sábado, 31 de dezembro de 2016

No rain, can't get the rainbow.


2016, que ano louco!

É verdade que o ano não foi necessariamente ruim. Mas também não foi necessariamente bom. 2016 foi um ano de muitas vitórias, várias derrotas, mas muita luta também.

Foi um ano menos quente até (obrigado pela trégua, el niño!), foi um ano em que fui bastante pro interior (fui até atrás de uma mina lá, mas não rolou, tudo bem!). Foi um ano que consegui como nunca praticar a Shinnyo-en (obrigado a todos meus afilhadinhos que eu dou a vida por todos eles, love you!), e um ano que deu pra brincar muito na cozinha, fazer exercícios físicos, e jogar muita coisa.

Foi também um ano em que lutei de primeiro de janeiro a trinta e um de dezembro contra uma velha amiga, a depressão. Crise é sempre complicada, e as coisas realmente estão muito difíceis (nunca me abri sobre isso aqui, né?). Quando falo que estou numa luta há muito tempo pessoas normalmente se assustam, dizendo: "Nossa, mas você sempre é tão sorridente, parece alguém tão de bem com a vida", mas de facto, em geral consigo lidar bem. Mas existem picos, e nesse ano esses picos ás vezes pareciam o Everest.

Mas acima de tudo, como eu disse acima no texto, tivemos vitórias, derrotas, e muita luta.

Acho que foi um ano pra entender que o que lutamos na nossa vida podem não ser coisas que os outros vejam com bons olhos. Mas é o que acreditamos que é correto. E vai existir muitas pessoas que podem eventualmente pisar, humilhar, e acabar com sua vida. 2015 foi um ano horrível, em que até a esperança morreu pra mim. Mas tenho um velho amigo que comentava: "Se continuarmos vivos depois da esperança morrer, nos tornaremos imortais, já que a esperança é a última que morre?". Engraçado que levei uns dez anos pra entender o que ele quis dizer, lá em 2006.

A esperança morreu. Então talvez não exista mais nada a perder.

E vendo bem, esse ano foi meio isso. Aprendi o que significa lutar por algo agindo de uma maneira não-violenta. Afinal, se você ataca de volta, você perde sempre a razão. Muitas coisas se foram, muitas apareceram, e muitas ainda estou em processo. A vida é isso!

Como dizem no Luke Cage (grande Pop's!): "Never backwards, always forward. Always".

Sem chuva, não se consegue o arco-íris!

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Amber #22 - Quem é Oliver Raines?

“Quem?”, perguntou Briegel.

“Eu também não tenho ideia. E pra piorar, acho que não vai ser uma boa se usarmos a SD pra buscar Oliver Raines. Se ele for alguém tão forte assim, com certeza pode ser que nós viremos o alvo se buscarmos por Oliver Raines”, disse Schultz.

Nessa hora Sundermann, que estava de frente pra Maggie Braun puxou conversa.

“Eu vi sua reação. Você não pareceu muito surpresa”, disse Sundermann.

“Hã? Da onde tirou isso, Sundemann?”, perguntou Schultz.

Liesl, que estava encostada ao lado de Maggie encarou com raiva Sundermann.

“Porque tá me encarando, sua pirralha? Esse seu nariz grande e essas orelhas imensas, você tá parecendo uma judia nojenta. Se me olhar de novo com essa cara vou te mandar pra Dachau rapidinho!”, gritou Sundermann.

Nessa hora Maggie Braun se levantou e deu um tapa bem na cara de Sundermann. O soldado alemão se desequilibrou e caiu no chão, em cima de um monte de escombros.

“Se ameaçar minha prima de novo não vou ficar só no tapa, seu imbecil! Que fique avisado!!”, gritou Maggie. Liesl, ao ver Sundermann brabo no chão mostrou a língua pra ele, e manteve a língua fora da boca até ter certeza de que ele havia visto. Depois disso Maggie voltou a se sentar no banco improvisado ao lado de Briegel e Liesl.

“Ei, ei, ei! Peraí!”, falou Briegel, chamando a atenção, “Maggie, você sabe de algo?”.

Margaret por um momento ficou em silêncio, olhando pros lados. Haviam uns soldados mais ao longe, mas se certificou de que era impossível ouvi-la de lá.

“Sim, eu sei de algo sim”, disse Maggie, sem dar detalhes.

“Bom, então desembucha! Conta pra gente!”, pediu Schultz.

“Gehrig trabalhou comigo. Na verdade eu tinha uma posição maior que ele, mas do lugar que ele tava era possível saber de tudo o que eu sabia também”, disse Margaret, “Nosso sequestro não foi uma coincidência. E o que ele disse também é verdade”, ela apontou pra Schultz, e depois olhou pra Briegel, “É um buraco sem fundo isso. É uma rede, com tanta coisa podre, que desvendar tudo até o final é algo muito, muito improvável”.

Briegel nessa hora virou pra Margaret, calmamente. Olhou nos olhos dela, transmitindo confiança.

“Eu aprecio muito sua preocupação conosco, Maggie. Mas como você sabe, nós temos um objetivo claro, que é tirar Hitler do poder. Se descobrir essas coisas venha a nos ajudar a limpar a sujeira do nazismo da nossa Alemanha que tanto amamos, pode deixar que entraremos nesse buraco e iremos até o fim, até as últimas consequências. Fazemos isso pelas milhões de vidas que queremos salvar. Se tem alguém que você pode confiar, sou eu. Esse último dia mostrou quem sou eu, e agora meu melhor amigo Schultz, que você acabou de conhecer, tem minha plena confiança”, disse Briegel.

“Não, Briegel, você não entende. Até mesmo ter esses segredos é motivo o suficiente pra sua vida estar em perigo. Contar então, é uma sentença de morte na certa”, disse Maggie. Nessa hora Liesl deitou no colo de Maggie. A garota tinha medo de perder sua única família, “É algo perigoso de se saber até pra você, que é um agente da Inteligência”.

“Bom, Maggie, somos agentes da Inteligência. Nossa vida é manter segredos de estado”, disse Schultz.

“Sim, eu sei. Mas ainda assim eu gostaria que respeitassem minha opção”, disse Maggie.

Sundermann, que já estava erguido, ficou sem paciência e puxou sua arma, apontando pra Margaret.

“É bom que você conte agora, sua vadia desgraçada!”, gritou Sundermann, ameaçando, “Senão vou estourar sua cabeça!”.

“Sunderm…”, gritou Briegel se erguendo, mas Schultz foi mais rápido. Simplesmente se virou e meteu um soco bem forte no nariz de Sundermann, que o fez cair como um saco de batatas no chão, batendo a cabeça, mas ainda acordado. O susto foi tão grande que um tiro acabou sendo disparado pro alto, mas não acertou ninguém.

“Não tenho nada contra você ser boiola, mas independente disso, não se ameaça ninguém”, disse Schultz, “E agradeça que fui eu quem te deu esse soco. O coronel já estava se levantando e ia doer bem mais. Agora vamos aprender a lição: Se a senhorita Margaret Braun não quer contar, simples, vamos respeitar ela. Vamos dar motivos pra ela confiar em nós. E assim que ela confiar, ela vai nos contar. Simples!”, Schultz nessa hora agarrou Sundermann pelo colarinho e o ergueu do chão. O nariz do soldado estava jorrando sangue, “O que eu não tolero aqui é ameaça, seu recruta de bosta. Você nem pelo no saco tem, então não vem dando uma de machão aqui não, ok? Entendeu?!”.

Sundermann estava claramente assustando depois de ser erguido por Schultz.

“Eu mandei me responder… ENTENDEU?”, reafirmou Schultz, ameaçando.

Sundermann, com cara de apavorado, balançou a cabeça afirmativamente.

“Muito bem!”, disse Schultz, soltando Sundermann no chão, “Amiguinhos de volta, sim? Toca aqui”, e Schultz estendeu a mão, mas Sundermann estava com a mão toda ensanguentada tentando estancar o sangue no nariz e Schultz preferiu não cumprimentar.

“Obrigado, Schultz”, agradeceu Briegel, “Escuta, lembrei agora… Tenho um contato aqui que pode nos ajudar a encontrar quem é Oliver Raines”.

“Uau, já fez amizade! Muito bom, coronel! Quem é?”, perguntou Schultz.

“É um dos que estão no comando, ao lado das forças do golpista Franco aqui. É um espanhol com sotaque estranho, o nome dele é Rodolfo dela Rosa. Talvez possamos usar as forças dele pra achar Oliver Raines”, disse Briegel.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Amber #21 - War is meaningless. Nothing comes out of war.

27 de abril de 1937
12h05

“Por deus…”, disse Briegel enquanto caminhava por Guernica e via a destruição, “Ficou bem pior do que imaginava que estaria”.

Liesl ia na frente, enquanto Briegel e Maggie andavam um ao lado do outro. Briegel estendia a mão diversas vezes oferecendo ajuda pra Maggie caminhar pelos imensos escombros. A cidade tinha um cheiro de coisa queimada misturada com o de carniças podres apodrecendo debaixo do sol e o tempo seco que fazia. O dia anterior havia sido um dia lindo, e muitas pessoas estavam nas ruas para fazer compras. A cidade estava efervescente de vida, e mesmo com os sons da sirene de perigo, muitos simplesmente ignoraram, se tornando alvos fáceis da Legião Condor.

Casas e edifícios inteiros foram ao chão. Em meios aos escombros, corpos. E mesmo os poucos que ficaram parcialmente em pé mostravam que talvez não aguentariam muito tempo. Ás vezes um vento passava e algo desmoronava longe. Aquela era a destruição que a guerra trazia. Muito longe do heroísmo que muitos reivindicavam.

“Olhe ali, Briegel”, disse Maggie, apontando pra um grupo de soldados ao longe, “Eles realmente tomaram a cidade. Parece que o objetivo deles sempre foi aqui mesmo. Guernica era um ponto estratégico de defesa do governo. Mas não imaginava que a Luftwaffe, a força aérea alemã, chegaria ao ponto de tal carnificina. Isso tudo é inacreditável”.

Briegel assentiu com a cabeça. Do lado deles era possível ver diversos corpos soterrados entre os escombros. Rostos desfigurados, pernas saindo pra fora, braços. Homens, mulheres e crianças. Vidas que a partir daquele momento foram ceifadas sem a menor dó. Briegel pensava muito em qual seria o destino daquelas pessoas, quantos sonhos, quantas felicidades foram interrompidas nesse impiedoso ataque áereo

“Então esse é o tal Blitzkrieg que ouvi falar”, disse Briegel.

“Blitzkrieg? ‘Guerra relâmpago’? Como assim?”, perguntou Maggie Braun.

“Tive acesso a alguns documentos de táticas da Luftwaffe nazista, e parece que agora acharam essa maneira de usar aviões, bombardear o local inteiro de maneira brutal e rápida, causando o maior número de vítimas e destruição possíveis”, disse Briegel explicando, enquanto ajudava Maggie a andar pelos escombros, “Assim desestabiliza exércitos no chão, transforma cidades em pó, e fica mais fácil de conquistar ou subjugar as forças armadas do local. É incrível nós sobrevivermos a isso. Você viu a quantidade de aviões que apareceram do nada no céu. Acho que não vamos ter uma sorte dessas de escapar vivos de novo”.

Liesl, que ia na frente, nessa hora deu um grito na frente ao cruzar a esquina do que era uma rua antes do bombardeio. Um grito de pavor. Briegel e Maggie foram correndo até ela.

“Minha nossa!”, disse Briegel ao ver o monte de corpos fedendo na rua e cheios de moscas, “Venha cá, Liesl, não olhe isso”, Briegel a virou e ela o abraçou, e começou a chorar.

“Isso é…”, disse Maggie, que começou a tossir, como se estivesse com vontade de vomitar, “Argh! Isso é algo horrível até de um adulto se ver, imagina uma criança”, disse Maggie, tossindo e cuspindo pela ânsia de vômito ao ver os cadáveres.

“Faces da guerra…”, disse Briegel, “Guerra nunca tem sentido. Nada de bom pode vir da guerra. E tem gente que ainda é capaz de apoiar isso. Talvez sejam idiotas por nunca terem vivido isso. Venha, vamos por aqui. O cheiro deve estar mais fraco do outro lado”.

Briegel continuou caminhando na rua, que estava toda esburacada, se afastando daquela cena tórrida. Liesl enfim estava se acalmando, e Maggie também não estava mais com a aparência apática depois do enjoo por ter visto os corpos largados na rua.

“Ei, coronel? É você?”, disse uma voz ao longe, na frente deles. Era Schultz e Sundermann.

“Schultz, minha nossa, você chegou!”, correu Briegel ao encontro do amigo, dando-lhe um abraço.

“Caramba, enfim te achei! Nossa, eu tava morrendo de medo achando que você tinha morrido nesse bombardeio! A gente tentou de tudo pra chegar aqui, mas parece que todas as estradas e ferrovias estavam fechadas, foi muito complicado chegar aqui! Conseguimos pois viemos juntos com a Cruz vermelha. Você estava aqui na hora que isso tudo rolou?”, disse Schultz, apontando pra destruição.

“Pois é, meu caro. E escapei por muito pouco. Tive foi muita sorte, muita mesmo. Tô até agora com o ouvido com zumbido por causa das explosões”, brincou Briegel.

“Cara, tu não é desse planeta! Você é uma lenda!”, brincou Schultz dando mais um abraço no amigo. Foi nessa hora que ele reparou que haviam uma mulher e uma garota atrás do seu amigo, “E essas aí, quem são? Amigas suas?”.

“Ah, sim. Bom, lembra que um dos engenheiros sequestrados estava no nosso relatório com o nome de ‘M. Braun’?”, disse Briegel, apontando pra Maggie, “Esse é o engenheiro. Ou, no caso, a engenheira”.

Maggie deu alguns passos pra frente e estendeu a mão pra cumprimentar Schultz.

“Muito prazer, sou Margaret Braun. Mas todos me chamam de Maggie”.

“Margaret?”, disse Schultz, brincando e sem acreditar, dando a mão pra Maggie, “E eu pensando que era Manfred, ou sei lá! Eu poderia apostar um almoço! Muito prazer, eu sou Schultz, e aquele ali atrás é o Sundermann”.

“Olha, senhor Schultz, do jeito que estamos com fome eu não negaria um almoço não!”, brincou Maggie.

Sundermann, com cara abatida, foi cumprimentar e deu um sorriso discreto pra Maggie.

“Onde está o Goldberg?”, perguntou Briegel.

“Ficou em Barcelona. Longa estória, mas sabe aquela coisa prateada que brigou com a gente em Munique? Estava em Barcelona, bem no depósito do Sarkin. Era lá também que estava o Gehrig, o engenheiro sequestrado, e ele nos salvou por pouco jogando um elevador em cima daquele bicho!”, contou Schultz.

“Uau. Dá pra escrever um livro só sobre isso”, brincou Briegel, “E cadê o Gehrig?”.

“Morreu. Ele estava num cativeiro péssimo, e estava nas últimas. Tinha até corpos apodrecendo lá. Acabou que ele teve que se matar para que pudessemos sair de lá. Mas ele contou algumas coisas bem tensas, coronel”, disse Schultz.

“Tensas? Como assim?”, perguntou Briegel.

“Acho melhor você se sentar”, disse Schultz, empurrando um escombro e improvisando um banquinho, “Senta aí, esse sol tá me matando!”.

Todos sentaram. Briegel parecia tenso para o que estava prestes a ouvir.

“Coronel, acho que estamos entrando num buraco que não sabemos onde vai dar. Mas agora que estamos olhando pro buraco, queria saber se você estaria disposto a ir a fundo nisso comigo, até o final. Porque, acredite, tem muita coisa estranha. Muita mesmo. E acho que é apenas o começo”, disse Schultz.

“Óbvio que eu quero investigar isso até o final. Nem precisava perguntar. O que o Gehrig falou?”, perguntou Briegel.

“Bom, você achava que era o Himmler que estava por detrás disso tudo, mas pelo que Gehrig falou, eles são apenas a ponta do iceberg. Existem pessoas que estão manipulando até mesmo o governo. Manipulando até mesmo os nazistas”, disse Schultz. Nessa hora Briegel arregalou os olhos, surpreso, “E antes dele morrer, ele nos deu um nome, de uma pessoa que estaria aqui inclusive”.

“E que nome era esse?”, perguntou Briegel. Schultz então prontamente respondeu:

“Oliver Raines”.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Amber - WORD UP! (4)

12 de setembro de 1933

“Oi Alice! Que cheiro bom! O que você fez hoje de almoço?”, perguntou Schultz, entrando na cozinha sem anunciar antes.

“Oi tio! Tá com fome? Eu fiz Sauerbraten pro almoço. Deu uma escapada do trabalho?”, perguntou Alice.

“Nossa, por isso tá cheirando tão bem! Sim, eu vim fazer um trabalho aqui perto, aí dei um pulo aqui pra almoçar. Nada como uma comidinha caseira!”, disse Schultz, pegando um prato e se aproximando da porcelana onde Alice colocou pra servir, “Nossa, deixou quanto tempo marinando isso no vinho? Eu tô babando aqui!”.

“Dez dias. Inteirinhos!”, disse Alice, servindo Schultz, “Vamos pra mesa comer. Vai ser ótimo ter sua companhia, tio! Quer cerveja?”.

Schultz estava com a boca cheia, mal conseguia falar.

“Nossa! Você cozinha comida alemã melhor que uma alemã, Alice. Você deve ser loira e usa carvão pra ficar dessa cor, só pode! Você devia abrir um restaurante!”, disse Schultz.

Nessa hora Alice riu.

“Quem sabe depois que Hitler deixar esse governo, pode até rolar! Enquanto ele está no poder vai ser difícil uma negra ter um restaurante, mesmo se for comida alemã”, disse Alice.

“Apenas ‘comida alemã’ não! Comida alemã da melhor qualidade!”, disse Schultz, bebendo um pouco de cerveja pra ajudar a comida descer, “Escuta, Alice, você não tem uma mãe não?”.

“Não”, disse Alice.

“O coronel não tem nem uma namorada?”, perguntou Schultz.

“Ele disse que não tem tempo pra isso. E de fato, ele trabalha muito, todos os dias, sem hora pra chegar. Acho que seria difícil mesmo pra ele entrar num relacionamento assim, tio. Dá pra entender o lado dele”, explicou Alice.

Schultz fez uma cara de quem estava pensando, enquanto mastigava e engolia a comida.

“Olha, tenho uma ideia! Eu conheço muitas gatinhas por aí. Posso tentar apresentar uma pro seu pai! Tenho certeza que vai rolar algo, vou dar umas dicas pra ele!”, disse Schultz, empolgado.

“Dicas? Dicas do que?”.

Bem nessa hora Briegel entrou na cozinha.

“Oi filha! Cheguei pro almoço!”, disse Briegel, sorridente, “E pelo visto esse aqui já veio filar a bóia, hein Schultz!”, brincou Briegel ao ver seu amigo. Schultz sorriu com a boca cheia.

“Papai! Pegue um prato!”, disse Alice, convidando Briegel pra se sentar na mesa.

“Almoço em família, muito bom! E você não morre mais, coronel!”, disse Schultz, explicando o que Briegel perdeu na conversa, “Vamos arranjar uma namorada pra você!”.

Briegel tomou um susto, chegou até a se engasgar.

“Namorada?! Tá achando que eu tenho o quê? Quatorze anos? Não tenho mais idade pra isso, Schultz. Melhor desistir logo disso!”, disse Briegel, envergonhado.

“Ah, conta outra, coronel! Todo mundo quer encontrar um parceiro! Não dá pra ficar namorando sua mão a vida inteira, se é que você me entende. Até punheta uma hora cansa. A gente precisa de carne, e eu conheço umas carnes de primeira pra você. Confia em mim, cara! Vou trabalhar de cupido e te arranjar uma facinho!”, disse Schultz.

“Schultz, escuta…”, disse Briegel.

“Papai, por favor, dê uma chance pro tio Schultz”, disse Alice, “Não custa nada, é só conhecer! Pode ser que ela não goste de você, ou você não goste dela, mas não custa nada sair pra um jantar. Pensa bem, o máximo que pode acontecer é dar certo!”.

Os olhos de Alice brilhavam. Não tinha como falar não pra aquela cara dela.

“Tá bom vai. Quando vai ser? Mês que vem esse encontro?”, perguntou Briegel.

“Nada! Quinta-feira! Depois de amanhã! É bom que vá arrumadinho e cheiroso, coronel! Quero ver esse seu charme de cara mais velho em ação!”, disse Schultz.

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14 de setembro de 1933

“Olha ali, coronel. É aquela gatinha que tá sentada naquela mesa tomando vinho!”, disse Schultz ao entrar com coronel no restaurante.

Schultz e Briegel estavam bem chiques. Bem arrumados e cheirosos, como pedia a ocasião. O restaurante escolhido era um bem caro e chique da redondeza. A mulher escolhida por Schultz era bem bonita. Era branca, com um cabelo preto amarrado no topo e olhos grandes e castanhos. Tinha um nariz bem modelado e pernas bem esguias, compridas, todas em um vestido lindo de seda azul claro.

“Só tem uma coisa que me incomoda…”, disse Briegel, “Porque raios a ALICE teve que vir junto?!”.

“Oi, papai! Eu vim torcer, oras! Pode deixar que vou ficar quietinha. Vou fingir que sou companhia do tio Schultz!”, disse Alice, pegando no braço de Schultz.

“Olha só, dei sorte grande! Uma negra maravilhosa dessa jantando comigo, nem parece que sou o tio dela, hahaha!”, disse Schultz, indo até o maitre, “Reserva pra Briegel e Schultz, senhor. Duas mesas”.

“Por aqui, senhores”, disse o maitre.

Ao chegar na mesa Schultz, que estava com Alice fingindo ser sua acompanhante foi até a mesa e apresentou Briegel a mulher do encontro arranjado.

“Flavia?”, disse Schultz. Na hora ela o reconheceu e levantou, “Esse aqui é o meu amigo que queria apresentar”, Schultz apontou pra Briegel, “Ele se chama Roland Briegel e trabalha comigo da SD. Briegel, essa aqui é Flavia Anzanello. Tenham um ótimo jantar! Eu estarei naquela mesa com essa linda dama”, Schultz olhou pra Alice e os dois saíram.

Briegel cumprimentou Flavia e sentou-se depois dela.

“Peço sinceras desculpas pelo jeito do meu amigo”, disse Briegel, “Ele é meio… Exagerado. Mas é uma boa pessoa”.

“Tenho certeza que sim!”, disse Flavia, “Ele fala muito de você. Vocês devem ser mesmo bons amigos! Eu sou italiana, nasci em Veneza. Você é alemão, não?”.

“Ah, sim, sou de Berlim mesmo”, nessa hora o garçom apareceu pra pegar o pedido e Briegel e Flavia fizeram o pedido, e depois voltaram a conversar, “Me desculpa, eu estou meio tímido. Faz muito tempo que não vou a um encontro”.

“Nada, fique tranquilo! Não tente ser quem você não é. Sempre tem alguém que vai gostar do tipo que nós somos realmente. Mas a gente só vai descobrir se a gente mostrar isso pros outros, certo?”, disse Flavia, sorridente.

A mulher realmente parecia saber bem das coisas. Isso impressionou Briegel.

“Uau. Mas eu sou um cara pacato, acho que qualquer mulher me acharia entediante. O Schultz tem todo esse jeitão que toda mulher gosta, bem humorado, gente-fina, brincalhão. Acho que toda mulher preferiria um cara igual a ele do que um cara como eu”, disse Briegel.

“Nem toda mulher”, disse Flavia.

“Acha mesmo? Eu acho que não”, perguntou Briegel.

“Sim. Eu não gosto de homens do jeito do Schultz. Nunca namoraria um cara como ele, exatamente por esse jeito dele, brincalhão. Eu queria um homem sério, um homem responsável, que esteja disposto a um relacionamento sério e duradouro. Não ligo pra dinheiro também, sou perfeitamente dona do meu nariz. Mas não quer dizer que não possa amar ninguém”, disse Flavia.

“Puxa, agora me deixou sem jeito”, disse Briegel, “Realmente você é bem diferente das outras, julguei errado”.

“E você também é bem diferente dos outros”, disse Flavia, sorrindo pra Briegel.

O jantar correu tudo bem e os dois conversavam sobre tudo. Duas garrafas de vinho já haviam sido bebidas, e fazia tempo que Briegel não se divertia tanto conversando em um encontro. Schultz e Alice estavam distante umas três mesas, mas não tiraram o olho de Briegel.

“Ei, tio! Olha só!”, disse Alice, chamando Schultz na sua frente, “Eles vão dançar!”.

“Nossa, essa eu quero ver! Seu pai dança? Não sabia disso!”, disse Schultz.

“Sim! Papai dança muito bem. Mas acho que esse DJ aí tá meio fraco”, disse Alice.

“DJ? Você tá muito ligada nesse palavreado britânico, hein Alice!”, brincou Schultz.

“Hahaha! Eu sou jovem, tio”, disse Alice, brincando com Schultz, piscando com o olho.

Schultz engasgou e deu risada. Alice era uns dois anos apenas mais nova que ele, mas ás vezes parecia uma década. Os dois continuaram observando Briegel e Flavia dançando ao longe.

Briegel e Flavia dançavam bem juntinhos. Parecia que justo naquela noite a banda que normalmente tocava no restaurante não estava lá, e fora substituída por um jovem com um tocador de vinil. Mas as músicas estavam mais mortas que tudo, e até Flavia estava cansada, querendo dançar algo mais empolgante.

“Tio, vou ali falar com aquele moleque que está colocando as músicas. Não é possível, tem que ter umas músicas melhores que essas! Vai acabar ferrando o encontro do papai!”, disse Alice, que foi correndo em direção ao DJ, passando pelas mesas do fundo.

A música estava chegando no fim e Flavia se separou de Briegel. Mas Briegel estava gostando daquilo, por mais que achasse a música ruim também. Num gesto romântico Briegel segurou a mão se Flavia, mesmo ela tentando se separar no salão.

“Espera Flavia, só mais uma música, por favor”, disse Briegel, sorrindo pra ela, enquanto segurava sua mão.

“Tudo bem. É sua última chance!”, disse Flavia, brincando.

Alice Briegel foi discretamente até o garoto que estava com discos e foi por trás dele, chamando-o.

“Ei, garoto!”, disse Alice, numa voz ameaçadora, “Agora vocês todos DJs idiotas que ficam aí se achando, deve ter uma razão pra isso, e nós sabemos o porquê! Ficam aí se achando os superiores agindo de forma legal, mas vocês tem que se ligar que são vocês que agem como uns otários!”, nessa hora Alice pegou um disco vinil que ela conhecia muito bem e entregou a ele, “Toca essa aqui e dá mais vida pra essa festa!”.

O garoto colocou o vinil pra tocar, e rapidamente Briegel reconheceu a música.

“Minha nossa, eu adoro essa música!”, disse Briegel, “Ela é a…”

My fate is in your hands, da Josephine Baker!”, disse Flavia, com vontade de dançar novamente, “Eu também amo essa música!”.

Essa canção havia sido muito famosa na década de trinta. Briegel não havia assistido ainda, mas quando assistisse o filme “The Vagabond Lover” se lembraria que essa canção que ele dançou com a italiana naquela linda noite. E foi uma dança tão empolgante que com certeza as memórias  daquela noite com Flavia pelo resto da sua vida ficariam guardadas no seu coração.

Briegel ainda dançou algumas músicas com Flavia, mas depois fez questão de levar Flavia na sua casa. Schultz levou Alice pra casa dela, e de praxe dormiu no seu amado sofá da sala, enquanto Alice ficou deitada num divã, na frente da lareira, esperando seu pai.

Lá pelas 4h da madrugada Briegel chegou em casa, entrando de mansinho. Viu Schultz jogado no seu sofá, roncando, e quando virou pra subir pro seu quarto viu Alice, vindo do banheiro.

“Papai, chegou?”, disse Alice, com cara de sono, “E aí? Deu tudo certo?”.

“Ah, Alice! Você ficou me esperando, filha? Não precisava”, disse Briegel.

Alice foi até seu pai e o abraçou, dando um beijinho na sua bochecha.

“Não precisa falar nada”, disse Alice, dando um risinho, “Esse perfume sei que não é seu, papai”.

Briegel nessa hora ficou vermelho e deu um beijo na testa da filha. O encontro com Flavia Anzanello durou só aquela noite mesmo. Briegel nunca mais foi atrás dela, e ela menos ainda. Os dois seguiram suas vidas e nunca mais se viram. Mas a felicidade, aquele momento, aquela música e aquela noite ficaram pra sempre na memória de Briegel, guardada com ternura.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Amber #20 - A esperança de seguir em frente.

“Papai, tudo bem?”, disse Alice, se aproximando de Briegel.

Briegel na hora pulou de susto. Mas depois que viu que se tratava de Alice, simplesmente não conseguia acreditar naquilo.

“A-Alice? Por deus, você está bem!”, disse Briegel, se erguendo e colocando a mão no rosto dela, “Não está machucada?”

“Não, papai. Viu só? Nem uma sujeirinha”, disse Alice, dando uma voltinha, “Vamos embora pra casa?”.

“Minha nossa, não precisava nem ter perguntado mais uma vez! Vamos logo dar o fora daqui, minha filha!”, disse Briegel. E os dois deram as mãos e voltaram em direção da cidade, felizes, caminhando…

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“Briegel?”.

Briegel acordou num susto. Era um sonho. Ainda estava em Guernica. E ao seu lado estava Margaret Braun.

“Me desculpe, acho que acabei agarrando num sono”, se desculpou Briegel, “E você? Não vai dormir um pouco?”.

“É minha vez de ficar de guarda. Acordei uns minutos atrás e vi de longe que você tava desperto. Dei uma volta pra fumar um cigarro e quando voltei você tinha cochilado. Realmente você deve estar nas últimas energias”, disse Margaret Braun, se sentando ao lado de Briegel, “Pelo susto que você levou eu arriscaria a dizer que você estava no meio de um sonho. Acertei?”

“Sim. Sonhei com a minha filha”, disse Briegel.

“É a tal pessoa que você veio até aqui buscar, né?”, disse Margaret.

“Sim, senhorita Braun”, confirmou Briegel.

“Pode me chamar de ‘Maggie’, por favor. Escuta, parece que as tropas de Francisco Franco vão tomar a cidade. Isso é, se sobrou alguma coisa naquele monte de cadáveres e escombros. Fui até o outro lado e parece que não explodiram a fábrica de armas ali. Acho melhor ficarmos andando pelos vilarejos próximos antes de voltarmos pra Guernica buscar sua filha. Podemos achar comida e algum lugar melhor pra dormir do que esse”, disse Margaret, apontando a barraca improvisada que os dois montaram com galhos de árvores entre duas árvores para Liesl dormir.

“Sim. Acha que ela ainda pode estar viva?”, perguntou Briegel, olhando nos olhos de Margaret.

“Sua filha? Sim, eu quero acreditar. Olha, existem duas opções aqui. Uma, é claro, é a melhor. Sua filha pode estar viva ali no meio daquela bagunça e bem. A parte ruim é se ela não resistiu e se foi. Mas acho que nada do que a gente passa é de graça. E nesse momento você está vivendo algo muito pior do que se confirmasse a morte dela”, disse Margaret, que parou pra dar uma tragada em seu cigarro.

“Como assim?”, perguntou Briegel.

“Acho que não existe dor pior no mundo do que um pai ou mãe ter o filho desaparecido. Sabe, se encontrar tá tudo bem, e se confirmar que está morto, bem, está morto, já era. É uma dor que vai se conformar, pois a morte é inevitável e não se volta atrás. Mas enquanto se está desaparecido é a maior dor do mundo. Pois é uma dor com a esperança de encontrar”, disse Margaret.

“Sim. Isso é bem verdade”, disse Briegel.

“A ansiedade pode nos matar de pouquinho em pouquinho. Mas a esperança é o que faz seguir em frente. Portanto, não desista de encontrar ela, seja morta, ou viva. Provavelmente sua filha deve estar por aí, sã e salva te buscando também, e se perguntando se você também está bem. Ela é pequena?”, perguntou Margaret.

“Ela tem… Trinta”, disse Briegel, meio sem jeito.

“Trinta?! Trinta anos?!”, perguntou Margaret Braun.

“É”, disse Briegel, meio sem jeito.

“Minha nossa! Trinta! Bom, isso é melhor ainda. As chances dela estar bem são bem maiores. Mas fica tranquilo, Briegel. Se quiser gritar, grite. Se quiser chorar, chore. Se quiser socar uma árvore, pode derrubar todas. Fico mais tranquila sabendo que está colocando pra fora”, disse Margaret, se virando e olhando pra sua prima, Liesl, dormindo.

“Porque olhou pra ela?”, perguntou Briegel.

“Essa menina é muito forte. Muito inteligente também. Fico imaginando o quanto de sofrimento passa na cabeça dela, e ela ainda se mantém como alguém sorridente, pensando nos outros, sempre fazendo o bem, por mais que esteja sofrendo por dentro”, disse Margaret, “Realmente só podemos esperar bondade das pessoas fortes, como ela. Minha prima Liesl pouco se abriu comigo, e ela acha que deve carregar o sofrimento do mundo inteiro nas costas. Se ela ao menos chorasse, eu saberia que ela ficaria bem. Mas ela aguenta tudo e vai jogando no fundo do coraçãozinho dela. Se ela não se abrir e jogar isso tudo pra fora, ela vai ser como uma bomba relógio, prestes a explodir”.

Bem na hora que Margaret disse “bomba”, os dois ouviram uma explosão longe, vindo de Guernica, que estava na frente deles ao longe, com alguns focos de incêndio. Já era noite, e qualquer clarão brilhava ao longe, indicando que coisas ainda aconteciam lá, mesmo tarde da noite.

“Pessoas tratam crianças como se não soubessem o que está acontecendo, mas no fundo eles sabem exatamente o que se passa ao seu redor. Perder os pais por serem enviados a Dachau é algo horrível. Ela nunca mais os verá. Eles morreram já”, nessa hora os olhos de Margaret se encheram de lágrimas, “Uma pobre criança, sem pátria, sem um lugar pra voltar. Que pode ser caçada a qualquer momento simplesmente por ter nascido. Como alguém pode concordar com isso que Hitler quer fazer? Ela é apenas uma criança, mas passou por tanta coisa, que acho que ela é mais madura até que nós dois juntos. Liesl… Eu só gostaria que ela pudesse ser uma criança como as outras, brincando, tendo amiguinhos, estudando…”.

Margaret Braun nessa hora colocou a mão no rosto e começou a chorar. Briegel colocou a mão no ombro dela.

“Maggie… É difícil acreditar num amanhã melhor quando estamos no meio do furacão. Mas as coisas vão melhorar, cedo ou tarde. Por isso a gente deve continuar seguindo em frente. Como você mesma disse, é verdade que estou com muito medo da minha filha ter morrido, mas eu quero seguir em frente até encontrar ela, viva ou morta, e só assim vou poder voltar a colocar a cabeça no travesseiro, e dormir em paz comigo mesmo”, disse Briegel. Nessa hora Maggie, que estava de costas pra ele olhando pra Liesl se virou pra ele, com os olhos cheios de lágrimas e o abraçou, “Isso, chora, joga tudo pra fora. Mesmo nesses tempos de dificuldade temos que seguir em frente crendo num futuro melhor na nossa frente. Porque esse desejo de que tudo fique bem é o que nos moverá sempre pra frente”.

Margaret Braun em prantos se agarrava cada vez em Briegel, abraçando-o. Cada vez mais o apertava mais e mais. Talvez a força daquele abraço era a prova do quanto ela estava suportando até aquele momento.

Ela dizia que Liesl era uma criança forte por suportar aquilo tudo, mas Margaret era também uma pessoa admirável.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Amber #19 - Prometo proteger a sua felicidade.

A cidade de Guernica começou a ser bombardeada ferozmente pela Legião Condor ás 16h30 daquele 26 de abril de 1937.

Era dia em que as pessoas iam aos mercados fazer compras, tradicionalmente. Isso por si só mostrava quais eram os objetivos daquele ataque: causar a carnificina. Vários aviões cruzavam o céu jogando bombas naquela pobre cidade, matando inocentes, destruindo patrimônios, casas, prédios.

Os primeiros aviões vieram da região sul, de acordo com o que Briegel viu. Eram de fato aviões alemães, do modelo Dornier Do 17. Seus formatos de lápis eram inconfundíveis. Cinquenta quilos de bombas caíram na primeira rajada. E Briegel, a mulher, e a garota que ele havia acabado de conhecer estavam na rua, vendo os aviões cada vez mais se aproximando.

“Corram!! Vamos sair daqui agora!!”, gritou Briegel. Algumas pessoas na rua se assustaram também e começaram a correr junto deles.

Os três começaram a correr em meio aquelas pessoas, buscando algum lugar pra se proteger, mas rapidamente as explosões começaram a ocorrer, lançando detritos, poeira, pedras, em meio às ondas de impacto por todo o redor deles, enquanto eles tentavam fugir de não apenas serem alvos das bombas que os aviões lançavam, como também dos escombros das casas e edifícios que eram jogados pelos ares. O único lugar seguro era a rua. Não podiam entrar em nenhuma casa pra buscar abrigo, pois ela poderia ser sumariamente destruída. O som era ensurdecedor. Pessoas gritavam, e seus gritos agudos de mulheres e crianças se confundiam com o som grave e tenebroso das bombas destruindo a pequena Guernica. Pessoas corriam desesperadas, praticamente pisoteando umas às outras. Crianças, homens, mulheres, não havia diferença. Apenas um mais desesperado que o outro.

A cidade inteira era devastada e se tornava ruínas enquanto os três corriam para se proteger. Quilos e quilos de bombas foram despejados sem dó em Guernica, e era possível ver corpos destruídos com suas entranhas expostas, crânios rachados, sangue, fogo, animais mortos, escombros em todas as partes. Entre um bombardeio e outro Briegel e as duas mulheres corriam pra se salvar. Conseguiram correr até uma parte longe da cidade, que só tinha mato, e de lá observavam todo o estrago que estava sendo feito sem piedade sobre aquela pobre cidade.

Poucos tiveram a frieza de buscar sair do alvo que era a cidade naquele momento, e apenas correram. Alguns sobreviveram, outros morriam pisoteados, e outros tantos inocentes eram soterrados em suas casas ou ruas pelo entorno que desmoronava sem dó.

Os gritos agonizantes de vidas civis inocentes era o que mais doía. Talvez o som estaria pior, se o ouvido dos três não estivesse simplesmente tampado, depois de ouvirem tantas explosões próximas deles. Mas aquele barulho, do som das almas agonizando, aquilo sim parecia transpor aquela condição, e atingir diretamente suas almas.

“Acho que estamos seguros aqui”, disse Briegel. Depois de falar isso ele se virou e via ao longe das luzes das explosões, jogando casas, corpos, animais, tudo pelos ares. Era um espetáculo que se confundia com as luzes da noite, e os gritos dos feridos agonizando nas ruas pareciam ser mais altos que os sons das bombas sendo jogadas na cidade. Era algo que Briegel jamais esqueceria.

“Obrigada por nos ajudar a sair desse caldeirão infernal”, agradeceu a mulher loira, “Acho que agora podemos nos apresentar. Isso é, se pudermos ouvir alguma coisa depois de tanta explosão nos nossos ouvidos”.

“É verdade. Meu nome é Roland Briegel. Sou agente da Sicherheitsdienst, mas, enfim, é complicado explicar, mas eu, como membro do serviço de Inteligência, sei de todos os podres que os governantes querem esconder. Mas não apoio, e nem defendo o regime nazista. Estou aqui para salvar vidas, incluindo minha filha, que assim como vocês foi sequestrada por Sarkin”, disse Briegel, que virou seu rosto pra Guernica ao ouvir mais bombas sendo jogadas pelos aviões na cidade, “Mas vendo isso, não sei se posso ter esperanças de encontrá-la viva…”.

A mulher e a criança se olharam. Estavam sentadas encostadas em uma árvore, observando Briegel, em pé, na frente delas, entre as luzes das explosões em Guernica.

“Eu sinto muito. Espero do fundo do coração que a pessoa que você procure esteja viva e bem”, disse a mulher loira, “Meu nome é Margaret Braun. Sou alemã também. Sou engenheira bélica”.

Nessa hora Briegel virou pra ela e a encarou, como se estivesse assustado.

“Margaret Braun? Peraí… Eu lembro da ficha, de ter visto esse sobrenome. Estava escrito ‘M. Braun’! Esse ‘M’ era ‘Margaret’? Você é o engenheiro sequestrado por Sarkin?”, disse Briegel, incrédulo.

“Engenheira, na verdade. Você foi mandado pra nos resgatar?”, perguntou Margaret.

“Sim, na verdade, sim. O outro, Gehrig, está em Barcelona, e meu parceiro está lá. Provavelmente vai chegar aqui em Guernica em breve. Nossa, é realmente muita sorte te encontrar viva!”, disse Briegel.

“E o que você pretende fazer conosco, agora que nos encontrou? Nos mandar de volta pra Alemanha?”, perguntou Margaret, ficando em pé, protegendo a menina. Nessa hora a menina ao lado dela arregalou os olhos de medo. Briegel não pôde deixar de ver a reação da menina.

“Não, jamais. Eu disse que não trabalho pra ajudar Hitler. Vou dar uma desculpa que vocês foram mortas, ou sei lá, quero que vocês se refugiem em outro país. Vou conseguir fazer com que deixem a Europa sãs e salvas. Pelo menos por um tempo. Assim, salvarei a vida de vocês e não irei ajudar o Führer com seus planos ridículos”, disse Briegel.

“Eu não confio em você, espião alemão! Como raios uma pessoa iria contra o Reich e viveria pra contar estória depois?”, perguntou Margaret, dando alguns passos pra trás.

“Olha, eu sei que é difícil, mas a única coisa que eu peço é que confiem em mim”, disse Briegel, com bastante certeza, “Você tem uma arma com você, não a tirarei de ti. Pode estourar meus miolos quando desconfiar de algo. Até lá, peço que por favor, confie em mim. Eu quero realmente ajudar vocês!”.

“Posso mesmo confiar?”, disse Margaret, sacando a arma e apontando pra Briegel.

Briegel permaneceu tranquilo. Não havia motivo pra temer. Mesmo com a arma de Margaret apontada pro seu peito.

“Sim. Confie em mim. Por favor”, disse Briegel, pausadamente.

Nessa hora Margaret guardou a arma de volta. Ainda não parecia estar totalmente confiante em Briegel, mas era visível que a confiança ali naquele momento estava começando a ser conquistada. Sentia sinceridade em suas palavras. Depois de tantas pessoas caçando-as, enfim alguém em quem poderiam confiar.

“E essa menina? Sua filha?”, perguntou Briegel.


“Meu nome é Liesl. Liesl Pfeiffer”, disse a menina, “Sou prima da Maggie… Quer dizer, Margaret”.

“É. Meu pai é irmão da mãe dela. Por isso o sobrenome diferente”, explicou Margaret.

“Sim, mas, você disse que seu sobrenome é ‘Pfeiffer’. E Pfeiffer é…”, disse Briegel, pausando depois de falar.

“Sim, é judeu. Eu sou meio judia e meio alemã. Meus pais foram presos pela SS e foram enviados a Dachau”, disse Liesl.

Briegel sentiu profunda empatia pela menina. Mas ao ouvir que os pais da menina “foram enviados para Dachau” seus olhos lacrimejaram e ele se agachou. Nesse momento tinha vergonha de ser alemão. O ano já era 1937, a Guerra mal havia começado oficialmente, e muitas atrocidades já estavam ocorrendo com judeus desde a ascensão de Hitler ao poder, em 1933:

Dachau foi um dos primeiros campos de concentração criados pelos nazistas, e já passavam quatro anos desde que Hitler estava mandando-os lá para trabalharem até a morte, junto de prisioneiros de guerra soviéticos e comunistas. Judeus não tinham mais cidadania, não era permitido trabalharem, rendas confiscadas, e casamentos entre judeus e alemães eram terminantemente proibidos. E a situação apenas piorava pra eles, dia após dia.

Liesl vendo Briegel agachado na sua frente com a cabeça baixa passou a naquele momento sentir que aquilo tudo que ele estava expondo era bem verdadeiro. Aquele agente era alguém que tinha os olhos bem abertos para as atrocidades que estavam ocorrendo em seu país. Aquele gesto significava tanto um pedido de perdão, como um pedido de que iria se esforçar para as coisas mudarem. Foi isso que ela entendeu.

“O pai da Liesl era judeu, a mãe era alemã, ou ‘ariana pura’, como andam taxando. Eles conseguiram salvar a filha, que veio correndo atrás de mim. Ficamos vivendo escondidas, com medo da SS nos achar, mas aí uma pessoa nos apresentou Sarkin, e acabamos nos envolvendo nas falcatruas dele, mas era uma armadilha, e ele nos mandou pra cá. Não vou voltar pra Alemanha. E menos ainda abandonarei minha prima. Nós só temos a nós mesmas nesse mundo. Jamais vamos nos abandonar”, explicou Margaret.

Briegel ao ouvir isso se ergueu. Seus olhos estavam lacrimejando, mas ainda não havia derrubado uma lágrima.

“Vocês perderam suas dignidades, sua cidadania, seu país. Mas eu prometo, prometo pela minha vida, que a partir de agora vocês duas não perderão mais nada. Eu, Roland Briegel, prometo que protegerei a felicidade de vocês duas com minha própria vida. Peço que confiem em mim”, disse Briegel. Nessa hora seus olhos derrubaram lágrimas, como que para selar a promessa, uma vez que ele acreditava que já havia perdido sua amada filha no bombardeio de Guernica.

Margaret sorriu em consenso. Liesl permaneceu sem palavras observando Briegel, mas no coração dela ela sabia que poderia confiar também. Briegel não via nada, seus olhos estavam completamente marejados pelas lágrimas que brotavam, como um desabafo por tudo: por ter perdido Alice, por ver uma cidade sendo alvo das bombas alemãs, por conhecer uma família que havia se despedaçado em meio às atrocidades que ocorriam na Alemanha, e a pobre menina que jamais veria os pais novamente.

“Confiamos em você. Por favor, nos proteja, senhor Briegel”, disse Margaret Braun, pegando na mão de Briegel.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Amber #18 - Se você cansasse, se você morresse... Mas você não morre.

24 de abril de 1937
14h27

Briegel havia deixado a sede da Astra Unceta & Cia com os três prisioneiros, traficantes que trabalhavam pra Abner Sarkin. Os colocou num furgão e mandou o motorista dirigir até a estação de trem mais próxima. Enquanto estava com os três homens tentava falar com eles pra achar alguma pista.

“Eu preciso da ajuda de vocês. Por isso achei que seria melhor libertar vocês. Havia mais alguém com vocês? Por favor, me dicam que sim!”, perguntou Briegel.

Um deles, o mesmo que havia falado com Briegel na prisão foi o primeiro a responder.

“Obrigado, senhor. Obrigado mesmo. Aquilo era desumano, e aprendemos nosso erro, nunca mais iremos nos envolver com atividades criminosas”, disse o prisioneiro, se desculpando, “Eu lembro sim, haviam duas mulheres, uma adulta e uma criança que haviam sido enviadas conosco”.

Roland Briegel nessa hora arregalou os olhos. Era Alice, com certeza! Não sabia quem era a criança, mas não importava, ele a salvaria também e junto teria sua filha Alice Briegel de volta!

“Minha nossa, e onde elas estão?”, perguntou Briegel, cheio de esperanças, com os olhos brilhando novamente.

O homem olhou pra baixo e balançou a cabeça.

“Eu sinto muito. Mal chegamos e fomos separados. Não disseram onde levariam as duas. Me perdoe, gostaríamos muito de ajuda-lo, mas infelizmente não sabemos como. Infelizmente isso é tudo o que sabemos”, disse o homem.

Nessa hora a caminhonete militar chegou na estação de trem. Briegel, desesperançoso apenas abriu e os três homens desceram. Cabisbaixo, Briegel deu as costas a eles e foi embora. Os três ficaram observando Briegel até perdê-lo de vista.


Eles queriam fazer algo em agradecimento aquele homem. Briegel poderia ter escolhido mata-los ali mesmo, ou devolvê-los à prisão, mas ao contrário disso os libertou e saiu de lá triste, sem esperanças. Mas os três prisioneiros queriam fazer algo para ajudá-lo de certa forma.

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26 de abril de 1937
16h02

A festa acabou, a luz apagou. O povo sumiu, a noite esfriou. Dois dias já haviam se passado. Briegel praticamente passou esse tempo todo desde que chegou sem dormir, comendo muito pouco. Aquela agonia o matava pouco a pouco a cada momento. Deitado na cama da hospedagem que havia conseguido por conta de seus contatos com militares da região, Briegel olhava o teto de madeira e a luz que atravessava as cortinas. O sol não apenas já havia raiado, como também estava prestes a se pôr. E Briegel sequer tinha forças pra sair daquela cama.

Dois dias em Guernica. Dois longos dias. As forças de Franco estavam se esforçando pra dominar a cidade, mas mal sabia Briegel que o pior ainda estava reservado. Deitado na cama sentiu um incômodo no pescoço. Era um colar com um crucifixo que ele sempre carregava, símbolo da sua fé. Pegou gentilmente com sua mão e viu o crucifixo dourado.

Nesse momento Briegel lembrou que talvez num momento sem esperança como esse a única coisa que ele poderia se apegar era em sua fé. Como aquele ouro que reluzia, mesmo naquela escuridão. Mas ele precisava botar aquela agonia pra fora. Talvez com essa ajuda espiritual ele conseguiria voltar seus pensamentos ao foco e arranjar forças de algum lugar pra continuar a busca por Alice, que Briegel sequer tinha ideia de onde estava, se estava machucada, ou mesmo morta.

Arranjando forças não se sabe de onde, foi até um telégrafo ali perto e enviou uma mensagem ao seu querido padre Alan De Clercq:

“Padre, sou eu, Briegel.

Estou em Guernica. Sarkin sequestrou Alice, e estou há dois dias desesperado em busca da minha filha. Não quero acreditar que ela esteja morta até eu encontra-la. Meu corpo está sem forças, e a única coisa que me deixa em pé é a esperança de encontrar minha filha viva. Gostaria que o senhor oferecesse preces para que tudo ocorra bem. 

Muito obrigado,
Briegel”.

O sol de Guernica castigava. Briegel, sentado na calçada e cabisbaixo depois de enviar o telegrama ao seu amigo padre, sujo e triste observava o desenho da sua sombra no chão de terra. O cansaço e a fome estavam cada vez mais fortes. Mas a falta de esperança, de encarar a realidade, e pensar que Alice provavelmente estaria morta até aquele momento dilacerava seu coração aos poucos. Briegel havia perdido sua filha e não tinha a mínima ideia de onde ela estava. Ou se ao menos estava viva. Aquela dor doía em seu peito por dentro e matava quaisquer esperanças que pairavam na sua mente.

“Senhor? Puxa, enfim te encontramos!”, disse um dos prisioneiros que ele havia libertado dias antes. Briegel ergueu seu rosto pra olhar.

“O quê?! Vocês?”, disse Briegel ao vê-los na sua frente, completamente surpreso, “Não foram embora ainda?”.

“Não, senhor. Achamos que deveríamos achar uma forma de agradecer o senhor por ter nos libertado. O que fizemos foi muito errado, mas surramos alguns soldados, e provavelmente eles virão atrás de nós, então serei rápido. Encontramos a mulher que estava conosco. A mulher que o senhor está procurando”, revelou o prisioneiro.

Na hora Briegel se ergueu, como se tivesse tirado energias só de ouvir aquilo. E logo atrás dos prisioneiros era possível ver que policiais estavam se aproximando.

“Onde estão? Pelo amor de deus, falem logo!”, pediu Briegel.

“Estão no prédio ao lado da sede da ‘Izquierda Republicana’, o partido que está contra a revolução aqui”, disse o prisioneiro, enquanto se apressava em correr, “Espero que o senhor consiga encontrar quem procura lá! Adeus e obrigado novamente por nos ajudar!”.

E os três se foram, correndo, livres e gratos por terem ajudado quem os havia ajudado. Pareciam que enfim eram homens livres (mesmo que fugindo da polícia, o que seria meio estranho). Nessa hora Briegel viu como era valioso fazer o bem sem esperar nada em troca. Aqueles três haviam ganhado a liberdade por acaso e arriscaram a mesma liberdade pra ajudar Briegel em forma de gratidão. Os soldados passaram correndo por Briegel e continuaram correndo atrás dos fugitivos. Provavelmente não os pegariam tão fácil, pois aqueles prisioneiros não apenas corriam, eles pareciam voar por estarem enfim livres e com suas consciências limpas de gratidão. Briegel se virou e pediu informações sobre onde era a sede da tal “Izquierda Republicana” e foi até lá.

Levou mais ou menos uma meia hora pra chegar lá. Ao abrir a porta do prédio ao lado da sede da Izquierda Republicana viu que estava tudo escuro. Ao bater na porta de madeira nada aconteceu.


Deu mais alguns passos tentando se achar no escuro, quando subitamente ouviu um tiro, junto do clarão da arma não muito longe dali. A bala passou bem perto dele, mas não o feriu. Briegel se abaixou e buscou um local pra se esconder, e viu que uma pessoa subiu as escadas.

Briegel sacou sua arma e foi em direção da escada calmamente. Não havia ninguém. Começou a subir degrau por degrau, com a arma empunhada, tomando cuidado.

Soldados... Pelo visto deve ser aqui mesmo que Alice está, pensou Briegel, enquanto subia as escadas.

Chegando lá em cima viu uma grande sala, que parecia que fora abandonada às pressas, iluminada apenas pelas luzes que vinham das janelas. Apontando a arma pra todos os cantos Briegel tentou buscar onde estava a pessoa que havia atirado. Ouviu um pequeno estalido do seu lado, e quando virou, outro disparo. Disparo que acertou longe, no teto.

Briegel viu ao longe o local de onde tinha vindo o tiro, por conta do clarão. Viu dois vultos deitados no chão e foi se aproximando, com a arma apontada. Briegel ao se aproximar ergueu os dois braços, como se estivesse rendido. Foi se aproximando delas calmamente.

“Calma, não vou fazer nada. Alice, é você? Sou eu, seu pai!”, disse Briegel, em alemão, se aproximando.

“Saia daqui, seu nazista! Não sei do que tá falando!”, gritou a voz, também em alemão. Os olhos de Briegel se acostumaram com a escuridão e enfim era possível distinguir um pouco as feições. Não parecia Alice Briegel. Então ele puxou a cortina, e a luz que vinha de fora iluminou o rosto das pessoas.

Era uma mulher, loira, com olhos azuis, com uma arma apontada e as mãos tremendo de medo. Ela estava ajoelhada no chão, com a arma apontada pra Briegel, e com muito medo. Atrás dela havia uma criança, provavelmente no início da adolescência, devia ter menos de quinze anos e mais de dez. Tinha um rosto um bocado parecido com a da mulher, mas seus cabelos eram castanhos médios, quase escuros, mas seus eram de um verde muito vivo. A mais nova vestia um vestido simples infantil, marrom, de época. A mulher loira tinha um jaleco branco, bem sujo e surrado, e um vestido de algodão e um par de calças por baixo do jaleco. Ambas pareciam sujas e suadas, como se estivessem fugindo de algo há semanas.

“Escutem, eu não sou nazista, e não farei mal nenhum a vocês. Estou procurando alguém. Só tem vocês aqui?”, perguntou Briegel, buscando algum informação sobre o paradeiro da sua filha.

“Só tem a gente aqui! Saia logo daqui senão eu vou atirar!”, disse a loira.

Nessa hora Briegel se jogou de joelhos no chão. Seus olhos lacrimejavam, e era possível ver o brilho deles no reflexo da luz que vinha da janela. Ele estava nas últimas energias. A loira não entendeu direito o que estava acontecendo. Na verdade ninguém ali entendia nada, isso sim. O relógio, talvez a única coisa que funcionava naquela casa, apontava que já passavam das 16h30.

A mulher e a garota não estavam entendendo nada. O alemão havia caído no chão de joelhos na frente delas e parecia muito abatido, tanto quanto elas.

“Pode atirar. Eu não ligo. Vou até preferir morrer aqui de uma vez”, desabafou Briegel, novamente com as esperanças destroçadas.

As duas não entendiam nada. Então a mulher guardou a arma, e a garota apenas observava aquilo tudo, agora menos assustada. Porém, de súbito, algo as assustou. Era o som de aviões se aproximando.

“Droga!! Temos que sair daqui!!”, gritou a mulher loira. Briegel na hora ergueu o rosto, de susto.

“O quê? Esse som é de... Bombardeios?”, se ergueu Briegel, ao reconhecer o som dos Dornier Do 17.

“Rápido, não temos tempo, temos que fugir!!”, disse a loira, puxando a menina e Briegel pra fora dali o mais rápido possível.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Amber #17 - Busca em Guernica.

Guernica, Espanha

24 de abril de 1937
13h43

Briegel enfim consegue chegar em Guernica. O caminho fora complicado e difícil, e com uma ajuda da sorte conseguiu encontrar uma tropa de soldados alemães que havia sido enviada pra ajudar os revolucionários de Francisco Franco a tomar o país naquela época. Para Briegel era apenas uma carona. Já para eles eram uma honra ter uma lenda da Sicherheitsdienst ao lado deles.

Ao chegar em Guernica, Briegel exausto por conta da viagem, estava esticando os pés e tomando um ar. Haviam muitos soldados naquela região e ao longe era possível ouvir explosões. Por um momento Briegel temeu que tivesse chegado na hora errada.

“Coronel Briegel? É mesmo o senhor? É uma honra que o Führer nos tenha enviado uma lenda como o senhor para nós!”, disse um homem, falando um espanhol com muito sotaque, muito difícil de compreender.

“Ah, mucho gusto!”, disse Briegel, estendendo a mão, “E o senhor é?”.

“Rodolfo dela Rosa!”, disse Rodolfo, apertando firme a mão de Briegel, “Sou o responsável aqui por essa área. Não sabia que o senhor falava espanhol também”.

“Pois é. Nós da Inteligência temos que saber falar um pouco de tudo”, brincou Briegel, “Mas vim como reforço mesmo, estava investigando o carregamento que Sarkin havia enviado por ordem de Himmler. Minhas investigações apontavam pra cá. Sabe de algo?”.

“Claro! Aquilo foi enviado para nos ajudar!”, disse Dela Rosa, “Vamos enfim derrubar esse governo e tomar o poder de toda a Espanha logo, logo”.

“Espero que sim. É o que o Führer deseja”, disse Briegel, tentando entrar no jogo dele, “Escuta, sabe se nesse último envio veio umas pessoas também?”.

“Sim. Não entendi direito qual era a de Sarkin quando envia essas pessoas, mas todas elas estão sendo mantidas na fábrica de armamentos daqui da região que estamos usando pra esconder todas as armas enviadas pela Alemanha”, disse Dela Rosa.

Briegel por dentro ficou eufórico. Com certeza Alice estaria lá! Mas se manteve com o rosto imparcial, agindo do jeito meio bruto, característico dos militares alemães daquela época.

“Ótimo. E onde estão?”, perguntou Briegel, calmo.

Nessa hora Dela Rosa parou e ficou quieto. Briegel continuou o encarando. Aquele silêncio estava falando mais alto que mil palavras, e por um momento Briegel achou difícil esconder a tensão do momento.

“Ah, perdão“ disse Dela Rosa, quebrando o silêncio sepulcral, “Estão naquela direção, a leste daqui. Dá uns quinze minutos a pé nessa direção”, indicou Dela Rosa, “O nome da fábrica é Astra Unceta & Cia. Não tem erro”.

“Certo. Muchas gracias, senhor Dela Rosa”, terminou Briegel, que se virou e foi caminhando. E quando viu que estava fora do alcance da visão de Rodolfo dela Rosa começou a correr desesperadamente procurando a tal fábrica. Não demorou muito a achar.

Merda, tá trancada por dentro! Tenho que achar outra entrada, pensou Briegel. Ele estava tão desesperado em encontrar sua filha que quase deixou passar que havia uma outra entrada lateral, guardada por um soldado alemão.

“C-Coronel, Briegel!”, gaguejou o soldado ao ver Briegel, “Minha nossa, é uma honra! O senhor foi mandado pelo Führer para nos ajudar?”

“Sim. Estou com ordens do Führer pra levar embora algumas pessoas raptadas por Sarkin”, disse Briegel, mostrando uma pasta com papéis aleatória, sem dar tempo pro soldado averiguar, e mantendo uma cara bem fechada, “Preciso ir até onde estão sendo mantidos”.

“Sim, por favor, pode entrar, coronel! Temos três pessoas aqui. Estão no final daquele corredor, numa sala protegida por uma grande”, indicou o soldado.

Briegel entrou e foi direto até lá. Na sua mente parecia que enfim havia iria encontrar sua filha! O local estava vazio, e muitas caixas já haviam sido abertas e todo o armamento levado. Briegel  sem muitos problemas encontrou a cela das três pessoas mantidas naquele cárcere.

“Alice? Alice?”, chamou Briegel. Mas três pessoas se aproximaram. Três homens que sabiam falar alemão. Briegel ficou espantado. “Merda... Só tem vocês três aí?”.

“Sim, senhor. Por favor, nos solte. Prometemos que não iremos mais nos envolver com os negócios de Sarkin”, pediu um dos prisioneiros.

“Vocês eram capangas de Sarkin?”, perguntou Briegel.

“Sim, mas traímos ele, e Sarkin nos mandou com o carregamento como prisioneiros. Gostaríamos muito de voltar a Alemanha, mas estamos mantidos aqui há muito tempo! Por favor, nos liberte, senhor! Prometemos que nunca mais trabalharemos com Sarkin!”, pediu o prisioneiro.

Briegel estava triste. A ficha não parecia que tinha caído. Alice não estava lá. Estava ainda em choque, pois tinha tantas esperanças de encontrar Alice naquele lugar, e seu cérebro ainda não parecia ter processado que havia chegado a um beco sem saída.

Olhava pros homens e via um profundo arrependimento no rosto deles. Briegel sabia que eles eram criminosos, mas o que poderia fazer? Eles mesmo pareciam saber que haviam se metido em encrenca e estavam arrependidos.

O que minha filha faria? Alice… Sem dúvida você veria a bondade no rosto desses homens, o arrependimento sincero, e os libertaria. Afinal, não existe lugar como o nosso lar, no final das contas, e esses homens sem dúvida serão executados por ordens do Führer, ou das forças golpistas desse local. Estão simplesmente condenados, pensou Briegel.

“Ei, guarda, tenho ordem aqui pra levar esses três comigo. Abra a cela agora!”, disse Briegel a um soldado que se virou pra buscar a chave. Enquanto o soldado não aparecia, Briegel olhou pros prisioneiros e disse: “Sarkin foi preso e os negócios dele foram por água abaixo. Eu tenho certeza que não vão trabalhar mais pro Sarkin, nem se quisessem. Vou leva-los embora daqui”.

E Briegel então os libertou. Talvez aquele susto tivesse enfim ensinado algo a eles.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

O triste destino do vôo 2933

Na noite do dia 28 eu estava muito mal. Achei que era apenas o resfriadinho enchendo o saco do corpo, dando aquela canseira e tosse, mas havia algo a mais. Não consegui dormir direito naquela noite. Quando preguei os olhos, acordei depois. Fui ao banheiro, e quando vi o relógio era mais ou menos 1h00.

Voltei a dormir, e no outro dia até que acordei bem. Mas ao ligar a tevê fiquei chocado com o que estavam noticiando. O voo com todo o time do Chapecoense caiu perto de Medellín, na Colômbia.

Desastres aéreos me fazem sempre passar muito mal. Acho que talvez seja um carma. Comecei a ter muito medo de avião quando eu era criança, e vi as cenas chocantes dos corpos carbonizados nos jornais do acidente do Fokker 100 da Tam, no dia 31 de outubro de 1996. O acidente do voo da Germanwings, o 9525 também me deixou profundamente triste, ainda mais se tratando de um suicídio. Até hoje presto muitas preces ao Andreas Lubitz e todas as tristes vítimas desse acidente.

Esse acidente com a equipe do Chapecoense me deixou muito triste. Era um time pequeno, indo pra sua primeira conquista internacional, acabando no triste destino nas montanhas de Medellin. E sei que talvez muitas pessoas estejam com muita raiva do piloto Miguel Quiroga, dizendo que ele é um assassino, que ele fez isso de propósito, mas acho que talvez poucos entendam que ele foi uma infeliz vítima desse acidente também.

Uma das coisas principais da Shinnyo-en, a comunidade budista que eu frequento, é estender preces sem distinção de amigos ou inimigos. Independente de uma guerra existirem vitoriosos ou derrotados, todos os lados sofrem perdas. E elas doem para todos os lados. E esses dias ofereci preces sinceras não apenas ao Miguel Quiroga, mas também a todos os outros que estavam no avião e não sobreviveram a essa triste fatalidade.

Assisti tudo desde o começo, até o funeral coletivo feito em Chapecó. Nessa hora vimos como existe empatia pela dor alheia. A linda homenagem no estádio do Atlético Nacional na Colômbia, os atendimentos médicos às vítimas, e todo o carinho pra confortar o Brasil que nessa semana substituiu o time do coração pelo Chapecoense.

Eu também, por aqueles dias eu não fui corintiano. Fui chapecoense em homenagem a todas às vítimas dessa triste tragédia.

Uma das coisas que mais me tocaram foi que teve uma repercussão internacional também. Acho que o minuto de silêncio que a torcida do Liverpool fez em homenagem foi sem dúvida de emocionar. Pra quem não viu, veja:


segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Amber - WORD UP! (3)

3 de agosto de 1933

A confiança e amizade entre Briegel e Schultz só aumentava a cada dia. Eram duas mentes completamente opostas, mas que se complementavam quando o assunto era o trabalho. Briegel sempre tinha uma intuição e inteligência emocional muito fortes, sentia o rastro das coisas e o caminho que deviam seguir. Já Schultz era quem sempre fazia os planejamentos, visando sempre chegar nas respostas que Briegel tinha, intuitivamente.

Rapidamente aquilo chamava mais e mais atenção de todos ali da Sicherheitsdienst.

“Schultz, lembra daquele incêndio no Reichstag?”, disse Heydrich, líder da SD e chefe de Briegel e Schultz.

Schultz, que estava em uma roda de cadeira com mais dois colegas de trabalho e Briegel tomando café e falando besteira se virou ao ouvir seu nome.

“Sim, tô sabendo. Vocês acham que alguém vai cair nesse papinho de que foi aquele holandês coitado?”, disse Schultz.

O Reichstag era um edifício histórico que servia como sede do governo desde a época do Império Alemão. No dia 27 de fevereiro daquele ano ele havia sido atacado por um incêndio, e rapidamente os nazistas manipularam a mídia afirmando que aquilo foi um ataque terrorista comandado por comunistas. Entre os (supostos) culpados estava um holandês chamado Marinus van der Lubbe, um jovem do conselho holandês comunista.

Foi com a desculpa de que o país estava sob ameaça da União Soviética que Hitler usou isso como artifício para cortar diversas liberdades civis do povo alemão, como o habeas corpus, liberdade de expressão e liberdade de imprensa. Nem mesmo cartas ou telefone estavam livres de serem espionados pelo governo.

Porém Schultz e Briegel sabiam de toda a verdade, uma vez que trabalham no serviço de Inteligência do Terceiro Reich.

“Foi aquele holandês sim. Essa é a versão oficial e vocês não têm o direito de deturpar isso!”, disse Heydrich, furioso.

Schultz bufou, como se estivesse cansado daquele papinho. Briegel olhou pro lado em direção ao seu amigo e deu um risinho. Alemães ficariam sem suas liberdades civis daquele ano até o fim da guerra, com a população completamente alienada sob as histórias que Hitler queria que acreditassem.

“Schultz, preciso que você vá investigar a sede desse jornal. Um informante me disse que eles querem publicar uma matéria dizendo que não existem provas de que van der Lubbe estava envolvido. Eles estão terminantemente proibidos de publicar qualquer versão diferente da dessa do governo!”, ordenou Heydrich. Schultz pegou seu casaco que estava em sua cadeira, mostrando que estava meio sem saco pra aquilo e virou-se para seu amigo Briegel:

“Ei, coronel, vamos nessa comigo?”, disse Schultz. Briegel estava se erguendo pra ir junto do amigo, e nessa hora Heydrich colocou a mão e impediu Briegel de se levantar.

“Não. Briegel, quero você na minha sala agora. Vamos”, disse Heydrich. Briegel o acompanhou até sua sala. Quando chegou, Heydrich fechou a porta e mudou completamente o tom da sua fala, de calmo para alguém profundamente transtornado.

“Desde que aceitei que esse retardado do Schultz viesse pra cá os problemas só tem aumentado!”, reclamou Reinhard Heydrich, “Eu não gosto dele, Briegel. Ele só está causando problemas atrás de problemas!”

Briegel percebeu logo que Heydrich, embora fosse sempre uma pessoa extremamente fria e calculista, chamado de “o homem do coração de ferro” pelo próprio Führer, estava falando várias asneiras.

“É o jeito dele. E não acredito que ele esteja causando problemas. Schultz e eu estamos resolvendo um caso atrás do outro, somos extremamente eficientes, modéstia a parte”, disse Briegel.

“O problema não é esse, Briegel! Schultz é rebelde, e debocha de todas as decisões que nosso líder está tomando pra assegurar nossa liberdade. Ele é uma péssima companhia, com certeza é um traidor!”, disse Heydrich, tentando manchar a imagem de Schultz, “Ele se faz de seu amigo, mas uma pessoa que seu próprio país não pode confiar não é uma pessoa que se pode chamar de ‘amigo’. Jamais!”.

Nessa hora Briegel deu uma respirada profunda. Sabia onde Heydrich queria chegar.

“Escuta, nós da Inteligência sabemos exatamente o que tá rolando, senhor Heydrich. E, francamente, não posso compactuar com o que esse governo está fazendo. Vocês tiraram todas as liberdades das pessoas, acusaram pessoas inocentes de culpadas e estão mergulhando o povo desse país em algo sombrio, em uma história inventada por vocês. Acha que mesmo eu sabendo de tudo vou ficar apoiando isso?”, disse Briegel, se aproximando de Schultz, “Tanto eu quanto o Schultz estamos fartos disso tudo. A única diferença é que ele é mais expansivo quanto a isso e não tem papas na língua. Mas lá no fundo nós dois sabemos exatamente onde seu querido líder quer chegar e o quanto está fazendo para corromper esse país com seus ideais de merda!”.

Heydrich ao ouvir isso se sentou. Schultz e Briegel eram uma dupla formidável, mas ao mesmo tempo era a maior ameaça ao governo. O que ele queria mesmo era poder causar uma intriga e separá-los, e já que não era possível apelar aos valores da Nacional Socialista com Briegel pra deixa-lo longe de Schultz, o jeito era apelar pra uma outra carta na sua manga.

“Pois bem. E o que você me diria se visse isso que tenho aqui...”, disse Heydrich, tirando alguns papéis da sua gaveta.

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“Mas, enfim, me entenderam né?”, disse Schultz, enchendo mais um copo de cerveja, “Guardem essas evidências aí pra mais tarde. Com certeza o bigodinho não vai durar muito tempo, vão vir os ingleses ou sei lá quem e derrubar ele rapidinho. Aí vocês podem divulgar a verdade e levar ele pra forca. É apenas temporário, vamos dar um jeito de agilizar a derrubada dele, viu!”.

Schultz havia chegado na redação do jornal com um galão de cerveja que ele mesmo havia comprado com uns fundos desviados da Sicherheitsdienst. O barril já estava vazio, e essa foi a maneira que ele encontrou de convencer aqueles jornalistas a guardarem o que iria publicar para o futuro, quando precisassem de provas contra Hitler.

“Falou galera! Valeu aí pelo papo!”, disse Schultz enquanto saía do prédio. Seu horário de expediente já havia terminado, e resolveu então dar um pulo na casa de Briegel, como de costume.

Já passava das sete da noite quando Schultz entrou na casa de Briegel, longe do centro de Berlim, num lugar bem calmo. Alice estava sentada no divã ouvindo rádio, descascando maçãs.

“Fala aí, marrom bombom!”, disse Schultz, chegando por trás de Alice e pegando a faca e a maçã da mão de Alice, “Cadê o papai?”.

“Oi tio! Bom, estava descascando maçãs pra dar pra ele comer. Coloquei ali naquele pote com sal pra não escurecerem. Papai está em cima, no escritório dele. Pode entrar lá sem bater. Vou descascar mais maçãs pra você também!”, disse Alice, tomando a faca e deixando Schultz com a maçã descascada.

Enquanto Schultz subia as escadas se virou pra Alice, chamando-a:

“Alice, você é muito certinha! Você tem que ter mais rebolado, senão vai ser difícil achar um namorado! Só me imitar, presta atenção: Leve suas mãos no ar, como se você não estivesse nem aí, passeando pela galera enquanto eles parassem só pra te encarar!”, Schultz continuou a subir as escadas fazendo uma dancinha estranha pra Alice, até perde-la de vista, “Faz sua dança! Faz sua dança, faz a sua dança assim, mamãe, isso! Vamos lá!”, Alice dava risada vendo o rebolado sem jeito que seu tio adotivo fazia.

Schultz entrou no escritório de Briegel. Estava uma atmosfera um pouco pesada, Briegel do outro lado da mesa, com apenas uma lâmpada ligada iluminando seu trabalho, enquanto ele escrevia.

“Tal pai, tal filha! Olha só...”, disse Schultz, mas nessa hora Briegel o encarou com uma cara séria, “Ih, coronel, o que tá pegando?”.

“Schultz, olha isso. Eu sei que isso tudo é mentira, mas o que mais me incomoda é outra coisa...”, disse Briegel, mostrando uma carta escrita a mão.

Schultz pegou a carta e começou a ler. Parecia um pouco a sua letra, a pessoa que fez realmente estudou. Mas havia alguns detalhes, como falta de pingos nas letras “i”, uma característica da escrita de mão de Schultz, que achava que colocar os pingos tomava muito tempo e escolhia muitas vezes deixar sem.

“Mas eu não escr...”, disse Schultz, interrompido.

“Sim, eu sei. Você não coloca pingos nos ‘i’. E alguns outros detalhes que logo de cara que eu passei o olho e vi que não era tanto sua letra. Mas a pessoa que escreveu isso sem dúvida fez um esforço pra imitar ao máximo possível”, disse Briegel.

A carta era endereçada a uma pessoa chamada alcunhada apenas por “Fuhlendorf”, e o conteúdo dizia que dali a dois dias Schultz se juntaria a ele e tentariam sequestrar Alice Briegel e pedir uma grande quantia pro resgate. Schultz ao ler aquilo sentou-se na cadeira. A carta tinha até um carimbo de ter sido confiscada pelo governo, e a assinatura de Heydrich confirmando sua “veracidade”.

“Que ridículo isso. Eu jamais faria mal algum pra Alice, coronel! Isso aqui é completamente falso!”, se defendeu Schultz.

“Eu sei, meu amigo. Foi com certeza os homens lá do Heydrich que fizeram isso. Antes dele me mostrar isso ele veio com uma conversa dizendo que você era uma má influência e que deveríamos trabalhar separados, enfim. Ele me entregou isso e eu reagi dizendo que iria averiguar isso, mas como você disse, apesar de ser bem parecido com sua caligrafia e ter uma ameaça que vai direto sobre minha filha, dava pra ver que isso era armado”, disse Briegel. Mas Schultz ainda não havia se acalmado.

“Aquele Heydrich, filho duma puta...”, disse Schultz, “Porque acha que ele forjou isso tudo? Por causa da nossa amizade?”.

“Creio que sim”, disse Briegel, “Desde que nós nos juntamos estamos cada vez mais subindo. Em cinco meses já estamos com mais casos resolvidos do que a soma do resto da SD inteira. Temos que bolar um jeito de tirar o Heydrich da liderança. Não vai dar pra trabalhar assim com ele querendo acabar com nossa amizade”.

“Pode deixar, coronel”, disse Schultz, amassando a carta, “Aquele cara não sabe o que vai acontecer com ele por ter tentado abalar nossa amizade, cara!”.

sábado, 3 de dezembro de 2016

Amber #16 - O anjo da morte.

“Gehrig! A-há! Seu filho da puta esperto!”, gritou Schultz, tomado pela felicidade. Todos subiram rapidamente pro aposento superior. O cativeiro parecia um chiqueiro, fedia a fezes e urina, estava muito sujo. E tinham alguns corpos em decomposição. Era um local horrendo, completamente insalubre.

“Argh, que cheiro! Vamos descer logo! Venha cá!”, gritou Schultz, puxando Gehrig. Mas Gehrig ao chegar no andar onde havia acontecido a batalha ouviu um barulho de golpes vindo do fosso do elevador. O ser platinado estava socando o elevador tentando escapar.

“Merda, eu tô todo fudido mesmo, não vou conseguir sobreviver. Me escuta então, eu não tenho muito tempo”, disse Gehrig. Sundermann estava no chão junto de Goldberg, que lutava pela vida, “Existe um hospital da cruz vermelha aqui perto. Podem levar seu amigo lá. Você também vai poder curar seu braço”, Gehrig disse, se referindo ao braço ferido de Schultz.

“Vamos te levar também, vamos logo, se aquele cara sair do fosso estamos fudidos!”, gritava Schultz, querendo fugir dali enquanto era tempo.

“Eu estou morrendo, Schultz. Estou com pneumonia em estágio final, eu duvido que alguém consiga me salvar, mesmo se eu desse entrada agora”, confessou Gehrig tossindo muito sangue, colocando a mão no seu peitoral, “Mas em gratidão por ter vindo, preciso dizer algo”.

Schultz o sentou no chão. Realmente seu estado não era dos melhores. Ficar num lugar tão insalubre, com outros corpos apodrecendo, de provavelmente inimigos de Sarkin, acabaria com a saúde de qualquer um. No mínimo contrairia uma infecção cadavérica naquele local. Um local que provavelmente era usado pra desova dos corpos, num prédio bem protegido, com a única entrada protegida por uma estante, que não despertaria maiores suspeitas. Era o cativeiro perfeito. Um cativeiro que serviria também como abatedouro humano.

“Por favor, diga, senhor Gehrig”, disse Schultz, ajoelhando na sua frente.

“Eu ouvi o que vocês estavam falando lá de cima. Então você é um dos poucos que consegue ver com seus próprios olhos o que ele doente mental do Hitler está fazendo com a Alemanha e o mundo, certo?”, perguntou Gehrig.

“Sim. Eu, talvez por ser um agente da SD, tinha informações sobre tudo o que estava sendo escondido, as manipulações da mídia, e os crimes cometidos por aquele bandido. Pessoas estão sofrendo, e muitos ainda vão sofrer! Eu não poderia ficar de braços cruzados vendo tudo aquilo se desenrolando na minha frente”, confessou Schultz.

Nessa hora Sundermann virou seu rosto e olhou com raiva pra Schultz. Mas não disse nada. Schultz não viu o gesto de raiva em sua direção por ter criticado o Führer na frente do seu cãozinho mais obediente.

“Muito bom, muito bom”, disse Gehrig, em meio a fortes tossidas, “Você não é desses que são manipulados pelo governo. Não duvido que na Alemanha existam pessoas que são contra nazismo ou contra Hitler. Mas alguém como você não apenas tem como saber, mas tem como agir. Dá pra acreditar num futuro vendo jovens iguais a você”.

O ser platinado continuava a socar cada vez mais forte o elevador que o havia fechado naquele fosso. Os sons, cada vez mais altos, pareciam mostrar que ele conseguia distorcer o ferro sem maior esforço.

“Ali naquela caixa tem explosivos. Arme e coloque um aqui do meu lado”, disse Gehrig. Schultz, imaginando que aquilo era algum plano pra jogar no fosso, fez sem perguntar, rapidamente, “Agora coloque a caixa do meu lado e me dê o detonador na minha mão”.

“O quê?”, disse Schultz ao entender qual era o plano, “O senhor vai se suicidar assim!”.

“Cale a boca, seu inútil! É o único jeito! Vocês vão ter que fugir enquanto eu vou ficar aqui de isca!”, gritou Gehrig.

Nessa hora Schultz lembrou da missão. A missão era levar os dois engenheiros vivos de volta à Alemanha.

“Não posso, preciso levar o senhor de volta à Alemanha. Vamos, me dê esse detonador na sua mão!”, ordenou Schultz.

“Idiota! Porque acha que eles me querem de volta? Pra fabricar armas? Acha que é realmente pra isso que eles que me querem? Pensa um pouco, ô ‘super-inteligente agente da SD’!”, disse Gehrig.

Schultz por um momento parou e pensou. Estava difícil se concentrar com os sons das brutais pancadas do ser prateado vindo do elevador. Realmente manter ele naquele cativeiro era uma sentença de morte. Era impossível alguém sobreviver naquela situação. Porém precisavam de alguma informação que ele tinha. Talvez por isso não o mataram, e deixaram que a tortura psicológica de viver ali se encarregasse disso.

“Sim. Faz sentido. Se o senhor fosse útil apenas pelos seus conhecimentos pra compor armamentos, seria melhor ter deixado o senhor vivo e bem. Te torturam porque você tinha segredos!”, disse Schultz.

Os golpes começavam a ficar cada vez mais altos. Até que um barulho grande, como se algo muito forte fora arrombado ecoou na sala. O ser platinado havia rompido a parte debaixo do elevador, que era a que tinha mais resistência. Agora era apenas questão de tempo até arrombar o teto.

“Vá pra Guernica!! É lá que está o outro engenheiro!”, gritou Gehrig, cuspindo cada vez mais sangue. Nessa hora Schultz arregalou os olhos. Era o local onde Briegel havia ido pra salvar Alice. Com certeza Briegel está em apuros!

“Merda!! Não temos muito tempo!”, disse Schultz, ouvindo o barulho ensurdecedor dos murros contra o ferro que o ser platinado dava a poucos centímetros dali.

“Só vocês podem descobrir a verdade! É tudo vontade DELES! Alguém que está manipulando até mesmo o governo!!”, se esforçava Gehrig a falar, tentando puxar todo o ar em seus pulmões, em meio a tossidas fortes e desesperadoras, “Com certeza a pessoa que está por detrás de tudo está lá também! Busquem por Oliver Raines! Ouviu bem? OLIVER RAINES!!”, nesse momento Gehrig agarrou Schultz pelo braço e o aproximou do seu rosto, olhando fixamente pros seus olhos, “Agora fujam daqui, procurem a cruz vermelha, e salvem seu amigo!!”.

Schultz então sem hesitar pegou Goldberg, mesmo todo machucado pelo ombro e puxou Sundermann com força pelo braço. Antes de sair olhou pra Gehrig. Sua expressão pacífica lhe deu mais certeza de que ele a partir daquele momento deveria seguir nessa investigação até o fim.

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“Ei, Platinum. Procurando alguém?”, disse Gehrig, no chão, com o detonador na mão.

Nessa hora o ser prateado virou seu rosto, mas ao ver os explosivos ficou parado.

“Sabe quem eu sou, né? Não, agora não sou mais o Gehrig frouxo que você conhece”, disse Gehrig, com a mão posta sobre o detonador. Nesse momento o ser prateado começou a correr desesperadamente pra pra tentar tirar o detonador das mãos de Gehrig, “Não. Agora eu sou o anjo da morte. O anjo da morte que veio leva-lo”.

Schultz ouviu ao longe a explosão ao chegar na entrada do hospital da Cruz Vermelha segurando Goldberg. Ele sabia que era o presente de despedida de Gehrig.

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