dito em mim que poderia ser ela. Desde aquele momento que virei o "like" no app de paquera. E cada vez, a cada conversa, eu me aprofundava mais e mais ainda. E apesar de quinhentos quilômetros de distância, sentia ela bem próxima. Era algo bem estranho. O que significava isso? O que eu havia perdido?

Talvez esse seria um daqueles momentos que passam como um filme.

Muitas vezes ao passarmos por uma experiência dolorosa, acabamos sem a habilidade em crer na bondade das pessoas. Ou mesmo que exista algo que vá além daquela experiência dolorosa, que eventualmente não poderíamos amadurecer e crescer com isso. Foi a partir do que me aconteceu naquele 11/11 que minha vida havia acabado, e talvez nunca mais gostaria de sentir algo parecido com aquilo de novo, pois o tombo foi imenso, num fundo de um poço, sem nada pra amortecer a queda, deixando ferimentos graves e a beira da morte, sozinho, no escuro. Sem esperanças.

Porém essa menina significava a esperança. Eu estava conhecendo alguém que mesmo depois de tanta dor havia me dado esperança a ponto de tentar novamente. De ter esperança. De acreditar, de apostar, e mesmo que não desse certo, ter a certeza de que havia tentado! Afinal, do que adiantaria a vida se nós mesmos não tivéssemos a chance de arriscar?

Eu precisava enfim sair daquele lado virtual e ao menos a conhecer pessoalmente. Seria um passo e tanto. Verdade que ficaria com muito receio, medo, afinal como se portar, o que falar, por mais que a resposta óbvia seja ser si mesmo, afinal, se não mostrar a si mesmo quem estará tentando enganar? E calhou de eu voltar à mesma Gavião Peixoto, o mesmo lugar que três meses antes eu havia colocado "like" naquele perfil da garota que havia sido sugerido no meu celular. E apesar de toda a ansiedade, medo e receio, cá estava eu. Numa festa da cidade, um evento do distrito, uma festa dessas de interior, no aguardo daquele enfim tão esperado encontro. E o convite já havia sido feito há semanas e tudo parecia estar certo.

Muitas vezes ia no gramado da praça e olhava pra cima, sozinho. E lá estava a lua, já quase cheia, brilhando no céu. Talvez as crianças na frente estranhassem um cara tão grande olhando pra cima e sorrindo. Mas naquele momento acho que apenas eu sabia o que aquele momento significava pra mim.

Eu não tinha a garota da lua pessoalmente comigo. Não sei exatamente o que aconteceu, mas basicamente já devia ter algo marcado e não deu pra aceitar o meu convite. Mas a lua, aquela verdadeira, brilhava naquela noite com uma brisa fresca entre pessoas bebendo cerveja, crianças brincando no parquinho e mães com seus filhos de colo. E era uma Lua crescente, quase cheia, que sinalizava algo muito além do encontro que planejava há semanas.

Aquela lua quase cheia de alguma forma significava o renascimento, o despreendimento daquele que havia caído naquele poço e se machucado a ponto de acreditar que nunca mais se apaixonaria por alguem. Aquela foi uma prova de que novamente eu tinha um coração pulsante dentro de mim e que haveria um futuro a partir dali. Que eu havia conhecido uma menina que mesmo pelo tempo ínfimo que conversamos, mostrou que existia algo dentro de mim que estaria depois de tanta dor pronto pra amar novamente. E que talvez eu não seria mais a pessoa sem coração que eu achava que eu era.

"Não vai dar Alain, desculpe. Não vou conseguir ir". Foi a última mensagem dela. E tudo o que fiz foi mandar um "Sem problemas, obrigado pela sua sinceridade". Não apenas pela sinceridade em avisar que não poderia ter aparecido, e não ter me deixado ficar sozinho, esperando. Mas por essa sinceridade e essa pureza de caráter que ela tinha ter feito eu encontrar a mim mesmo de novo.

Encontrar o Eu que eu havia perdido há muito tempo. O Eu que achava que eu não poderia mais amar. :)

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