segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Amber #15 - Duelo em Barcelona (3)

O ser prateado mal apareceu e deu um forte golpe no abdômen de Sundermann, o lançando contra o teto, sem hesitar.

Schultz ainda permanecia pasmo com a força inimaginável daquele ser. Agora que estava de dia era possível ver melhor suas feições. Seu rosto parecia coberto por algo que parecia uma máscara de solda, mas era impossível ver os olhos dentro da fresta. Seu corpo tinha uma armadura que era bastante geométrica, vendo de longe aparentava que aquilo aguentaria disparos de fogo sem problemas, e não havia lugar algum que pudesse ver o que havia por debaixo daquilo. Em seus braços e pernas haviam pistões que pareciam dar mais velocidade e força nos golpes. E haviam duas espécies de antenas na altura dos ouvidos, que davam ainda mais impressão de que aquilo não era um ser humano.

Mas a força física era descomunal. Foi caminhando em direção de Schultz, que sacou sua Browning HP dando tiros, mas viu que os tiros apenas ricocheteavam. Aquelas balas voando sem trajetória poderiam ser perigosas.

“Mas que porra de armadura é essa?”, se perguntou Schultz. Sundermann estava cuspindo sangue, e Goldberg foi até seu amado ajuda-lo.

Merda, será que tem alguma coisa aqui que dê pra eu usar?, pensou Schultz, procurando algo. A escrivaninha de Sarah Sarkin tinha rodinhas, com certeza se alguém empurrasse aquilo com força e mira suficientes iria jogar aquele ser para longe com o impacto. Mas jogar pra onde?

Goldberg estava desesperado. Via que seu amado estava ferido no chão e temeu pela vida da pessoa que lhe era mais importante. Enquanto isso Schultz tentava atirar, atraindo o ser prateado para longe deles, via que o ser prateado destruía as caixas, mesas e cadeiras e tudo o que estivesse na sua frente sem a menor dificuldade, jogando-as para longe com brutalidade. Cada vez mais se aproximava de Schultz.

“Um golpe dessa merda aí com certeza vai me ferrar, tenho que impedir que ele me alcance! Goldberg, cuida do Sundermann aí que estou pensando num plano!”, avisou Schultz, achando que o ser prateado não tivesse inteligência o suficiente pra entender alemão.

Schultz se virou e começou a correr entre as caixas. Pensou que com aquela armadura toda o ser prateado não teria muita velocidade. Rapidamente se pôs a pelo menos uns cinco metros dele, saltando nas caixas e móveis.

Pelo menos esse aí é lerdo. Eu poderia travar o movimento dele colocando algo no espaço da armadura entre a articulação do joelho. Atirar com tudo não vai funcionar mesmo, não vai nem trincar essa merda!, pensou Schultz.

Mas sequer ele teve tempo pra pensar, quando tomou um grande susto. O ser platinado se colocou em posição de ataque, como se fosse um touro prestes a atacar com uma chifrada. Os pistões se encheram de ar e rapidamente um grande apito se seguiu com uma marcha que veio como uma bala de canhão, jogando todos os móveis e caixas para os lados e abrindo o caminho para o ser prateado, que vinha como um tsunami em direção de Schultz, jogando tudo pelos ares. O alemão só teve tempo de se jogar com tudo pro lado, porém a força dos móveis e caixas que foram jogados foi imensa, e ele acabou quase que enterrado no meio de um monte de madeira quebrada e armas.

“Argh! Meu braço, que porra!”, gritou baixo Schultz ao ver que um pedaço de madeira havia cravado no seu antebraço esquerdo.

O ser prateado parou antes de bater na parede. Tinha realmente muito controle e força, além de agilidade. Um bicho daqueles numa guerra faria muito estrago sozinho. Mas da onde havia saído aquilo? Da onde era aquela aberração? Seria uma arma secreta de algum país? Embora essas questões rondassem a cabeça de todos ali naquele momento, o maior problema seria como sair dali vivos.

“Ei você!”, disse uma voz rouca, descendo as escadas do cativeiro acima, tossindo muito entre uma palavra e outra, “O fosso de elevador de carga! Jogue Platinum ali!”.

Bem perto de onde Sundermann estava, de onde o velho havia descido da escada, havia uma porta de um elevador bem antigo, desses de grade. Estava bem desgastado e enferrujado, parecia que não era usado há muito tempo. Schultz se ergueu do monte de entulho com a madeira fincada no seu braço e começou a caminhar, com dificuldade.

“Você… Eu vi sua foto na ficha! Gehrig? Hubert Gehrig?”, perguntou Schultz ao velho.

“Anda logo, isso não é hora pra apresentações!”, ele disse, tossindo muito depois de falar. Sua mão tinha muito sangue, “Abram essa porra desse elevador e jogue ele lá! Nos dará tempo de escapar!”.

Goldberg era o único que estava inteiro ainda. Schultz tentava caminhar, mas era muito difícil, achou que seria mais prático dar a volta por todo o local que ainda não havia sido destruído pelo ser prateado. Já o ser desconhecido ia caminhando em direção de Goldberg e Sundermann, destruindo com seus socos todas as coisas que estavam no seu caminho, lançando-as longe naquela sala.

Porém, Goldberg não queria abandonar Sundermann.

“Rápido, você tem que fazer isso, senão nós dois vamos morrer, querido!”, apelou Sundermann.

“Não, Lars, meu amor, não posso deixar você aqui desse jeito!”, disse Goldberg, chorando.

“Vai logo, Goldberg! É uma ordem!! Abra essa porra desse gradil do elevador!!”, ordenou Schultz. De longe ele viu que uma das poucas coisas que aquele ser platinado havia destruído era justamente a pesada escrivaninha de rodinhas de Sarah Sarkin. E como o ser prateado estava abrindo caminho, tirando todos os móveis, era a chance dele mirar e empurrar com todas suas forças aquilo em direção do ser prateado. Mas antes, precisaria que Goldberg abrisse a enferrujada grade do elevador que não funcionava mais.

“Vá, pegue isso”, disse Sundermann, entregando nas mãos de Goldberg uma das muitas StG 44 que estavam jogadas no chão, “Não é o melhor pé de cabra, mas talvez possa nos ajudar agora”, Goldberg então olhou nos olhos e beijou Sundermann na boca. Ele temia que aquela seria a última vez que os dois estariam vivos. Sundermann então agilizou Goldberg, gritando: “Vai! Só você pode fazer isso!”.

Goldberg enfim pegou o rifle, colocou no gradil pra fazer uma alavanca e começou a fazer força. Cada vez mais o ser prateado estava se aproximando, e Goldberg fazendo mais e mais força. Foi aí que ele gritou e enfim conseguiu destravar a grade de proteção do elevador, abrindo-o. Nessa hora o velho Gehrig subiu correndo as escadas, e Schultz vendo que estava tudo pronto colocou seu ombro na mesa pra apoiar para que ele pudesse empurrar a mesa contra o ser prateado.

Porém nessa hora o ser prateado alcançou Goldberg, e começou a espanca-lo sem a menor piedade. Goldberg não conseguia nem mesmo gritar, e Sundermann ao lado dele vendo aquilo tudo usava suas forças pra se erguer pra salvar seu amado. Depois de três golpes Goldberg já estava inconsciente, sendo lançado contra a parede com golpes brutais sem misericórdia do ser prateado.

“SAIA DAÍ SUNDERMANN!”, gritou Schultz. Era a mesa vindo com toda velocidade. O ser prateado olhou pra trás ao ser surpreendido pelo grito, e deu tempo de Sundermann puxar Goldberd pra longe dali. Segundos depois o impacto foi direto contra o ser prateado, fazendo-o cair no fosso do elevador.

“Isaak meu amor, me responde, Isaak! Isaak!”, gritava Sundermann desesperado, mas Goldberg estava inconsciente, sem responder. Foi um alvo da fúria da força impiedosa do ser prateado. Nesse momento Schultz viu como o ser humano é essencialmente frágil, pois não foram muitos golpes, e Goldberg estava quase morto. Era possível ver até mesmo fraturas expostas em Goldberg, que tingia o chão com seu sangue. Schultz se aproximou mas não teve tempo de comemorar nada. O ser prateado estava subindo de volta!

“Mais que merda!! Ele tá subindo, puta que o pariu!”, gritou Schultz.

Nessa hora inexplicavelmente o vagão do elevador simplesmente despencou do alto e acertou o ser platinado em cheio enquanto ele subia. A rajada de vento e o barulho da queda os assustaram de princípio, mas depois viram que na verdade isso os havia salvo. Quando Schultz esticou o pescoço no fosso e olhou pra cima viu ninguém menos que Hubert Gehrig, um dos engenheiros armamentistas alemães sequestrados por Sarkin com um alicate imenso nas mãos. Ele havia cortado as correntes que sustentavam o velho elevador.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Amber #14 - Duelo em Barcelona (2)

Mas que merda, esses dois tinham que justo agora soltar aquele cara?, pensou Schultz enquanto fazia um sinal com as mãos para que Sundermann e Goldberg se aproximassem dele.

Os tiros pareciam ter parado de um lado, talvez alguém estava carregando sua arma. Eles estavam num depósito de armas, o que mais havia ali eram armamentos, quase que em escala infinita. Ou pelo menos para causar tantos furos nos três, que os triturariam como carne moída.

“Goldberg, Sundermann, preciso que vocês me dêem cobertura. Aquele da ponta esquerda está mais fácil de pegar. Goldberg, mire nele, Sundermann, atire contra a mulher e o outro, vai tentar dar a volta por trás. Tente impedi-los a todo custo!!”, disse Schultz. Ambos balançaram a cabeça positivamente.

Schultz, embora gostasse de mostrar que era alguém abaixo de Briegel, tinha suas qualidades também. Os dois eram os melhores entre os melhores, não apenas em experiência de campo, mas manejo também de armamento e até combate corpo-a-corpo. Os dois eram equivalentes em habilidades de combate e inteligência, apesar dos dez anos a menos que Schultz tinha. E ambos eram muito acima da média considerando todos os agentes da SD e talvez até da Inteligência mundial. Schultz apenas tinha um pente reserva, mas sabia que provavelmente com três ou quatro disparos iria acabar com aquilo.

Ambos pegaram em uma das muitas caixas de armamentos ali fuzis alemães. Sundermann quebrou a madeira de uma delas e sacou de lá uma StG 44, um rifle de assalto alemão contrabandeado. Já Schultz confiaria na sua boa e velha Browning HP, 9mm. Treze tiros naquele cartucho e mais treze num pente extra.

Sundermann começou a mirar no capanga que avançava pela direita, tentando se aproximar deles dando a volta por trás. Já Goldberg mirava em Sarah Sarkin e no outro. Schultz ficou apenas encostado, aguardando a hora pra subir. Quando percebeu que o capanga que Goldberg estava mirando iria a trocar o cartucho, Schultz se ergueu, e só precisou de um tiro, que acertou no meio da testa. Precisão cirúrgica do disparo. Schultz aproveitou e correu e se escondeu atrás de uma pilastra.

Aquele era o lugar perfeito, onde ele teria uma visão privilegiada do que vinha pela direita, querendo acertar Sundermann. O capanga de Sarkin vinha correndo e mirando em Schultz, mas sequer viu que Sundermann estava também mirando nele, e com poucos tiros o derrubou.


“Idiota!! Não se exalte!!”, gritou Sarah Sarkin, mas era tarde.

Muito bem. Uma bala a menos vou precisar gastar. Essa foi ótima, Sundermann!, pensou Schultz.

Mal o capanga abatido por Sundermann havia caído no chão, Schultz saiu da pilastra e deu dois disparos contra Sarah Sarkin. Um acertou a mão que estava engatilhada no fuzil e outro tiro acertou o outro ombro dela. Sarah Sarkin com o impacto bateu na parede atrás dela e caiu no chão, deixando um rastro de sangue na parede. Com os três trabalhando em conjunto conseguiram acabar com tudo aquilo em tempo recorde. Sarah estava abatida no chão, observando os dois.

“Muito bem, parece que levamos essa”, disse Schultz, se aproximando de Sarah Sarkin, “O engenheiro que viemos atrás está ali em cima, certo?”

“Isso. A escada está logo atrás dessa estante”, disse Sarah Sarkin.

“Bom, enquanto você ainda não sangrou até morrer, quero te fazer umas perguntinhas. Eu ouvi falar mesmo que Francisco Franco havia pedido ajuda de Hitler pra poder derrubar o governo aqui. Mas na verdade a Alemanha Nazista oficialmente não poderia ajudar. Então todo esse armamento entrou aqui ilegalmente de propósito?”, perguntou Schultz, guardando sua Browning HP no coldre, dentro do paletó.

“É. Sarkin não é traficante de armas coisa alguma. O governo sabe da importância dele. E justamente um judeu como ele, fazendo o trabalho sujo pra ajudar Adolf Hitler”, disse Sarah.

“Mas que merda. Se o nosso objetivo nunca foi deter Sarkin, então qual era o objetivo então?”, nessa hora Schultz arregalou os olhos, como se o objetivo estivesse sendo esfregado na sua cara.

“Isso. Era na verdade salvar os engenheiros! O armamento era apenas um pretexto!”, disse Sundermann.

“Sabe, eu acho tão engraçado vocês aí, achando que por serem agentes da Inteligência são os donos da verdade. Mas pelo visto você não devem ser desses que obedecem cegamente aquele idiota do Hitler. Mas saiba que onde você está pisando é no escuro...”, disse Sarah Sarkin.

“O que você quer dizer com isso?”, perguntou Schultz.

“Vocês então entrando num caminho sem volta se continuarem a querer entrar mais e mais nesse buraco que vocês estão investigando. Existe muita, muita, realmente muita coisa podre”, Sarah Sarkin, foi lentamente colocando as mãos nas suas costas, buscando algo. Sundermann e Goldberg estavam tensos, mas Schultz, mesmo percebendo ficava apenas observando, “Se eu fosse vocês, só salvaria esses engenheiros e nunca mais tentaria descobrir o que está por detrás de tudo. Pois vocês nunca mais vão conseguir colocar a cabeça nos seus travesseiros a noite pra dormir se descobrirem!”.

Nessa hora Sarah sacou uma arma, que estava escondida atrás, presa na calça. Sundermann e Goldberg se assustaram e apontaram seus fuzis pra ela, mas Schultz interviu. Sarah usou as últimas forças que tinha pra colocar a pistola na sua boca e dar um tiro, dando um fim na sua própria vida.

“Mas que merda...”, disse Schultz, observando o rosto dela caído no chão e jorrando sangue depois do disparo. Aquela visão lhe deu náuseas, mas ele se esforçou ao máximo para não demonstrar e abalar os outros dois jovens oficiais. Aquela cena parecia muito mais leve quando era vista num filme...

“Completamente louca. Esses judeus devem ser todos exterminados mesmo. São vermes desse mundo!”, disse Sundermann. Goldberg olhou pra baixo, meio com vergonha, e Schultz olhou com repúdio a Sundermann, que fingiu que não viu.

“Vamos subir e tirar o engenheiro de lá”, disse Schultz.

Mas nessa hora, enquanto eles se dirigiam à estante que escondia a escada pra subir pro andar de cima, Schultz e os outros dois tomaram um grande susto. Parecia como se fosse uma explosão, a estante foi estraçalhada como se fosse isopor. Todos se assustaram e levaram os braços para proteger o rosto dos pedaços de madeira e livros que voavam violentamente pra todos os cantos. Não havia fogo, mas parecia uma explosão, de tão forte que foi o impacto.

“Caralho, que porra é essa?”, gritou Schultz. E a resposta veio segundos depois.

Aquele ser, com uma armadura toda em cor metálica, com o punho cerrado, descendo as escadas, apareceu passando pela abertura escondida pela estante que havia acabado de destruir.

“Você...?”, disse Schultz ao reconhecer. Era o mesmo ser que havia aparecido no galpão de Sarkin, em Munique, e havia surrado Schultz e Briegel com uma força inimaginável.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Roland Briegel - Criação & Conceito

Roland Briegel é junto de Schultz um dos protagonistas da história que escrevo aqui, Amber.

Ele já participou de outras histórias antes, mas ele é muito parecido com o Arch em um aspecto: existe uma lenda enorme por detrás dele, que talvez o tempo ajudou a aumentar ainda mais. A primeira vez que escrevi uma estória com Roland Briegel foi em novembro de 2012, onde atribuí ele ao arcano maior do tarô chamado de o Hierofante.

Curiosamente, a primeira estória que escrevi sobre ele foi justamente sua morte. Ou ao menos morte de facto, pois como dá pra perceber no texto, Roland Briegel em 2000 estava com seus 105 anos e praticamente vegetando, mais morto do que vivo. E como a estória conta, esse é o fim da vida dele, se suicidando. Um fim de vida bocado triste pra alguém como ele...

Tirando isso são poucas citações sobre Roland Briegel. Eu fiz isso de propósito, pra que eu pudesse criar com mais liberdade Amber também. Mas deixei alguns links interessantes.

Se você leu minha história anterior, o Doppelgänger, reparou que mais ou menos no meio do livro aparece uma personagem que é parente do nosso amigo coronel Briegel. Em 2012, no alto dos seus 58 anos, temos a Natalya Briegel, filha do Roland Briegel. Sim, uma filha que não é a Alice (e obviamente, bem mais nova que ela), e que também não é negra. Será uma filha biológica mesmo? Quem será a mãe dela? Ela vai aparecer em Amber?

(SE-GRE-DO!)

Natalya Briegel em 2012 é uma mulher muito inteligente, e serve pra turma dos mais novos quase que uma "voz da experiência", orientando toda a turminha do barulho. Ela se junta à turma do Al no meio da história, no capítulo 60. Mas minha história favorita dela é quando conta o passado dela, com direito a participação do próprio pai, Roland Briegel e até o senhor Schultz, no meio da Guerra Fria!

A personalidade do Roland Briegel é a de um cara bem responsável e maduro. Essa é a base. Talvez seu maior ponto fraco seja sua filha, Alice. Existem outros pontos fracos e características que vão sendo reveladas ao longo da história, mas ainda assim nada supera o medo de algo acontecer com a sua filha.

Acho que uma característica que o difere do Schultz é que Briegel, talvez por conta da maturidade, é uma pessoa cuja vida é um livro aberto mesmo. Ele não tem medo de mostrar quem ele é: uma pessoa com muito a aprender e crescer, que tem suas fraquezas e também seus pontos fortes, totalmente ao contrário do Schultz que esconde muita coisa pra mostrar uma imagem pros outros.

E não é a toa que eu coloquei Briegel como "o hierofante". Eu gosto muito de tarô, adoro o significado das cartas, e o hierofante no tarô tem aquele jeitão de ser uma pessoa sábia, quase uma ligação entre o humano e o divino, como se fosse o primeiro orientador, o mestre fundador, do que viriam a ser os outros personagens que viriam depois. Não tem ninguém que se encaixa melhor como o Hierofante do que o próprio coronel Briegel.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Amber #13 - Duelo em Barcelona (1)

22 de abril de 1937
14h02

Schultz, Sundermann e Goldberg chegam sem problemas em Barcelona. O armamento havia sido confiscado pelo exército britânico na fronteira franco-espanhola, mas o trem ainda poderia ser usado como isca. Com a ajuda dos oficiais que haviam apreendido as armas, nada foi divulgado oficialmente e nenhuma informação sobre a apreensão das armas ou de Abner Sarkin havia sido divulgada. Já havia passado quase uma hora desde que o trem havia chegado em Barcelona, e os três observavam se haveria algum cúmplice de Sarkin que apareceria ali pra levar o carregamento que estava no vagão.

“Schultz, três pessoas suspeitas conversando olhando pro vagão, vindo do corredor na sua esquerda”, disse Goldberg, indo até o lado de Schultz, que observava não muito longe dali.

Schultz observou o reflexo dos três no vidro na sua frente. Ele estava de chapéu e parecia um pouco um turista que estava passando férias na Espanha. Ficou bem próximo dos três, que se aproximaram do trem e calmamente subiram no vagão anterior ao que estava o carregamento de Sarkin. Schultz os seguiu furtivamente, tomando o máximo de cuidado para que os três não o vissem. Ao ver que eles tinham a chave e tentaram entrar no vagão onde Sarkin havia escondido as armas, Schultz os pegou em flagrante.

“Rapazes, fiquem quietinhos aí. Precisamos conversar um pouquinho com vocês”, disse Schultz, mandando-os entrar no vagão vazio. Sundermann e Goldberg apareceram logo atrás deles, também armados.

Schultz os levou ao vagão de Sarkin e acendeu a luz. Goldberg e Sundermann com algumas algemas os prenderam em corrimões que tinham naquele vagão parcamente iluminado. O interrogatório correu sem problemas, e logo eles tinham o endereço do local onde Sarkin mantinha as suas armas. Esses três capangas de Sarkin eram presas pequenas que os levariam aos verdadeiros chefões.

Os três alemães foram até o esconderijo. Era um pequeno edifício inteiro relativamente próximo do centro de Barcelona, com sua arquitetura característica. Não havia nenhuma praça ou ponto turístico próximo, mas era um local de acesso fácil e simples. Previam que ali provavelmente encontrariam resistência, mas na verdade encontraram um local sendo guardado por apenas um homem, que foi facilmente rendido por eles.

“Vamos com calma, eu vou na frente e vocês me dêem cobertura”, disse Schultz, sacando sua pistola.

Dentro do esconderijo dava pra ver que haviam três homens próximos e uma mulher do outro lado. Haviam realmente muitas armas, e eles tinham apenas subido as escadas do andar térreo pro primeiro andar. Caminhando de maneira que não estragasse o elemento surpresa, Schultz foi caminhando até chegar nas costas de um deles. Schultz o dominou por trás e colocou a arma na cabeça dele. Foram apenas alguns segundos para que todos os outros vissem o que estava acontecendo.

“Opa, opa, opa! Calma aí, senão não farei cerimônia e explodirei os miolos desse aqui”, disse Schultz, que no fundo detestava ter que brigar em vão, “Sou alemão e vim apenas buscar um camarada meu que está aqui. Sarkin já foi preso e o jogo acabou pra vocês. Vamos tentar terminar tudo sem derrubar sangue, ok?”

A mulher se ergueu. Aparentemente ela era a líder de lá.

“Pegaram Sarkin? Merda”, disse a mulher, “Aquele idiota. Agora vou ter que terminar esse trabalho sozinha então”. A mulher colocou a mão embaixo da mesa, mas Schultz foi mais rápido, dando um tiro pra cima, bem na altura do ouvido do seu refém.

“Pera lá, mãos pra cima você também. Eu disse que não tô aqui pra conversinha fiada. Qual é a sua graça, madame?”, perguntou Schultz.

“Sou prima de Sarkin. Meu nome é Sarah Sarkin. Sou eu quem cuido dos negócios dele desse lado aqui”, disse a mulher.

“Pois bem, seu primo foi preso. Pegamos ele na fronteira com a França e levaram todo o carregamento. Mas aqui tem muita arma mesmo, e com certeza não devia ser pra vender mais barato por aí. Qual a real disso tudo?”, perguntou Schultz.

“Você é alemão, não é?”, perguntou Sarah.

“Sim”, disse Schultz.

“Nazista?”, perguntou Sarah.

Schultz ficou pensando, sem entender o motivo daquela pergunta. Simplesmente ficou quieto, observando Sarah, sem responder nada. Continuava segurando firmemente o capanga com a arma na sua cabeça. Ao Sarah ver que Schultz não havia respondido se era nazista, prosseguiu:

“Talvez Himmler não os avisou então”, debochou Sarah.

“Avisou? Avisou o quê?”, perguntou Schultz.

“O problema nunca foi o fato da Alemanha nazista estar fabricando mais armas do que elas poderiam. A Europa está pouco se lixando pra isso. Mas quanto mais penso que mesmo vocês, agentes da Inteligência, teriam um mínimo de ‘inteligência’, vejo que vocês são todos iguais. Meros cães a serviço do governo”, disse Sarah.

“Está blefando. Corta essa e diga logo onde está o engenheiro que Sarkin sequestrou!”, ordenou Schultz, querendo acelerar as coisas.

“Ele está aqui. Mas não está exatamente bem. Hubert Gehrig está no andar de cima. Mas acho que vocês deveriam saber ao menos a verdade, já que tô na roça mesmo”, disse Sarah.

“Fale!”, mandou Schultz.

“Por acaso você avisou algum superior seu quando encontrou a quantidade de armas que, não apenas estavam sendo traficadas, mas também fabricadas no território alemão? Armas essas que, de acordo com a ordem da Liga das Nações, era algo completamente ilegal? Avisou o que encontrou ao seu superior?”, perguntou Sarah.

Schultz não respondeu, mas se lembrou de quando Briegel ligou pra Himmler, e ele, de acordo com Briegel, mostrou uma estranha indiferença, como se fabricar aquela quantidade de armas fosse algo sem importância.

“Reparou em como seu superior não deu a menor importância a esse fato?”, disse Sarah, como se tivesse lido a mente de Schultz.

Não, acalme-se Schultz. Ela está blefando. Acontece que o blefe dela simplesmente calhou e deu certo. Não tem como ela saber. Melhor manter meu rosto firme e sério e não transpassar nenhuma surpresa. Ainda preciso ter a situação em minhas mãos, pensou Schultz, sem dizer uma única palavra.

“Meu pobre amigo que eu não sei o nome... Você foi enganado direitinho!”, disse Sarah, batendo palmas ironicamente, “Hitler está mandando armas para os revolucionários daqui, os que apoiam Francisco Franco! Hitler quer derrubar o governo desse país pra ter um aliado a mais na Europa! Não existe nada sobre tráfico de armas, bonitão. Vocês foram enganados direitinho!”, disse Sarah.

Sequer Schultz teve tempo de refletir quando começou a ouvir tiros vindo do andar debaixo. O guarda de Sarkin subiu as escadas mas foi alvejado por Sundermann e Goldberg enquanto mirava em Schultz.

Schultz, vendo que todos sacaram suas armas, jogou violentamente contra a parede o seu refém e depois se lançou ao chão, evitando as balas que haviam passado a centímetros dele, vindo dos outros dois capangas e de Sarah Sarkin. Um tiroteio havia começado.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Amber #12 - A garota ou a missão?

22 de abril de 1937
06h45

Abner Sarkin foi caminhando cautelosamente pelo trem, sempre olhando para trás, se assegurando que não havia ninguém o seguindo. Passou sem problemas por um vagão-restaurante, onde as pessoas faziam as refeições e cruzou a cozinha, passando pelos cozinheiros que ali estavam, pra alcançar o próximo vagão. O vagão que Sarkin havia escolhido pra manter seu armamento contrabandeado era um dos vagões do meio da composição, e por fora era muito bem disfarçado como um vagão dormitório comum, com janelas e persianas fechadas. Mas dentro não haviam divisórias, nem mesmo camas. Apenas caixas e mais caixas de armamento alemão sendo levados pelo trem cujo destino final oficial seria a Espanha.

Muito bem. Só falta passar pelo último bloqueio e já estaremos na Espanha, pensou Sarkin, enquanto dava uma última checada nas caixas.

Enquanto olhava uma das caixas, Sarkin levou um susto com a pessoa que se ergueu atrás dela.

“Mãos para o alto, Sarkin”, disse Schultz, “Fim da linha pra você”.

Poucos segundos depois disso o trem começou a diminuir a velocidade, já perto da fronteira. Sarkin e Schultz se olharam.

“Onde está Briegel?”, brincou Sarkin, “Por acaso ele estava muito abalado emocionalmente por conta da filha e por isso mandou o amigo fazer o trabalho sujo?”.

Schultz engatilhou sua pistola.

“Corta essa, Sarkin. O coronel é meu amigo, e eu faria qualquer coisa pra ajudar ele sem hesitar. E mesmo se a missão fosse dar cabo de você...”, disse Schultz, mirando em Sarkin, “...Eu sujaria minhas mãos com todo o prazer”.

Sarkin passou a mão na sua cabeça, jogando seu cabelo pra trás, olhou pra cima e deu um risinho sarcástico.

“Schultz, Schultz, Schultz. Você não sabe com quem se meteu. Sabe o porquê do trem ter parado aqui, certo? Dentro de alguns segundos entrarão por uma daquelas portas uma dezena de soldados ingleses e franceses e vão prender todos aqui. Vai ser difícil explicar que não somos alemães levando um carregamento de contrabando pra Espanha!”, disse Sarkin.

“Podemos usar isso pra agilizar o trabalho e chegar no ponto que precisamos então. Pouco me importam essas armas, você pede enfiar elas onde quiser. Diga onde está Alice Briegel agora”, disse Schultz, calmo.

“Você quer mesmo saber, não é mesmo?”, disse Sarkin, “Pois bem. Sabe, eu tenho uma tática boa pra guardar segredos. Todos nós temos segredos, não é mesmo? Eu tenho, você tem, Briegel tem também. Muitas vezes confiamos nossos segredos em apenas uma única pessoa, e aí um belo dia podemos acabar brigando com essa pessoa, nos tornando distantes dessa pessoa, ou algo do gênero. E aí, bum!”, Sarkin fez um sinal com as mãos, como se fosse uma explosão, “Todos os segredos que havíamos compartilhado com aquela pessoa vão pros ares”.

“Responde logo, caso contrário você não vai ter boca pra falar mais nada”, ameaçou Schultz, que ouvia o som de passos atrás dele, provavelmente eram soldados que protegiam a fronteira.

“Eu vou responder, eu prometo”, disse Sarkin, “Eu gosto de compartilhar cada pequeno segredo com uma pessoa diferente. Uma pessoa sabe, por exemplo, que tenho intolerância à lactose. Outra pessoa sabe que meu prato favorito é costela de porco. Tudo bem, eu sou judeu, mais foda-se, nenhum rabino paga minhas contas, e eu como o que eu quiser. E outra pessoa sabe que minha cicatriz no braço esquerdo foi de uma brincadeira besta com facas na infância. E aí chegamos enfim à resposta da sua pergunta, meu caro Schultz!”.

Schultz tentava se mostrar impaciente pra ver se conseguia acelerar o processo, mas ele tinha um autocontrole invejável, e ainda se sentia na vantagem contra Sarkin. Permaneceu com a arma apontada pra Sarkin, calado, apenas atento a cada movimento dele.

“E se cada trem fosse uma pessoa com um segredo meu. Acha mesmo que eu confiaria todas minhas coisas mais íntimas em apenas uma pessoa? Ou no caso, em um trem?”, disse Sarkin. Nessa hora a porta atrás de Schultz foi aberta com um chute. Do outro lado estava Briegel e mais uma dezena de soldados britânicos, “Sua querida Alice já deve ter chegado na Espanha com o trem que saiu antes de você chegar na estação indo pra Espanha com outra carga de armamentos traficados!”.

“Seu grande... Idiota!”, disse Schultz, avançando em direção a Sarkin e dando uma coronhada na cabeça dele, abrindo uma ferida na cabeça do inimigo.

Mas Briegel, que ouvia tudo, saiu correndo em direção de Sarkin e o pegou no chão pelo colarinho, desesperado, e começou a gritar:

“Minha filha!! O que você fez com a minha filha!! Fala logo onde ela está!!”.

“Você vai ter que fazer uma escolha, Briegel. Esse trem estava com destino a Barcelona, onde está um dos engenheiros alemães que eu sequestrei. Mas o trem que está Alice foi pro outro lado, foi pro norte, pra bela cidade de Guernica. O que você escolher, Briegel? A garota, ou a missão?”, disse Sarkin.

Briegel começou então a gritar e socar Sarkin cada vez mais forte. Mas Sarkin, carregado no sarcasmo, apenas dava risada depois de cada golpe que recebia. Schultz permanecia em pé, olhando aquilo, sem saber como reagir.

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O plano de Briegel e Schultz era esperar no vagão onde estava o armamento até Sarkin aparecer. Schultz havia descoberto qual era o vagão graças à Josephine, a garota com quem ele havia dormido, na noite anterior. Ela era cozinheira e sabia que era sempre naquele vagão que Sarkin guardava seu contrabando.

Já Briegel, com a informação, sabia que o trem pararia na fronteira, onde estariam os soldados ingleses e franceses controlando a entrada de trens na Espanha com medo da Alemanha mandar armas para lá. Briegel se propôs a ajudar os soldados ingleses, dizendo que ele era alemão e agente da inteligência, e tinha uma clara vontade de parar os planos de Hitler a todo custo, enquanto Schultz ficou pra interrogar Sarkin, já que Briegel estava muito abalado emocionalmente para tal. Sarkin foi preso, os itens do vagão foram confiscados, e o trem minutos depois estava pronto para seguir viagem pra Barcelona.

“E aí, coronel, o que vamos fazer agora?”, perguntou Schultz, ainda fora do trem.

Briegel olhou pro bosque ao redor deles, refletindo. Era possível ver a estação que os trens faziam a bifurcação naquela direção.

“Eu vou atrás da Alice”, disse Briegel.

“O quê? Sozinho? Isso é loucura! Você vai morrer, coronel!”, gritou Sundermann.

“Preciso que vocês vão e salvem o engenheiro em Barcelona. Vão nesse trem. Eu pegarei o próximo que passar aqui em direção a Guernica. Já fiz amizade com os soldados ingleses e eles toparam me ajudar. Não estamos nos esforçando pra ajudar o Reich. Estamos lutando pra salvar vidas inocentes. Tanto a minha filha, quanto os dois engenheiros. Depois que salvarem o engenheiro, me prometam que vão correndo pra Guernica se encontrar comigo. Ninguém vai me impedir de salvar minha filha!”, disse Briegel.

“Mas, coronel, isso vai...”, disse Goldberg, que parou de falar quando Schultz colocou a mão na frente, parando-o.

“É isso mesmo que você quer, meu amigo?”, disse Schultz, olhando nos olhos de Briegel.

“Sim. Confie em mim, por favor”, disse Briegel.

Schultz puxou o ar pros seus pulmões e soltou calmamente.

“Tá certo então! Fechado!”, disse Schultz, empolgado, “Fique vivo pelo menos até chegarmos em Guernica. Senão vou cortar você em pedacinhos e dar seus pedaços pros cachorros, seu pilantra!”, brincou Schultz. Todos riram.

“Pode deixar! Vamos lá!”, disse Briegel.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Como raios Donald Trump se elegeu?


(antes de mais nada, eu não estava torcendo nem pra Trump e menos ainda pra Hillary. Acho os dois grandes incompetentes, mas entre os males, o "menos pior", então se eu fosse eleitor iria de Hillary. O embate que eu acharia mais justo seria Cruz versus Saunders)

Acho que muita gente se assustou com o resultado. Também foi compreensivo. E também todo mundo tá de saco cheio de posts que falam do Donald Trump ser racista, xenófobo, latinofóbico, além de colocar os dedos nas vulvas femininas pra saber se são dignas do seu pinto de ouro. E que também povo ficou revoltado, pois a Hillary ganhou no voto popular, mas perdeu no colégio eleitoral (então porque raios o povo vota?).

A questão que quero discutir aqui é outra. Que a eleição mostrou quem realmente são os americanos. Não que os americanos sejam isso, ou aquilo. Mas sim a imagem que é mostrada dos Estados Unidos pro resto do mundo.

Filmes, seriados, cantores, em geral são produzidos por pessoas de estados com influencia bastante democrata. Se você perguntar a uma pessoa média que lugares conhece dos Estados Unidos, eles vão citar Nova Iorque, Washington DC, São Francisco, Chicago, Las Vegas, Seattle, etc. E em geral essas grandes cidades são as que mais produzem filmes, seriados, novelas, música, pornografia. E, curiosamente, talvez por seus status de cidades mais "globais", normalmente existe um pensamento bem democrata também.

Veja por exemplo a mídia, isso em basicamente todos os países. Mesmo aqui no Brasil. Por mais que pessoas não gostem da Rede Globo, por exemplo, ninguém pode negar seu caráter esquerdista de colocar em pauta assuntos que no mínimo devem ser discutidos, para então ter alguma mudança real na sociedade. Como direitos LGBT, ascensão da mulher na sociedade, participação dos negros, etc. E isso é excelente. É um ótimo papel que a mídia tem de criar essas discussões. Isso inclui pessoas, diminui desigualdades e promove melhoramento social.

Só que ao mesmo tempo são esses os locais onde existem mais formadores de opinião. E aí que entra a imagem que o próprio país do Tio Sam mostra pro mundo.

Óbvio que os Estados Unidos vai mostrar a vida em Nova Iorque, com sua metrópole no estilo Sex and the City, com mulherada liberal. É claro que vão mostrar São Francisco, com sua atmosfera cosmopolita, que aceita pessoas LGBT. É claro que vão mostrar em seus seriados negros que viraram empresários, vivendo uma vida bem confortável em Chicago.

O problema é que o mundo começa a acreditar que Estados Unidos são apenas Nova Iorque, São Francisco, Las Vegas e Los Angeles, quando na verdade não é. Por isso pessoas ficaram extremamente frustradas com os resultados das eleições.

E existe um outro Estados Unidos que os filmes, seriados, novelas e artistas não mostram. Um país que tem muitas desigualdades, muitas pessoas com poucas chances de estudos, e ao mesmo tempo também muita gente alienada. Vide por exemplo o estado de Washington no mapa eleitoral:


No mapa geral o estado ficou azul. Mas perceba que apenas a capital e as cidades ao entorno que tiveram maioria de votos democrata. O resto foram todos eleitores do Donald Trump.

Não vou criticar aqui Donald Trump, nem os seus eleitores. Não sou papagaio pra repetir o que meio mundo tá falando. Esse post é pra mostrar o que realmente chocou o mundo: pessoas não ficaram chocadas por Donald Trump ter sido eleito. Pessoas ficaram chocadas pois acreditam que o país inteiro tem a mente que eles expõem nos filmes, novelas e seriados. Visões das cidades grandes, cosmopolitas, onde existe tolerância, respeito às minorias, etc. O que pessoas esquecem que os Estados Unidos é um país imenso, e muita gente vive longe desses locais e tem seu viés político que raramente é divulgado. Ou se é divulgado, é sempre divulgado como retrógados, pois a mídia lá basicamente influencia o mundo com os ideais democratas que também não são ruins.

Talvez essa explicação diminua um pouco o choque do que foi essa eleição. Existe um país imenso que pouca gente fala sobre ou divulga.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Pegasus Pets.


Eu nunca fiz um layout duplo, hehe. Dessa vez quis homenagear minhas duas cachorrinhas, a Meggie e a Lisa. Não achei que seria uma boa colocar uma e deixar a outra de fora separadas. Por isso criei duas versões, uma com a Lisa e outra com a Meggie. É totalmente aleatória a imagem, então se você preferir a Lisa, manda atualizar a página até aparecer a Lisa, e vice-versa.

Esses dias resolvi então tirar umas fotos delas, e selecionei duas pra poder colocar aqui como parte do layout novo! Como sempre nessa época no mês de aniversário do meu blog (dezembro) eu faço um layout com o título de "Pegasus alguma coisa", dessa vez nasceu o Pegasus Pets.

Foi bem simples fazer, mas acho que é bom ser um pouco mais básico de vez em quando. As fotos por si mesmas já são um show de fofura!

Amber #11 - Why can't you hold me in the street, or kiss me on the dancefloor?

22 de abril de 1937
01h20

Briegel estava num vagão de carga encostado no portão levemente aberto observando as luzes da noite ao longe enquanto o trem rasgava por dentro da França, indo em direção à Espanha a toda velocidade. Não era o vagão de carga onde estavam as armas, e o trem era imenso, com muitos vagões tanto na frente quanto atrás deles. Mas as armas ali eram o de menos. Alice, sua filha, estava sendo mantida em algum lugar ali.

“Coronel? O senhor não vai dormir?”, perguntou uma voz masculina, ao lado de Briegel.

Briegel tomou um susto. Não tinha tido muito a chance de ouvir a voz de Goldberg, por conta da timidez dele. Mas naquele momento o jovem havia tomado a iniciativa, vendo Briegel ali naquela brecha olhando para o movimento ao longe.

“Me desculpa, Goldberg”, disse Briegel, mas depois viu que não havia motivo pra pedir desculpas ao Goldberg. Na verdade deveria agradecer, pois o jovem estava preocupado com ele. Briegel viu atrás dele que Sundermann estava encostado numa parede e dormindo, exausto depois do dia longo, “Na verdade, obrigado pela sua preocupação. Mas não consigo dormir. Minha filha é tudo o que eu tenho, e ela está em algum lugar desse trem imenso, e nem sabemos onde está o Sarkin”.

“Mas o senhor Schultz foi atrás dele, não?”, perguntou Goldberg.

“Verdade. Já tem quase uma hora e nada dele ainda. Espero que ele não tenha sido pego pelo Sarkin. Perder o Schultz nesse momento não iria ajudar em nada. Acho que vou lá atrás dele. Você fica aqui com o Sundermann?”, perguntou Briegel.

“Sim. Eu entendo bem o que o senhor sente pela sua filha. O Lars também é tudo o que eu tenho na minha vida. Nem consigo imaginar perder ele, que é a pessoa que eu mais amo”, disse Goldberg.

“É muito bonito esse sentimento que você tem por ele. Já é difícil ser homossexual. Deve ser mais difícil ainda com a sociedade apontando o dedo dizendo que vocês são máquinas de sexo promíscuas e sem sentimento uns pelos outros, não é mesmo?”, perguntou Briegel.

Goldberg virou o rosto e olhou pra Sundermann deitado. Seus olhos encheram de lágrimas.

“É verdade. Sabe, coronel Briegel, a gente não escolhe ser homossexual. Não é uma ‘opção’ como se fosse uma escolha. Simplesmente nascemos assim. O que me dá mais medo é descobrirem a gente, sabe? Sei que o Lars é completamente fiel ao Führer e aos ideais nazistas. Mas será que ele não entende a ambiguidade disso tudo? Ele apoia um regime que claramente quer a morte de homossexuais como a gente. E sei que nós seríamos mortos se descobrissem sobre a gente. É muito triste poder amar alguém sem poder andar de mãos dadas na rua, ou trocarmos carícias em parques, fingindo ser o que não somos. Eu queria fugir com ele, mas ele não quer, ele é tão fiel ao Hitler…”, desabafou Goldberg.

Nessa hora Briegel colocou a mão no ombro dele.

“Olha, pode ter certeza que eu não irei delatar vocês pra ninguém. Nunca. Todos nós somos alemães, e nós só queremos nosso país de volta, com liberdade para todos. Talvez o Sundermann seja essa pessoa que tem o coração dividido. De um lado a lealdade ao Hitler, e do outro lado o amor por você. Talvez hoje a lealdade ao Hitler seja um pouco maior que o amor dele por você. Mas mudar isso está apenas em suas mãos”, disse Briegel.

“Em minhas mãos…?”, perguntou Goldberg.

“Isso! Ele não vai diminuir a lealdade ao Terceiro Reich. Mas o amor por você pode aumentar, você tem essa vantagem. Resta você se empenhar nisso e reverter para o seu bem. Se você fizer com que ele te ame e te coloque como prioridade maior até mesmo que a lealdade ao Hitler, não terá limites para esse amor. Depende apenas de você roubar esse espaço no coração dele”, disse Briegel.

Nessa hora Goldberg abraçou Briegel, chorando de felicidade.

“Obrigado, coronel Briegel. O senhor me deu esperanças de ser feliz!”, disse Goldberg, “Muito obrigado mesmo!”.

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Briegel começou a andar pelos vagões em busca de Schultz. Goldberg e Sundermann pareciam cansados, ficaram por lá mesmo. Tomando o máximo de cuidado pra evitar que Sarkin eventualmente o veja, Briegel foi avançando de vagão em vagão. Já era madrugada, e todos dormiam.

O Sarkin é esperto, deve ter escondido a Alice em algum lugar, não necessariamente no vagão de carga. O problema é que ele não sabe que estamos aqui, ele tentou nos despistar na estação central do Munique. Temos que encontrar ele antes dele saber que estamos aqui, pois se ele souber que estamos aqui a Alice corre perigo também. O Schultz foi atrás disso, preciso encontrar ele logo, pensou Briegel.

Em um dos vagões dormitório Briegel ouviu uns urros masculinos e uns gemidos femininos. Devia ser um casal fazendo sexo. Mas aquela voz era familiar pra ele de algum lugar. Os urros terminaram, mas ainda era possível ouvir que estavam arfando, recuperando o ar.

“Ah, nossa, como você é gostosa, cacete!”, disse a voz masculina, em francês.

Nessa hora Briegel abriu a porta com tudo, que estava destrancada.

“SCHULTZ!!”, gritou Briegel, “Isso é hora de estar trepando com alguém?”

Era Schultz, deitado nu ao lado de uma mulher, também nua. Parecia que eles tinham acabado de chegar ao orgasmo, e Briegel abriu a porta na hora exata. A cara de Schultz era impagável, o sorriso mais sem graça do universo.

“Schultz? Ele tá falando alemão! Você não disse que o seu nome era Édouard?”, disse a moça, em francês.

“Ah, Josephine, foi um prazer imenso, e pelos seus gemidos foi um prazer imenso pra você também, mas isso, gatinha, é uma longa estória”, disse Schultz, em francês, se levantando e colocando suas roupas, “Mas pode deixar que peguei seu telefone e vou te ligar assim que chegar na Espanha, gatinha! Mal vejo a hora de termos um repeteco!”, Schultz mandou um beijinho e saiu do quarto seguindo Briegel.

“E aí, o que descobriu?”, perguntou Briegel.

“Mulheres são as melhores pra achar informações, elas sempre têm bons ouvidos!”, disse Schultz, amassando o papel com telefone dela e jogando pela janela, “Então, a antes dessa tinha os dentes meio tortos, mas os mamilos durinhos. E ela disse que esse trem está indo pra Espanha. Não era o trajeto que estava escrito, não vamos parar na França!”.

Briegel nessa hora suou frio. A França e o Reino Unido estavam juntas num embargo de armas e soldados que vinham da Alemanha pra Espanha. O motivo disso é o apoio militar que a Alemanha nazista estava dando aos revolucionários de Francisco Franco, pra dar um golpe de estado na Espanha. Com certeza o trem seria parado e confiscariam tudo. Será que Sarkin estava pronto para subornar os oficiais espanhóis pra entrar com o armamento para os golpistas?

“Merda. E se acharem a Alice? Se descobrirem que ela é alemã vão matá-la sem hesitar! A gente não tem escolha, temos que encontrar Sarkin!”, disse Briegel.

“Coronel, calma!”, disse Schultz, acalmando o amigo, “Sei que você está tenso e preocupado, eu também estou na mesma situação que você. Mas se sairmos por aí essa hora atrás do Sarkin a chance dele estar um passo na nossa frente é muito maior!”

“E o que você sugere então, Schultz?”, perguntou Briegel.

“Eu tenho um plano”, disse Schultz.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Final Fantasy V (1992)


Pois é! Esse ano estava planejando jogar pelo menos três Final Fantasy. Em janeiro terminei o Final Fantasy VI, agora joguei o antecessor, o quinto capítulo da maior franquia de RPGs da história, Final Fantasy V. Terminei na sexta dia 4, e, bem, Final Fantasy é sempre um Final Fantasy. Mas esse jogo, não sei, algumas coisas que não gostei muito, mas compensou outras coisas que gostei muito, então acho que ficou no zero a zero mesmo. Não chega a ser péssimo. Mas também não é excelente.


Acho que o ponto mais fraco que achei foi a história. Achei meio fraquinha, especialmente comparado com outros jogos. A sinope é assim: um milênio antes dos eventos do jogo, um mago chamado Enuo usando o poder de uma entidade chamada "Void" (o buraco negro da imagem acima) veio querendo destruir tudo. Porém a civilização da época lutou contra ele, mas não conseguiu deter o "Void", que era o vazio que estava dominando aquele mundo com vazio e escuridão. Foram obrigados a dividir aquele mundo em dois, com o "Void" no centro.

Porém as pessoas pra manter o equilíbrio do mundo, dividiram os quatro elementos em cristais, que cuidariam do balanço entre os mundos, evitando que o temido "Void" voltasse. Porém é óbvio que a paz não reinaria muito tempo, e criaturas malignas do "Void" começaram a invadir um dos mundos, com um demônio chamado Exdeath no comando. Porém um grupo de quatro heróis de um dos mundos selaram o Exdeath dentro dos cristais elementais.

Mas é óbvio que a paz não duraria muito tempo...


O vento é uma coisa meio essencial nesse mundo, pois é pelas navegações que tudo ocorre. Mas logo no começo do jogo o vento misteriosamente para, e o rei Tycoon, de um dos reinos do mundo, resolve ir lá ver o que rolou com o cristal do vento Quando chega lá, o cristal é quebrado em pedacinhos. Do outro lado conhecemos o protagonista, Bartz Klauser, um rapaz que vive com seu Chocobo numa vida tranquila no campo. Porém um dia um meteoro cai nas quebradas dele, e o moleque resolve ir lá ver, e encontra uma linda donzela de cabelo rosa, a Reina (acima).

A garota é a princesa do reino, filha do rei Tycoon. Bartz a salva e depois descobrem que perto do meteoro tinha um velhote chamado Galuf, que não lembra de absolutamente nada, mas como ele sabe lutar também, se junta à equipe. Mais pra frente, em uma caverna de piratas, encontram o líder dos piratas que pode arranjar um barco pra eles explorarem o mundo. Esse pirata se chama Farris, que também se junta à equipe. Porém "o" Farris na verdade é "a" Farris! É a irmã perdida da princesa Reina, mas preferiu deixar a realeza e viver uma vida como uma pirata pelos sete mares. Mais pra frente enfim acham o local do cristal que o rei Tycoon havia ido, mas ele se quebrou em pedaços, e o rei deixa uma mensagem pedindo pra eles protegerem o mundo.

E assim o jogo começa! A história é meio grande, mas se eu for ficar só falando da história vai ser meio chato. Mas eu, sei lá, achei os personagens meio sem carisma, a história meio óbvia demais, e o vilão apenas forçudo, nada mais. Achei que faltou uns dramas. Acho que o maior drama mesmo foi quando mais ou menos no segundo terço do jogo o Galuf, que estava contigo desde o comecinho do jogo, se sacrifica:



Gente, eu sei que são apenas alguns pixels, mas como eu chorei! Hahahaha. É bem triste a hora que a Krile, neta de Galuf, vê seu avô morrendo e fica lá gritando pra ele não morrer. Essa cena eu chorei pra caralho, hahaha. Mas sabe, apenas essa. Normalmente em um jogo do Final Fantasy eu choro de três a cinco vezes. Nesse jogo foi apenas essa. Por isso achei a história fraca, e história sempre é um negócio excelente num jogo de Final Fantasy.

Mas o jogo tem um sistema de jobs realmente muito bom, como todos dizem. E mesmo assim teve profissões que eu nem consegui jogar. Tem os clássicos (Knight, Thief, Black/White/Red Mage), e muitos novos (Geomancer, Ninja, Samurai, Chemist, Summoner, Ranger, etc) o que torna o jogo muito legal nessa parte. Mas a melhor parte é que você pode usar uma habilidade de outra classe, além da habilidade nativa do seu job.

Exemplo: ter um Black Mage com magia de ataque e ao mesmo tempo ter habilidade do White Mage de cura. E isso é sensacional e dá uma ampla gama de possibilidades de tirar a tampinha da cabeça. Acho que é um dos melhores, se não o melhor sistema de jobs da série. É um baita ponto forte.


Não achei o jogo muito difícil igual foi Final Fantasy III. Aquela merda era quase impossível! Mas senti falta de um pouco mais de ação que não fosse apenas chegar nos castelos/calabouços, ir até o final e derrotar o chefe. O mundo fica difícil depois que se experimenta a criatividade mágica que é FF6, que veio depois desse. O vilão Exdeath (foto acima) tem esse nome estranho por uma história curiosa.

Em japonês o nome é Ekusudesu (エクスデス) e aqui parece que traduziram errado o nome dele, talvez o correto seria "Exodus", pego da bíblia mesmo, o livro do êxodo. Mas parede que quem traduziu achou que o "desu" do final do nome era de "death", não de "dus", então o nome ficou Exdeath mesmo e a Square não arrumou até hoje, hehe.

A batalha final contra ele é bem bacana. Ele se junta a uma árvore maligna dentro do Void e se funde com outros monstros pra formar o "Neo Exdeath". É uma batalha sensacional! E o final é bonitinho. Mesmo controlando a neta do Galuf, a Krile, no seu lugar, é bonitinho no final do jogo ver que eles foram em paz e estarão pra sempre junto deles. Chorei nessa parte também! Oh, pobre Galuf.

O jogo é bom, não é ruim não. E sei que pra algumas pessoas é o Final Fantasy favorito. Mas pra mim, até agora, foi o que eu menos gostei. Mas é um jogo correto, muito bem bolado, mas acho que faltou um tiquinho de tempero. Mas também indico fortemente!

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Amber - WORD UP! (2)

13 de junho de 1933

Schultz estava largado no sofá. Estava abrindo seus olhos, havia uma luz muito forte, uma cortina balançando na sua frente e luz entrando. Na sua frente apareceu uma pessoa vestindo branco, tinha uma pele negra que brilhava no reflexo da luz, e seus cabelos cacheados caíam no seu rosto. Seu sorriso era branco e brilhante. Talvez ele estivesse morto, e aquele ali era um anjo.

“Ãhn… Bom dia. O senhor deve ser o senhor Schultz, não?”, disse a figura angelical.

Schultz se ergueu de susto. Sua cabeça estava latejando de dor, e estava morrendo de sede. Levantou com tanta velocidade que acabou batendo num copo de água que a mulher tinha na mão pra oferecer a ele. Acabou molhando todo mundo.

“Puxa, me desculpa! Eu acho que tava com a cabeça em Marte, sei lá”, se desculpou Schultz, apesar de todo molhado, “E você é…?”.

“Essa é a minha filha que eu te contei. O nome dela é Alice. Alice Briegel”, disse Briegel, no fundo, trajando seu terno de trabalho e terminando de dar um nó em sua gravata.

“Papai falou muito de você. Você chegou aqui desacordado, pensei que tivesse acontecido alguma coisa, mas parece que você exagerou um pouco na bebida ontem, não?”, disse Alice, dando um risinho.

“Coma alcoólico, esse cara de pau!”, brincou Briegel, “E olha que esse aí pra ficar desse jeito teve que beber muito mesmo, viu… O próprio corpo dele se desligou pra que parasse de fazer merda”.

Schultz parecia nem ouvir. Mas mesmo se ouvisse, não faria nada. Enquanto Briegel e Alice falavam, ele bebeu a jarra inteira de água que estava ao lado de Alice no gargalo. Só um copo era muito pouco.

“Ufa! Tô pronto pra outra!”, disse Schultz, depois de beber quase dois litros de água num gole só, “Sim, o coronel fala muito de você também. Mas eu pensava que você era uma pirralha! Você é crescida já!”

“Peraí… Você disse ‘coronel’? Esse é o seu apelido, papai?”, disse Alice, rindo.

“É. Foi esse aí quem me deu esse apelido!”, bufou Briegel, brincando.

Schultz riu de si mesmo ao ver que tinham ignorado completamente sua pergunta.

“Não, pera lá! Tô entendendo é nada! Você é muito grande pra ser filha dele! Quantos anos você tem?”, repetiu Schultz.

“Tenho vinte e seis anos. E, bem, como você pode ver”, disse Alice, apontando pra sua pele negra, “Sou adotada, obviamente”.

“É”, disse Briegel, dando um beijo na cabeça de Alice, “Mas eu te amo tanto quanto se fosse do meu próprio sangue!”.

“É verdade, haha! Papai é muito coruja”, disse Alice, envergonhada.

Schultz sorriu ao ver aquela cena. Não era uma família tradicional. Era um cara alemão entrando na meia idade e loiro, e uma garota adotada africana. Sem uma mãe, sem mais ninguém. E ainda assim todos se amavam, e não precisava de mais ninguém ali. Mas sem dúvida qualquer um que entrasse naquela família seria feliz, pois embora fossem apenas os dois, havia amor, carinho, respeito mais do que muita família infinitamente mais numerosa que aquela.

“Eu sou pouca coisa mais velho que você. Nasci em 1905, só dois anos de diferença”, disse Schultz, “Mas sabe, vendo vocês dois me dá um tiquinho de inveja. Uma inveja boa! Vocês dois parecem tão felizes, mesmo eu sendo um estranho você super me tratou bem, e, bem, não faz muito tempo que conheço seu pai, mas o considero como se fosse um irmão mesmo pra mim”, depois que Schultz disse isso, Briegel virou o rosto do espelho e deu um sorriso pro seu amigo.

“Seria bom um irmão sim. Mas olha, se você quiser entrar nessa família como meu irmão, não se esqueça que vai ter o pacote completo!”, brincou Briegel, piscando com um olho pra Alice.

Nessa hora Alice ficou toda sorridente, batendo as palmas freneticamente como se tivesse ganho alguém novo na família.

“Isso! Isso! Isso!”, disse Alice, “Se você vai ser um ‘irmão’ pro papai, pode ser o meu ‘tio’ também!”.

Schultz quase pulou de alegria! Ele não tinha nenhuma família perto dele ali em Berlim, estavam todos em Stuttgart, e justo aquela família que ele tinha acabado de conhecer depois de acordar de uma ressaca e tinha acabado de amar todos ali e desejado, mesmo que na sua alma, estar com aquela família agora via aquilo se tornando real. Ele não tinha nenhum sobrinho, era filho único. E subitamente havia acabado de ganhar um irmão e uma sobrinha!

“Nem precisava pedir! TÔ DENTRO! Vai me chamar de ‘tio Schultz’? Hahaha!!”, disse Schultz.

“Muito bem! Está feito então. Ludwig Schultz acabou de ser ‘adotado’ pelos Briegel, entrou pra família então”, disse Briegel, já com a gravata dobrada, se aproximando do amigo, “Então diga pro seu irmão, sua irmã e sua mãe também, porque estamos prestes a quebrar tudo, e você sabe o que fazer!”

“Isso aí! Quebrar tudo!”, brincou Alice, “Gostei muito dele, papai! Podemos ficar mesmo com ele? Quanto de ração ele come, e será que ele veio vacinado?”, depois que Alice disse, Briegel caiu na risada.

“Ei, corta essa! Eu não sou cachorro não!”, brincou Schultz, “Me respeita que a partir de agora vou ser seu tio! Hahaha!”.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Amber #10 - Um medo, um receio, uma certeza.

“Que besteira, coronel!”, disse Schultz, se aproximando de Briegel com a mão sobre sua barriga por conta da dor, “Até parece. Ele disse isso e você achou que era com a Alice! É uma armadilha pra fazer a gente perder tempo”.

Briegel sabia que aqueles momentos eram como aqueles que a intuição do pai falava mais alto. Parecia ilógico também se ele pensasse de uma maneira mais racional. Mas o medo de que algo acontecesse com sua filha o fazia ter calafrios até a ponta dos pés. Schultz não tinha filhos, era algo difícil de explicar. Uma coisa que só quem é pai poderia sentir.

“Coronel, vamos pegar o carro e ir nós quatro atrás do Sarkin. Vamos pegar o cara! A Alice está bem!”, disse Schultz.

Briegel olhava seu amigo, mas não conseguia dizer que iria. Seus olhos lacrimejavam como se tivesse algo dentro do seu coração que era mais forte que ele. Um medo, um receio, uma certeza. Sundermann e Goldberg não sabiam o que dizer vendo aquela cena. Mas apenas um amigo realmente próximo, um amigo que havia vivido anos ao seu lado teria empatia o suficiente para não apenas falar o correto, mas agir de maneira correta também.

E Schultz viu então que não poderia dar um passo pra frente sem antes recuar outro pra trás.

“Tá, então vamos lá pro hotel ver a Alice”, disse Schultz, “Agora até eu fiquei preocupado também. Eu também a amo muito e detestaria que algo acontecesse com ela. E você também não vai poder continuar assim”, nessa hora Schultz deu um abraço em Briegel, “A Alice é a menina dos nossos olhos, não é mesmo? Você não vai poder seguir em frente enquanto não estiver tranquilo. Vamos fazer o seguinte então: Sundermann e Goldberg, temos que arriscar que possivelmente ele irá com esse comboio todo pegar um trem. Preciso que vocês vão até a estação e tentem achar em que trem ele vai colocar aqueles trecos e tentar atrasar o máximo possível. Vocês são soldados, sabem como usar seus poderes. Digam que é ordem do Führer, sei lá, vocês sabem como. Eu irei com o coronel aqui até o hotel. Depois que assegurarmos que Alice está bem vamos correndo pra lá. Combinado?”.

“Sim, senhor Schultz. Pode deixar com a gente!”, disse Sundermann, que se apressou em correr ao carro deles.

“Obrigado, Schultz, meu amigo. Mas como nós iremos agora?”, perguntou Briegel.

“Tem uma caminhonete velha ali. Eu dei uma olhada enquanto tava na surdina. A chave está no painel. Vamos torcer pra que ela esteja boa pra correr!”, disse Schultz.

Schultz e Briegel partiram pro hotel a toda velocidade, enquanto Sundermann e Goldberg partiam para a estação central de Munique, a München Hauptbahnhof. O alvo dos jovens era buscar algum caminhão com a identificação B-147, indicado por Briegel. Já passavam das 10h quando Schultz e Briegel enfim chegaram no hotel. Subiram e foram direto ao quarto que haviam reservado.

“Alice! Alice!!”, entrou Briegel, gritando.

Briegel foi direto ao quarto de Alice. Schultz verificou a sala de estar e foi ao banheiro.

“Alice! Você tá aqui? Dá licença!”, disse Schultz.

Mas Alice Briegel não estava ali. Schultz foi ver nos outros quartos, mas não havia reparado que um silêncio havia dominado o local. Briegel não estava mais chamando por sua filha.

Oh meu deus, isso só pode ser brincadeira! Porque o Briegel parou de chamar ela?, disse Schultz, correndo ao quarto de Alice com sua arma em punhos, pensando na pior das hipóteses.

Mas quando ele entrou viu Briegel e joelhos no chão e a cabeça pra baixo. Ele chorava a ponto de soluçar. Alice não estava lá. Schultz entrou e ao ver que Alice não estava seus olhos começaram a lacrimejar também. Mas tentou se manter forte pra poder ajudar seu amigo, e apesar de mal conseguir ver algo com os olhos embaçados e cheios de lágrimas, segurou ao máximo pra não deixar nenhuma gota cair.

Briegel estava desolado de joelhos no chão.

“Calma aí, amigão, vamos achar a Alice!”, disse Schultz, “Eu vou te ajudar, fica tranquilo, ela está bem! A Alice não é uma criança, ela é forte!”

Mas Briegel continuava derrubando rios de lágrimas. No chão, molhado com suas lágrimas, havia um papel, escrito com essas folhas de rascunho que o hotel disponibiliza nos quartos. Schultz secou os olhos e se abaixou pra pegar, abraçando seu amigo de lado.

No papel estava escrito: O que você faria se perdesse alguém que fosse realmente precioso pra ti? Você iria até o inferno atrás dessa pessoa?

Schultz amassou o papel com as mãos, furioso. Novamente seus olhos encheram de lágrimas mas ele resistiu pra poder amparar seu amigo. Levantou sua cabeça pra cima e tomou ar. Aquilo poderia ser algo que os derrubasse, mas o momento não era esse. O momento era de usar aquela coisa ruim como força pra seguir em frente!

“Então iremos até o inferno salvar a Alice”, disse Schultz, “Coronel, conte comigo. Estamos juntos nessa, e nós vamos salvar a Alice, não importa onde ela estiver!”, nessa hora Schultz ergueu a cabeça de Briegel e olhou nos seus olhos, “Não importa, mesmo que tivermos que descer até o inferno, vamos tirar a Alice de lá, custe o que custar! Confie em mim, vamos agora, não podemos mais perder tempo!”

Isso parecia que havia tirado Briegel do transe que ele estava sem acreditar que havia perdido sua filha. Isso lhe deu forças. Era possível pegar Sarkin ainda, eles só tinham que correr. Não era hora de chorar. Era hora de ação!

“Escuta, nós podemos ainda agir, meu amigo! A Alice está bem, está viva! Acredite! Prometo que vamos resgatar ela, e ninguém aqui vai sequer derrubar uma lágrima a mais, pois ela vai voltar bem! Vamos agir hoje e correr pra que amanhã possamos ficar em paz com nós mesmos por termos nos esforçado hoje!”, disse Schultz, “Apesar da tristeza e do desespero, vamos salvar a Alice para que essas lágrimas durem apenas esse momento! Vamos juntos, meu amigo!”.

Schultz estendeu a mão. Briegel pode sentir a energia. Rapidamente apertou a mão de Schultz. Ele estava de volta!

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10h33

“Sundermann? Goldberg?”, disse Schultz ao se aproximar deles, já na estação central de Munique, “Onde está Sarkin?”.

“Minha nossa, vocês chegaram bem na hora. Estamos com um problema aqui. Apareceram três caminhões com B-147 no fundo, e as caixas dentro deles estão indo pra trens diferentes!”, disse Sundermann, “Olha ali por esses binóculos. Dois deles estão indo para aquele trem prateado. E um deles está naquele trem azul”.

“Merda! E o Sarkin?”, perguntou Schultz.

“Sem sinal dele. E os funcionários aqui não querem nos passar nada!”, queixou Sundermann.

Os quatro estavam no ponto mais alto da estação. Dali era possível ver onde eram organizadas as linhas, itinerários, no centro de controle. Briegel ao ouvir isso se virou e começou a andar até lá em passos rápidos. Haviam dois seguranças na porta, mas na hora que Briegel mostrou sua identificação da SD, eles o deixaram entrar. Briegel subiu as escadas decidido e rápido, indo até a sala do coordenador. Abriu a porta com um chute.

“Onde está Sarkin, seu imbecil?!”, gritou Briegel, erguendo o coordenador pela cadeira pelo colarinho.

“Oh, por deus! Me solte, por favor! Quem é você?”, disse o coordenador, desesperado.

Briegel mostrou sua identificação da SD.

“Nenhum trem vai sair daqui enquanto você não me disser onde está Abner Sarkin e onde está o carregamento dele. É bom que você diga, senão vou começar te socando até você perder esses seus dentes!”, disse Briegel.

“E-eu não posso… Não sei!”, disse o coordenador, corrigindo. Nessa hora Schultz, que estava logo atrás de Briegel, se aproximou:

“Não pode o quê?”, perguntou Schultz, que viu o deslize.

“Não sei do que o senhor tá falando, eu não disse ‘eu não sei’, eu disse, ‘eu não posso’”, se confundiu novamente o coordenador, que estava completamente aterrorizado, “Não, quero dizer…”.

“Seu merda! Tá na cara então. Sarkin o subornou. Merda!”, disse Schultz, batendo na mesa com violência, “Agora quem vai te surrar sou eu!”.

Briegel olhou pra Schultz, pedindo pra ele esperar um pouco.

“Com uma ligação eu mando o pessoal da Gestapo invadir isso aqui, e você não vai apenas perder seu dinheiro, mas vai perder sua vida. É bom que você colabore, seu merdinha corrupto. Qual trem está Sarkin?”, perguntou Briegel, num quase sussurro incrivelmente ameaçador.

O coordenador viu que a casa tinha caído mesmo. Estava fazendo xixi nas próprias calças de tanto medo. Briegel e Schultz não estavam ali pra agir de maneira correta. Iriam fazer o que fosse possível para salvar Alice.

“Tá, tudo bem. É o trem azul, plataforma três. Por favor, não chamem a Gestapo!”, implorou o coordenador.

“Muito bem. Obrigado pela sua colaboração”, Briegel soltou o coordenador, e depois fechou o punho e acertou um potente soco na mandíbula dele. Ele foi jogado contra os móveis, se espatifando no chão. Briegel se aproximou com o olhar raivoso, pronto pra desferir mais um soco nele.

“Espera aí, por favor! Vocês me disseram que iam me deixar viver! Não me matem, por favor!”, implorou o coordenador, já cheio de sangue.

“Eu disse que ia te deixar vivo. Só não prometi te deixar com seus dentes na boca, seu babaca! Vamos torcer pra grana que Sarkin te deu te pagar ao menos uma dentadura!”, disse Briegel, que ainda desferiu uns cinco socos na cara do coordenador.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Como "Cosmos" me lembrou de quem eu era.


Eu sou super fã do Neil deGrasse Tyson desde os tempos que o History Channel prestava. Hoje não passa de um canal que passa "Trato Feito" vinte e quatro horas por dia. Mas teve um tempo que o History Channel passava seriados de astronomia, documentários sobre guerras, e muita coisa legal.

Há algumas semanas atrás conheci no Netflix o seriado Cosmos: A Spacetime Odyssey, que tem como um dos produtores ninguém menos que Seth MacFarlane (sim, o criador de Family Guy) e é apresentado pelo Neil deGrasse Tyson. É um seriado sensacional, que eu indico fortemente, pois trata não apenas de astronomia, mas de entender que existem diversos universos minúsculos a nossa volta também, pois trata de um pouco de tudo, de geologia, física quântica, evolução das espécies, física, química e, claro, astronomia que dá um laço nessa coisa toda.

Mas uma coisa que esse seriado me fez recordar era como era eu mesmo, quando tinha uns dez anos.

Desde moleque se existia algo que me deixava mais prazer do que desenhar, era astronomia. Eu devorava enciclopédias do assunto, em tempos que Plutão ninguém tinha uma imagem nítida e era um planeta (e não um planeta-anão como hoje) e o povo estava ainda sonhando com exploração de Marte.

Eu lembro que eu na quinta série eu terminava a matéria rapidinho e ficava folheando coisas sobre astronomia e ficava maravilhado com aquele mundo. Eu tinha no final do caderno várias folhas cheias de cálculos de matemática, onde eu fazia cálculo de distância, tamanhos, órbitas de todos os planetas do sistema solar, além de que era estranho pra uma criança de dez anos na época entender mais sobre a Teoria da Relatividade de Einstein do que ditongo, tritongo e hiato.

Meu sonho maior naquela época não era design, ou ser escritor. Não que eu não goste dessas coisas, eu gosto muito, mas meu sonho era ir pro Rio de Janeiro e estudar astronomia - o único lugar que tinha o curso até então. Quem sabe hoje eu teria me tornado um Stephen Hawking com essa cara de mexicano que eu tenho, mas seria uma opção!

Vendo o seriado Cosmos na Netflix me lembrou que o eu de dez anos ficaria tão maravilhado com isso quanto o eu hoje! Eu sou uma criança bem curiosa com tudo, e não consigo até hoje decidir que área de estudo eu goste mais, pois sempre que começo a estudar algo um novo universo se abre. Mas todos os universos tem algo em comum: o nosso próprio universo.

Calma, vou explicar.

Muitas vezes olho pro céu, especialmente no interior que é bem limpo, e via coisas como a Via Láctea, estrelas no céu, planetas, e aquilo tudo me lembrava daquela criança que via nos mistérios do universo acima da gente, e as curiosidades que ele gerava, outros universos que se desdobravam ao meu redor. Se sou uma pessoa muito curiosa até hoje, acho que é graças a esse gosto pela coisa que peguei com a astronomia. Muitos outros universos se desenrolaram (e se desenrolam) na minha frente até hoje graças à curiosidade gerada pelo Universo acima de nós. :)

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