segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Gratidão pela colheita.

Semana passada passei no interior. Fiquei na casa do meu avô, deu pra descansar bastante e desacelerar um pouco da correria e da rotina de São Paulo. Mas também acho que voltei com uma bagagem boa de reflexões que acho que vale a pena mostrar aqui.

Meu tio Gerson plantou tomates-cereja, aqueles pequenos e bem gostosos, que normalmente são meio caros aqui em São Paulo. E como eu gosto de mexer na terra, muitas vezes ele me chamava pra ir lá com ele colher, já que muitos ali estavam maduros e prontos pra comer. Por incrível que pareça essa experiência me trouxe uma reflexão bem profunda sobre gratidão.

No budismo que pratico, a Shinnyo-en, e assim como em quase todas as ramificações budistas, gratidão é a base de tudo. E lembrei de algo que ouvi uma vez que muitas vezes devemos ter gratidão até pelas coisas que achamos que estão lá por estarem lá, mas que raramente vemos que existiram vidas, dedicação, empenho e paciência por detrás daquelas coisas. Vou usar os tomatinhos como exemplo!

Muitas vezes vamos no mercado e compramos frutas, acabamos não comendo, ou não aproveitando do jeito certo, mas cada fruta, cada verdura, cada legume foram plantados com dedicação, paciência e carinho. Posteriormente foram colhidos com cuidado, transportado até nós, vendido em uma quitanda próximo de casa para que pudessemos comer aquilo. E muitas vezes deixamos de ter gratidão a essas pessoas que se empenharam para que isso se tornasse realidade - afinal o alimento não brotou do nosso lado e apareceu na nossa frente. Muitas pessoas, histórias, esforço e trabalho duro levaram esse alimento pra gente.

Quando ia colher os tomatinhos, vi como era difícil, por exemplo, ficar debaixo do sol por tantas horas como agricultores ficam. E isso porque eu colhi mais ou menos um pote grande, e ainda ficaram diversos outros verdes no pé. Borrachudos me picaram nas pernas e nos braços (e descobri que acho que sou alérgico), sem contar o suor, a sujeira da terra, e depois que colhi e comi parei pra pensar que famílias também passam pelo mesmo, colhendo, plantando, algumas vezes com pragas destruindo a lavoura, também debaixo do mesmo sol, enfrentando insetos, cansaço, e tudo para que o alimento chegasse nas nossas mãos.

Ok, é verdade que esse é o sustento deles, e muitas pessoas podem falar algo como "mas é o trabalho deles, eles têm a obrigação de fazer isso bem", e isso é bem verdadeiro também. Mas não é porque você paga por algo que você não pode negar o esforço de diversas pessoas por detrás daquilo pra isso dar certo, e ser grato por esse esforço. Em um celular, por exemplo. Teve designers, engenheiros da computação, desenvolvedores de software, todos trabalhando em conjunto pra entregar algo que facilite de alguma forma nossa vida. E muitas vezes acabamos reclamando quando algo não funciona direito, mas não temos gratidão e consideração pelo esforço das pessoas por detrás daquilo.

Mesma coisa os tomatinhos. Teve que ter o clima correto, a terra saudável, as pragas não acabarem com a plantação (no caso do meu tio mais difícil, pois era uma plantação orgânica!), a colheita ser cuidadosa, o sol, insetos, cansaço, calor, enfim. Isso me fez repensar a questão da gratidão e o respeito pelo alimento. Seja um celular de última geração ou tomatinhos pro almoço, entenda que teve dedicação de muitas pessoas nesse processo e seja grato e não desperdice. Cada semente, cada gota de água, cada nutriente na terra contribuiu para que esse alimento chegasse até nós. E quando nos afastamos e enxergamos essa cadeia toda, é impossível não ter gratidão por tudo isso.

É essa gratidão que nos faz levar vidas mais leves, com respeito às coisas que temos, sabendo usar o máximo de tudo em nosso proveito e ajudando pessoas ao nosso redor. Colher tomatinhos me fez refletir como é difícil o processo do alimento chegar até a nossa mesa. E me fez refletir pra evitar eventuais desperdícios.

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