segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Amber #9 - O ser prateado.

Abner Sarkin estava com mais outros dois traficantes terminando de encher mais um baú de um caminhão de armas. O edifício era alto, parecia um armazém de uma fazenda, mas sem nenhum produto agrícola, apenas com caixas e mais caixas de armamento traficado. Sarkin parecia impaciente. Provavelmente querendo levar ao destino final logo todas as armas antes que fosse pego. Quando se virou pra pegar mais uma caixa com um dos assistentes, ouviu um tiro e viu que uma bala acertou a perna do que capanga que o aguardava dentro do baú do caminhão, fazendo-o cair no chão, gritando.

“Parado aí mesmo, Abner Sarkin”, disse Briegel, se aproveitando do elemento surpresa, apontando a arma e rendendo Sarkin, “Você, o assistente, largue a caixa e saia por ali. Agora!!”.

Na hora que o assistente saiu do local, foi nocauteado por Sundermann, que o aguardava ali depois de ter junto de Goldberg derrubado os dois guardas que faziam ronda ali.

“Você... Eu sei quem é você”, disse Sarkin, “Eu sei exatamente quem chega e quem sai dessa cidade, eu tenho olhos em todos os lados”.

Briegel mostrou um par de algemas.

“Abner Sarkin, você está preso por tráfico de armas. Se resistir a prisão, serei obrigado a puxar esse gatilho aqui mesmo”, disse Briegel.

Mas Sarkin, embora mostrasse estar tenso, não conseguia parar de sorrir. Ele tinha uma cicatriz grande que cruzava seu olho esquerdo, que não abria totalmente. Tinha cabelo bem baixo, e um corpo forte, musculoso. Vestia uma camisa vermelha surrada e um sobretudo de pele, bem encardido. Tinha cheiro de quem havia bebido muito. Seus olhos eram vermelhos e ele parecia babar.

“É bom que você não me mate. Eu sei que você quer saber onde estão os engenheiros que sequestrei”, disse Sarkin.

Schultz estava na surdina. Foi ele quem atirou de longe, acertando o capanga dentro do baú do caminhão. Não era preciso ele aparecer ainda, e caso algo acontecesse, Schultz estava perto de Briegel e poderia defendê-lo ou alertar ele de algo. Mas Sarkin ainda não o havia visto, e o judeu não sabia que haviam ainda Sundermann e Goldberg lá fora, de tocaia.

“Diga logo então, onde eles estão?”, perguntou Briegel, calmo.

Sarkin deu um riso, e de súbito o grande portão foi fechado, cortando grande parte da luz do dia que vinha por ali. Era um dia nublado em Munique, estava difícil enxergar qualquer coisa. Agora a luz que iluminava fracamente o local vinha apenas de umas pequenas janelas do topo do edifício. Briegel e Schultz ouviram um som de algo se movendo acima deles. Indo e voltando dos lados, tocando na madeira, e parecia voar de um lado pro outro.

Merda, o que é isso?!, pensou Briegel, tentando olhar pra cima, mas com medo disso o distrair e ele perder Sarkin de vista.

Sarkin deu mais um riso alto.

“HAHAHA!”, riu Sarkin, “Os engenheiros são realmente tão preciosos pra você, coronel Briegel?”, disse Sarkin. Briegel continuou de olho em Sarkin sem dizer nada, apontando a arma pra ele, mas os olhos estavam demorando a se acostumar com aquela escuridão, e Sarkin estava cada vez mais lentamente indo pra trás, “E o que você faria se perdesse alguém que fosse realmente precioso pra ti? Você iria até o inferno atrás dessa pessoa?”.

Nessa hora Briegel ouviu um grito de Schultz, e um som forte de pancada, como se ele tivesse levado um forte golpe, caindo cambaleante atrás dele. Briegel não escondeu a preocupação e virou seu rosto pra gritar pelo seu amigo.

“Schultz?! Você está bem?!”, gritou Briegel, fitando Schultz. Quando ele virou de volta, Sarkin havia sumido.

O caminhão! Ele deve ter entrado no caminhão!, pensou rápido Briegel, que decidiu correr até lá.

Mas naquela escuridão ele viu algo. Não parecia uma pessoa. Parecia uma “coisa”. Tinha uma espécie de armadura que reluzia prateada, e andava de um jeito esquisito, como se fosse um animal. Briegel começou a disparar, e entre os flashes da arma via algo, mas ainda assim era algo indescritível. A coisa caminhava ao seu encontro e as balas simplesmente ricocheteavam ao tocar no corpo prateado.

“Meu deus! Impossível!”, disse Briegel a si mesmo.

E então o ser prateado aplicou um potente chute no rosto de Briegel, lançando-o ao chão, com a queda amortecida por um monte de capim seco ali. O chute não havia pego em cheio, mas a ponta que o acertou foi como um golpe certeiro com toda a força. A dor era intensa, e Briegel lutava pra tentar acordar. Seus olhos simplesmente não abriam, e ele sentia como se sua cabeça pulsasse de dor. Estava realmente difícil de achar onde estava. Enquanto o ouvido era dominado pelo zumbido, conseguiu ouvir que o caminhão estava sendo ligado e o portão aberto. Sarkin estava fugindo. Quando Briegel conseguiu abrir os olhos viu que havia uma identificação naquele caminhão. B-147. Não conseguia se levantar ainda por conta da dor e a potência do golpe, mas ficou sussurrando pra si mesmo “B-147” pra não esquecer.

“Coronel, coronel!”, disse Schultz, ao se aproximar do amigo. Tiros eram ouvidos ao fundo. Provavelmente eram Sundermann e Goldberg tentando parar Sarkin, “Você tá bem? Vamos, acorda!”

Briegel começou a recobrar seu controle.

“Caralho, o que era aquilo? Nossa, me deu um soco no meu estômago, e nossa, sua cara tá toda vermelha! Acho que vai ficar roxo isso!”, disse Schultz, que ainda cuspia um pouco de sangue, “Nossa, parecia, sei lá, aquela força não era humana. O que raios era aquilo?”.

“B-147… B-147”, dizia Briegel pra si mesmo, se erguendo, “B-147”.

Schultz viu e entendeu que aquilo era o que estava escrito como identificação no baú do caminhão. Sundermann e Goldberg entraram correndo e foram amparar Briegel que estava caminhando com dificuldade.

“Sundermann, comunique à polícia. Preciso que encontrem esse caminhão. Estava escrito um grande B-147 nele. Precisamos ir pegar Sarkin. Ele sabia de nós”, disse Briegel, que ainda falava pausando, tomando ar, “Schultz, preciso de sua ajuda. Vamos voltar ao hotel”.

“Ao hotel? Pra quê?”, disse Schultz.

“É a Alice...”, disse Briegel, “Preciso chegar lá antes que ele chegue”.

sábado, 29 de outubro de 2016

Escrevendo sobre factos históricos.

Primeiramente, obrigado a todos por estarem prestigiando Amber! :)

Existem posts que tiveram picos de mais de 100 views! Muito obrigado a todos por estarem acompanhando, independente de onde quer que você esteja lendo. Muito obrigado do fundo do coração.

Gostaria de mostrar algumas curiosidades! Pelo menos enquanto tá no comecinho. Como já deram pra reparar, Amber se passa no meio da Segunda Guerra Mundial, e muitos dos factos que vão ocorrer nessa história vão ajudar a explicar várias brechas na história anterior, o Doppelgänger. Mas além disso o maior desafio de escrever algo baseado em história é exatamente mesclar o que é fictício com os factos, pra tornar a história mais verossímil.

O livro conta a história de Roland Briegel e Ludwig Schultz, dois agentes da SD (Sicherheitsdienst), o serviço de inteligência da Alemanha Nazista. Porém eles não são os malvados da história, na verdade como é bem exposto logo no primeiro capítulo, eles detestam o que Adolf Hitler está fazendo na Alemanha e, como agentes da Inteligência, creem que podem fazer a diferença ajudando a derrubar Hitler e acabando com a Guerra.

O tema "Segunda Guerra Mundial" é muito amplo. Tiveram vários fronts de batalha, muitos países envolvidos, muitos combates, tecnologias novas, valores culturais, enfim, muita coisa. Tanto que não existem filmes que retratam a Segunda Guerra Mundial inteira (exceto, óbvio, documentários). E se existirem filmes que retratam toda a Segunda Guerra que eu não conheça, devem ser péssimos. Sempre focam uma história de algum momento, como a batalha de Stalingrado (Círculo de Fogo, 2001), o ataque a Pearl Harbor (Pearl Harbor, 2001), a derrota japonesa de Iwo Jima, (Cartas de Iwo Jima, 2007) e um dos meus favoritos, o desembarque do Dia "D" das tropas americanas na Normandia (O resgate do Soldado Ryan, 1998), entre outros.

Por isso Amber não tem como tratar de todos os acontecimentos. Mas vai tratar ao menos dos principais, enquanto vai desenvolvendo os personagens nas suas trajetórias individuais. Realmente está me empolgando muito, e espero que todos fiquem pra ler até o final!

Existem diversos factos históricos que gosto de colocar pra trazer mais realismo à coisa. Enquanto estava compondo os personagens, em específico a filha de um dos protagonistas, a Alice Briegel, usei pra contar sua história um massacre que ocorreu de verdade. Quem leu talvez tenha ficado na dúvida se o Genocídio dos Hererós e Namaquas, que conta o nascimento e infância da Alice Briegel realmente existiu, sim, existiu de verdade.

Particularmente não conhecia muito, mas depois de ler muito e ver um documentário fiquei abismado e achei que isso deveria ser colocado na história de qualquer jeito. Eu já tinha criado a Alice Briegel, uma mulher negra, também como uma das protagonistas, vivendo no lugar que deveria ser o maior inferno pra ela: a Alemanha Nazista. Eu adoro dar vida ao Briegel com seu jeito de cara maduro, e me divirto muito escrevendo sobre o Schultz com seu jeito desbocado e livre, mas tenho que admitir que a Alice é minha favorita, de longe.

Alice é essencialmente uma mulher boa, que foi salva por aquele que se tornaria seu pai adotivo, e acho lindo que mesmo Briegel sendo um alemão loiro dos olhos azuis ama Alice como se ela fosse sangue do seu sangue. E nem preciso dizer que é recíproco, e mesmo Alice sendo mimada com mais de trinta anos nas costas, ela adora esse jeito que o pai gosta de mostrar que a ama. E claro que o destino lhe reserva muitas coisas, tanto boas quanto más, mas vou deixar na expectativa!

Meses atrás, quando ainda estava criando os personagens, vi diversas entrevistas de pessoas gays que apoiavam Jair Bolsonaro. O mesmo Bolsonaro que se mostra alguém intolerante, homofóbico, por algum motivo despertava respeito e admiração por algumas pessoas gays. Depois também pesquisei e vi que existiram diversos nazistas de alto escalão que eram homossexuais, entre eles o mais famoso, Ernst Röhm, que foi executado. Foi daí que veio a inspiração pros personagens Lars Sundermann e Izaak Goldberg, que no último capítulo foi revelado que eles eram gays.

Queria mostrar o paradoxo deles, especialmente o Sundermann, de ser fiel ao Führer até o último fio de cabelo e mesmo assim ser homossexual, uma das coisas que o regime nazista mais reprimiam, até com a morte. Mas ao mesmo tempo queria desmistificar que a relação deles fosse como muitas pessoas vêem relações entre pessoas homossexuais: que fosse basicamente sexo. Não! Existe muito romantismo, e os dois se amam muito e vivem um com o outro como um casal qualquer.

Espero que mesmo eu sendo hétero, consiga mostrar esse lado mais romântico deles, que mesmo sendo dois homens, possuem um imenso amor entre eles. É um desafio e tanto, mas acho que vai ajudar a tirar um preconceito bobo que muita gente tem que homens gays são totalmente promíscuos. Conheço casais que são muito mais parceiros um do outro do que muito casal hétero por aí.

É isso! Espero que continuem prestigiando Amber. Toda segunda vou postar um capítulo novo, no mínimo!

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Amber #8 - Omnia vincit amor.

21 de abril de 1937
08h23

O esconderijo de Sarkin já havia sido descoberto por Sundermann anteriormente. Era uma casa , distante de Munique, no campo. Parecia um armazém agrícola. Um edifício de madeira, pintado de vermelho bem escuro. Ao lado tinha uma fazenda, onde nada estava plantado. Haviam uns três morros ao redor, e Schultz estava com um par de binóculos observando o movimento no local.

“Schultz? E aí, alguma coisa?”, disse Briegel, entregando um saco de papel com comida pra ele, “Trouxe os pretzels que você pediu”.

“Ah, valeu meninão!”, disse Schultz, pegando o saco com os pretzels, “Sim. Uns dois caminhões apareceram aqui, saíram aparentemente carregados de algo, mas não deu pra ver exatamente o que era. Escuta, cadê a Alice?”.

“Deixei ela no hotel. Ela disse que tava cansada, acho que peguei pesado chamando ela pra vir em campo com a gente ontem. Acho que acabou piorando a gripe dela por ter pego tanta friagem…”, disse Briegel.

“Entendi. E o tal Hollandaise? E se ele abriu a boca pro Sarkin?”, perguntou Schultz.

“Se ele fez isso, é vantagem pra gente. Sarkin vai ficar tenso ao saber que existe gente atrás dele. É sempre bom manter uma pessoa sob pressão, pois é mais fácil ainda de se cometer deslizes. Mas não tem tantos guardas aí na frente, nem nada, e ele mal deve ter tomado conhecimento da falta de um capanga qualquer como ele, então eu suponho que Sarkin não saiba de nada”, disse Briegel, fazendo uma pausa e dando uma mordida no pretzel, “Depois que o Hollandaise entregou o Goldberg e fugiu eu duvido que ele vai durar muito tempo. Ele é peixe pequeno. Os mafiosos vão encontrar ele quando descobrirem que ele fugiu e vão acabar com a vida dele. Gente idiota pra fazer a tarefa dele não falta”, Briegel apontou com a cabeça pro local antes de prosseguir, “E sobre esse lugar? Descobriu algo?”

“Bom, o local é isolado, só tem essa estradinha de terra. Mas como está no meio desses montes dá pra entender porque Sarkin não tem muitos seguranças. Primeiro pra não chamar a atenção, segundo porque é desnecessário. Vi uns dois ou três guardas, mas se formos entrar vamos precisar da ajuda daqueles dois”, disse Schultz, se referindo a Sundermann e Goldberg.

“Entendi. Bom, eles estavam vindo comigo, mas acho que o Goldberg tava meio tenso depois da ameaça de ontem. O Sundermann ficou lá dando uma força pra ele”, disse Briegel.

“Dando uma força? Sei... Eles devem estar é se pegando!”, brincou Schultz.

“Eles são dois moleques. Saíram da adolescência agora. Não estão prontos pra uma guerra como essa. Tente ser um pouquinho compreensivo, sim?”, disse Briegel, “Vamos lá ver como eles estão”.

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Sundermann e Goldberg estavam em uma padaria, onde Briegel havia comprado pretzels pra ele e Schultz estavam comendo. De longe, ao cruzar a rua deu pra ver os dois pela janela. Estavam sentados lado a lado numa mesa.

“Olha lá eles! Eles estão abraçados!”, disse Schultz.

Briegel ficou em silêncio e continuou caminhando. Enquanto se aproximava viu que Sundermann olhou pros lados enquanto estava abraçado ao lado de Goldberg, como se estivesse se assegurando que ninguém estava os vendo.

“Ei, vamos pregar uma peça neles! Vamos bater na janela e dar-lhes um susto!”, brincou Schultz.

“Espera aí, Schultz!”, alertou Briegel.

E momentos depois dele falar isso, Sundermann lascou um beijo em Goldberg. Um beijo apaixonado, os dois não mostraram muitas carícias públicas, mas era possível ver que a língua dos dois dançavam no meio das suas bocas. Era um beijo de duas pessoas que se amavam, de dois homens que eram apaixonados entre si. Naquele momento nada parecia que impediria aquela cena. Haviam apenas os dois no universo. Foram apenas uns cinco ou dez segundos, e depois trocaram mais uns dois ou três selinhos depois disso.

Briegel e Schultz que observavam tudo do outro lado da janela ficaram perplexos. Não tanto pelo fato de serem dois homens se beijando, mas dois homens que serviam ao Führer, que diziam que homossexualidade era algo que merecia punição, e justo os dois estavam lá em altos amassos. Escondidos do resto dos frequentadores da padaria, mas ainda assim, eram beijos cheios de paixão.

Goldberg nessa hora olhou pela janela sem querer e viu que na rua estavam Schultz e Briegel, que haviam observado tudo. Ele ficou com o rosto vermelho e apontou pra Sundermann, que se apressou em pagar logo a conta e sair.

“Escuta, não é isso que vocês estão pensando! Nós somos amigos!”, disse Sundermann ao sair, querendo explicar a Briegel e Schultz o que estava acontecendo.

Briegel, mesmo sendo o mais maduro, não sabia o que responder. Ele não tinha absolutamente nada contra pessoas gays, mas o medo que tinha era de acabar falando algo que os machucasse. E Sundermann foi justamente se explicar pra Briegel, já que este era o mais velho e mais maduro do grupo, e esperava a compreensão do mesmo. Mas a resposta veio curiosamente do outro lado, de Schultz.

“Ei cara, relaxa!”, disse Schultz, abraçando Sundermann de lado, “Olha, vamos guardar o seu segredo, fica tranquilo. E eu peço desculpas também, eu fiz umas brincadeiras bestas dizendo que vocês eram boiolas, mas agora vi que o que existe entre vocês na verdade é bem bonito. Eu não sou um cara romântico assim com a mulherada, mas eu admiro pessoas assim. Talvez as pessoas de fora condenem vocês dizendo que vocês são promíscuos, só querem saber de sexo, ou coisas piores, mas acho que ninguém viu o que nós vimos. E o que nós vimos é amor. E vocês tem o direito de amarem do jeito que vocês quiserem, e pau no cu do Hitler se ele disser que ‘alemães deviam casar com alemãs e fazerem filhos alemãezinhos’. Chega desse blábláblá! Quero mais que esse Hitler se exploda. Se ele visse o carinho que vocês estavam demonstrando, e a pureza e a vontade de apenas serem felizes juntos, sem dúvida até ele daria o braço a torcer!”.

Briegel se espantou. Apenas soltou um “É isso mesmo! Falou tudo!” pra Schultz, aprovando sua fala. Goldberg ficou emocionado e abraçou carinhosamente seu parceiro de lado, e enfim quebrou o gelo depois de tanto tempo calado, por causa da timidez.

“Obrigado, senhor Schultz. É muito bonito ouvir isso. Ainda mais vindo do senhor, mesmo sendo hétero. Muito obrigado mesmo”, disse Goldberg, “E o senhor também, coronel”.

E Sundermann deu um beijo na testa de Goldberg com ternura. Ele também estava grato, e nunca tinha ouvido palavras tão sensatas. Não eram os dedos incriminatórios que a sociedade apontava pra eles. Tanto Briegel quanto Schultz apesar de serem héteros não viam a necessidade de condenar o amor entre os Sundermann e Goldberg. Eles já deviam carregar um fardo imenso por serem soldados e gays no meio da Alemanha Nazista. Não precisavam de mais dedos apontando que eles estavam errados, ou que deveriam ser mortos. E apoiar o amor deles não faria Schultz nem Briegel afeminados, ou gays. Pelo contrário! Eles sabiam que no amor não havia uma regra. Pessoas gays se amavam tanto quanto pessoas héteros. E ver aquilo fez eles vislumbrarem que um dia no futuro talvez héteros e gays poderiam viver em paz e harmonia, sem repreensão, nem nada do gênero.

“Muito bem então, vamos voltar ao nosso trabalho!”, disse Briegel, motivado, “Parece que tem uns dois soldados do Sarkin fazendo ronda por lá. Preciso que vocês dois neutralizem eles para que possamos entrar e confrontar Sarkin. Podem nos ajudar nisso?”.

“Sim, coronel!”, disseram em uníssono, Sundermann e Goldberg. Todos caíram na risada depois.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Amber #7 - A surpresa (ou a falta de).

“Você é o tal ‘Hollandaise’, certo?”, disse Briegel, com as mãos pra cima. Hollandaise se manteve em silêncio, como se confirmasse que era o próprio, “Certo. Me escuta, tenho uma proposta pra você. Podemos trabalhar juntos”.

“Eu não vou soltar esse soldado aqui não, cara!”, gritou Hollandaise, ainda segurando Goldberg como refém, “Vocês, nazistas, devem morrer!”.

Goldberg incrivelmente mantinha uma frieza absurda, mesmo com sua vida por um triz na mão de alguém claramente sem muito controle de si.

“Não tem problema, pode ficar com ele aí. Escuta, sabemos quem você é, e sabemos o que você andou escondendo aqui. Já temos todas as provas pra te prender, ou mesmo te executar por traição ao Führer. Mas ninguém aqui quer isso, certo? Você quer a sua liberdade, certo?”, disse Briegel, se aproximando calmamente de Hollandaise, com as mãos pra cima.

Briegel estava a dois metros dele, tão perto que praticamente tampava o campo de visão dele das outras pessoas. Fazia parte do plano de Briegel também, uma diretriz para uma situação como essa que ele havia treinado com Schultz. Mas Hollandaise transpirava de nervosismo. Seus dentes estavam cerrados e seus olhos cada vez mais arregalados. Mas Briegel estava calmo, falando que se aquilo fosse uma conversa comum, sem maiores suspeitas. Hollandaise ao ouvir a proposta de Briegel, balançou positivamente a cabeça. Ele queria escapar da morte, com certeza.

“Ótimo. Bom, não viemos atrás de você, Hollandaise. Sabemos que você é peixe pequeno. Nós estamos atrás do seu chefe, Sarkin. E descobrimos esse imenso armamento que você estava guardando aqui nesse depósito, é um dos objetivos que viemos atrás. Se você colaborar com a gente, nem eu, nem ninguém aqui vai te denunciar pras autoridades. Você vai poder fugir pra onde você quiser. Será que você pode responder algumas perguntas?”, disse Briegel.

“Tá, vai! Fala logo antes que eu estoure os miolos desse aqui!”, disse Hollandaise, apertando ainda mais a arma acima da orelha de Goldberg.

“Sem problemas. O que você sabe sobre essas armas? Como o Sarkin conseguiu isso tudo?”, perguntou Briegel.

“Isso aqui foi o que ofereceram pro monsieur Sarkin depois do que ele conseguiu. Ele conseguiu projetos bélicos de outros países. Grande parte dessas armas eram parte do pagamento que haviam oferecido a ele”, disse Hollandaise.

“Projetos bélicos? Você tá dizendo que Sarkin fez espionagem industrial e conseguiu projetos de pistolas, rifles, escopetas, todos de outras empresas de armas de outros países?”, perguntou Briegel.

“Sim. O monsieur Sarkin entregou tudo para empresas bélicas da Alemanha criarem armas. Só que claro, isso foi feito nas escuras, sem que ninguém da mídia soubesse, sem que essa notícia se espalhasse e muito menos que outros países soubessem, você sabe bem como estão as coisas por aqui agora”, disse Hollandaise.

“Sim. Sei muito bem”, disse Briegel.

A Alemanha, depois que perdeu a Primeira Guerra Mundial, foi obrigada a assinar o controverso Tratado de Versalhes. Isso basicamente afundou a Alemanha em uma dívida imensa, causando hiper-inflação, perda de diversas colônias e territórios conquistados, mas além disso deixava a Alemanha como um país com sérias restrições bélicas. Não se poderia produzir armas, ou formar tropas de exército, ou qualquer coisa do gênero. Um dos objetivos deste tratado era impedir a Alemanha de se tornar um país belicamente forte de novo, como aconteceu na Primeira Guerra Mundial.

Porém, a partir do momento que Adolf Hitler chegou ao poder, a Alemanha Nazista começou a quebrar diversas dessas cláusulas. Por dois anos o exército alemão de expandiu em segredo, até que em 1935 Hitler resolveu levar ao público o que estava acontecendo. E isso obviamente quebrava o Tratado de Versalhes. Já naquele ano o mundo descobriu que a Alemanha Nazista já tinha por volta de dois mil e quinhentos aviões de batalha da Luftwaffe (força aérea), e uma força total de trezentos mil homens na Wehrmacht (forças armadas) totais, juntando exército, marinha e aeronáutica. O resto da Europa, incluindo o Reino Unido, subestimavam o que a Alemanha de Hitler era capaz de fazer. Mas era tarde.

“Mas é claro que o governo não sabe nada disso”, disse Hollandaise.

“Hã? Impossível. A Alemanha tem se armado cada vez mais. Pra que isso tudo então?”, perguntou Briegel.

“Isso é apenas um dos depósitos. Um dos menores na verdade!”, disse Hollandaise. Briegel ficou surpreso, mas queria continuar ouvindo, “As indústrias de armas estavam obedecendo as ordens de uma outra pessoa”.

“E você tem ideia? Já viu essa pessoa?”, perguntou Briegel.

“Uma vez só. Vi ele conversando com o monsieur Sarkin. Ele não parecia ser europeu. Acho que o nome dele era ‘Rains’, ‘Reins’ ou ‘Raines’”, não sei bem. Soava algo assim”, disse Hollandaise.

“Certo. Realmente você foi bem útil. Mas antes de você ir, queria que você me contasse o paradeiro de duas pessoas”, disse Briegel, tirando um papel do bolso interno do seu paletó. Nesse papel havia um clipe, com duas fotos anexadas, “Já viu esses rostos em algum lugar? Estamos atrás dessas pessoas. São engenheiros militares que estão desaparecidos. Sabe de algo que possa nos ajudar?”.

Hollandaise olhou e balançou a cabeça, negativamente.

“Não, nada. Muitos assuntos a gente não fica sabendo. Muitos assuntos é o monsieur Sarkin que resolve, acho que isso apenas ele pode responder. Isso é, se ele souber de algo”, disse Hollandaise.

Briegel guardou as fotos no bolso, e calmamente se voltou pra Hollandaise. Briegel se aproximou ainda mais dele. Agora mal tinha um metro de distância separando os dois, e Hollandaise que antes mal conseguia ver alguém atrás de Briegel, agora não conseguia ver mais nada além do alemão.

“Ok, Hollandaise, acho que podemos resolver de uma maneira boa pra mim e pra você. E sem machucar ninguém. Não vou te entregar pras autoridades, e você também infelizmente não vai poder voltar a trabalhar pro Sarkin. O que te proponho é uma nova vida. Você vai poder fugir, vai estar na sua própria conta. Pode ir pra algum país longe daqui e começar uma nova vida, e torcer pra Sarkin não te pegar. Vou inventar uma estória de que você reagiu e morreu, e ninguém do governo vai atrás de você. Estou te dando uma chance de ouro. Você é peixe pequeno nessa coisa toda, não tenho motivos pra te deter. Agora tira a arma da cabeça do nosso companheiro, vire-se e saia sem olhar pra trás e nunca mais pise na Alemanha. Pode ser?”, propôs Briegel.

“O quê? E começar uma vida do zero? Nem fudendo!”, disse Hollandaise, gritando, “Você vai me dar uma grana preta, um carro, e tudo o que eu quiser. Caso contrário, vou estourar os miolos do seu coleguinha aqui!”.

Briegel balançou a cabeça negativamente olhando pra baixo, fazendo “tsc, tsc, tsc”, com a boca. Virou de lado e Hollandaise olhou pras pessoas que estavam atrás de Briegel. A mulher negra, o jovem alemão fardado ainda estavam lá. Mas faltava alguém.

“Eu disse que eu te dava uma escolha. Ou você escolhe aproveitar que eu te dei uma chance de fugir e começar a sua vida do zero, ou…”, disse Briegel.

“...Ou você pode escolher perder sua vida aqui”, disse Schultz, que havia saído pela saída dos fundos enquanto Briegel tampava o campo de visão de Hollandaise e dado a volta no quarteirão e rendido Hollandaise, engatilhando sua arma nas costas dele.

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16h20

“Himmler? Aqui é Briegel”, disse Briegel, ligando pra Himmler em Berlim do hotel em Munique.

“Diga. Notícias sobre Sarkin?”, disse Himmler.

“Sim. Sundermann e Goldberg haviam encontrado um capanga de Sarkin, e descobrimos um imenso depósito de armas nos fundos de uma loja de sapatos que servia de fachada. Estavam produzindo armas sem que o governo soubesse e guardando-as lá. Ele disse também que existem outros depósitos espalhados aqui por Munique. Existem armas traficadas suficiente para o exército inteiro - ou até bem mais. Isso pode acabar piorando as coisas pro Hitler se a mídia internacional souber disso. Quebrar o Tratado de Versalhes assim pode levar a uma guerra sem precedentes! É melhor que todas essas armas sejam destruídas”, disse Briegel.

“Isso é o de menos”, disse Himmler, como se não desse importância a isso, “E quanto aos engenheiros desaparecidos? Eles estão com Sarkin?”

Briegel ficou em silêncio pensando consigo mesmo. Por um momento se questionou se Himmler havia ouvido que tanto armamento era contra o Tratado de Versalhes, quanto que isso poderia manchar muito a imagem da Alemanha internacionalmente. Poderia causar até uma guerra, provocando os países do mundo inteiro. Mas pra Himmler, isso era informação descartável.

“Err…”, disse Briegel, tentando se concentrar, “Não. Esse capanga não sabia de nada. Mas amanhã cedo iremos para o local onde Sarkin vive, e iremos interrogá-lo pra arrancar o que ele sabe”.

“Certo. Me mantenha informado, Briegel. Até mais”, desligou Himmler.

“E aí? O que o tampinha disse?”, perguntou Schultz.

“Pois é, nem eu entendi. Eu disse pra ele sobre as armas traficadas, e ele simplesmente disse nada demais!”, disse Briegel, atônico.

“Como assim, papai?”, perguntou Alice, apreensiva.

“Para ele expressar essa indiferença toda só me leva a concluir uma coisa: Himmler sabia disso. E talvez ele esteja por detrás disso tudo também!”, concluiu Briegel.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Amber #6 - Aquele que é fiel ao Führer.

20 de abril de 1937
07h21

Sundermann era um desses oficiais jovens nazistas que eram fiéis até o último fio de cabelo ao Führer. Realmente acreditava que Adolf Hitler era a salvação, que uma pessoa como ele, que havia tirado a Alemanha da lama que ficou no pós-Primeira Guerra, era alguém que valeria a pena ser seguido até às últimas consequências. Sundermann era uma dessas pessoas que iriam até o fim da sua vida ser fiel ao líder do nazismo.

Briegel, Schultz, e Alice estavam juntos tomando café da manhã no hotel com Sundermann e Goldberg. Estavam conversando e sendo informados sobre o que os soldados alemães haviam levantado sobre Abner Sarkin e seus capangas.

“Você é bem jovem, e serve a Alemanha com tanto… Vamos dizer, ‘afinco’, não?”, disse Briegel, tentando colocar uma palavra correta.

“Sim, tenho dezoito anos, coronel. Ano que vem estarei na SS, e poderei lutar ainda mais pra proteger meu país!”, disse Sundermann, de maneira altiva, “Mas atualmente sou da Juventude de Hitler, a Hitlerjugend. Foi lá que conheci Goldberg, e estamos juntos”, disse Sundermann, que depois se apressou a consertar, “Juntos trabalhando, no caso”.

Homossexualidade era algo completamente repudiável pelos nazistas. Mesmo pra ele, sendo um oficial, nunca deveria sequer cogitar algum comportamento homossexual. Era um dos pilares da doutrina nazista, além de um profundo racismo, violência e hierarquia.

“Seu uniforme, parece muito o uniforme da SA”, comentou Schultz.

“Sim, nosso uniforme é bem parecido. O senhor conhece bem os detalhes, senhor Schultz. O senhor fez parte da SA?”, perguntou Sundermann.

“É. Mas me transferi antes pra SD”, disse Schultz, sério.

“Foi antes do que aconteceu naquele dia 30 de junho?”, perguntou Sundermann, provocando.

“Sim. Tava na cara que o idiota do Hitler ia matar a galera toda ali”, disse Schultz. Na hora que ele xingou Hitler, Sundermann arregalou os olhos, como se Schultz estivesse falando uma heresia contra um deus, “Dei o fora antes, mas muita gente que conhecia não teve a mesma sorte. Eu era subordinado direto do Ernst Röhm”.

Nessa hora Sundermann deu um riso cínino.

“Bem feito. Homossexuais devem ser punidos. Ouvi falar que o Hitler mandou ele se matar, mas ele não conseguiu, aí tiveram que tirar a vida dele mesmo, matando-o”, disse Sundermann, olhando pra Goldberg, que balançou positivamente a cabeça.

“Moleque, você é uma anta mesmo. Você é que não sabe de nada mesmo, e fica lendo esses materiais de propaganda. Lixo pro seu cérebro de cocô, isso sim”, disse Schultz, perdendo a paciência. Briegel na hora olhou pra Schultz, fazendo sinal com a mão para que ele baixasse o tom. Schultz viu e tentou ficar mais calmo antes de prosseguir: “Bom, como eu disse eu conhecia muito tem o Röhm. Todos ali sabiam que ele era homossexual. Até o Hitler. Hitler na verdade fez aquele massacre na SA pra que ele tivesse o poder sobre eles. Eles tinham mais armamento e mais soldados que o próprio exército, mas o Röhm não queria largar o osso tão fácil. Infelizmente é como funciona com esse governo de merda. Não trabalha pra eles, acaba sendo morto”.

Mais uma vez Sundermann parecia chocado. Goldberg não esboçava muita coisa, talvez fosse tímido, uma pessoa mais fechada. Mas obviamente ouvia tudo. O silêncio durou por alguns momentos ainda, e as pessoas aproveitaram pra comer algo. Quem quebrou o silêncio foi Alice Briegel:

“E você? Você não é muito de falar, não é mesmo?”, disse Alice, pra Goldberg, sendo gentil e tentando coloca-lo na conversa.

Goldberg olhou pra ela, mas fingiu ignorar. O clima ficou mais uma vez tenso na mesa. Foi Sundermann que prosseguiu:

“Você, filha de macaco, é raça inferior. Você está sujando nossa Alemanha com essa sua pele preta. Você só está aqui comendo conosco por causa do coronel Briegel. Caso contrário, você estaria comendo com os cachorros, sua vagabunda!”.

Nessa hora Briegel bateu forte na mesa. O som assustou a todos.

“Puta merda, é bom que você tenha comprado seu jazigo, moleque. Você tá mortinho!”, disse Schultz pra Sundermann.

Briegel se ergueu da mesa e encarou Sundermann furioso, e disse, apontando seu dedo pra ele:

“Se você falar mais alguma coisa sobre a minha filha, eu juro pra você que eu vou te matar, e vou fazer de tal maneira que sua família não vai nem saber onde tá o seu corpo, e mesmo se encontrarem, eu farei questão de cortar você em pedacinhos e ninguém vai saber diferenciar você de um pedaço de porco, que é o que você é, seu filho duma puta”.

Briegel se sentou, e Alice pegou na mão do seu pai, tentando acalma-lo, sem dizer nada.

“Bom, mudando de assunto, o que vocês descobriram sobre Sarkin?”, perguntou Schultz, já mais animado.

“Sim. Abner. O Sarkin, sim”, Sundermann ainda estava pálido e tremendo de medo, “Sabemos onde ele está, não foi tão difícil. Rastreamos alguns carregamentos de armas e vimos que grande parte do armamento era dada como entregue, mas na verdade era desviada e posteriormente dado como perdido. Descobrimos ontem o braço-direito dele. É um francês, ele atende pelo apelido ‘Hollandaise’. Não descobrimos o nome real dele, mas é certeza que ele é subordinado direto ao Sarkin”, disse Sundermann.

“Muito bem! Hollandaise, que nominho mais tosco, hein!”, disse Schultz, passando jogando creme holandês no ovo frito no seu prato, “Vamos lá fazer uma visitinha a ele!”.

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11h20

Hollandaise estava andando calmamente na rua, buscando algum lugar pra comer nas ruas de Munique. Havia acabado de deixar a pé uma loja de sapatos que ele usava de fachada. A porta obviamente estava trancada, e não havia ninguém lá. Apenas uma placa dizendo que voltaria logo. Schultz colocou sua luva e quebrou o vidro com um soco, destrancando a porta por dentro. Todos olharam pra ele surpresos.

“Que foi? Tô agilizando o serviço, ué!”, disse Schultz.

Alice Briegel mostrou uma chave mestra que ela havia trago pra caso precisasse abrir a porta. Depois de dar um sorriso amarelo, Briegel, Sundermann, Alice e Schultz entraram, e Goldberg ficou nas redondezas, do lado de fora, observando tudo.

“Eles nunca tinham o meu número de sapato aqui. Talvez as armas estejam todas ali no fundo. Por aqui, coronel”, disse Sundermann indo na frente.

Quando eles chegaram, tomaram um susto. Não parecia um lugar tão grande de fora, mas havia muito armamento lá. E de todo o tipo. Pistolas, fuzis, bombas, tudo. Dava pra declarar uma guerra com aquilo tudo. E como o terreno da suposta loja tinha um depósito imenso e comprido no fundo, parecia um corredor sem fim, bem alto, mas extremamente organizado.

“Cacete, a gente pode levar um pouco e conseguir uns trocados? Duvido que ele vai perceber que tem algo faltando”, brincou Schultz.

“É incrível mesmo. Bom, isso prova que Abner Sarkin está envolvido até o pescoço nisso, podemos ir bater um papo com ele depois também. Isso é tão organizado que tem até uma lista aqui dos compradores”, disse Briegel, pegando uns papeis que estavam jogados nas estantes, “Parece que tem um carregamento indo pra Espanha em breve. Até em qual trem vão enfiar isso tá escrito aqui. É toda evidência que precisávamos. Foi bem mais fácil do que imaginava”.

“Coronel Briegel?”, disse uma voz nos fundos. Era Goldberg.

Nessa hora Alice, que estava mais próxima da porta soltou um grito, assustada. Todos viraram seu rosto na direção da entrada e ficaram atônicos com o que viam.

“Saiam já daí calmamente, senão eu mato seu amiguinho!”, disse Hollandaise, segurando Goldberg como refém, com uma arma apontada na cabeça dele.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Miss Brasil 2016

Esse ano esqueci totalmente que tinha o Miss Brasil. Sorte minha que tava passando os canais e vi que tava passando. Ok, foi um saco ter que aguentar a Dani Suzuki com aquela voz de taquara rachada apresentando junto com aquele panacão desconhecido (que até agora não sei o nome). Mas valeu assistir o Miss Brasil nesse ano por diversos fatores.

E o melhor foi que haviam muitas candidatas negras. Ano passado foi praticamente apenas loiras, mas esse ano parece que eu nunca vi um concurso tão rico nos últimos tempos: tinham loiras, morenas, negras, indígenas, enfim. Faltou apenas uma asiática brasileira, haha. Tem várias Miss Nikkey aí que dariam ótimas Misses Brasil!

O concurso foi patrocinado pela Be Emotion, uma marca de cosméticos, e deu pra ver que trouxe o concurso pra um outro nível. Faltou apenas o prêmio de Miss Simpatia que não rolou. Gracie Lou Freebush não curtiu isso.

Paraná - Raíssa Santana



Vou começar com a minha favorita! E vencedora (enfim dei um palpite certo!). O que é que é isso, meu deus? Ela tem uns traços lindos, um olhar penetrante, e esse cabelo lindo, cachinhos, além de um baita corpão (que pernas são essas, meu deus!). Raissa veio de uma cidade chamada Umuarama, no Paraná. E como se não bastasse a menina tinha uma baita estória bonita também.

Enfim, eu me apaixonei por ela, vou jogar a real aqui. Como se não bastasse essa beleza única dela, em uma parte que cada miss contou um pouco das suas vidas, Raissa contou que era uma "menina moleca", que brincava com os meninos, jogando bola, bolinha de gude, etc. Ela é uma tomboy, que tipo, é o tipo de mulher que eu mais gosto, pois elas são essas meninas que foram criadas com meninos, e não têm a frescura que as que foram criadas apenas num meio exclusivamente feminino têm. São mulheres de ouro, e não tem como não se apaixonar por uma tomboy.

Mas sem dúvida o que mais tocou foi quando ela contou que sofria bullying na escola. Diziam que ela era FEIA. Meio difícil de imaginar, né? E, por ironia do destino, hoje ela é a Miss Brasil. Ah, esses bullies idiotas, sabe de nada inocente...

Minas Gerais - Paloma Marques


Minas Gerais é foda. E essa menina na verdade era bem diferente dos tipos dos outros anos. Não foi muito longe nesse concurso (normalmente existe um embate ferrenho entre MG x RS). E ela, nossa, não tem a mesma aparência das outras Misses de Minas dos outros anos. Todas elas até o ano passado tinham a aparência de "mulherão mineiro", tipo Natália Guimarães, Sthéfanie Zanelli, etc. Ela é a Miss MG mais diferente dos últimos tempos, e isso só mostra como Minas é mesmo o estado que é um "mini Brasil", que reflete um país inteiro em um estado, com toda sua diversidade.

E Paloma mostrou-se exatamente como sendo representante dessa diversidade da beleza mineira. Essa pele morena de quem tem ancestrais indígenas, esses olhos meio puxadinhos, esse nariz europeu bem desenhado e esse jeitinho de menina, como não amar? Foi uma das melhores representantes mineiras dos últimos tempos. Mas perto da beleza da Raíssa (vencedora), tava osso ganhar mesmo dela. Raíssa não é nota dez. É onze, doze, treze... Fora dos parâmetros.

Rio Grande do Norte - Danielle Marion


No concurso me chamou a atenção que tanto Rio Grande do Sul quanto Rio Grande do Norte eram (ou estavam) loiras. a Danielle Marion (acima) foi uma das que mais foram longe, e sinceramente torci muito também. Tanto que ela foi vice, só perdeu pra Raíssa também, e isso porque a Raíssa é de uma beleza de outro mundo mesmo. Imbatível. Mas a Danielle, por mais que essa foto mostre o corpo que lembra muito uma modelo, ainda era a que estava mais pra miss do que modelo.

Digo, uma coisa que encheu muito o saco é que todas as meninas eram muito corpo de modelo. Muito magrelas, sem curvas, nem peito nem bunda. As únicas duas mesmo que fugiam um pouco e tinham corpo de miss mesmo eram a Danielle e a Raíssa. Talvez por isso que ganharam. Ok, é verdade que muitas misses entram no mundo das passarelas ou Big Brother depois, mas miss é miss e modelo é modelo. E vê-las com essa aparência de mulher "normal" acho que ajuda a outras meninas entendam que não precisam chegar num corpo extremamente magro de modelo pra serem misses. Podem chegar lá sendo elas mesmas. Pois na verdade a ideia é exatamente essa.

Sergipe - Carol Valença


Nos menores frascos estão os melhores perfumes. E uma das semifinalistas que mais me impressionou foi a garota oriunda do menor estado da nação, Sergipe! A gaúcha desse ano não me impressionou muito, mas essa loiraça, puxa vida! Menina parece saída daqueles filmes de época, é outro padrão!

Paraíba - Mayrla Vasconcelos


Eu achei que era uma das que melhor fotografava bem. As candidatas nordestinas estavam com tudo nesse ano! Infelizmente não foi muito longe na competição, foi uma das muitas eliminadas de primeira, mas pelo menos nos tapes que apareciam no meio do concurso se destacou. Muito linda mesmo!

São Paulo - Sabrina Paiva


Não gosto das misses do meu estado. O estado de São Paulo tem muita gente feia, acho que todas as pessoas bonitas foram pro Rio ou Minas Gerais aqui no sudeste. Na capital então, dá até dó, a gente se contenta em namorar as menos feias. Talvez o único lugar que tenham garotas mais ou menos seja na região central do estado (Araraquara, Ribeirão Preto, etc), e não é porque é da onde minha família é. Isso é meio que um fato mesmo, e sempre sai muita miss daquela região.

E Sabrina Paiva foi pra final justamente com a Miss Ribeirão Preto, que pra variar era lindíssima também. Mas ela ganhou. E apesar de ter outras representantes negras lindíssimas (Maranhão, Rondônia e Espírito Santo eram minhas favoritas, além daquela deusa paranaense), acho que fazia anos que São Paulo não foi tão longe no concurso. Ela tem quase o meu tamanho (1,81m, eu tenho 1m85!) e foi lindo ver ela com aquele blackpower lindo, brilhante, se consagrando campeã como Miss São Paulo. É, tem muita mulher feia em São Paulo, mas umas poucas assim dá um tiquinho de orgulho de morar por aqui.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Amber #5 - Próxima parada: Munique.

19 de abril de 1937

“Ei, acorda logo Schultz, vamos logo! Já são 6h10!!”, disse Briegel, entrando no apartamento de Schultz.

Schultz não tinha uma casa confortável como Briegel no campo, nos arredores de Berlim. Como gastava todo seu dinheiro com mulheres e jogos, a única coisa que ele conseguia pagar mesmo era um quarto num prédio vagabundo perto do trabalho. Na sua cama estavam duas garotas, bem novas, que estavam nuas na cama ao lado dele. Ao verem Briegel entrando no quarto, as garotas e Briegel se assustaram.

“Minha nossa, Schultz, de novo não!”, disse Briegel, virando o rosto. As garotas se ergueram da cama, tampando os seus seios com as mãos e pegando as roupas no chão, “Me perdoem, eu não sabia que ele… SCHULTZ!!!”.

“Hã? Que foi? Que horas são?”, perguntou Schultz, com uma baita ressaca.

“Vamos logo, temos que pegar o trem! Será que eu tenho que vir te buscar como se fosse sua mãe toda vez, é?”, disse Briegel, nessa hora Schultz se levantou, e estava completamente pelado. Briegel virou o rosto, morrendo de vergonha de ver aquela cena tórrida, “Coloca uma cueca pelo menos, Schultz!”

“Tá bom, tá bom. Mas vê se vira a Alice vira pro outro lado, ela pode gostar do que tá vendo, hahaha!”, brincou Schultz.

Alice Briegel, que não estava entendendo nada, entrou no quarto e se assustou quando viu seu tio completamente pelado.

“Alice, filha, vira pra lá!”, disse Briegel, virando sua filha.

“Ah, tudo bem, papai!”, brincou Alice, rindo.

“Até parece que ela nunca viu isso, Coronel. Ela já é mulher, já tem trinta anos, e você tem que parar de tratar ela como uma criança! Mas o que mais me intriga é…”, nessa hora Schultz pausou pra dar um drama maior na sua fala, “O que raios ela tá fazendo aqui?”.

Briegel, ainda de costas pra Schultz, respondeu:

“Vou levar ela comigo pra Munique. Ela ainda tá gripada, assim vou poder tomar conta melhor dela”, disse Briegel.

“Ei, já disse pra não tratar ela como criança!”, disse Schultz, já de calças, virando Briegel. Briegel se assustou pensando que Schultz ainda estivesse nu, mas vendo que seu amigo estava com roupas já tratou de apressar e ajudar ele a arrumar suas coisas.

“Eu não ligo, tio! Meu pai é assim. É a forma que ele achou de mostrar que se preocupa e ama sua filha”, disse Alice, com ternura.

Briegel ao ouvir isso sorriu. Não era uma pessoa de sorrir muito, era sempre sério, mas quando ouvia uma palavra cheia de ternura da sua filha rapidamente ficava vermelho e seus olhos lacrimejavam. Ele nunca se arrependeu de ter salvo, ou de ter criado sua filha com todo o carinho que ela merecia. Mas eram momentos assim que enchiam ainda mais seu coração de amor por Alice. Momentos de ternura que o derretia todo!

“Tá certo então! Bom, quem será nosso contato lá em Munique? O do oclinhos passou pra você?”, perguntou Schultz enquando abotoava a camisa.

“Sim. É um oficial nazista. Não é de alta patente, mas vamos aproveitar sua discrição. Seu nome é…”, disse Briegel, pegando o papel e checando novamente o seu nome, “Lars. Lars Sundermann. Ele estará nos aguardando com seu auxiliar, Izaak Goldberger”.

“Auxiliar? Que viadice do caralho! Um deve estar pegando o outro, com certeza!”, disse Schultz, pegando seu sobretudo no baú.

“Larga de besteira e penteia esse cabelo, vai! Vamos logo! O trem vai sair logo!”, mandou Briegel.

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16h43

Briegel, Alice e Schultz chegaram sem problemas a Munique. Desceram do trem e foram logo em direção ao saguão.

“Puxa, porque vocês me acordaram ás seis se o trem só saiu ás oito? Eu poderia ter dormido um pouquinho. Daria dado até tempo de dar umazinha naquelas meninas de novo de manhã, sabia?”, queixou Schultz.

Alice deu risada, Briegel fingiu que não ouviu, como se já conhecesse as ladainhas que o amigo falava.

“Elas não eram garotas de programas, não é tio?”, perguntou Alice. Briegel estava na frente, procurando o local onde Sundermann estaria o esperando.

“Não! Eu tenho uma lábia boa também, é bom poder praticar a pegação!”, disse Schultz.

“Melhor o senhor tomar cuidado, tio. Pode engravidar uma aí sem querer!”, disse Alice.

“Nada! Eu sou esperto. Fiz vasectomia. Aí posso fazer o quanto quiser, não preciso me preocupar em tirar o pinto fora antes de gozar. E se eu vou num prostíbulo eu tomo uns antibióticos antes e tá tudo bem!”, disse Schultz, fazendo um sinal de ‘beleza!’ com a mão, “Gonorréia nunca mais!”.

Isso é um bocado perigoso não? Ah, deixa pra lá, hahaha!, pensou Alice, sorrindo.

“Cadê o papai?”, perguntou Alice, que perdeu de vista Briegel que foi na frente. Quando ela esticou o pescoço o viu na frente, indo em direção da saída onde havia um oficial fardado alemão, “Ali! Vamos, tio!”.

“Sundermann?”, perguntou Briegel.

“Coronel Briegel?”, confirmou Sundermann. Briegel balançou positivamente a cabeça, “Minha nossa, é uma honra conhecer uma lenda como o senhor! Muitíssimo prazer! Eu sou Lars Sundermann, oficial do Führer, e esse é o meu auxiliar, Izaak Goldberg. Minha nossa, como eu pude me esquecer? Melhor saudar do jeito correto...”.

Nessa hora Lars ergueu o braço direito com a palma para baixo, e fez a saudação nazista do “Heil, Hitler”.

Briegel não fez o gesto. Na verdade fez até um sinal pra que ele relaxasse, que não havia a necessidade de cerimônias. Já Schultz sussurrou pra Alice baixinho:

“Puxa, parece que vamos trabalhar com mais um cãozinho do Hitler”. Alice deu um risinho discreto no meio da tosse da gripe.

“Esqueci de apresentá-los. Essa é Alice, minha filha, e Schultz, meu auxiliar”, disse Briegel, dando um riso ligeiramente cínico pra Schultz.

“Eu, auxiliar? Cai fora!”, disse Schultz, tirando sarro de Briegel, “Sou eu quem manda aqui na verdade, sabe?”.

Sundermann cumprimentou Schultz, mas fingiu que não viu Alice. Depois voltou pra frente de Briegel, mas continuava encarando Alice dos pés à cabeça, como se ela tivesse algo errado por ser negra.

“Vou ajuda-los com sua bagagem. Reservei o melhor hotel da região para vocês. Estou honrado de trabalhar ao lado de duas lendas da SD pra ajudarmos nosso Führer a chegar a mais uma conquista!”, disse Sundermann.

Sundermann e Goldberg foram na frente com as malas com Briegel os acompanhando de perto. No final estavam Alice e Schultz atrás deles, só observando tudo.

“É, essa será uma longa missão com esses fanáticos aí…”, lamentou Schultz para Alice.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Personagens brancos nos quadrinhos interpretados por negros.


Esses dias comecei a assistir com meu irmão o novo seriado do Luke Cage na Netflix, que vai se juntar em breve ao Demolidor, Jessica Jones e Punho de Ferro pros quatro fundarem "Os Defensores", que vai ser seriado também num futuro próximo da Netflix.

Mas hoje não quero fazer review aqui dos seriados. Pelo menos não ainda. Queria falar de algo que tenho visto nos seriados que são baseados em quadrinhos que eu estou gostando muito: personagens antes brancos nos quadrinhos sendo interpretados por atores negros. Tem gente que não gosta, tem gente que gosta, e tem gente que acha isso sensacional (como eu).

Tudo bem que tem vezes que cagam muito, como o Johnny nesse último Quarteto Fantástico. Mas em geral é sempre uma escolha boa, afinal não existe motivos pra retratar personagens hoje como a sociedade era há sessenta, setenta anos atrás.

Vou dar exemplo do Jimmy Olsen (imagem do post, acima). No original dos quadrinhos, Jimmy Olsen era o melhor amigo do Clark Kent, e uma das únicas pessoas que sabiam que Superman era o bunda-mole cabaço do Clark. Porém, Jimmy Olsen apareceu nos quadrinhos na década de 40, e a sociedade era bem diferente naqueles tempos. Ok, racismo ainda existe, mas era algo infinitamente pior naqueles tempos. O primeiro herói negro foi o Pantera Negra, e isso em 1966 (mais de vinte anos depois do primeiro, que foi o Superman, em 1934).


A sociedade mudou muito desde a década de 30. Não apenas pessoas negras passaram a ter melhores empregos e oportunidades, como também começaram a ser vistos na sociedade. E claro, ainda tem muito a melhorar, mas eu acho algo muito bacana vendo que justamente o Jimmy Olsen está sendo interpretado por um cara negro, e que ao mesmo tempo é o interesse amoroso da protagonista Kara Zor-el, de um seriado que eu sou fã de carteirinha, a Supergirl.

Afinal, casais hoje em dia são assim. Não existe mais o preconceito feio de que negros não podem se casar com loiras, brancos não podem ficar com asiáticos, ou latinos não podem ficar com pessoas da Papua Nova Guiné. Hoje em dia é uma suruba interacial que deixaria aqueles idiotas que criaram a babaquice chamada eugenia furiosos. Isso só mostra que os seriados não ficaram enclausurados naqueles anos trinta ou quarenta e acompanharam a ótima mudança que os tempos trouxeram. Eles evoluíram, e os personagens devem evoluir também e refletir a sociedade atual. E isso é ótimo!

Na dúvida, sempre vai ter a Cat Grant dizendo que esse grupo multi-etnico na frente dela sem fazer nada parecem oriundos de um seriado do CW, como nessa cena muito hilária!

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Amber - WORD UP! (1)

3 de março de 1933

Você se lembra quando conheceu seu melhor amigo? Diria que aquela pessoa que até então você não conhecia poderia criar um laço tão grande contigo, um laço que estaria firme mesmo depois de anos?

Essa é a estória de quando Briegel conheceu Schultz pela primeira vez.

Roland Briegel estava com a mesa atolada de papéis. Seu pai, o ainda influente Heinrich Briegel, colocou seu filho para trabalhar no recém-criado serviço de Inteligência alemão, o Sicherheitsdienst, ou simplesmente SD. A estrutura estava crescendo. Parecia que foi ontem que eles eram apenas um grupo de agentes trancados em um apartamento discreto, enviando informações diretamente ao próprio Heinrich Himmler, um dos homens mais poderosos do Terceiro Reich, e braço-direito de Adolf Hitler. Hitler havia acabado de se tornar o chanceler alemão, e uns três dias antes havia declarado um estado de emergência no país, com a desculpa de que era pra proteger o povo alemão de uma fictícia insurreição comunista. Um investimento maciçona espionagem estava se iniciando ali, e a SD se tornaria, junto com a Gestapo, as duas organizações que fariam todo o trabalho sujo por debaixo dos panos na Alemanha nazista.

“Briegel, preciso que você organize esses formulários aqui. Parece que nossos agentes de campo acharam mais informações sobre uns comunistas de merda”, disse Reinhard Heydrich, líder da SD e também chefe de Briegel.

A vida de Briegel era um tédio ali. Ele sabia que ele não havia nascido pra ser um soldado mesmo. Mas aquilo era um saco. Muitas vezes ele saía e olhava pela janela o céu cinzento de Berlim. O frio estava começando a dar lugar à primavera, mas a cidade parecia ainda mais cinzenta. E a cada dia um lugar menos livre. Pessoas estavam sendo caçadas lá fora, e ele sendo um agente da Inteligência se sentia muito mal em ser obrigado a trabalhar nisso.

“Ei, Briegel, venha cá!”, chamou novamente Reinhard Heydrich.

Briegel estava disposto a morrer. Talvez a única coisa que trazia um pouco de luz à sua vida era Alice, sua filha, que todo dia o aguardava em casa sorridente. Não dava pra viver num país que estava se tornando o que estava se tornando. Ele tinha uma grana, e um plano. Deixar uma carta e todo o dinheiro que havia herdado e trabalhado duro para Alice fugir para algum lugar. Talvez a América. Não era um país dos sonhos naquela época, mas era melhor que nada. Ao menos era livre. Briegel sabia que o que ele iria fazer seria considerado a mais alta traição. Mas ele não queria apenas ser morto gratuitamente. Ele ao menos machucaria de alguma forma o Terceiro Reich que estava nascendo naquele momento. Ou com sorte, acabaria com a semente da Segunda Guerra Mundial que estava germinando naquele momento.

“Briegel! Tá me ouvindo? Venha aqui agora!”, gritou Reinhard Heydrich.

Briegel observava as nuvens no céu na janela. E pensava que talvez seriam as últimas imagens que ele veria. Estava decidido a morrer. Mas ao menos causaria algum ferimento naquele governo ditatorial e corrupto que nascia ali.

“Ei, seu idiota, aonde está com a cabeça olhando pra aí?”, gritou Reinhard Heydrich, puxando-o. Briegel despertou dos seus pensamentos. Havia alguém ao lado dele.

“Ah, senhor Heydrich, me perdoe… Eu tava com a cabeça longe”, se desculpou Briegel.

“Só não te mando pra rua porque você é filho de quem é! Presta mais atenção, senão você vai ver só!”, repreendeu Heydrich. Briegel olhou com uma cara atenta, mas por dentro estava entediado. Seu chefe prosseguiu, apresentando-o a pessoa que estava ao seu lado, “Quero que ajude-o aqui. O nome dele é Ludwig Schultz, ele foi transferido da SA pra cá. Ele vai te ajudar com a papelada ali, ensine pra ele o que deve ser feito, sim?”.

“Muito prazer!”, disse Schultz, sorridente, estendendo a mão, “E o seu nome é…?”.

“Briegel. Roland Briegel. Muito prazer”, disse Briegel, apertando firmemente a mão de Schultz, “Você é bem novo pra estar aqui, não?”.

“Ah, valeu! Eu tenho 27 anos, sou um bebêzão ainda!”, disse Schultz, rindo depois de si mesmo, “E você? É daqui mesmo?”

“Eu tenho 38 anos, fiz agora, em fevereiro. E eu sou natural daqui mesmo, em Berlim”, disse Briegel, indo pra mesa e puxando a cadeira pra Schultz se acomodar pro trabalho.

“Puxa, que demais! Eu sou de Stuttgart! Acho que você percebeu pelo meu jeitão de gente boa! Nós de Stuttgart somos as pessoas mais bacanas desse país! E quer saber? Você teve sorte! Se tivesse um prêmio pro cara mais gente boa da cidade de pessoas mais gente boa da Alemanha toda, sem dúvida eu ganharia esse prêmio!”, disse Schultz, altivamente.

Briegel piscou duas vezes os olhos fitando-o. No fundo estava achando aquele novato um saco.

“Certo, entendi”, disse Briegel, cortando a conversa e mostrando os papéis, “Bom, aqui primeiro a gente tem que organizar isso e dep…”.

“Que dia foi seu aniversário?”, interrompeu Schultz.

“O quê?”, perguntou Briegel.

“Seu aniversário! Você disse que foi em fevereiro, não?”, perguntou Schultz, com o menor interesse na papelada.

“Fiz dia oito. Oito de fevereiro”, disse Briegel.

“Puxa! Fala sério! Vai ser facinho lembrar do seu aniversário então. O meu é o contrário do seu. Você faz dia 08/2. Eu faço dia 02/8! E a gente ainda se conheceu no dia 3 do 3 de 33! Cara, parece aqueles negócios que tava escrito, destino, et cétera!”, disse Schultz. Briegel virou seu olhar pra papelada e meio que deixou Schultz falando sozinho. Schultz continuou falando mais um pouco, mas pouco tempo depois se juntou com Briegel pra fazer o trabalho.

Até o fim do expediente os dois organizaram toda a papelada que Briegel sozinho levaria uma semana pra organizar. Isso espantou até ele mesmo. Por mais que ele parecesse um cabeça-de-vento, esse tal Schultz era extremamente eficiente. É verdade que o jeito simpático dele ser incomodava Briegel, que era uma pessoa mais séria, mas era algo que ele poderia ir levando.

Ou melhor: talvez nem ele teria tempo de fazer amizade. No rápido tempo entre as pausas Briegel ia pra sua mesa e escrevia uma carta pra Alice, dizendo que deixaria todo o dinheiro pra ela, e que ele tentaria matar Himmler no dia seguinte, quando todos teriam uma reunião com ele pra apresentar mais nomes de pessoas que, supostamente, estariam trabalhando pra União Soviética pra “derrubar os nazistas”. Briegel só não contava que Schultz observava Briegel tenso escrevendo a carta, e mesmo sem mal conhecê-lo, estava preocupado com o que aquilo devia ser.

Na saída Briegel enfiou a carta na sua bolsa, mas esqueceu de fechá-la. Deixou o escritório da SD e estava indo pegar o bonde, aguardando pra atravessar a rua.

“Ei, o que é isso que você andou escrevendo? Uma cartinha de amor?”, brincou Schultz, enfiando a mão na bolsa de Briegel e tirando a carta de despedida à Alice.

“Ei! Devolva isso, Schultz!”, disse Briegel, num sussurro forte como um grito.

Mas Schultz já havia passado o olho na carta e lido por cima. Calmamente então entregou de volta a Briegel.

“Nossa, que tenso isso. Cara, será que podemos conversar?”, perguntou Schultz.

“Não. Preciso ir pra casa agora”, disse Briegel.

“Espera aí! Então vou ser direto. Eu pedi minha transferência da Sturmabteilung (SA), porque eu tô ligado no que tá rolando. Esse Hitler que subiu ao poder é um doente mental e vai fuder esse país. E sei que ele vai acabar com todo mundo da SA rapidinho, então era melhor eu cair fora de lá antes que competição ficasse acirrada. Tá na cara que o bigodinho vai matar mó galera lá”, disse Schultz.

“E daí? Porque você tá me falando isso?”, perguntou Briegel.

“Cara, eu detesto esse governo mais do que você pensa! Mas isso que você quer fazer é suicídio! Ou melhor, eu diria que isso é um desperdício!”, disse Schultz.

“Desperdício? Do que?!”, disse Briegel, que estava perdendo a paciência com o novato.

“Cara, nós somos da Inteligência. Podemos fazer melhor isso! Podemos derrubar o Führer e sairmos ilesos dessa coisa toda! Eu quero muito fazer isso, muito mesmo. Mas parece que esse povo todo desse país passou por uma lavagem cerebral, e ficam levantando a mão pra esse bigodinho como se ele fosse um deus, um césar, ou sei lá”, disse Schultz, colocando a mão no ombro de Briegel, “Se a gente se esforçar, rapidinho a gente vai subir e vamos ser os melhores agentes. Uma vez lá no topo podemos bater de frente com os grandões. E como sabemos tudo o que anda rolando, vamos saber os pontos fracos e poderemos atacar, dar informações privilegiadas, e implodir esse governo todo por dentro. Depois, sei lá, a gente vai trabalhar na Interpol, com rios de dinheiro e como heróis que derrubaram o nazismo aqui! Meu plano é infalível, e vamos sair inteiros dessa!”.

É verdade que Briegel era uma pessoa fria e mais cautelosa. Ao mesmo tempo era uma pessoa bem melancólica, especialmente quando as coisas não estavam bem. Mas Schultz era o oposto. Ainda sequer tinha um plano, mas tinha um objetivo bem firme e definido. Talvez nem mesmo ele sabia naquele momento como chegar lá, mas Schultz iria se jogar no meio do abismo sem pensar antes.

“E aí, tá comigo?”, perguntou Schultz, estendendo a mão a Briegel.

Mas havia algo em Schultz. Briegel sabia que poderia confiar. Que não precisava escrever uma carta se despedindo da sua amada filha. Ele veria o sorriso dela depois, e no outro dia também, e no outro também. O plano era incerto, indefinido, mas naquele momento Schultz havia contagiado Briegel com sua esperança.

“Tá bom. Vou ouvir o seu plano então”, disse Briegel, apertando a mão de Schultz.

“Ótimo! Escuta, eu esqueci seu nome, como se você se chama mesmo?”, perguntou Schultz.

“Briegel. Roland Briegel”.

“Ah, eu não vou te chamar de ‘Roland’ não. Nada a ver contigo! Você não tem cara de ‘Roland’ nem a pau!”, disse Schultz.

“Não me chame pelo primeiro nome. Me chame de Briegel, por favor”.

Schultz nessa hora olhou cerrando os olhos, como se estivesse raciocinando.

“Já sei! Você disse lá no trabalho que você era o exército antes. Na sua idade sem dúvida você já devia ser coronel. Tá aí! Vou te chamar de Coronel! Coronel Briegel, nossa, isso vai te fazer comer muitas minas por aí! Mulherada fica toda molhadinha com homem de farda!”, brincou Schultz.

Schultz abraçou Briegel de lado, e os dois foram andando. É verdade que Briegel detestou o apelido ali, dado de improviso. Mas mal ele sabia que esse apelido pegaria nele de tal forma que muita gente tomaria um susto quando soubesse que o recém batizado “Coronel Briegel” se chamava na verdade “Roland Briegel”.

“Legal! Mas vamos pra um lugar tranquilo! Um lugar que vai dar pra conversar de boa sem medo de alguém de fora ouvir”, disse Schultz.

“Vamos então, vai. Pra onde?”, perguntou Briegel

“Conheço um bordel ali na esquina, tem umas meninas que fazem uma chupetinha que vou te falar, cara! Toda noite bato cartão ali! Vamos chegar já  socando a porva anunciando bem alto: ‘Ei gatinhas ao redor do mundo! Tenho uma coisa aqui pra mostrar a vocês, então chamem todos os meninos e as meninas!’, disse Schultz, enquanto ia ao lado de Briegel em direção ao bordel.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Amber #4 - O poder para proteger os outros.

18 de abril de 1937

A missa de domingo havia acabado. As pessoas estavam saindo, mas Briegel continuava lá, de joelhos, em um dos muitos bancos da igreja. Viu umas poucas pessoas cumprimentando o padre, e quando terminou suas preces se ergueu e foi em direção ao padre.

“Bom dia, padre. O sermão de hoje foi muito bom”, disse Briegel.

“Roland, filho. Que a paz de deus o acompanhe. Como vão as coisas?”, perguntou o padre Alan De Clercq.

“Atualmente? Uns probleminhas. Fiquei anos enrolando o Himmler desde que Hitler subiu ao poder, jogando os trabalhos pros novatos, mas acho que ele tá sabendo que eu não tô afim de fazer o trabalho sujo pra esse governinho”, desabafou Briegel.

“Mas você tem feito muito bem, filho. Escuta, a missa acabou, quer conversar com isso tomando um chá com um velho padre?”, propôs o padre.

“Claro! Mas o meu é com limão, por favor”, disse Briegel.

Os dois foram aos aposentos do padre. Eram bem pequenos, e o padre pode ficar mais à vontade, deixando a batina mais formal das missas de domingo no modesto baú que tinha. Apenas com a batina preta e simples parecia bem mais amigável. Rapidamente aqueceu a água e trouxe a chaleira com o chá pronto, só faltando adoçar. Na xícara de Briegel havia uma rodela de limão. Ofereceu uns biscoitos também ao seu amigo.

“Pronto, me desculpe a demora. Pode falar, Roland”, disse o padre De Clercq, servindo chá ao Briegel. Se durou cinco minutos o preparo foi muito. Mas o padre De Clercq sempre tinha um coração bondoso e tentava causar o menor trabalho possível aos outros.

“O senhor é como um pai pra mim, padre. E o senhor sabe as dificuldades que venho enfrentando. Não familiares, mas com toda a corrupção e os rumos que a Alemanha está tomando”, disse Briegel, tomando um gole do chá. Na hora ele percebeu que era o chá delicioso que apenas o padre sabia fazer na combinação certa: hibisco com gengibre e limão siciliano, “Nossa, ficou uma delícia seu chá, como sempre. Eu não gosto muito de chá, mas o chá que o senhor faz é sempre excelente”.

“Briegel, eu sou padre, mas como você sabe eu não gosto muito dessas formalidades. Gosto de trazer os ensinamentos de Cristo de uma forma mais prática. E, quando você fala do chá, o quanto gosta, eu lembro de algo que aprendi com a vida”, disse o padre.

“E o que seria?”, perguntou Briegel.

“Tudo na vida que fazemos depende do nosso coração. Duvido que Jesus teria conseguido alguma coisa apenas por ser o ‘filho de Deus’, sabe? O poder dele não estava em ser uma divindade, mas sim na imensa bondade que ele tinha com as pessoas. Isso é o maior exemplo que podemos ter dele. Quando fazemos a coisa com carinho, com bondade, não importa, esse sentimento todo vai para as coisas, e cedo ou tarde a pessoa que receber isso vai sentir essa sinceridade. O importante é agir sem pensar em ter algo em troca. Consegue me entender?”, disse o padre, tomando um gole de chá.

“É, o senhor parece que sempre sabe o que me dizer na hora certa. Pois é exatamente isso que estou passando. Ter que trabalhar pro Führer me enoja. Eles querem saber onde estão esses engenheiros pra colocar eles pra produzir ainda mais armamento pra esse país entrar em guerra. Eu tô enrolando há meses, mas parece que agora estou encurralado”, disse Briegel.

“Ora, então pense nas vidas que você vai salvar, filho. Não dá pra dizer que esses engenheiros sejam também cegos sobre o que Hitler está fazendo com esse país. E eles são vidas que devem ser protegidas. Você ganhou um dom único, de inteligência, força e determinação. Quem decide é você pra que vai usar”, disse o padre.

“Trabalhando na SD acho que há apenas um destino pra esses dons que o senhor fala que eu tenho. Destruição, morte, guerras, e outras coisas ‘bonitinhas’…”, disse Briegel, desanimado.

“Não! Briegel, se você tem isso não é pra machucar ou matar as pessoas. Você tem que usar isso pra proteger as pessoas! Vocês, agentes da Inteligência, são os únicos capazes de realmente fazer uma diferença nesse país, afinal são vocês que executam as ordens e fazem as coisas acontecerem. Você escolheu fugir, mas fugir só se pode fazer durante um tempo. Agora nas suas mãos está com a escolha de agir por eles e ajudar esse regime. Mas você pode escolher usar esses poderes para o bem, para proteger pessoas ao invés disso”, disse o padre.

“Meus talentos podem ser usados pra proteger pessoas, e não machucá-las…”, disse Briegel, olhando pro seu reflexo no chá.

“Vá e proteja os engenheiros. Você pode ajudá-los a se exilarem em algum lugar seguro, e dizer que fugiram, ou morreram pro governo. Você tem meios pra isso, você é um agente da Inteligência. É verdade que isso é mentir, e mentir é um pecado terrível, mas saiba que todos nós temos uma responsabilidade como seres humanos também. Você vai estar protegendo vidas, arriscando a sua própria”, nessa hora o padre apontou com a cabeça pra uma imagem de Jesus crucificado na parede ao lado deles, no topo, “Já teve alguém que se sacrificou pra proteger as pessoas. Pode ter certeza que enquanto você estiver se sacrificando, não vai acontecer o mesmo contigo. Pois esse aí vai te proteger, enquanto você usar os meios que você tem pra proteger os outros”.

Briegel deu os últimos goles da sua xícara.

“Por isso é bom conversar com o senhor. O senhor sempre sabe exatamente o que se passa no meu coração”, disse Briegel.

Nessa hora o padre Alan de Clercq repousou sua mão em cima da de Briegel e olhou bem nos olhos daquele que ele considerava como se fosse o filho que nunca teve. Briegel olhou pros olhos do padre belga, que estava acompanhando-o há anos, e apesar dos cinquenta e sete anos e olhar cansado de quem se dedicava ao próximo vinte e quatro horas por dia, via também uma paz, algo que transpassava pelo rosto e entre as rugas.

“Sua boca, sua mente e seu corpo são seus instrumentos. Você pode ir nessa missão. Mas se você escolher com o coração de proteger os outros, tudo vai correr bem, não importa onde você caminhe. Salmo vinte e três, lembra?”, brincou o padre, sorrindo.

“O senhor é meu pastor, e nada me faltará... Certo?”, brincou Briegel.

“Sim. Mas a parte importante pra você nesse momento é: ‘Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo’, tudo bem?”, disse o padre.

“Tá ótimo. Amanhã embarco pra Munique. Quer que eu traga algo pro senhor? Eu prefiro os chocolates de lá do que os chocolates da sua terra, haha!”, zombou Briegel.

“Ei! Os chocolates belgas são bem melhores que os de Munique! Vou ter que dar uma penitência se falar outra heresia como essa!”, brincou Alan de Clercq enquanto Briegel saía pelo portão principal da igreja rindo depois de fazer o sinal da cruz.

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